domingo, 26 de janeiro de 2014

Os meus filhos no parlamento

Eles sabem que apesar da política, no dia a seguir vão à escola, têm trabalhos de casa e no fim-de-semana levantam-se tarde e podem jogar playstation

As crianças não querem saber nem sabem o que é política. É um tema que obviamente acham entediante. A actualidade política, a composição do governo ou os debates quinzenais são coisas que interessam tanto aos nossos filhos quanto física quântica. Política e física quântica são mais ou menos a mesma coisa: uma enorme e incompreensível seca. Eles não percebem o que é um orçamento rectificativo, qual a questão subjacente aos estaleiros de Viana do Castelo ou qual o sentido da moção de Passos Coelho no que diz respeito à candidatura de Marcelo às eleições presidenciais. No entender deles, não há questões, mas apenas complicações. Complicações incompreensíveis que não fazem qualquer sentido para a sua vida diária. Eles sabem que apesar da política e da polémica do Professor Marcelo, no dia a seguir vão à escola, têm trabalhos de casa e no fim-de-semana levantam-se tarde e podem jogar playstation.
Mas se eles percebem pouco os conteúdos, ainda menos entendem as discussões. Agora imaginem o que é assistir a um debate político travado em chinês. É chinês, por isso só damos atenção aos gestos e ao tom das intervenções, nada mais, o que torna o espectáculo no mínimo cómico. Foi assim que os meus filhos se sentiram no parlamento.
Há uns dias levei-os ao parlamento tal como os professores levam os seus alunos em visitas de estudo. Eles não queriam, é certo, a curiosidade era nula. Mas não tiveram alternativa. Recomendei que tinham de se portar bem, que não podiam correr, gritar nem fazer birras ou ficavam dois anos sem acesso ao computador. E lá foram eles, em filinha, rumo à casa da Democracia. Sentei-os, então, nas galerias a assistirem a um debate sobre a reabertura do troço Covilhã-Guarda na Linha da Beira Baixa. Era o que havia no dia. A criançada não se mexeu. De boca aberta observaram todo o plenário sem emitirem um único som. Expliquei que cada um dos deputados só podia falar três minutos e expliquei onde estavam sentados os diversos partidos, a presidência, quem eram as senhoras sentadas no meio do salão a escrever e quem era o Fernandes Tomás retratado na parede a discursar nos primórdios na Monarquia Liberal. Eles nada.
Meia hora de debate e chegaram as dúvidas: porque é que ninguém está a ouvir quando os senhores estão a falar? Porque é que nós temos de estar calados se está toda a gente a gritar e a falar? Onde é que estão o primeiro-ministro e o Presidente da República? Porque é que toda a gente ultrapassa os três minutos? Onde é casa de banho? Sobre o troço Covilhã-Guarda nem uma questão.
Expliquei tudo. Fui obviamente em defesa dos deputados que não fazem parte da comissão competente do troço Covilhã-Guarda e que por isso não prestavam muita atenção ao debate sobre o tema mas que, certamente, estavam a tratar de outros assuntos respeitantes às suas comissões. "Mas, se não ouviram, porque é que batem palmas?" Pois, é assim.... Também não explorei muito o tema do "ruído na sala" ou os "à partes". Apenas que fazem parte da "dinâmica parlamentar" assim como uma bola de futebol faz parte de um recreio da escola.
Dali fomos almoçar e nunca mais voltámos a falar desta visita ao parlamento. Quanto à política, eles ainda não entenderam bem o conceito, sabem que é qualquer coisa que está entre as discussões técnicas, os "à partes" e o processo que irá levar o Professor Marcelo a candidatar-se a Belém. Qualquer coisa que está entre uma brincadeira de gente grande e a física quântica. O pior é que desta vez não sei se isto passa com a idade.
Inês Teotónio Pereira
Ionline, 2014-01-25

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