segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Trabalhara sucessivamente numa instituição de solidariedade social, numa Câmara Municipal e numa empresa privada

Chegou-me já dias um longuíssimo email. O autor dizia que estava reformado depois de longos anos em que trabalhara sucessivamente numa instituição de solidariedade social, numa Câmara Municipal e numa empresa privada, todas numa das maiores cidades deste país.
Na mensagem que recebi, o autor faz uma análise e uma reflexão sobre o modo como se sentiu tratado pelas três entidades, como pessoa e como trabalhador.
Vou sintetizar.

1. Foi na empresa privada que me senti mais respeitado como pessoa. Ali nunca me apercebi de "gorilas", espiões,  "pessoas de mão" do chefe. Era reconhecido o mérito de cada colaborador e havia um clima sadio, sem trincas nem intrigas. A gestão sempre cultivou com sucesso a máxima: "elogios públicos, repreensões privadas".
Estava implantada a cultura do mérito e do respeito pela pessoa do colaborador. Ordenados legais, sempre à horinha. Posso afirmar que os direitos dos trabalhadores eram espeitados e que éramos convidados à participação. O nosso ponto de vista, mesmo quando não aceite, era escutado.

2. Como trabalhador da Câmara, procurei dar o meu melhor, sentindo-me um colaborador em favor do bem comum. Nada tenho que dizer quanto à legalidade. Não apreciei algum clima de intrigas mormente nos momentos eleitorais. Detestei aquele espírito de subserviência ao chefe, fosse qual fosse o chefe, desde que isso servisse de rampa de lançamento para a progressão na carreira ou para a projeção pessoal.  E  alguns dos meus colegas cultivavam tal espírito até ao ridículo.

3. Numa instituição de solidariedade social, talvez a maior de uma das maiores cidades do país, passei os primeiros anos da minha vida laboral. Se ali aprendi muito, porque estava a começar, também deixei o melhor do meu entusiasmo jovem.
Não guardo as melhores impressões desse tempo. Ali havia o culto do chefe que se julgava o rei e senhor de tudo. Tudo girava à volta dele que punha e dispunha dos colaboradores como jogador das peças de xadrez.
Os ordenados eram baixíssimos e os tempos do trabalhador dependiam dos caprichos do chefe, sempre intempestivo e ameaçador para com quem não se sujeitasse aos seus caprichos. As nossas opiniões não eram tidas nem achadas e existia um certo espírito pidesco, espicaçado e mantido pelo chefe para quem a instituição era ele.
O folclore estava nas veias do chefe. Tudo o que fosse evento social em que ele ressaltasse como o centro e a personagem principal, era realizado, independentemente dos custos e dos sacrifícios pedidos aos colaboradores. Embora fisicamente fosse baixote, tinha um ego de gigante.
O chefe era egocêntrico, mas não era parvo. Por isso, aproveitava as ocasiões públicas para rasgados elogios aos colaboradores, transmitindo assim para fora a ideia de que na instituição os trabalhadores eram muito respeitados e tidos em conta, o que mais nos magoava.
Nesses tempos, muito longe da crise atual, dei muitas vezes a pensar comigo mesmo, pois, dado o clima pidesco, não me atrevia a partilhar com colegas: "Se em vez do despesismo do chefe, sempre em prol do seu exibicionismo pessoal, houvesse mais sobriedade nos gastos, talvez os trabalhadores pudessem ganhar um pouco mais, sentindo respeitados os seus tempos de trabalho, e a solidariedade pudesse ser mais abrangente, desprendida e otimizada."

1 comentário:

Carlos Alberto Teixeira disse...

Boa tarde,
Gostei muito da história retratada, e porque gostei, fiquei com vontade de tecer um comentário. Filosófica como a mesma e', achei que o mais adequado e' comenta-la com uma das mais conhecidas narrativas filosóficas: "A alegoria da caverna", do livro VII da Republica, de Platão.
Esta narrativa e só para quem nao sabe, fala sobre prisioneiros (desde o seu nascimento), que vivem presos em correntes numa caverna e que passam o tempo todo a olhar para a parede do fundo que e' iluminada por uma luz de uma fogueira. Nessa parede são projectadas sombras de estatuas representando pessoas, animais, plantas e objectos, mostrando cenas e situacoes do dia-a-dia. Os prisioneiros ficam dando nomes 'as imagens (sombras), analisando e julgando as situacoes.
Como podem imaginar estes prisioneiros nao conhecem a verdadeira realidade, mas só a realidade que lhes e' mostrada, ou que imaginam pelas sombras.
Parece-me a história que nos foi apresentada. Apresentam-nos nesta história um senhor que trabalhou em 3 sítios diferentes. Um deles era uma Instituição de Solidariedade Social, talvez a maior de uma grande cidade.
Nessa IPSS são-nos retratadas varias historias, nomeadamente do tipo de chefe que existia. Tinha todos os defeitos, desde nao ouvir ninguém, ser prepotente e nem sequer ouvia ninguém. Mas vejam, esta IPSS conseguia ser uma das maiores de uma grande cidade - Será isto possível?
Pergunto: Como cresceu? Será que foi só 'a custa de uma pessoa? Será que foi sem serem ouvidas as ideias e com a intervenção dos seus colaboradores? Será que foi com despesismos? Será que foi com folclores?
Mas agora pergunto mais: - Será que quem retrata esta história conhece a realidade? Será que como na história que retratei essa pessoa nao estará no período das sombras? Parece-me que sim.....
Como esta IPSS era talvez uma das maiores de uma grande cidade, possivelmente criou muitos empregos. E se continua a funcionar e pelos vistos bem, paga aos seus colaboradores atempadamente.
Volto a perguntar: - Será que com uma gestão como a indicade de pagar mais aos colaboradores seria sustentável?
Se calhar nao. Parece-me novamente que quem descreve a história esta no período das sombras, isto e', nao conhece minimamente a realidade.
Mas voltando 'a minha história....
O que retratei da caverna e' o período das sombras em que as pessoas imaginam uma realidade com o que lhes e' apresentado ou imaginam que seja.
Mas posteriormente um dos prisioneiros da caverna solta-se e consegue sair da caverna. E vê o Sol, a luz.
Os primeiros períodos foram difíceis, porque esteve muito tempo fechado sem claridade. Mas aos poucos vai conhecendo a verdadeira realidade do mundo e verifica que o que ele imaginara, afinal nao estava correcto. A luz do Sol da-lhe uma visão diferente, mas a correcta das coisas.
Esta e' uma imagem simplista da Alegoria das Cavernas de Platão.
Mas era importante referi-lá para quem escreveu este texto saia da caverna e procure a luz do Sol, para com ela ver a realidade das coisas.
Nao podemos só imaginar as coisas através das sombras que vemos.
A realidade e' muitas vezes diferente. Temos e' que a procurar, analisar e essencialmente conhecer.
Isto para nao serem cometidos erros.....
Agradeço a publicação.
Carlos Alberto Teixeira