sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Desassombro, coragem e frontalidade evangélicos! Obrigado, Dr. Correia Duarte!

ANALFABETISMO RELIGIOSO
Mais uma vez abriram as nossas escolas: um novo ano de esforço para puxar para cima este país que nós somos, no conhecimento, na técnica, e sobretudo no no civismo, que bem é preciso. Segundo as estatísticas, no início do século passado, em cada cem pessoas que residiam nesta região, oitenta não sabiam ler nem escrever. Eram analfabetas.
Cem anos depois, com o esforço dos governos e das câmaras, já são poucos os que não sabem ao menos ler e assinar. E esses poucos — quase só aqueles que cresceram no passado e hoje são mais idosos.
Pese embora o desinteresse da maior parte dos alunos (que hoje não têm grandes objectivos), mau grado o abandono escolar por parte de muitos jovens, a meio dos cursos (por não verem perspectivas que justifiquem o empenho e o esforço que se lhes exige), sem falarmos dos problemas de “iletracia” (muita gente doutorada lê mal e escreve pior), a verdade é que os valores das estatísticas “viraram” ao contrário. A percentagem de analfabetos entre nós, é cada vez menos significativa.
Hoje, o analfabetismo é outro.
Excluída uma pequena percentagem de famílias, onde se reza e onde se fala de Deus, ficam todas as outras onde Deus é simplesmente um desconhecido e um ignorado: algo sem interesse ou apenas com interesse para as horas de aflição e de aperto.
Há anos atrás, as catequeses nas igrejas e nas paróquias, eram “rudimentares”. Apenas se ensinavam umas fórmulas e umas orações. Não era preciso muito mais porque, nas casas e nas famílias, respirava-se a Fé e bebia-se o Amor. Os mais “letrados” liam a Sagrada Bíblia em voz alta e todos os que estavam em casa aprendiam-na e meditavam-na como Palavra de Deus.
Ao contrário, quantos são hoje os pais que falam de Deus aos seus filhos? Quantos são os pais que se preocupam hoje com a educação da Fé das suas crianças e dos seus jovens? Quantos são os pais que ensinam os seus filhos a rezar? Quantos são os pais que acompanham os seus filhos às igrejas para com eles escutarem a Palavra de Deus, ao menos ao Domingo? Há quem faça isso, certamente... mas, que percentagem?
Se estivermos atentos, verificamos que a grande maioria dos nossos cristãos, religiosamente, não passam de analfabetos. Não sabem nada de Deus, nem da Fé, nem da Religião. Gostava que um jornalista viesse por aí, um dia destes, de casa em casa, e perguntasse a todas as pessoas “cristãs” das nossas terras os “Mandamentos de Deus”, os “Preceitos da Santa Mãe Igreja” e “As Obras de Misericórdia”. Podia também perguntar, se achasse bem, quem foi o “pai” de Jesus Cristo, quem é o Espírito Santo, e o que é ser Cristão e quais são os seus deveres fundamentais.
O que está a passar-se entre nós, nos meios rurais, é uma vergonha. Uma boa parte dos pais só mandam os filhos à catequese para poderem “fazer a Comunhão” com festa, com luxo e com grandezas... No Domingo seguinte, tudo acabou! Já não sabem mais o caminho para a igreja... nem eles nem os filhos. Muitas crianças que vão à catequese, não vão à Santa Missa, porque os pais, nem os mandam nem vão com elas. Ao mandá-los à catequese, o que pretendem é apenas e tão só que “façam as Comunhões”. Nas férias da catequese, a maior parte das crianças não põe os pés na igreja. Fazem o que os pais fazem.
E nós, os párocos, que devíamos exigir a quem “faz as Comunhões” que antes tivesse dado provas suficientes de vir depois a viver como bom cristão, não exigimos. E nós, os párocos, que não devíamos baptizar as crianças dos pais que não nos dão garantias seguras de educar os seus filhos na Fé e na Vida Cristã (e não as dão de modo nenhum os ditos católicos “não praticantes”), baptizamo-las. E nós, os párocos, que não devíamos aceitar como padrinhos de Baptismo aqueles que não frequentam os sacramentos e não vivem como cristãos, aceitamo-los. Ou seja, embarcamos nesta onda de hipocrisia e fingimento que é a vida cristã de muitos dos nossos católicos.
Quando deixaremos nós de suportar ou alimentar este “cristianismo de massas” ou este “catolicismo de maiorias” sociológicas, mas desconhecedor do Evangelho e descomprometido com o mínimo essencial da Vida Cristã?
A verdade é que não temos força para tanto…. sozinhos! Se algum sacerdote se atrevesse a fazê-lo, era de certeza queimado vivo na praça pública!
No meio disto tudo, que andamos nós a fazer? A fingir... de crentes e de cristãos. Nada mais. No baptismo dos filhos, pais e padrinhos comprometeram-se a educar na Fé e na Vida Cristã a criança. E depois?
Grande parte dos pais e dos padrinhos, ou não sabem o que responderam lá, ou não são sérios com Deus, com a Igreja e consigo próprios. A sua Fé, a sua Religião e a sua Vida Cristã, resume-se a umas tantas festas com vaidades e banquetes e umas idas a Fátima, em “excursão."
Alguns já não baptizam os filhos, e, se calhar, estão a ser mais coerentes do que muitos que os baptizam. Se a Vida Cristã (com Missa, Oração e Sacramentos) que se inicia no Baptismo, não serve para eles que não lhe ligam nenhuma... como vão impô-la aos seus filhos? Para viverem como eles (baptizados na Igreja e afastados d’Ela), realmente não vale a pena!
Por este andar, pese embora o esforço ingente que a Igreja tem vindo a fazer na catequese, com o desleixo e desinteresse de tantos pais, a transigência da Igreja com estas celebrações de sacramentos ocasionais e sem compromisso, e a influência nefasta de uma sociedade materialista e ateia, daqui a pouco, as pessoas serão tão ignorantes nas coisas de Deus e da Fé, que, como diz a Escritura, já não saberão mais “distinguir a mão direita da mão esquerda”. Mesmo alguns que tiveram pais sérios, cuidadosos e exemplares! Quanto mais os outros!
Uma tristeza dolorosa! Uma regressão arriscada! Um enorme empobrecimento moral e cívico para a uma sociedade que se diz evoluída, mas se degrada cada dia mais.
Dirão que sou pessimista. Acharão que só realço o negativo. Se assim for, peço desculpa. Convenço-me porém que é esta a realidade: tanto nas nossas aldeias como nas nossas cidades. Não querendo certamente que se apague a “torcida que ainda fumega”, acho contudo que se deve fazer alguma coisa para mudar esta situação, com seriedade.., com urgência... e com coragem!
Correia Duarte, in Voz de Lamego

Asas da Montanha agradece ao bom amigo, Dr. Correia Duarte, a coragem, frontalidade e o desassombro com que apresenta os problemas. Quem está no terreno, sabe perfeitamente que a situação é exactamente assim.
Mas como diz o bom amigo, "sozinhos! Se algum sacerdote se atrevesse a fazê-lo, era de certeza queimado vivo na praça pública!"
Precisamos que a hierarquia da Igreja se assuma e assuma claramente o problema. Não pode continuar a "meter a cabeça na areia" como se nada se passasse. Há que reaver a coragem evangélica e apostar na verdade. Não pode continuar a atirar párocos "às feras" da "hipocrisia e fingimento".
Coragem, senhores Bispos!

2 comentários:

  1. Sozinhos,da facto, ninguém consegue fazer nada!É difícil, sim, e ingrato, porque os sacerdotes não conseguem assim cumprir verdadeiramente bem a sua função!Mas deixe-me relatar aqui uma coisa!Sou catequista há 13 anos e o ano passado, assim com está a acontecer este ano,todos os Sábados antes da catequese o discurso do Sr.Padre era o mesmo:"É necessário vir à Eucaristia." TODOS OS SÁBADOS sem excepção!Lá mais para o meio do ano acrescentou:" É necessário vir à Eucaristia e quem não o fizer, não faz a Comunhão." E o discurso manteve-se até o fim.No entanto, os miúdos pouco ou nada lhe ligavam!Temos missa vespertina numa capela da aldeia e alguns diziam que iam lá e outros diziam que iam a outra comunidade. Mas o pároco manteve-se firme e realmente ao Domingo poucas crianças encontrava na Eucaristia!E os que fariam a Profissão de Fé não a fizeram mesmo.Não será preciso dizer que foi uma pequena revolução aqui neste meio pequeno. Entao fez o seguinte:a partir daquele momento os meninos para fazerem a Comunhão Solene teriam de ir à missa e fariam a Comunhão em Outubro!Uma menina foi fazer, nao sei como, a comunhao a outra paróquia,dos restantes, apenas três a fizeram, numa cerimónia simples, mas muito bonita. Eu sei que por uns, pagaram os outros, mas naquele momento se o pároco fosse para a forca,eu iria com ele...Afinal, que andamos nós, párocos, catequistas, a fazer este tempo todo? E sabe uma coisa? Se for ver quem desses meninos vai à missa actualmente,pode muito bem esconder as mãos e se precisar de alguma,uma basta e sobram-lhe dedos!É difícil, sim......E onde ficam os pais no meio disto tudo? A aquecer as costas aos meninos que ao Domingo é o único dia que podem dormir mais um bocadinho e a Eucaristia é às 11:30....11:30!!!Imagine se fosse mais cedo!!!!

    Beijinho sereno

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  2. Ana Patrícia, eu sei, eu sei!
    A campanha que tenho feito pela Eucaristia! Na catequese, nas reuniões de pais, na missa através do power point e das homilias, no jornal, no boletim, nas mensagens às famílias distribuídas de casa em casa, nos grandes ajuntamentos onde aparecem os que normalmente não vão...
    Resultado??? O mesmo que aí! É frustrante! Valha-nos a esperança.
    É por isso que acho que uma intervenção dos Bispos era fundamental.
    Tenho mais de 350 crianças na catequese... nas férias os dedos sobram para as contar...
    Sei que os catequistas também sofrem e partilhamos todos da mesma inquietação.
    Apesar do enorme sofrimento que isto me causa, acredito na esperança. Deus vai ao leme, não desistamos nós.
    Muita paz
    Asas da Montanha

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