quarta-feira, 20 de outubro de 2010

"Não enxergo uma letra do tamanho de um comboio"

Tem muita idade. E apesar dos problemas de saúde que o avançar dos anos sempre acarreta, é um velhinha simpática, optimista, nada queixinhas.
Não sabe ler. Como ela diz, "não enxergo uma letra do tamanho de um comboio." Mas sabe quase tudo o que se publica no blog da Paróquia e neste blog. Estranho, não é? E mais, tem uma memória excepcional, parece um gravador.
Há bastante tempo ouviu falar na Igreja do blog da Paróquia e ouviu dizer que o Padre também tenha o seu. Nunca mais deixou em paz os netos que moram ao pé dela .
Expressa-se à sua maneira. Chega junto de um deles e diz: "Abre a 'neta' e vai ao computador da Paróquia e ao computador do senhor padre. Lê-me tudo desde a última vez que me leste..."
Nem sempre os netos se mostram muito disponíveis ou dispostos para a atender. Julgam que ela se cala? Está bem, está! Brinca refilando e pede exigindo: "Olhai lá! Quantas vezes eu comi tarde e más horas para vos aturar quando éreis pequenos? E ainda agora, quando quereis um miminho, a quem vos dirigis? E Refilo ou refilei convosco? Então vamos lá, que isto na vida não é só receber... Isso é que era bom!" Mas dito por ela, com aquele seu jeito brincalhão e convicto, os jovens não resistem mesmo.

Quando me encontra e há oportunidade, lá vem o reportório. Rio-me mal se aproxima de mim. A maneira como diz as coisas deixa bem disposta a pessoa mais sisuda deste mundo.
- Hoje não é para rir, andou a escrever umas coisas na 'neta' quem nem lembram ao Menino Jesus...
E puxa pelo gatilho da memória e aí vai disto! Discorda e apresenta um fio de raciocínio de se lhe tirar o chapéu. É-me muito difícil levá-la a sério pois não consigo parar de me rir, tal a graça que imprime à comunicação.
Outras vezes vem e diz-me:
- Hoje pode rir. Gostei do que escreveu! Abençoada sopa que comeu!
O pior é quando tem dúvidas ou não percebeu o que lhe foi lido:
- Olhe lá, o que é que lhe deu para escrever? Aquilo é língua de gente? Pensa que todos andaram na universidade, é? Faça favor de falar para todos e não só prós doutores! Ou quer que lhe diminua à côngrua!?
Meu Deus! Até as lágrimas saltam de tanto  rir!

Ter a humildade de pedir ajuda e saber fazê-lo só engrandece quem o faz. Esta senhora analfabeta é um hino às possibilidades do ser humano quando não se resigna.
Impressiona-me a maneira como sabe estar na vida. Com optimismo, com abertura aos novos tempos, na busca constante de razões de acreditar.

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