quinta-feira, 6 de junho de 2013

D. António Couto em entrevista: “Perdemos Cristo e o seu estilo de vida”


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“Construir a Casa da Fé e do Evangelho”
 
VL: O Senhor D. António está há cerca de ano e meio entre nós. Esse período de tempo permite-lhe ter já uma radiografia da nossa diocese, das suas gentes e das suas realidades?
 
D. António: Eu sei que fazer uma radiografia é coisa rápida. Sim, já fiz várias radiografias da vida da nossa diocese de Lamego. Mas confesso que não levo as radiografias muito a sério. Nem as radiografias nem as fotografias. Não é por acaso que, tendo eu embora corrido já muitos mundos, nunca quis ter máquina fotográfica, e nunca tirei fotografias. Tenho uma série de álbuns, que os amigos me oferecem, para eu lá colocar as minhas fotografias. Mal eles imaginam que estão todos vazios! Gosto de ver as pessoas, as paisagens, os monumentos demoradamente, como quem ama. É isso, ao vivo, que eu gosto de reter. Sou entranhadamente um homem da Bíblia, e sei, portanto, o valor das dimensões do tempo. Veja-se só o tempo que Deus levou a dizer-se a nós: milhares de anos. Deus é o melhor pedagogo que conheço, e é o meu modelo de pedagogo. O tempo que Deus levou e leva a dizer-se a nós! Porque nos respeita e não quer atropelar o nosso ritmo. Somos lentos. Vejamos o tempo que passamos na escola! Eu ando por Lamego apenas há um ano e quatro meses. Convenhamos que é demasiado pouco tempo para conhecer as paisagens humanas, sócio-culturais, espirituais e geográficas de Lamego, na sua riqueza e variedade.
 
VL: As visitas pastorais são uma constante na vida de um Bispo diocesano. Como tem visto a diocese através das mesmas? E, sobretudo, que ecos ou consequências da crise económica na vida da nossa gente?
 
D. António: As Visitas Pastorais são um meio privilegiado para contactar com as pessoas e instituições da nossa Diocese. Gosto de ir, ver e visitar o mais possível. Tenho ido a povos isolados e envelhecidos, profundamente marcados pela interioridade e desertificação. É com alegria e grande emoção que oiço os mais idosos expressar a sua alegria, e dizer que não se lembram, em toda a sua vida, de um bispo ter ido visitá-los lá na sua pequena aldeia, que eles amam. Até ao presente, visitei as zonas pastorais da Pesqueira e da Mêda. Estou agora a visitar a zona pastoral de Tarouca. Em toda a parte, tenho encontrado gente boa, simples e acolhedora. Que nem por isso se perde em queixumes. É gente crente. Sinto-me muito bem no meio de gente assim, e é um privilégio poder partilhar algum do tempo que Deus me deu com esses meus irmãos e irmãs. Dói-me o que a eles também dói: ver escolas fechadas, poucas ou nenhumas crianças e jovens. Alegro-me com o sentido muito vivo de Deus que esta gente simples e boa manifesta. Não posso esquecer o grande sentido de festa e de convívio com que esta bela gente me tem envolvido. Gostaria de me demorar mais tempo entre as pessoas das paróquias e lugares que tenho visitado. Mas lá está sempre o imperativo de Jesus: «Vamos a outros lugares, a fim de pregar também ali, pois foi para isso que eu vim» (Marcos 1,38).

 VL: A missão do Bispo é vasta e abrange diversas áreas. Qual delas, olhando a nossa realidade, necessita maior atenção?
 
D. António: Sem dúvida, sempre a Evangelização. Paulo VI disse- -o, em 1975, com meridiana clareza: «Evangelizar constitui, de facto, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua identidade mais profunda» (Evangelii Nuntiandi, n.o 14). Se evangelizar é a marca mais profunda da nossa identidade, então será sempre por aí que temos de ir em primeiro lugar. Há uma segunda tarefa que a primeira exige: dotar a Diocese dos meios necessários para que se possa levar para a frente a prioridade da Evangelização. Vai nesse sentido a reorganização dos Arciprestados e dos Serviços Diocesanos. Sim, é mesmo necessário, é prioritário, colocar a nossa Diocese em estado permanente de Evangelização. É a nossa maneira de viver. Por mim, sinto com toda a clareza que estou sempre a dever o Evangelho a alguém!
 
 VL: E em que ponto se encontra essa dinâmica?
 
D. António: Sim, e sem equívocos: pretendo envolver no serviço do Evangelho todas as nervuras da nossa vida Diocesana: sacerdotes, diáconos, consagrados, todos os fiéis leigos, crianças, jovens, adultos, idosos, todas as estruturas, instituições e movimentos laicais. Em que ponto estamos:
1) foram reformulados e constituídos os Arciprestados e o Conselho de Arciprestes, e dotados de novos Estatutos, que imprimirão novo vigor e nova dinâmica à acção pastoral das paróquias, do arciprestado e da diocese, de modo a impregnar de Evangelho todos os interstícios da nossa vida eclesial; a reformulação dos arciprestados não é visível apenas nas alterações das fronteiras; vai afectar também a alma da vida paroquial, arciprestal e diocesana;
2) foram actualizados os Estatutos do Conselho Presbiteral, que está a ser construído, para reunir ainda este ano;
3) foram elaborados os Estatutos do Conselho Pastoral, e aguarda-se que do chão arciprestal surjam os primeiros nomes para se começar a dar-lhe rosto; a formação deste Conselho e o seu funcionamento traduzirão a indispensável participação dos fiéis leigos na vida pastoral da diocese;
4) os serviços pastorais diocesanos foram reformulados, de modo a terem um âmbito ao mesmo tempo mais vasto e mais fundo; terão correspondentes no chão arciprestal, da zona pastoral e, sempre que possível, paroquial; neste momento, estamos na fase de encontrar no terreno os rostos necessários em ordem ao seu pleno funcionamento;
5) estão já a funcionar em diferentes lugares da diocese as escolas de vivência da fé, indispensáveis para que todos possamos ter um conhecimento mais aprofundado da nossa fé cristã e possamos, por isso, sentir a alegria de sermos cristãos;
6) preparam-se as chama- das «avalanches de evangelização», que, pela mão dos jovens e de quem quiser juntar-se a eles, levarão a pessoa de Jesus Cristo pessoa a pessoa, casa a casa, rua a rua, atravessando todos os recantos da nossa diocese.
 
VL: Referiu as escolas de fé como um meio a implantar. Concretamente, como descrever estas escolas?
 
D. António: As «escolas de vivência da fé», que queremos espalhadas em todos os arciprestados, zonas pastorais e até, quando possível, nas paróquias, não são universidades. São laboratórios de vida cristã. Sim, lá se aprendem e se aprofundam dados fundamentais da fé cristã, mas vão requerer também as mãos, os pés, o coração, a inteligência e a imaginação dos participantes. Não se destinam a ensinar só a teoria. Nelas, se deve ensinar e aprender a viver como cristãos. O seu objectivo é ajudar as pessoas a esclarecer a sua fé e a vivê-la com muito mais entusiasmo e alegria.
 
VL: Nesta missão evangelizadora, os sacerdotes são cooperadores do bispo. Diante da realidade que já conhece, a diocese de Lamego tem os padres de que precisa?
 
D. António: Um bispo que vive e sente a causa do Evangelho nunca estará satisfeito com o que faz e com a rede de cooperadores que tem. Porque tem de pensar mais fundo e mais longe. Portanto, a diocese de Lamego tem os padres que tem, e, por eles e com eles, dou graças a Deus. Mas tenho de pedir sempre a todos mais empenho, mais amor, mais alegria, mais confiança, mais ousadia.
 
VL: O Instituto Superior de Teologia Douro e Beiras chegou ao fim. Pode dizer-nos onde vão continuar a sua formação os nossos seminaristas e em que moldes?
 
D. António: Os bispos das quatro dioceses (Viseu, Guarda, Lamego e Bragança-Miranda) cujos seminaristas frequentavam o Instituto Superior de Teologia Douro e Beiras, logo que se aperceberam de que o instituto estava em fim de linha, reuniram-se e uniram-se. Decidiram caminhar juntos para o futuro, dadas as afinidades que unem este bocadinho de interior. Neste sentido, e ponderando sempre as questões à volta da mesa, facilmente verificaram que tinham de se aproximar do Porto ou de Braga, onde funcionam os dois Núcleos mais próximos da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. O problema não se punha tanto na adesão ao Núcleo do Porto ou de Braga da Faculdade de Teologia. Eram necessárias instalações nas proximidades dos referidos Núcleos, capazes de albergar os seminaristas das quatro dioceses nas condições que um seminário requer. Feitas as necessárias diligências nos dois lados, e analisadas as respectivas propostas, tratava-se de optar pelo lugar mais vantajoso. Braga, com o empenho pessoal do Senhor Arcebispo, ofereceu-nos muito boas condições. De novo à volta da mesa, vimos que se impunha, neste momento, que a nossa opção fosse por Braga. Teremos instalações próprias, com toda a autonomia, a dinâmica do Seminário é nossa (das quatro Dioceses), com o apoio logístico da Arquidiocese.
 
VL: Em muitas intervenções, o Sr. D. António convidou-nos a olhar para a comunidade cristã de Jerusalém. O que perdemos desde então?
 
Perdemos Cristo e o seu estilo de vida.
 
VL: Os Bispos portugueses divulgaram uma nota com vista à renovação da pastoral. Como agir local- mente para implantar as orientações ali definidas?
 
D. António: As orientações formula- das na Nota Pastoral da CEP são absolutamente claras. É só preciso conhecê-las. Claro que os primeiros responsáveis pela sua implementação são os nossos padres em trabalho pastoral. Peço a todos que leiam a Nota Pastoral, comecem eles por viver as orientações lá apresentadas, e que as apresentem ao povo de Deus que apascentam. Mas as orientações não oferecem dúvidas. Indico algumas, a título de exemplo: intensificar a oração pessoal e comunitária, dar a todas as acções litúrgicas a dignidade que lhes é devida, valorizar a celebração dos sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação, criar grupos de escuta e partilha da Palavra de Deus, criar escolas de vivência da fé e da comunhão, dar uma perspectiva missionária a todos os itinerários de catequese e de formação cristã, viver ao estilo de Cristo, dando um testemunho humilde, atento, comovido, próximo e acolhedor, profético e evangelizador, sair para o átrio deste mundo, e não fechar-se em si…
 
VL: Que postura, por parte dos agentes de pastoral, para implantar um ritmo eclesial onde a evangelização recupere o seu dinamismo e entusiasmo?
 
D. António: Quase todos os nossos grupos organizados (catequese, grupo coral…) trabalham dentro da igreja (edifício). São precisos grupos que tenham a sua acção fora da igreja (edifício): evangelização, caridade, acolhimento, visitação, proximidade… A Igreja começou no meio das casas; para o meio das casas deve voltar. Com determinação, simplicidade, verdade e coragem. E Cristo no coração. É urgente uma Igreja atenta às pessoas e comovi- da com as pessoas, ao estilo de Jesus. Cristãos que dêem testemunho de Cristo, vivendo uma vida boa e bela, de tal modo bela, que não possa ser explicada senão porque Cristo morreu e ressuscitou.
 
VL: O Senhor Bispo participou, recentemente, no Sínodo sobre a nova evangelização. Como sentiu a Igreja ali presente?
 
D. António: A Igreja do Sínodo mostrou-se uma Igreja entusiasmada, humilde e sempre à procura dos melhores caminhos para levar Cristo aos homens deste tempo. E descobriu que não é com estratégias novas que se vai lá. É com a vida. Porque o Evangelho não é um produto para colocar no mercado das religiões. Posso dizer, sem medo de me enganar, que o estilo de Igreja que vi no Sínodo, no testemunho ousado dos Padres Sinodais, dos consagrados e dos fiéis leigos que lá estiveram, revê-se agora no estilo de vida e de Igreja patente nas palavras e atitudes do Papa Francisco.
 
VL: A Igreja e o mundo em geral não cessam de olhar o Papa Francisco, enaltecendo gestos e divulgando palavras. Que podemos esperar deste Papa sul-americano?
 
D. António: Podemos esperar ver mais de perto a maneira de viver e de fazer de Jesus e da Igreja do Cenáculo, e que a Conferência Episcopal da Argentina já tinha afirmado em 2009, ao escrever no n.º 17 da Carta Pastoral Misión Continental: «Importa considerar em primeiro lugar o que é preliminar a qualquer programa de acção. Antes da organização de tarefas, importa considerar “como” as vou executar, o modo, a atitude, o estilo. Desta maneira, as tarefas serão ferramentas de um estilo de comunhão, cordial, discipular, que transmite o fundamental: a bondade de Deus». Aí está como a Igreja não é uma ONG. Uma Igreja mais transparente, leve, pobre e humilde, fraterna e acolhedora, deixa ver melhor os traços do rosto de Jesus Cristo. Penso que o Papa Francisco não nos vai deixar adormecer descansados.
 
VL: Muito se tem falado da reforma da Cúria romana. Passará isso, também, por uma maior autonomia e responsabilização dos Bispos, quer a nível local, quer ao nível das Conferências Episcopais?
 
D. António: Penso, sobretudo, numa maior Cristonomia, que se traduz em gestos novos, porque convertidos, de Oração, Comunhão e Missão. De resto, o Papa Francisco não se cansa de repetir que quer bispos, padres, consagrados e fiéis leigos muito mais Evangelizadores e muito menos Funcionários, Administradores ou Gestores. Esta leveza Evangelizadora (sem ouro, prata, cobre, alforge, duas túnicas…) deve perpassar a Cúria Romana, mas também todas as Igrejas particulares.
 
VL: Natural de Marco de Canavezes, aqui perto, viveu muito mais tempo em zonas litorais. Como vê este nosso interior e quais as suas potencialidades?
 
D. António: Paisagens fantásticas. Óptima gastronomia. Gentes de grande singeleza e extremamente acolhedoras. O turismo está a descobrir estas belezas, e pode desenvolver-se muito mais. Gosto dos microclimas que o sol e o chão e as pessoas vão desenhando, desde a vinha, à oliveira, à castanha, à amêndoa, à maçã, batata, cereja, sabugueiro…
 
VL: A área de estudo e investigação do D. António é a Sagrada Escritura. Como estamos de conhecimentos bíblicos na Igreja portuguesa? Já agora, neste campo, que iniciativas gostaria de ver concretizadas na nossa diocese?
 
D. António: A Escritura Santa é um terreno simultaneamente árduo e belo, como o chão da Palestina. O seu conhecimento tem crescido em Portugal nos últimos anos, sobretudo devido aos estudos especializados levados a efeito no estrangeiro por padres e leigos. Mas há ainda muito a fazer. Falta levar, de forma proveitosa, a Escritura Santa ao Povo de Deus, que tem direito a este alimento espiritual. Para isto é necessário que os padres se empenhem em estudá-la e saboreá-la, de modo a tornarem-se aptos a servir este alimento na celebração dos Sacramentos, mas também em pequenos grupos de estudo e partilha da Palavra de Deus.
 
VL: A vida académica continua presente, nomeadamente através da ligação à UCP. Tem saudades de uma dedicação a tempo inteiro à área do ensino?
 
D. António: Gosto de ensinar o que sei e amo. E penso que contribuí alguma coisa para que várias gerações de estudantes sintam hoje mais gosto em ler a Escritura e saborear a Palavra de Deus. Sim, sinto uma certa pena de não poder hoje dedicar tanto tempo ao ensino. E sei que os meus alunos sentem pena também. Sobretudo os mais velhos, reformados de profissões liberais, que tenho no Porto e em Braga, e que bem gostavam de me ver lá mais vezes. E são mais de cem! O que não posso mesmo é deixar de estudar e ler todos os livros que vão aparecendo. Se passar um dia sem ter lido nada, fico doente. Em cada dia que passa, tenho de descobrir alguma coisa nova. Normalmente é de noite que me dedico à leitura e à escrita. Vivo disto. Faz parte de mim. Mas também gosto de levar a Escritura às pessoas simples. É o que faço mais agora. E também me deleito.
 
VL: Na sessão que marcou o primeiro ano de presença entre nós, D. António disse-nos que a missão do Bispo, à imagem de St. Agostinho, deveria ser primeiramente ensinar. Sente que os Bispos são ouvidos?
 
D. António: Sim, ensinar a Palavra de Deus, com o Livro ou o rolo sobre os joelhos, como Santo Agostinho. Sim, penso que este devia ser o trabalho fundamental do bispo. Sem burocracias nem diplomacias. Era, afinal, o que fazia Jesus. E era ouvido. Se os bispos não são ouvidos, é porque não falam como Jesus, mas como os escribas (Marcos 1,22), isto é, sem autoridade e sem dizer nada.
 
* Entrevista ao Sr. D. António Couto, Bispo de Lamego, conduzida pelo Pe. Joaquim Dionísio, Director do Jornal Voz de Lamego e publicada na edição deste jornal a 04/06/2013.
Fonte: aqui

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