quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

"Sempre se esmorrou, sempre se há-de esmorrar"

Conta-se que em determinada paróquia havia o hábito de as pessoas, ao fim de um funeral ou de uma procissão, ao chegarem à sacristia, apagarem as velas esmurrando-as contra a parede.
Quando chegou àquela terra um novo pároco e vendo a sacristia imunda, informou-se das causas daquele estado miserável das paredes.
Procurou o sacerdote com toda a paciência e persistência convencer os paroquianos da nocividade de tal prática.
Quando tempos depois se realizou um funeral, o pároco assistiu consternado à repetição do mesmo acto. Com a paciência disponível, procurou ali mesmo chamar à atenção dos prevaricadores. Eis que ouve a resposta que o deixou prostrado:
- Ó senhor abade, aqui sempre se esmurrou, sempre se há-de esmurrar!

Penso que aquilo que está em causa nesta situação é a fé supersticiosa em que vivemos e que nos faz confundir tudo, até sujidade com limpeza. Ou como alguém diz, muita religiosidade e pouco cristianismo.
Muitas vezes, nos podemos perguntar: Onde fica Cristo no meio desta confusão de tradições e costumes, superstições, procissões, velas, promessas?
 
Para alguns, o seu "deus" são as tradições e as leis
Para os fariseus do tempo de Jesus, a lei, os costumes e tradições, estavam acima de tudo. De tal maneira que o acusam frequentemente de violar a lei do sábado (era o dia santo dos judeus e nada se podia fazer, nem milagres de cura).
Jesus disse que Ele era superior ao sábado, era o Senhor do sábado. Acusou os legalistas de terem um coração duro, de pedra.
Quando Jesus curou um doente em dia de sábado na presença de fariseus, estes, em vez de se alegraram por aquela pessoa ter saúde, estar livre da doença, saíram logo cá para fora a procurar aliados para acabar com Jesus.
Motivo?
Violara a lei do sábado!

E hoje?
Grupos fundamentalistas católicos, em nome da lei e das tradições, atacam sem qualquer pudor a linha de abertura do Papa Francisco, opõem-se ou torcem o nariz ao Concílio Vaticano II, às reformas.
Não são só os islâmicos que têm fundamentalistas, extremistas. Também existem no mundo católico. Só com uma diferença: os fundamentalistas católicos não usam armas nem bombas.
O FUNDAMENTALISMO CRISTÃO É O farisaísmo do SEC. XXI.
 
Mais...
Nas nossas comunidades há muita gente  mais preocupada com leis, costumes e tradições do que com Jesus Cristo.
"Porque sempre foi assim..."
"Porque é tradição..."
"Porque é costume..."
"Porque os padres mudam tudo e acabam com a religião..."
"Porque é lei..."
E sabem uma coisa?
Nesta questão de tradições, costumes e leis, os chamados "não-praticantes" são normalmente mais fundamentalistas do que aqueles que praticam! Sobretudo quando estão em causa as suas conveniências....
CRISTO ACIMA DE TUDO, TUDO, TUDO!
Só a ELE adoramos! Nunca adoremos as leis, tradições, costumes!

Dia internacional do Riso




segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Uma manhã cheia...

Foto de Carlos Lopes.
 Desloquei-me a Santa Helena com o sr. Jaime Vitorino (Comissão da Igreja) e o sr. Presidente da Câmara, para resolver problemas referentes a espaços e equipamentos. É a festa que se prepara de longe, é aquele local a merecer sempre a nossa atenção e preocupação. Mas Santa Helena merece tudo!
Ainda com o sr. Jaime, passei pelo Centro Paroquial para resolver alguns problemazinhos.
Depois, ambos fomos ao Castanheiro do Ouro para a escolhe e compra de material ...para o Centro (sempre o Centro....)
Por coincidência, falei com alguém ligado à comissão pró-capela (uma das minhas paixões a construção da capela...) sobre a situação do processo.
De volta a casa, uma série de telefonemas para resolver situações pendentes.
É assim a vida. Um Sol quentinho embalava a esperança e as esperanças. Então na nossa Serra, que delícia de tempo! Que elevação de espírito! Que amplitude de paisagem! Que silêncio falante! Que leveza!
Mas Santa Helena é um privilégio que a natureza nos oferece.

domingo, 15 de janeiro de 2017

O MAIOR PROBLEMA DOS CATÓLICOS PORTUGUESES CHAMA-SE I G N O R Â N C I A R E L I G I O S A!


Precisamos urgentemente de passar de uma fé de mera convenção para uma de entra­nhada convicção.
Ninguém ama aquilo que não conhece!
E é na medida em que conhece que é capaz de amar e de testemunhar, tornando-se missioná­rio, dando “razões da sua esperança” e sendo fermento e luz num tempo em que Jesus Cristo vai perdendo visibilidade.
Por outro lado, a IGNORÂNCIA é sempre muito atrevida!
Basta ver e ouvir o que se diz nos cafés, na praça pública, nas esperas nos Centros de Saúde, etc, da fé, da doutrina, de Cristo, da Igreja. Coisas de arrepiar tal a ignorância revelada!
Não há maior cego do que aquele que não quer ver.
Então vamos combater com unhas e dentes a ignorância religiosa.
Mas para isto é preciso que cada um, repito, cada um queira!
Depende de si.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Canonização de Madre Teresa de Calcutá marcou a Igreja e o Mundo


Do meu ponto de vista, a canonização de Santa Teresa de Calcutá, a 4 de setembro de 2016, poderá ter sido o facto mais marcante da Igreja Católica do ano de 2016. Obviamente não o será do ponto de vista da teologia pura ou mesmo da pastoral. No entanto, vem consagrar a vertente da opção preferencial pelos pobres em que a Igreja melhor se revê no seu ser e na sua missão; e, por outro lado, salienta o impacto que a ação de alguém que se dedique ao cuidado dos mais pobres, doentes, oprimidos e descartados – aliada à profunda vivência cristã – tem na dinâmica da luta não violenta pela justiça, pedindo a todos o contributo segundo as suas posses para acorrer a cada um segundo as suas necessidades. É claro que a sua elevação à honra universal dos altares não desprega nem da vida religiosa na dimensão contemplativa nem na dimensão ativa (Madre Teresa corporiza as duas dimensões) nem do dinamismo do Ano Jubilar da Misericórdia. Aliás, o Francisco, na linha dos seus predecessores mais próximos, considerou-a um ícone da misericórdia; e a sua canonização ocorreu no último trimestre do Ano Jubilar por ocasião do Jubileu dos operadores e dos voluntários da misericórdia.

A seguir a este jubileu, foram-se celebrando, no âmbito do Ano Jubilar da Misericórdia, outros jubileus emblemáticos, sem conotação com a hierarquia: o jubileu dos catequistas, de 23 a 25 de setembro; o jubileu mariano, de 7 a 9 de outubro; o jubileu dos encarcerados, a 5 e 6 de novembro; e o jubileu das pessoas socialmente excluídas, de 11 a 13 de novembro.

Sobre Santa Teresa de Calcutá e do desafio que para nós constitui a sua vida, declarou Francisco na homilia de 4 de setembro:

“Estamos chamados a pôr em prática o que pedimos na oração e professamos na fé. Não existe alternativa para a caridade: quem se põe ao serviço dos irmãos, embora não o saibamos, são aqueles que amam a Deus (cf 1 Jo 3,16-18; Tg 2,14-18). A vida cristã, no entanto, não é uma simples ajuda oferecida nos momentos de necessidade. Se assim fosse, certamente seria um belo sentimento de solidariedade humana, que provoca um benefício imediato, mas seria estéril, porque careceria de raízes. O compromisso que o Senhor pede, pelo contrário, é o de uma vocação para a caridade com que cada discípulo de Cristo põe ao seu serviço a própria vida, para crescer no amor todos os dias.”.

E, no momento da recitação do Angelus, disse aos voluntários e agentes da misericórdia:

“É com carinho que saúdo todos vós, estimados voluntários e agentes de misericórdia. Confio-vos à proteção de Madre Teresa: ela vos ensine a contemplar e adorar todos os dias Jesus Crucificado, para o reconhecer e servir nos irmãos em necessidade. Peçamos esta graça também para aqueles que estão unidos a nós através dos mass media, de todas as partes do mundo.”

Mas, se com a canonização de Madre Teresa o Papa conseguiu alertar para a síntese que os voluntários da misericórdia têm de fazer entre a contemplação e adoração de Cristo crucificado e o reconhecimento do mesmo nos irmãos em necessidade a quem é preciso servir, a 16 de novembro, na canonização de sete beatos, enalteceu todos aqueles que “permaneceram firmes na fé, com o coração generoso e fiel”. Vale a pena recordar daquela homilia de 16 de outubro o que Francisco disse destes espelhos da misericórdia divina posta em ação:

“Os Santos são homens e mulheres que se entranham profundamente no mistério da oração. Homens e mulheres que lutam mediante a oração, deixando rezar e lutar neles o Espírito Santo; lutam até ao fim, com todas as suas forças; e vencem, mas não sozinhos: o Senhor vence neles e com eles. Também estas sete testemunhas, que hoje foram canonizadas, travaram o bom combate da fé e do amor através da oração. Por isso permaneceram firmes na fé, com o coração generoso e fiel. Que Deus nos conceda também a nós, pelo exemplo e intercessão delas, ser homens e mulheres de oração; gritar a Deus dia e noite, sem nos cansarmos; deixar que o Espírito Santo reze em nós, e orar apoiando-nos mutuamente para permanecermos com os braços erguidos, até que vença a Misericórdia Divina.

***

 

Madre Teresa ficou conhecida como a “Santa das Sarjetas”, mas é acusada por críticos de promover a pobreza. Era o que faltava não se levantarem os picuinhas da benemerência. Na verdade, enquanto naquela manhã de domingo Francisco proclamava a santidade de vida da benemérita freira católica e todo mundo comemorava o faustoso evento, alguns distorciam a realidade segundo as suas categorias mentais, sociais, ideológicas e económicas.

Diante de milhares de pessoas na praça de São Pedro, o Papa engrandecia Teresa, que se ajoelhava “diante dos que foram deixados para morrer nas margens das estradas, enxergando neles a dignidade dada por Deus”. Reconheceu que a Madre “se fez ouvir pelas potências do mundo, para que elas reconheçam a sua culpa pelos crimes da pobreza que criaram”. Porém, os críticos questionam a comprovação dos ‘milagres’ reconhecidos pela Igreja e consideram a sua canonização como símbolo dum “triunfo da fé religiosa sobre a razão e a ciência”. Esquecem que os ditos milagres – que apenas confirmam a veridicidade da santidade de vida e devem ser atribuídos a Deus, que tudo pode – não são o móbil mais importante das canonizações, pois ignoram o instituto da canonização equipolente. E, sobretudo, ignoram a cumplicidade normal entre fé e razão, entre fé e ciência – tantas vezes afirmada neste mundo dos séculos XX e XXI.

Teresa foi galardoada com o Prémio Nobel da Paz em 1979. E não parece que a Academia se tenha vergado alguma vez à falta de ciência ou à pseudociência. Afinal, o que é a ciência? Será que os críticos ainda estão apegados ao conceito redutor de ciência instaurado pelo positivismo?

Conhecida pela construção de hospitais, casas de repouso, cozinhas, escolas, colónias de leprosos e orfanatos, era chamada a “Santa das Sarjetas” pelo seu trabalho nas regiões mais pobres de Calcutá. E a sua ação estendeu-se praticamente a todo o mundo, sendo que a Congregação das Missionárias da Caridade, fundada por Madre Teresa, reúne atualmente mais de 3 500 religiosas no mundo inteiro e tem um grande número de missionários da caridade.

Todavia, apesar da legião de fiéis e admiradores, existe um sério número de detratores.

O falecido autor britânico Christopher Hitchens, um dos principais, descreveu Teresa como “uma fundamentalista religiosa, uma agente política, uma pregadora primitiva e uma cúmplice dos poderes seculares mundanos”. No seu livro “A Posição Missionária: Madre Teresa em teoria e prática, lançado em 1995, e no documentário “O Anjo do Inferno”, critica o que denomina de “cultura de sofrimento” e afirma que ela criou um imaginário de “buraco do inferno” da cidade que a acolheu, além de se ter tornado “amiga de ditadores”.

Também o físico londrino Aroup Chatterjee publicou, em 2003, uma crítica a Teresa depois de ter feito pelo menos 100 entrevistas com pessoas envolvidas com a congregação criada por ela, apontando o dedo à alegada “espantosa falta de higiene” nos centros de saúde administrados pelas Missionárias de Caridade – onde se reutilizavam agulhas, por exemplo – e descrevendo os locais em que o grupo cuidava de doentes como “confusos e mal organizados”. E considera os milagres “baratos e infantis demais até para questionar”.

E o cubano Hemley Gonzalez tornou-se crítico depois de sair de Miami para trabalhar como voluntário numa das casas de Teresa em Calcutá por 2 meses, em 2008. Diz-se chocado com o modo “terrivelmente negligente como esta missão de caridade opera e as contradições entre a realidade e a forma como ela é percebida pelo público”. Hoje, através da sua organização de caridade humanista, sem ligação à Igreja Católica, critica os alegados pensamentos retrógrados:

“Ser contra o controlo da natalidade e o planeamento familiar, a modernização de equipamentos e uma miríade de iniciativas que solucionam problemas causados pela pobreza são coisas que fazem Madre Teresa não ser 'amiga dos pobres', como dizem, mas uma pessoa que promove a pobreza”.

Também o indiano Sanal Edamaruku questionou os milagres que levaram Teresa à canonização. De facto, para ser considerado santo ou santa pelo Vaticano, ordinariamente, a pessoa precisa de ter alguns “milagres” atribuídos a ela, após a sua morte, por conta de preces que foram feitas em seu nome. Quando situações como essa acontecem, elas são “verificadas” por meio de provas exigidas pela Igreja antes de serem aceites como milagres. Normalmente, os casos são de curas ou recuperações de doenças que acontecem sem aparente explicação médica.

Assim, 5 anos após a morte de Madre Teresa, o Papa João Paulo II aceitou o que seria o seu primeiro milagre – a cura duma mulher de uma tribo de Bangladesh, Monica Besra, que tinha um tumor abdominal, cura que teria sucedido devido a intervenção sobrenatural. Isto abriu caminho para a beatificação da Madre em 2003. Em 2015, o Papa Francisco reconheceu um segundo milagre, que envolveu a cura dum brasileiro com tumores no cérebro em 2008.

Ora, Edamaruku questionou o primeiro milagre, questionando como pode uma mulher ser curada por foto de freira colocada sobre o seu estômago quando há provas de que recebeu tratamento médico contra a doença. Porém, alegando que hoje “a maioria das pessoas não quer mais negar os feitos de Madre Teresa porque ela tem uma imagem de alguém que sempre trabalhou para os pobres”, declara que não tem nada contra ela e que não é “antipobre” (como temem ser chamados os opositores da Santa), mas sustenta que “dizer que alguém faz milagres não é científico”.

A iniciativa mais significativa proveio de alguns académicos e trabalhadores sociais indianos, que pediram ao Ministro das Relações Exteriores, Sushma Swaraj, que reconsiderasse a decisão de ir ao Vaticano para prestigiar a cerimónia de canonização de Madre Teresa, pois aduziam que se tornava espantoso que “o ministro dum país cuja Constituição pede aos seus cidadãos para terem um pensamento científico aprove uma canonização baseada em milagres”,

No entanto, alguns contestam tal argumento no pressuposto de que “provas científicas e fé são coisas diferentes”.

***

Quanto a milagre, basta dizer que a Igreja apenas aceita como tal o que os médicos atestam não decorrer da ciência (apesar da aplicação da terapêutica possível) e que só a fé permite aceitar o milagre, o que a razão podia acolher, ao menos, quando não tem outra explicação.

No respeitante à alegada falta de condições, os críticos mostram nunca terem trabalhado em hospitais de campanha nem esterilizado material cirúrgico, optando pelo descarte, e que a deficiência de condições se colmata pela correção e não pelo encerramento de unidades de cuidados de saúde e/ou de educação.

Acresce apontar a hipocrisia iníqua dos que pensam reduzir a pobreza com a aplicação das teses neomalthusianas. Controlar a natalidade pela pílula (com efeitos cancerígenos, antinidificadores ou mesmo abortivos) traz mais consequências para a saúde que vantagens; e fazê-lo pela via do preservativo pode levar à ineficácia. Mas ambos os recursos engrossam a indústria e o comércio. E os grandes interesses não criam só a pobreza, cavam a miséria para nutrir os grandes.

***

Assim, é de incrementar a dinâmica de Madre Tereza até que os poderes se abram à Justiça e à equidade, pois todos somos filhos de Deus e irmãos universais! Que sejam estes os propósitos para 1 de janeiro, Dia Mundial da Paz e da fraternidade universal, com a Santa Mãe de Deus!

2016.12.31 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Escolha ser um ser humano consciente, livre e inteligente


Que seja um grande empreendedor. Quando empreender, não tenha medo de falhar. Quando falhar, não tenha receio de chorar. Quando chorar, repense a sua vida, mas não recue. Dê sempre uma nova chance a si mesmo.

Encontre um oásis no seu deserto. Os perdedores vêem os raios. Os vencedores vêem a chuva e a oportunidade de cultivar. Os perdedores paralisam-se diante das perdas e dos fracassos. Os vencedores começam tudo de novo.

Saiba que o maior carrasco do ser humano é ele mesmo. Não seja escravo dos seus pensamentos negativos. Liberte-se da pior prisão do mundo: o cárcere da emoção. O destino raramente é inevitável, mas sim uma escolha. Escolha ser um ser humano consciente, livre e inteligente.

Sua vida é mais importante do que todo o ouro do mundo. Mais bela que as estrelas: obra-prima do Autor da vida. Apesar dos seus defeitos, não é um número na multidão. Ninguém é igual a si no palco da vida. É um ser humano insubstituível.

Jamais desista das pessoas que ama. Jamais desista de ser feliz. Lute sempre pelos seus sonhos. Seja profundamente apaixonado pela vida. Pois a vida é um espetáculo imperdível.

Augusto Cury

Portugal afetado por frente fria a partir de quinta-feira

Como pode ver na coluna ao lado da pág, in  TEMPO EM TAROUCA", as temperaturas não são para brincadeiras...
Acautele-se!


5* Feira
Nuvens com abertas
-1°

Nuvens com abertas

  • 6* Feira

    Céu geralmente limpo
    -3°

    Céu geralmente limpo

  • Sábado

    Céu geralmente limpo
    -2°

    Céu geralmente limpo

  • Domingo

    Céu limpo com poucas nuvens
    -2°

    Céu limpo

  • quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

    "Demorou tanto como uma Missa de domingo, mas nem dei conta do tempo passar..."

    9 de janeiro, Festa do Batismo do Senhor.
    Missa em Cravaz. Capela bela, mas pequena, que a generosidade dos proprietários nunca negou ao culto, pelo contrário.
    Na homilia, após a explicação do celebrante, um momento de diálogo com os participantes. Seguiu-se a recitação do Credo e  a oração dos fiéis participada.
    Após a Eucaristia, um tempo para falar sobre o Batismo. Belo, entusiasmante. As pessoas expuseram as suas dúvidas com uma naturalidade cativante. Um autêntico diálogo em família. E não é isso que somos? A família de Deus?
    No fim, alguém dizia: "demorou tanto como uma Missa de domingo, mas nem dei conta do tempo passar..."
    Gosto muito destes diálogos. E nas missas da semana, sempre que oportuno, utilizo-os. São sempre momentos belos em que me sinto mais enriquecido para participação dos meus irmãos na fé.
    Sinto que as pessoas também gostam. Sentem-se povo de Deus, Igreja de Cristo, construtores da comunhão eclesial.
    Tempos novos, respostas novas. Quanto menos passivas as pessoas se sentirem, mais se sentem Igreja.

    segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

    O sonho de ser padre e paróquia de outra maneira

    Por vezes sonho com uma nova forma de ser paróquia e com um novo modo de ser padre. Penso que é legítimo sonhar para sair de mim e do comodismo da paróquia. Não. Não é um pesadelo. Não penso estas coisas exasperado com a situação. Ou como se a mudança fosse a única alternativa possível. Tenho apenas o sonho de um dia voltarmos à frescura das pequenas comunidades cristãs do tempo da Igreja primitiva. Menos organizadas, menos sacramentalizadas, menos hierarquizadas. Pequenas comunidades à descoberta de como ser comunidade. Sem certezas, dogmas e doutrinas. Como pequenos discípulos à descoberta de Jesus. Só Ele era o centro, a certeza, a mensagem. Só Ele mobilizava. Só Ele impactava para se viver como Igreja. 
    Sonho um dia ser um simples cristão que é padre. Viver a fé com o compromisso de somente a viver para Viver. Não sei, na minha simplicidade, como arquitetar o esboço deste sonho. Mas sei sonhar. 
    Talvez um dia, quando o céu se fixar na terra, mesmo que tenha de ser pintado pela mão de Deus, este sonho não seja só meu. E não seja só um sonho. 
    Fonte: aqui


    Observação: 
    Saúdo o colega e autor do blog "Confessionário dum padre" por mais este post. Belíssimo.
    Também eu sonho com uma Igreja assim. Com um padre assim.
    Vamos prepararmo-nos para permitir que o PINTOR  trace tão belo quadro. E o sonha seja realidade.

    domingo, 8 de janeiro de 2017

    O médico português Daniel Serrão, membro honorário da Academia Pontifícia para a Vida (Santa Sé), professor catedrático e investigador, faleceu hoje aos 88 anos de idade


    Daniel Serrão, membro honorário da Academia Pontifícia para a Vida (Santa Sé), onde chegou a convite do Papa João Paulo II, em 1994, destacou-se pelo seu papel no desenvolvimento da Anatomia Patológica no país, a atenção ao sistema nacional de saúde e a reflexão, com reconhecimento internacional, na área da ética médica e da bioética.
    O médico destacou-se pelas posições em defesa da vida, no debate público sobre temas como o aborto, a procriação medicamente assistida ou a eutanásia; em 2014, foi uma das 84 personalidades da sociedade portuguesa a subscrever um manifesto que exigia um referendo à lei da coadoção por pessoas do mesmo sexo.
     
    Veja aqui

    sábado, 7 de janeiro de 2017

    Morreu Mário Soares, um grande estadista não consensual


    C
    hegou ao fim dos seus dias o político Mário Soares. Grande homem, grande estadista, mas também portador de contradições, fonte de divergências e até defeitos. Porém, tudo isto emoldura a figura pública em torno da qual muitos hoje se vêm pronunciando.

    O dia 7 de janeiro de 2017, fica a partir das 15 horas e 28 minutos como um dia insólito na história dos óbitos das grandes figuras públicas. Os comentários sucedem-se e todos se referem às virtudes democráticas do finado, mas todos ou quase todos sublinham as divergências e as contradições, as oposições e alguns dos seus erros (voluntários ou não). Um grande acontecimento democrático, que em grande parte a ele se deve: o da não unanimidade ditada pelo pudor perante quem morre (alegadamente, estas figuras públicas são todas excelentes post mortem) ou pela força político-policial e militar que impõe pensamento único e expressão comportamento uniformes.

    Se Portugal não tem de chorar obrigatoriamente por Mário Soares, como os norte-coreanos pelo “querido líder” ou como os cubanos pelo “comandante”, nem tem de dizer “morreu o homem”, como se dizia em 1970, quando se finou Salazar, deve-o aos capitães de abril de 1974, em termos militares, e a Mário Soares, em termos políticos.

    Temos de convir que muitos dos testemunhos vertidos no dia de hoje para a comunicação social raiam o politicamente correto ou mesmo o hipocritamente real, quando outros exprimem a solidariedade da família político-partidária a que Soares deu fundação e incremento. Todavia, alguns, a par das divergências ou das cumplicidades, salientam a amizade, enquanto outros, por causa das divergências, anotam quebra de amizade, embora quase sempre reatada.

    Trata-se do homem que valeu pelo que foi e é, não por aquilo que alguns quiseram que fosse.

    É óbvio que Soares herdou de família a luta pelo republicanismo e resistiu ativamente à onda que impôs do Estado Novo, criando e capitaneando uma frente de resistência democrática e socialista, organizando a Ação Socialista e, em 1973, cofundando o Partido Socialista no estrangeiro. Sofreu a prisão por motivos políticos e o exílio, mas apressou-se a voltar para integrar a revolução, em cujos primeiros passos de governação participou na condição de Ministro dos Negócios Estrangeiros dos três primeiros governos provisórios e de Ministro sem Pasta do quarto. Mas campeou em ações de rua e corporizou a chefia política contra aquilo que era considerado o caminho radicalizado da revolução. 

    Pelo que apresenta de juízo equilibrado e justo sobre a figura e o papel do ex-Presidente, fixo-me nalguns aspetos da mensagem de condolências do Presidente da Assembleia da República.

    Ferro Rodrigues, depois de exprimir o pesar pelo falecimento de Mário Soares, afirma costumar dizer-se dos grandes políticos que a sua vida se confunde com a do tempo histórico que viveram” e assegura que, “no caso de Mário Soares, não será exagerado dizer que é o último quartel do século XX português que se confunde com ele”.

    Depois, sublinhou a sua luta “pela liberdade antes e depois do 25 de abril” e sustenta que, “se a nossa geração já fez política em democracia, se as gerações dos meus filhos e netos já cresceram num País livre, democrático e europeu, a ele muito o devemos”.

    E, na vertente institucional, salienta que, enquanto “líder político e Deputado à Assembleia Constituinte, Mário Soares foi um dos fundadores da democracia portuguesa, iniciada pelo Movimento das Forças Armadas a 25 de abril de 1974, assim reconhecido em Portugal e no estrangeiro”. Na sua condição de deputado ativo na Assembleia da República, “prestigiou o parlamento e o parlamentarismo” e, “como Primeiro-Ministro, esteve por detrás de grandes conquistas, como a criação do Serviço Nacional de Saúde, da Concertação Social e da adesão à então Comunidade Económica Europeia”.

    O próprio Dr. António Arnaut, que foi Ministro dos Assuntos Sociais no II Governo constitucional, presidido por Soares, e que é considerado o pai do Serviço Nacional de Saúde, hoje mesmo se referiu à ação de Soares nesta matéria. E, em relação ao parlamentarismo, é de sublinhar que o PS entrou em acordo com o PSD para, em 1982, na grande revisão da Constituição, se reforçar a componente parlamentarista do nosso sistema semipresidencialista.

    E, Ferro Rodrigues, depois de referir que Mário Soares, “como Presidente da República, afirmou Portugal e prestigiou o Estado, abrindo a presidência à sociedade e à cultura”, declara que “o Portugal democrático, europeu e cosmopolita é o País de Mário Soares” e que “Mário Soares foi um Grande Português”. Quem não se lembra as presidências abertas e do pregão do direito à indignação, quando a governança se impõe como fardo em vez de abrir caminho? 

    É óbvio que o ex-Presidente não tinha um feitio muito tranquilo e cordato. Contudo, era dotado dum jeito fabuloso para fazer amigos, mesmo quando as divergências afloravam, que apreciava quando eram sustentadas e empenhadas, como não tinha escrúpulos em ultrapassar a relação de amizade quando julgava estar em perigo a verdade em que acreditava e os valores por que se batia. É natural que não tenha tido razão em muitas opções ou que a tenha antecipado contra tudo e contra todos. Todos erram, todos acertam, todos se deixam levar pelos seus caprichos e todos – alguns mais que outros – se pautam por valores.

    É célebre o episódio do comício da Fonte Luminosa, em 1975, quando Soares, depois do que se passou com o jornal República e o que se estava a passar com a Rádio Renascença – mercê do seu apoderamento por forças radicais – iniciou pública e destemidamente a luta contra o gonçalvismo, dando o braço ao “grupo dos nove”, na instituição militar, e às manifestações de católicos. E hoje alguém revelou – não o sabia – do apoio não público de Mário Soares aos manifestantes que foram encurralados, num dos dias do PREC, nas instalações do Patriarcado de Lisboa, ao tempo.

    Sublinharam hoje alguns que o ex-Presidente redimensionou a vocação europeia do país e campeou a adesão de Portugal à CEE, mas que não aceitou nem a captura acrítica da soberania com os tratados de Nice e de Maastricht – da UE – nem o neoliberalismo de que a troika foi o rosto no Portugal da crise. E, sendo o homem do ecumenismo mundial, não se vergou à maneira austeritária como o mundo reagiu à crise, criando pobres atrás de pobres.

    ***

    Também o cardeal-patriarca de Lisboa considerou que Portugal deve “muito” a Mário Soares, antigo presidente da República Portuguesa, sobretudo nos “anos de implementação da democracia”. Em declarações à agência Ecclesia, D. Manuel Clemente destacou o “contributo notável e irrecusável” do responsável político, considerando que este é um tempo “para agradecer e enaltecer” o seu papel para o “estabelecimento da democracia em Portugal”.

    Com efeito, segundo o prelado lisbonense, as instituições democráticas em Portugal, como “felizmente” hoje existem, devem muito a Mário Soares, “sobretudo nos anos de implementação da democracia nos anos 70” do século XX. E precisou que a sua ação pela democracia acontecera “já antes, no seu percurso pessoal, mas para nós todos a partir dos anos 70 e daí em diante”.

    Em 2007, Mário Soares foi indicado para presidir à Comissão da Liberdade Religiosa, criada pela Lei n.º 16/2001, de 22 de junho (cuja última redação lhe foi dada pela Lei n.º 66-B/2012, de 31 de dezembro), cargo no qual seria reconduzido em 2011.

    Como Presidente da República, Soares recebeu o Papa João Paulo II na viagem que o santo polaco fez a Portugal, em 1991, e a quem solicitou intervenção pela causa de Timor-Leste; e, já antes, a 27 de Abril de 1990, realizara uma visita oficial ao Vaticano. Além disso, sobretudo enquanto foi Primeiro-Ministro, avistou-se várias vezes, com o cardeal Agostino Casaroli, o Secretário de Estado do Vaticano, de quem era amigo e a quem fez uma entrevista.

    ***

    O Primeiro-Ministro António Costa encontra-se na Índia em visita de Estado. Como era natural, reagiu à notícia da morte do ex-Presidente, afirmando que foi sempre considerado por nós como o rosto da liberdade. Mais comunicou que o Governo decretaria o luto nacional de três dias, a contar do próximo dia 9 de janeiro, e que o funeral teria honras de Estado.

    Porém, o Primeiro-Ministro e Secretário-Geral do PS não cancelará a visita de Estado à Índia que hoje se iniciou e vai até sexta-feira, no que tem o apoio do Ministro dos Negócios Estrangeiros Augusto Santos Silva, que também se pronunciou comovido pelo finado.

    A questão, que foi levantada a muitos protagonistas políticos, foi contornada com suposições sobre um eventual gosto do estadista falecido e sobre comportamento análogo por ele corporizado em determinada ocasião.

    Assim, Santos Silva disse que, se Mário Soares pudesse saber que o Primeiro-Ministro não tinha cancelado a visita, “ficaria contente porque sempre pôs o interesse do Estado e do povo português acima de quaisquer outros”. Além disso, o próprio Dr. Mário Soares fez opção semelhante em circunstâncias absolutamente dramáticas, em 1985, quando estava de partida para a visita de Estado à Hungria e à Holanda, ao saber que o filho, João Soares, tivera um desastre de avião quando partia da Jamba (quartel-general de Savimbi em Angola), estando num hospital da África do Sul às portas da morte. Manteve a viagem e Maria Barroso, a mãe, partiu para a África do Sul.

    A este respeito, Joaquim Vieira, na sua biografia sobre o antigo Primeiro-Ministro e Presidente da República (Mário Soares: Uma Vida, Esfera dos Livros, 2013), relata que, na Hungria, o Chefe de Estado “desdobrava-se entre as funções de Estado e o drama familiar”, acompanhado o estado de saúde do filho por contactos telefónicos com Maria Barroso. Só depois do regresso da visita à Holanda partiu para a África do Sul a visitar o filho, que, entretanto, tinha tido uma melhoria do seu estado clínico.

    Não me parece aplicável à visita de Costa um hipotético gosto do extinto estadista. Por outro lado, a relação de Soares com o filho era uma relação familiar. Assim, o Primeiro-Ministro teve ou teria de avaliar a pertinência do cancelamento ou da continuação da visita pela índole e interesse nacional da própria visita e não por outros quaisquer critérios. De resto, Costa está fora, mas não estamos órfãos de governação.

    Quanto a Soares, há que dizer que morreu um homem político controverso, mas incontornável.

    Paz ao seu espírito!

    2017.01.07 – Louro de Carvalho

    Doutrina Social da Igreja – 125 anos pela Dignidade Huma


    Perfizeram-se, em 2016, os 125 anos da publicação da encíclica Rerum Novarum (RN), do Papa Leão XIII. Apesar dos diversos escritos de Pontífices anteriores, a RN é claramente um marco na DSI (Doutrina Social da Igreja), pelo tratamento ex professo da questão social e pela 1.ª tentativa da sistematização da DSI. A enorme importância da DSI nestes 125 anos decorre do facto de ter vindo a ajudar as comunidades cristãs a fazer a interpretação da realidade à luz do Evangelho e a induzir a ação com vista à sua mudança qualitativa, fortemente marcada, no devir temporal, pela metodologia da Ação Católica sob a trinomia do ver, julgar e agir.

    Na verdade, é mais que certo que transformar a sociedade com a força do Evangelho sempre foi um desafio para os cristãos. No entanto, há que buscar permanentemente os critérios mais sãos e eficazes em que se devem apoiar para aplicar e fazer ter ressonância a Boa Nova de Jesus Cristo nas questões sociais. A Gaudium et Spes, constituição pastoral da Igreja no mundo contemporâneo (GS), estabelece no seu n.º 4:

    “Para cumprir a sua missão é dever da Igreja em todos os tempos, perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, de forma a poder responder de modo adequado a cada geração, às interrogações permanentes do homem” (GS,4).

    E a carta apostólica Octogesima Adveniens refere no seu n.º 4 que, perante tantas questões novas, a DSI vem ajudar a “orientar a conduta cristã dando critérios” (OA,4). Por outro lado, denuncia as injustiças e orienta as nossas ações para o ideal para que devemos tender.

    Mantém plena atualidade a mensagem da defesa da dignidade humana, bem patente na RN e que deve ser a preocupação permanente dos cristãos, pois, não sendo permanentemente cultivada, tende a desaparecer. Com efeito, ainda vivemos em constantes atropelos à dignidade de cada homem, em que os mais fortes espezinham quem tem menos meios de defesa.  

    Já Leão XIII escrevia, na RN, que, “se um trabalhador, constrangido pela necessidade ou forçado pelo receio dum mal maior, aceita condições duras que por outro lado lhe não seria permitido recusar, porque lhe são impostas pelo patrão ou por quem faz oferta do trabalho, então é isto sofrer uma violência contra a qual a justiça protesta” (RN,27). E, em 2013, o Papa Francisco escreveu na exortação apostólica Evangelii Gaudium, Alegria do Evangelho (EG) que “esta economia mata”, sendo “possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa” (EG,53).

    Ora, quantos trabalhadores não aceitam hoje condições salariais injustas e condições de trabalho asfixiantes e esmagadoras apenas por medo, por haver sempre alguém mais desesperado que se dispõe a aceitar ainda menos! Quantos jovens se dispõem a trabalhar quase de graça só para “ganhar currículo”! E quantas hipóteses de emprego se abrem em teoria, mas as portas a que se bate estão permanentemente fechadas! Há, pois, ainda muito para fazer.

    E, porque a DSI é muito pouco conhecida pelos cristãos, importa divulgá-la, lê-la e relê-la e, sobretudo aceitar o desafio de a colocar em prática – tarefa de cada um e da coletividade.

    ***


    O conceito

    A expressão “doutrina social da Igreja” designa todo o complexo de orientações da Igreja Católica para a abordagem dos temas sociais. Abrange os pronunciamentos do Magistério sobre as implicações da presença do homem na sociedade e no concerto internacional, com base na reflexão feita à luz da fé e da tradição eclesial. Assim, a função DSI consiste no anúncio duma visão global do homem e da humanidade e na denúncia do pecado de injustiça e de violência que atravessa a sociedade de muitos modos. Não se trata duma ideologia nem se confunde com qualquer doutrina política engendrada pelo homem. Mas é, nas consequências, doutrina política e como tal encontrará naturalmente pontos de concordância com as diversas ideologias e doutrinas políticas quando estas buscam a verdade e almejam o bem comum, mas denunciá-las-á sempre que se afastem destes ideais. Sobre a DSI, diz João Paulo II:

    “Situa-se no cruzamento da vida e da consciência cristã com as situações do mundo e exprime-se nos esforços que indivíduos, famílias, agentes culturais e sociais, políticos e homens de Estado realizam para lhe dar forma e aplicação na história” (encíclica Centesimus annus,59).

    Para Paulo VI, ela busca o desenvolvimento humano integral, que é “o desenvolvimento do homem todo e de todos os homens” (vd encíclica Populorum Progressio, 42; cf Bento XVI, encíclica Caritas in veritate, 8). Ora, anunciando o Evangelho à sociedade no seu ordenamento político, económico, jurídico e cultural, a Igreja atualiza no curso da história a mensagem de Cristo e procura colaborar na construção do bem comum através da iluminação das relações sociais com a luz do Evangelho.

    A expressão “doutrina social” remonta a Pio XI (encíclica Quadragesimo anno, de 1931), designando o “corpus” doutrinal referente à sociedade desenvolvido na Igreja a partir da RN (de 1891), de Leão XIII. Depois, em 2004, o Pontifício Conselho Justiça e Paz organizou e publicou o Compêndio de Doutrina Social da Igreja (CDSI), que sistematiza o conteúdo da DSI produzido até àquela ocasião. Este constitui, a partir daí, o documento de referência obrigatório para quem deseja aprofundar este campo. Como primeiro grande documento da DSI, a RN aborda a questão operária no fim do século XIX, em que se destaca a denúncia da penosa situação dos trabalhadores das fábricas, atingidos pela miséria, no contexto da profunda transformação devida à revolução industrial. Depois da RN, apareceram diversas encíclicas e mensagens atinentes aos problemas sociais. Com a doutrina social, não quer a Igreja impor-se à sociedade, mas fornecer-lhe critérios de discernimento para orientação e formação das consciências. Nesta ótica, a DSI cumpre, como se disse, uma função de anúncio duma visão global do homem e da humanidade e de denúncia do pecado de injustiça e de violência que de vários modos atravessa a sociedade (CDSI, 81). Não entra em aspetos técnicos nem configura terceira via para substituição de sistemas políticos ou económicos. Sendo religioso o seu propósito, enquadra-se no campo da teologia moral com a finalidade de interpretar as realidades da existência do homem e com o exame da sua conformidade com os ensinamentos do Evangelho. Visa orientar o comportamento cristão, dirigindo-se a todos, mas especialmente ao cristão que assume responsabilidades sociais, para que atue com justiça e caridade. Por isso, a DSI implica “responsabilidades referentes à construção, à organização e ao funcionamento da sociedade: obrigações políticas, económicas, administrativas, vale dizer, de natureza secular, que pertencem aos fiéis leigos, não aos sacerdotes e aos religiosos” (CDSI, 83). São seus campos: os direitos humanos, o bem comum, a vida social, o desenvolvimento, a justiça, a família, o trabalho, a economia, a política, a comunidade internacional, o meio ambiente, a paz.

    ***

    Fundamento e princípios básicos

    Sendo o homem ser aberto à relação com os outros na sociedade e sendo cada um chamado, para assegurar o seu bem pessoal e familiar, a realizar-se plenamente pela promoção do desenvolvimento e do bem da própria sociedade, a pessoa humana torna-se o centro do ensinamento social. Qualquer conteúdo da DSI se fundamenta na dignidade da pessoa humana, a que estão agregados como princípios básicos do ensinamento social, o bem comum, a subsidiariedade e a solidariedade.

    No atinente à dignidade da pessoa humana, importa referir que a Igreja não pensa em primeiro lugar no Estado, no partido ou no grupo étnico, mas na pessoa como ser único e irrepetível, criado à imagem de Deus, na convicção de que a sociedade só será justa se respeitar a dignidade de cada pessoa. Assim, a ordem social e o progresso ordenam-se segundo o bem das pessoas, pois a organização das coisas deve subordinar-se à ordem das pessoas e não ao contrário (cf GS,26). O respeito pela dignidade humana implica necessariamente considerar o próximo como outro eu, sem excetuar ninguém. A vida do outro deve ser tida em conta, bem como os meios necessários para a manter dignamente. Assim, o conteúdo da DSI é universal, pois considera a dignidade de cada um como inalienável, única e necessária para o bem comum.

    Quanto ao bem comum – considerado como o “conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição” (GS,26), deve dizer-se que não é a mera soma dos bens particulares de cada um, mas um bem indivisível, porque somente juntos podemos alcançá-lo, aumentá-lo e conservá-lo (cf CDSI, 164). Deste modo, para se pôr genuinamente ao serviço do homem, a sociedade deve colocar como meta o bem comum, como bem de todos os homens e do homem todo, que abrange os serviços essenciais ao homem, como: acesso a alimentação, habitação, trabalho, educação, cultura, transporte, saúde, informação, liberdade; e postula o empenho pela paz, a organização dos poderes do Estado, o sólido ordenamento jurídico, a proteção do Meio.

    No concernente ao princípio da subsidiariedade, requer-se que, na sociedade, as instituições e organismos de ordem superior se coloquem na postura de ajuda (‘subsidium’) – e, portanto, de apoio, promoção e incremento – ante as menores (CDSI,186). Por nível superior, entende-se o das que são mais gerais (por exemplo, um governo federal face aos governos regionais e estes em relação aos municipais) e os organismos estatais ante as organizações não governamentais. Está visto que o princípio da subsidiariedade inverte a lógica dos governos centralizadores e assistencialistas. Para estes, o Estado organiza e controla os serviços sociais e as organizações não governamentais apenas o ajudam nesta tarefa. Segundo o princípio da subsidiariedade, as pessoas, ao organizarem-se, devem procurar, a partir da sua história, valores e princípios, as melhores soluções para os seus problemas e o Estado deve ajudá-las a viabilizar estas soluções na busca do bem comum. O objetivo basilar deste princípio é garantir o protagonismo da pessoa na sua vida pessoal e social. Assim, protege as pessoas dos abusos das instâncias sociais superiores, por exemplo, do Estado, e solicita que as instâncias superiores ajudem os indivíduos e grupos intermediários a desempenhar as suas funções (CDSI,187). A subsidiariedade não quer centralização, burocratização, assistencialismo, presença injustificada e excessiva do Estado e aparato público, pois considera que tirar a responsabilidade da sociedade provoca a perda de energias humanas e o aumento exagerado do setor estatal. De forma positiva, requer que se dê suporte às pessoas, famílias, associações, iniciativas privadas, promovendo “uma adequada responsabilização do cidadão no seu ‘ser parte’ ativa da realidade política e social do País” (CDSI,187).

    Sobre a solidariedade, também chamada amizade e caridade social, deve assentar-se em que não é um simples sentimento de compaixão pelos males sofridos por tantas pessoas próximas ou distantes, mas a determinação firme e persistente de se empenhar pelo bem de todos e de cada um, porque “todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos” (encíclica Sollicitudo rei socialis,38). A solidariedade apresenta-se sob dois aspetos complementares: o de princípio social, ordenador das instituições; e o de virtude moral, na responsabilidade pessoal com o próximo (CDSI,193). E manifesta-se, antes de tudo, na distribuição dos bens e na remuneração do trabalho. A DSI defende que os problemas socioeconómicos “só podem ser resolvidos pela solidariedade: solidariedade dos pobres entre si, dos ricos e dos pobres, dos trabalhadores entre si, dos empregadores e dos empregados na empresa, entre as nações e entre os povos” (cf CIC,1940).

    Por outro lado, deve conseguir-se a integração entre subsidiariedade e solidariedade. Na aplicação da DSI, os princípios da subsidiariedade e solidariedade devem sempre ser vistos e aplicados em conjunto, pois “o princípio de subsidiariedade há de ser mantido estritamente ligado com o princípio de solidariedade e vice-versa, porque, se a subsidiariedade sem a solidariedade decai no particularismo social, a solidariedade sem a subsidiariedade decai no assistencialismo que humilha o sujeito necessitado” (encíclica Caritas in veritate,58).

    ***

    Sobre os campos abrangidos pela DSI

    O ensinamento social da Igreja tem um forte valor instrumental de evangelização. Anuncia e atualiza a mensagem de Cristo em campos fundamentais da vida humana. Assim, os grandes temas da doutrina social são: a família, o trabalho, a economia, a política, a comunidade internacional, a proteção do meio ambiente e a promoção da paz.

    A família é para a Igreja “a primeira sociedade natural, titular de direitos próprios e originários” e colocada “no centro da vida social”. Como “a célula primeira e vital da sociedade”, é o fundamento da vida das pessoas e base de todo ordenamento social (cf CDSI,211); funda-se na livre vontade dos cônjuges; constitui um ambiente de vida, de doação recíproca do homem e da mulher e de bem para a prole; é a comunidade natural na qual se experimenta a sociabilidade humana; e contribui “de modo único e insubstituível para o bem da sociedade” (cf CDSI,213).

    Por sua vez, o trabalho humano tem dupla dimensão: em sentido objetivo, é “o conjunto de atividades, recursos, instrumentos e técnicas de que o homem se serve para produzir”; em sentido subjetivo, é “o agir do homem como ser dinâmico, capaz de realizar as várias ações que pertencem ao processo do trabalho, correspondentes à sua vocação pessoal” (CDSI,270). É um dever do homem, mas nunca deve ser tido como simples mercadoria ou elemento impessoal da organização produtiva, pois é expressão essencial da pessoa, sendo esta o parâmetro da dignidade do trabalho (cf CDSI,271).

    E a economia tem como objeto “a formação da riqueza e o seu incremento progressivo, em termos não apenas quantitativos, mas qualitativos”. Tudo isso “é moralmente correto se orientado para o desenvolvimento global e solidário do homem e da sociedade em que ele vive e atua” (CDSI,334). A DSI considera como um valor fundamental no campo económico a liberdade da pessoa; reconhece a justa função do lucro, harmonizada com a capacidade da empresa de servir à sociedade; defende o livre mercado; quer que o Estado assuma o princípio da subsidiariedade; valoriza a copresença de ação pública e privada; e defende a obtenção de um desenvolvimento integral e solidário para a humanidade.

    Na política, sublinha-se que a comunidade política é “a unidade orgânica e organizadora dum verdadeiro povo”. O seu dever é perseguir o bem comum, atuando em vista dum ambiente humano em que se ofereça aos cidadãos “a possibilidade do real exercício dos direitos humanos e do pleno cumprimento dos respetivos deveres” (CDSI, 385.389). A DSI reconhece o valor da democracia e o princípio da divisão dos poderes no Estado. Afirma que a comunidade política é constituída para estar ao serviço da sociedade civil. Igreja e comunidade política são de natureza diversa, quer pela configuração, quer pela finalidade que buscam (CDSI,424).

    No quadro da comunidade internacional, destaca-se a convivência entre as nações, que se funda nos “valores que devem orientar a convivência entre os seres humanos: a verdade, a justiça, a solidariedade e a liberdade”. E, como instrumento de garantia da ordem dessa convivência, vem o direito (cf CDSI 433.434). A política internacional tem de voltar-se para o objetivo da paz, do desenvolvimento e da luta contra a pobreza, mediante a adoção de medidas coordenadas. Para isso, o Magistério da Igreja defende a instituição duma “autoridade pública universal, reconhecida por todos, que goze de poder eficiente, para a salvaguarda da segurança, a observância da justiça e a garantia dos direitos” (cf CDSI,441).

    Sobre o meio ambiente, a Igreja assume que o cuidado do meio ambiente é um desafio para toda a humanidade e constitui o dever – comum e universal – de respeitar um bem que é coletivo e destinado a todos (cf CDSI,466). Perante os graves problemas ecológicos, a DSI preconiza a mudança de mentalidade que induza a adoção de novos estilos de vida, inspirados na sobriedade, na moderação, na autodisciplina – no plano pessoal e social.

    No atinente à paz, considera-se o seu valor e a sua índole de dever universal. É fruto da justiça, entendida como respeito do equilíbrio de todas as dimensões da pessoa humana; é fruto do amor; é ato próprio e específico da caridade (cf CDSI,494). Por isso, a Igreja considera parte integrante da sua missão a promoção da paz no mundo e convoca cada cidadão para essa tarefa.

    ***

    Para a DSI, o objetivo último de toda ação social é o desenvolvimento humano integral, ou seja, o desenvolvimento de todas as dimensões da pessoa (material, afetivo, social, espiritual), que atinja igualmente a todos na sociedade. Paulo VI publicou, em 1967, a encíclica Populorum Progressio, que enuncia o conceito de desenvolvimento humano integral, criticando a ideia de que o progresso das nações possa medir-se só pelo seu crescimento económico ou só pelo aumento do poder aquisitivo da população. Assim, o Papa antecipava-se a reflexões críticas que se tornaram comuns nas décadas subsequentes, através de ideias como a de desenvolvimento sustentável, difundida a partir dum documento de 1980 da União Internacional para a Conservação da Natureza, ou de índices de desenvolvimento humano e desenvolvimento como aumento das oportunidades sociais, da década de 1990. E, em 2009, Bento XVI retomou o conceito, utilizando-o como base para a redação da encíclica Caritas in Veritate.

    Este desenvolvimento humano postula que estejam igualmente ao alcance de todas as pessoas as possibilidades criadas pelo crescimento e desenvolvimento económico das nações. Além disso, pressupõe que o desenvolvimento não pode ser apenas material, mas deve incluir todas as dimensões da pessoa e incluir todas as pessoas. Assim, por exemplo, quem aumentou o seu poder aquisitivo, mas se fechou na posição individualista e não colabora na construção do bem comum, não cresceu intelectualmente ou na vida espiritual e não se desenvolveu integralmente.

    Num mundo cada vez mais rico, mas que permanece com as suas desigualdades globais e sofre com a desumanização das relações sociais e do estilo de vida das populações com mais recursos, o conceito de desenvolvimento humano integral revela-se um instrumento de diálogo com todas as tendências de pensamento social e político e de denúncia da crise de sentido e das injustiças que afetam as sociedades. Os Papas e a Igreja no seu todo têm trabalhado sem cessar para iluminar o vasto campo da vida social e oferecer, à luz do Evangelho, as diretrizes para a iluminação do caminho do autêntico desenvolvimento do homem. Apesar de ter marcado o seu desenvolvimento de forma mais estruturada a partir do final do século XIX, a DSI é resultado da experiência ancestral e pastoral da Igreja, pois esta “jamais deixou de se interessar pela sociedade; não obstante, a Rerum novarum dá início a um novo caminho” (CDSI,87).

    Desde 1891, a DSI foi um ensinamento constante por parte de todos os papas. Leão XIII (1878-1903), na Rerum Novarum (1891), denuncia as miseráveis condições de vida da classe operária, protagonista da revolução industrial. Pio XI (1922-1939), na Quadragesimo Anno (1931), amplia a DSI e aborda o tema do totalitarismo, encarnado nos regimes fascista, comunista, socialista e nazista. Pio XII (1939-1958), Papa durante a guerra e no pós-guerra, focaliza a atenção nos “sinais dos tempos” e, embora não tenha publicado uma encíclica social, os seus numerosos discursos e as suas radiomensagens contêm uma imensa variedade de ensinamentos políticos, jurídicos, sociais e económicos. João XXIII (1958-1963), na Mater et Magistra (1961) e na Pacem in Terris (1963), abre a DSI “a todos os homens de boa vontade” e a questão social torna-se um tema universal que afeta todos os homens e povos e é responsabilidade de todos. Com a constituição pastoral Gaudium et spes (1965), o Concílio Vaticano II sublinha o rosto duma Igreja realmente solidária com o género humano e a sua história. Paulo VI (1963-1978), na Populorum Progressio (1967) e na Octogesima adveniens (1971), atribui ao desenvolvimento “o novo nome da paz” entre os povos, pelo que vem a criar o Pontifício Conselho “Justiça e Paz”. João Paulo II (1978-2005) compromete-se na difusão do ensinamento social em todos os continentes; escreve três encíclicas sociais – Laborem Exercens (1981), Sollicitudo Rei Socialis (1987) e Centesimus Annus (1991); e o Compêndio da Doutrina Social da Igreja (2004) leva a sua assinatura. Bento XVI (2005), na encíclica social Caritas in veritate (2009), defende o desenvolvimento integral da pessoa pautado pela caridade e pela verdade. O Catecismo da Igreja Católica (CIC) – publicado pela Constituição Apostólica Fidei Donum, 11 de outubro de 1992, e cuja edição típica latina (agora texto definitivo) foi aprovada e promulgada pela Carta Apostólica Laetamur Magnopere, 15 de agosto de 1997 – dedica ex professo à DSI o apartado III (e ainda IV-VI) do artigo 7 do capítulo 2.º da sua parte IV e funda-a no teor do n.º 2198. E seguiu-se-lhe o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, publicado por Motu Próprio, de Bento XVI, a 28 de junho de 2005, com as questões e as respostas correspondentes ao teor dos lugares referidos do CIC.

    ***

    Enfim, muita coisa para ler, meditar e fazer, visto que há muito caminho a percorrer!

    2017.01.06 – Louro de Carvalho