sábado, 18 de janeiro de 2014

Uma edificante lição de democracia

 
As diversas Igrejas cristãs iniciam hoje, 18 de janeiro, com términus a 25 do corrente mês, a denominada Semana de Oração para a Unidade dos Cristãos, para o que o Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos assumiu e divulgou um conjunto de materiais preparados em conjunto por aquele departamento da Cúria Romana e pela Comissão “Fé e Constituição”, do Conselho Mundial de Igrejas. Porém, o trabalho inicial foi levado a cabo por um grupo de representantes de várias partes do Canadá, reunido a convite do Centro Canadense para o Ecumenismo e do Centro para o Ecumenismo “La Prairie”.
O material, cujo tema gira em torno da questão Paulina “Estará Cristo dividido” (1 Cor 1,13), foi elaborado para o predito evento, é utilizável também em todo este ano civil e é suscetível de adaptação, preferivelmente mediante uma colaboração ecuménica, conforme as circunstâncias temporais, locais e humanas da celebração e/ou reflexão a promover. Os grandes promotores, que desejam que a preocupação orante e reflexiva pela unidade se tornem prática diária em todo o ano para que se alcance a unidade querida por Cristo, reconhecem a existência, em muitos lugares, de estruturas capazes de proceder à conveniente adaptação e acham razoável que a necessidade sentida de adaptação dos materiais oferecidos urja a utilidade da criação de tais estruturas ecuménicas onde elas ainda não existam. Por outro lado, fornecem indicações sobre a utilização dos textos durante a semana de oração, nestes termos: as igrejas e comunidades cristãs que celebram juntas num só ato a semana de unidade dispõem de um modelo de celebração ecuménica; aquelas que celebram conjuntamente atos ecuménicos em cada um dos dias (ou em alguns deles) dispõem de textos próprios para cada dia, para oração e reflexão, ao nível de sugestão e proposta; as que celebram a semana da unidade por si, sem visível ligação celebrativa a outras confissões, podem incorporar os textos sugeridos nas suas celebrações e reflexões; quem desejar proceder a estudos bíblicos sobre o tema da semana de oração encontrará nos materiais apresentados o apoio que lhe aprouver, podendo cada sessão de reflexão terminar com um momento final de oração de intercessão; e os orantes em privado podem dispor dos textos sugeridos para se sentirem em comunhão com todos aqueles que em todo o mundo rezam por uma unidade maior e mais visível da Igreja de Cristo.
Os conteúdos constantes do documento são: a transcrição de um texto bíblico (1 Coríntios 1, 1-17); uma introdução ao tema, em que a reflexão articula o teor do excerto da carta de São Paulo referenciada com o panorama canadense; um guião-tipo de celebração ecuménica, com uma introdução reflexiva e metodológica, o desenvolvimento da celebração (com leituras bíblicas, cânticos, alocuções e oração); um conjunto de reflexões bíblicas e orações para cada um dos dias do oitavário, com um subtema diário, citações bíblicas adrede selecionadas; três pontos para reflexão e oração de síntese própria do dia; uma resenha sobre o panorama ecuménico no Canadá; uma súmula dos temas do ano de 1968 a 2014, elaborados conjuntamente pela Comissão “Fé e Constituição” e pelo Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, da Igreja Católica; e, finalmente, o elenco das datas mais significativas das ações desenvolvidas no âmbito da Semana de Oração para a Unidade dos Cristãos, que remonta ao ano de 1740, ano da criação do movimento pentecostal escocês, com ligações à América do Norte, a convidar à oração com e por todas as Igrejas.
Ora, por entre este arrazoado, onde se descortina a edificante lição de democracia?
Primeiro que tudo, na capacidade da criação conjunta, para lá das diferenças – territoriais, linguísticas, culturais e, sobretudo, religiosas – de materiais, com base numa ideia profundamente assumida de que “é muito mais o que nos une do que aquilo que nos separa”; a informação clara de quem iniciou o trabalho de produção dos materiais; a largueza da indicação de que, ao invés da reivindicação de quaisquer direitos autorais, os materiais podem ser adaptados conforme a oportunidade celebrativa e/ou reflexiva; a memoração dos diversos temas anuais desde que se evidenciou a iniciativa da sua elaboração conjunta, em pé de igualdade; o registo dos principais dados históricos do movimento ecuménico; e a vez e a voz dadas a uma considerável região de promoção ecuménica.
Apesar de os considerandos ora expostos já constituírem um valioso exemplo de atitude democrática, ao nível da participação, reconhecimento, respeito e informação, detenhamo-nos um pouco na reflexão concretizada pelas entidades canadenses referenciadas.
Reconhecendo que vivem num país marcado pela diversidade linguística, étnica, cultural e climática, de que resultam divisões sociais e políticas, também encarnam a diversidade das suas expressões da fé cristã. Porém, ao mesmo tempo, desejam permanecer fiéis ao desejo de Cristo de unidade de todos os seus discípulos, convictos de que, à maneira dos Coríntios, podem receber e valorizar os dons dos outros e, em meio de suas divisões, trabalhar para a efetiva unidade. Tentam, neste sentido, olhar para a natureza espetacular e diversificada do seu país – montanhas, bosques, lagos e rios – e para a sua considerável extensão, do Atlântico ao Pacífico e dos Estados Unidos ao polo Norte, fértil em termos agrícolas e rica em recurso naturais. Por outro lado, entendem que a carta paulina a apelar à unidade dos Coríntios em Cristo, o único móbil da fé cristã, apesar das divisões cavadas pela História dos homens, também se dirige aos hoje dos canadenses e de todos os cristãos. E aí eles se interrogam em que medida, para lá das atividades em comum, souberam respeitar, receber e valorizar os dons fornecidos por outras vivências do cristianismo, assente em outras culturas e origens étnicas e civilizacionais. E ainda questionam o que cada comunidade cristã pode fazer em prol de maior respeito, aprendizagem e caminho para a unidade essencial, sem anular a diferença enriquecedora de realizações no acessório.
Será, pois, o cruzamento destes dados vivenciais e problematizantes que preparam o perfil do novo homem democrático, que saberá servir com vista ao bem comum, no respeito pelas vontades legítimas e na consideração das diferenças, que tanto dividem como enriquecem, consoante o modo como forem encaradas, assumidas e sublimadas.
2014.01.18
Louro de Carvalho

1 comentário:

Maria da Fé disse...

Ótimo post!!
Salmo 18: 30 O caminho de Deus é perfeito; a palavra do SENHOR é provada; é um escudo para todos os que nele confiam.
http://botefeamor.blogspot.com.br/
Abraços Fraternos.