domingo, 12 de janeiro de 2014

A discriminação do pai




É fatal. Um pai que queira ser pai está feito. É socialmente discriminado. E não há quotas que lhes valham.
Existe um claro mau feminismo das mães em relação aos pais. As mães, e a sociedade portuguesa em geral concorda, estão absolutamente convictas de que valem mais que os pais e os filhos são primeiro das mães e depois dos pais - que são mais das mães do que dos pais. Há cada vez mais excepções, é certo, mas o preconceito ainda está indecentemente latente. Os pais portugueses têm uma longa luta pela frente.
Apesar da evolução, de existirem inúmeros casos de sucesso em que os pais conseguiram conquistar a igualdade no respeitante aos filhos, ainda estamos na fase da condescendência. A verdade é que ainda é estranho olhar para os pais como seres autónomos: os pais portugueses ajudam as mães, mais do que isso é estranho. A ideia não é serem livres, é serem obedientes às mães. Quando se vê um pai sozinho a levar um bebé à creche, a mudar fraldas, a dar a primeira papa, a levar o filho ao pediatra, numa reunião na escola ou a fazer os trabalhos de casa com o filho, olha-se para este ser com alguma condescendência. "Coitado... a mulher deste não deve ser boa coisa", pensam as outras mães. Ou então, pior, "Que querido! Este deve ajudar imenso". É fatal. Um pai que queira ser pai está feito. É socialmente discriminado. E não há quotas que lhes valham.
As mães portuguesas acham que há territórios dos filhos que são só delas. Que a escola, o médico, a comida, a higiene, os trabalhos de casa, a vida quotidiana do filho é delas. É uma coisa feminina, quase tão feminina como uma loja de lingerie. E é assim porque sim.
A nossa sociedade está convicta de que há coisas que não devem evoluir, que não devem mudar por mais revoluções que se façam, e uma delas é o lugar do pai atrás da mãe. Um pai pode ser mais autoritário, pode até ser déspota, pode ser o homem mais poderoso do concelho, mas nos filhos dele quem manda realmente é a mãe. Ele pode sustentá-los, castiga-los, levá-los ao parque ao fim-de-semana, ensiná- -los a andar de bicicleta, mas quem sabe de que marca de iogurtes é que o menino gosta é a mãe, quem tira as espinhas do peixe é a mãe. Pai que saiba uma coisa destas ou é "um querido" ou é "um coitado". É assim como o Restaurador Olex: cada coisa no seu lugar e o lugar do homem é a trabalhar para sustentar a casa. Não há cá mariquices de licenças de paternidade ou de sair mais cedo do trabalho porque o filho está doente. Para isso estão cá as mães.
E o pior de tudo, o que faz com que não se evolua deste estado de coisas, é que as mães até concordam. As mães querem ajuda, não querem partilhar o trono. Há uma história que mostra bem o estado das coisas deste feminismo paternal que versa sobre uma mãe a gabar-se do casamento dos filhos: "A minha filha casou muito bem: o marido ajuda em tudo, cozinha, passa a ferro, toma conta dos miúdos. Uma maravilha. Já o meu filho teve azar: ele é que cozinha, passa a ferro e até muda as fraldas do bebé." E assim se vão educando patrões que acham uma mariquice os pais dividirem a licença de maternidade.
Inês Teotónio Pereira
Ionline, 2014-01-11, visto aqui

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