sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Os pontos altos do documento final do Sínodo

Dividi este texto em três secções: Descentralização, Envolvimento dos leigos e transparência.

I – Descentralização

Começo por falar da descentralização. Eu já tinha dito neste vídeo que a grande novidade deste processo sinodal seria a aposta na descentralização. Julgo que o documento confirma isso mesmo. Chamo a atenção para os parágrafos do 119 até ao 135, que a meu ver contêm o que é mais interessante sobre este aspecto.

Como eu tinha referido, o parágrafo 119 apela à formação de províncias eclesiásticas e agrupamentos nacionais e continentais de igrejas. No 126 refere mesmo as Assembleias Continentais que existiram durante o processo sinodal como exemplos a seguir. Mais do que apenas grupos continentais, contudo, o parágrafo 120 fala de grupos regionais de interesses comuns, dando como exemplo a Amazónia, a Bacia do Congo, ou a zona do Mediterrâneo, sendo que este último abrangeria mais do que um continente. Estes organismos não devem ser, porém, meros ajuntamentos de bispos. Pede-se, no parágrafo 127, o envolvimento de representantes da diversidade do povo de Deus, o que naturalmente envolverá leigos. Aqui, como aliás ao longo de todo o documento, apela-se também ao envolvimento de representantes de outras Igrejas cristãs e até certo ponto de representantes de outras religiões ou grupos sociais relevantes. O factor ecuménico e inter-religioso são uma importante marca deste texto. Antevendo que haverá dioceses ou conferências episcopais que, por diversas razões, têm dificuldade em participar nestes organismos, incumbe-se a Santa Sé de ajudar a encontrar soluções e a agilizar essa participação (parágrafo 128).

O parágrafo 129 é muito interessante, na medida em que apela à realização regular de Concílios Particulares Plenários ou Provinciais. Um Concílio Particular Plenário é um encontro de representantes de todas as dioceses de uma mesma conferência episcopal, no nosso caso abrangeria Portugal todo, e um provincial será um encontro de âmbito mais regional. É natural que, como eu, nenhum de vós saiba o que é um Concílio Plenário nacional, uma vez que o último que se realizou em Portugal foi em 1926!! Contudo, o documento pede que sejam realizados, ou “celebrados” com regularidade. Será que isto irá acontecer?

Parece-me evidente que em Portugal, como em quase todo o mundo, estes concílios acabaram por dar lugar aos plenários da Conferência Episcopal. A diferença é que o plenário da Conferência Episcopal só reúne bispos, e os concílios são muito mais alargados, devendo envolver, segundo o Código de Direito Canónico, vigários gerais e episcopais, superiores de institutos religiosos, reitores de universidades católicas, decanos das faculdades de teologia e de direito canónico, alguns reitores de seminários e ainda “presbíteros e outros fiéis, mas de tal maneira que o seu número não exceda metade” dos compostos pelos vigários, superiores e reitores de universidades”. Ou seja, o concílio particular é uma assembleia muito mais alargada de representantes da igreja. Será que isto vai acontecer?

O documento final refere ainda, de forma categórica, que o Papa é, e continua a ser o garante da unidade da Igreja (#131), mas apela à aplicação do princípio da subsidiariedade, usando o termo “sã descentralização” (#134).

Finalmente, no parágrafo 135 insiste-se que os dicastérios do Vaticano devem consultar as Igrejas locais antes de publicar documentos importantes – Fiduccia Suplicans, anyone? – e, de forma algo estranha, diz-se que “é importante, para o bem da Igreja, que os membros do Colégio dos Cardeais se possam conhecer melhor e que se promovam os elos de comunhão entre eles”. Não faço ideia porque é que isto surge no mesmo parágrafo, mas não deixa de ser uma questão importante, uma vez que o hábito do Papa Francisco de nomear cardeais das periferias, sendo importante como forma de recordar que todos os católicos valem e merecem ter voz em Roma, também pode ser problemática. Basta pensar que quando houver um consistório, os cardeais de locais mais isolados chegarão a Roma sem saber como funciona a máquina, sem conhecer ninguém, sem falar a “linguagem” burocrática. Isto deixa-os à mercê de manipulação por diferentes grupos de interesse que, nessa altura, estarão a tentar contar espingardas. O apelo Assembleia Sinodal pode ser uma resposta a este perigo.

II – Envolvimento dos leigos

O que acontece quando se pede ao ChatGpt para gerar uma imagem com base em “Descentralização”, “Envolvimento de leigos” e “transparência”

Há vários pontos no documento de apelo ao envolvimento dos leigos na vida corrente da Igreja. Olhemos para alguns deles.

No parágrafo 66 sublinha-se que todos os baptizados são chamados à missão, mas diz que “nem todos os carismas devem ser configurados como ministérios, nem todos os baptizados têm de ser ministros, nem todos os ministérios têm de ser instituídos” e, mais à frente, “uma Igreja missionária sinodal encorajará mais formas de ministério laical, isto é, ministérios que não requerem o sacramento da Ordem, e não apenas na esfera litúrgica”. Traduzindo: não é preciso salamaleques. Se a Maria tem jeito para acompanhar velhinhos, ajudem a criar um espaço para a Maria poder acompanhar velhinhos. Não é preciso um decreto, nem um cerimonial, nem uma farda. Se o António lida bem com miudagem e conhece os ensinamentos da Igreja, metam o António a dar catequese, ou a acompanhar um grupo de jovens. Facilitem. Também assim se combate o clericalismo.

O parágrafo 70 contém, de forma quase despercebida, uma verdadeira caixa de pandora. Depois de falar sobre a importância do papel dos bispos, lê-se. “É por isso que a Assembleia Sinodal deseja que o Povo de Deus tenha uma voz maior na escolha dos bispos”. Como? Não faço ideia. Mas estou muito curioso para saber se esta pequena frase se vai tornar letra morta, ou se vai produzir algum efeito.

Há depois umas passagens bonitas e interessantes sobre as fragilidades dos bispos e dos padres, de que os leigos devem tomar nota. “É importante ajudar os fiéis a evitar ter expectativas excessivas e irrealistas do bispo, recordando que também ele é um irmão frágil, exposto à tentação, a precisar de ajuda como todos nós. Uma imagem idealizada do ministério do bispo pode ser um obstáculo” (#71) e, mais à frente, sobre os padres que “também precisam de ser acompanhados e apoiados, sobretudo nas fases iniciais do seu ministério, bem como em alturas de fraqueza e de fragilidade” (#72) referindo-se no parágrafo 74 “as dificuldades bem reais que os pastores enfrentam no seu ministério. Essas referem-se sobretudo a um sentido de isolamento e solidão, bem como sentirem-se assoberbados pelas expectativas”. Traduzindo, novamente: leigos, estejam atentos aos vossos párocos, cuidem deles! Como é que se detecta que um padre está a atravessar um período de fraqueza e fragilidade? Estando próximo. Sejam próximos dos vossos padres!

Temos depois, no parágrafo 77, um apelo mais explícito à participação dos leigos e das leigas na vida da Igreja “explorando novas formas de serviço e ministério em resposta às necessidades pastorais do nosso tempo num espírito de colaboração e de corresponsabilidade diferenciada” que pode abranger “processos de discernimento e todas as fases de tomada de decisão” apelando a um “maior acesso dos leigos e das leigas a posições de responsabilidade em dioceses e institutos eclesiásticos, incluindo seminários, faculdades e institutos teológicos”.

Julgo que neste ponto a situação já esteve bem pior. Tenho visto muitos avanços em relação à expectativa de que o padre seja não só pároco como CEO de N instituições de solidariedade social, responsável dos recursos humanos e gestor. Hoje em dia, graças a Deus, vemos cada vez mais leigos a ocupar essas funções. Mas não deixa de haver dificuldades importantes a referir. A primeira dificuldade é financeira. Uma coisa é meter o padre a acumular funções, outra é ter de pagar um ordenado justo a vários leigos para fazer a mesma coisa. A segunda tem a ver com a disponibilidade dos leigos para assumir papéis em regime de voluntariado. Todos queremos uma maior voz para os leigos nas tomadas de decisão da paróquia, mas nem todos temos paciência ou tempo para ir a mais uma reunião a meio da semana, ou às 16h de um domingo. Acrescente-se a isto que muitas vezes os que manifestam maior vontade de participar são precisamente os que não queremos lá, ou a mentalidade muito típica de Portugal, de que o voluntariado não é uma obrigação, por isso se não me apetece ir não vou, porque nem me pagam. Tudo obstáculos que é necessário ultrapassar.

Termino esta secção com o parágrafo 92 que recorda os limites deste envolvimento dos leigos, sublinhando que “a autoridade do Bispo, do Colégio Episcopal e do Bispo de Roma em relação à tomada de decisão é inviolável, estando enraizada na estrutura hierárquica da Igreja estabelecida por Cristo” e que “na Igreja, o elemento deliberativo é levado a cabo com a ajuda de todos, e nunca sem aqueles cujo governo pastoral lhes permite tomar decisões, em virtude do seu cargo”.

III – Transparência

Esta secção será bastante mais curta, mas achei importante incluí-la e vou até inverter a ordem dos parágrafos como são apresentados no documento.

Assim, no #98 lemos que “a transparência e a responsabilização não devem apenas ser invocadas em casos de abusos sexuais, financeiros e outros. Estes princípios também dizem respeito ao estilo de vida dos pastores, ao planeamento pastoral, aos métodos de evangelização e à forma como a Igreja respeita a dignidade humana, por exemplo, em relação às condições laborais no seio das suas instituições”. Muito importante!

E olho agora então para o #96 onde se lê que “a transparência, no seu sentido evangélico correcto, não põe em causa o respeito pela privacidade e confidencialidade, a protecção das pessoas, a sua dignidade e os seus direitos”.

Usando aqui um exemplo que nos será familiar, quando uma diocese recebe uma denúncia por situação de abuso sexual e ela é considerada credível, a Igreja deve, a meu ver, fazer um comunicado a dar conta disso mesmo. Mas não é necessário que esse comunicado refira o nome do acusado, ou da vítima, nem detalhes que permitam pôr em causa o seu direito ao bom nome e à privacidade. Mais tarde, em caso de condenação, poderá ser desejável ou necessário divulgar alguns desses detalhes, mas o importante é sublinhar que é possível conciliar a transparência e o direito à privacidade e confidencialidade.

Sublinho apenas que este parágrafo 96 inclui uma referência pertinente ao sigilo absoluto e inviolável do selo da confissão, isto numa altura em que ouvimos cada vez mais pessoas a colocar em causa esse princípio.

Filipe d'Avillez , in Actualidade  Regiosa, -  aqui

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

O Sínodo: avanços e recuos

Sinodais aplaudem o Papa na conclusão da assembleia do Sínodo dos Bispos, 26 outubro 2024. Foto Clara Raimundo

 O Sínodo terminou. Urge fazer o balanço dos progressos alcançados, mas também das hesitações, dos recuos e dos medos que fizeram titubear os seus trabalhos. 

Os avanços

Há aspetos de inegável progresso. Provavelmente, este papa ficará conhecido na história da Igreja sobretudo pelo apoio claro à forma sinodal de organização eclesial. Este é também o elemento mais positivo dos trabalhos sinodais. Se efetivamente posto em marcha, marcará a refundação da Igreja em moldes bem diversos da atual estrutura rigidamente hierarquizada (capturada pelo “poder sagrado”), profundamente avessa à prática da igualdade entre os crentes e alicerçada em formas autoritárias de exercício do poder. Este processo de afirmação monárquica do poder foi-se consolidando ao longo do segundo milénio do cristianismo. O atual processo de implementação da sinodalidade constitui um regresso às formas originárias da vida cristã e simultaneamente uma adaptação às formas democráticas com que os grupos e as nações tendem a organizar-se, pelo menos no Ocidente. Chama-se a isto, em linguagem eclesial: os sinais dos tempos.

A afirmação da sinodalidade fez-se sentir desde logo no próprio processo de auscultação das comunidades cristãs e na forma como o sínodo foi funcionando. Agora, porém, houve mais um elemento importante a considerar. Ao abdicar do “direito” de redigir e publicar uma Exortação Apostólica com base nas conclusões do sínodo, o papa veio dar coerência à prática da sinodalidade que ele próprio tem vindo a propor, mesmo em relação ao exercício do “poder petrino”. De facto, só uma comunidade profundamente hierarquizada (clerical, portanto) pode aceitar que a palavra pessoal do papa constitua o documento final de um sínodo, desvirtuando o valor das conclusões a que o próprio sínodo chegou, vertidas nas suas conclusões.

São também de louvar as orientações do documento final no sentido de se proceder a uma reforma do funcionamento da Igreja de modo a incluir espaços e tempos dedicados à sinodalidade em todos os níveis da sua organização. Há, porém, todo um trabalho a fazer no sentido de tornar tal desiderato realmente operativo, sob pena de o texto não passar de letra morta. O direito canónico e as estruturas que nele estão previstas não incluem esta nova visão do funcionamento da Igreja, pelo que urge proceder à revisão do texto canónico, tornando assim obrigatória a implementação das estruturas de auscultação, ao arrepio do centralismo com que párocos, bispos, conferências episcopais, etc. conduzem a vida interna das suas comunidades. 

Os recuos

Em sentido contrário, foi a decisão do papa de retirar da discussão pública, no âmbito do Sínodo, questões determinantes da vida da Igreja. Uma tal decisão foi mesmo a negação da forma sinodal que o papa tem proposto. É assim que observamos avanços e recuos no processo sinodal, vindos exatamente da pessoa que mais tem trabalhado no sentido de propor esta forma inovadora (e fundada na tradição antiga) de organizar a vida eclesial. Torna-se quase incompreensível que o papa Francisco dê tais sinais contraditórios, alimentando assim a ideia assumida por muitas personalidades destacadas da Igreja de que a sinodalidade é coisa transitória e sem futuro e, por isso mesmo, facultativa. Esta conceção está muito mais arreigada do que possamos supor e explica a maneira como muitas paróquias e dioceses continuam a organizar-se a partir dos parâmetros autoritários tradicionais.

O que terá levado Francisco a recuar de maneira tão categórica? Certamente a perceção de que a maioria dos membros do Sínodo seria favorável ao diaconado feminino, à ordenação das mulheres, a mudanças estruturais na moral sexual católica, à ordenação de homens casados, ao fim do celibato obrigatório associado à ordenação presbiteral, etc. Há também na Igreja um receio colossal do confronto de perspetivas, do debate livre de ideias, da tomada de decisão por via democrática. A hierarquia ainda vive claramente apegada ao poder de decidir, independentemente daquilo que possa pensar a maioria do povo cristão. Ainda que Francisco se tenha mostrado, neste aspeto, diferente dos dois papas que o precederam, o receio de os acontecimentos se precipitarem sem o seu controlo tê-lo-á levado a travar o ímpeto reformista que ele próprio pôs em andamento.

Ordenem mulheres; Conferência pela Ordenação de Mulheres; Sínodo

Manifestação da Conferência pela Ordenação de Mulheres, no início de Outubro 2024, em Roma, a pedir a ordenação de mulheres na Igreja Católica, coincidindo com a abertura do Sínodo sobre a Sinodalidade. Foto: Direitos reservados

Estamos, portanto, longe de uma Igreja efetivamente sinodal, na qual a hierarquia não se impõe como poder, mas como serviço a uma comunidade que é chamada a tomar decisões acerca do seu funcionamento. A meu ver, os dois sistemas são irreconciliáveis (exceto se se reequacionar o papel da hierarquia). Não há maneira de implementar uma Igreja sinodal que não implique necessariamente o esvaziamento do poder hierárquico no que às decisões fundamentais diz respeito. Tentar conciliar as duas formas organizacionais constitui a quadratura do círculo. Ao atribuir a reflexão sobre os temas candentes a comissões específicas, o papa optou claramente pela forma clerical de poder, negando à Igreja a possibilidade de decidir sobre tais questões. No entanto, esses são exatamente os problemas que mais preocupam as comunidades cristãs! Assim sendo, a ideia com que se fica é a de que a sinodalidade vale apenas quando as conclusões que dela derivam estão em sintonia com as conceções do poder hierárquico. Caso contrário, entra em ação a forma clerical de tomada de decisões, própria de uma Igreja governada autocraticamente, fundada na desigualdade fundamental entre os seus membros.

Não havendo conciliação possível entre estas duas formas de organizar o poder, a Igreja tem de optar. Caso o não faça abertamente, a sua inércia é já uma opção a favor da manutenção da ordem estabelecida.

É, portanto, com muita tristeza que vejo a questão do acesso das mulheres à ordenação adiada para as calendas gregas. O incómodo do prefeito para a Doutrina da Fé, quando questionado sobre o assunto, é disso um sintoma evidente.

As razões apontadas são, na sua maioria, ridículas e falsas. A Igreja é hoje, no Ocidente, praticamente a única estrutura que insiste em negar às mulheres o direito de acederem a certos lugares de chefia, exclusivamente ocupados por homens. Os que preferem manter uma Igreja masculinizada argumentam que a ordenação feminina seria uma forma inaceitável de clericalizar as mulheres. Até posso concordar com esta posição, mas os que a defendem não retiram dela as necessárias conclusões. Se se reconhece que o acesso ao sacramento da ordem é uma forma de clericalizar as mulheres, teria de se reconhecer que a ordenação de homens tem o mesmo efeito nefasto, pelo que, a sermos coerentes, deveríamos eliminar simplesmente o sacramento da ordem. Ou será que só clericaliza mulheres e os homens estão imunes a esse efeito danoso? Não haverá por detrás desta argumentação falaciosa um misoginismo essencial, estrutural e secular, uma desconfiança fundamental em relação ao papel da mulher fora do âmbito estrito da vida familiar? Sejamos honestos na forma como expomos os nossos argumentos! Deixemo-nos de produzir especulação sofística, por forma a defender a todo o custo a ordem secularmente instituída, fundada em conceções preconceituosas sobre a “incapacidade” de a mulher organizar a vida coletiva! Os leigos podem não ter muita formação teológica, mas não são tolos nem gostam de ser tratados como tal.

Esta, a meu ver, foi a maior desilusão dos trabalhos do sínodo. Se o fim do celibato obrigatório era importante, como o era também a ordenação de homens casados, estas duas questões estão longe de se compararem ao problema da discriminação sistemática da mulher na vida eclesial.

Outra grande desilusão diz respeito à reforma da moral sexual. Tudo se passou no imobilismo de sempre, como se não se tratasse de uma questão central e urgentíssima da reforma da Igreja. Uma moral sexual que se ergue como edifício especulativo não respaldado por nenhuma lógica racional, mas baseado no conceito de uma natureza humana cujas características são arbitrariamente determinadas pelos órgãos do poder eclesial, não convence e, portanto, não promove a sua prática na vida de cada cristão. Hoje, temos uma moral pormenorizadamente definida em textos do magistério, mas inteiramente ignorada pela prática da vida de muitos cristãos. Esta esquizofrenia entre a vida e a doutrina talvez devesse levar as instâncias de poder a questionar-se acerca da pertinência do que tem proposto (ou imposto). Afinal, acreditamos que o Espírito se revela através da vida concreta dos fiéis ou reduzimos a sua ação às considerações doutrinais da hierarquia? 

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário

aqui

terça-feira, 29 de outubro de 2024

Será Portugal um país seguro?






Em 2020, Portugal era o país mais seguro da União Europeia e o terceiro país mais seguro a nível mundial. Em 2021, perdeu este lugar caindo da terceira para a quarta posição, ultrapassado pela Dinamarca. O relatório é do Institute for Economics & Peace e dá o primeiro lugar da tabela à Islândia.
Em 2024, Portugal ocupa o 7.º lugar na lista de países mais seguros do mundo.
Em 4 anos, Portugal baixou 4 pontos na lista dos países mais seguros. Por este andar, onde iremos parar?

Os últimos acontecimentos na Área Metropolitana de Lisboa , com morte, ferimentos, autocarros, carros, motas  e recipientes queimados... não são propriamente indícios de um país seguro.

Há dias, um alto responsável brasileiro alertava que Portugal é destino preferido por criminosos daquele país lusófono. Até pela língua. 

Existem fugas de criminosos de alto risco das prisões portuguesas. Há tempos, de  um estabelecimento prisional, fugiram cinco, dos quais só um foi recapturado até agora.

A sociedade portuguesa está mais violenta, mais insurreta, menos cortês e educada, mais primária nas reações, com menos respeito pelo outro e sua vida. Puxa-se por uma faca ou uma arma ao mínimo desconforto,  como se fosse banal matar ou ferir. E quando se chega a isto....

Não é de estranhar que haja cada vez menos candidatos às profissões que lidam com a sociedade e a ela se expõem. Faltam candidatos à PSP e à profissão de professor. Não é como nos querem fazer crer os que "falam politicamente coreto".  Não é só uma questão de ordenados. É uma questão de disciplina, ordem e respeito. No fundo, é uma questão de segurança. 

Temos professores a ser agredidos e insultados; escolas onde a indisciplina é de cortar à faca,  mal se consegue ensinar alguma coisa.

Os agentes das forças de segurança estão ainda mais expostos. Desobedecidos, maltratados, ofendidos, ameaçados, feridos e mortos. Quem é o pai ou a mãe que anda descansado quando um dos seus filhos ingressa hoje numa força de segurança?

Se um polícia usa um bocadinho de violência perante criminosos ou transgressores, cai o "carmo e a trindade" numa parte imensa da comunicação social e espumeja de furor a extrema-esquerda.  Se um polícia fica magoado para sempre ou morre, recebe como resposta a quase indiferença da comunicação social e o silêncio da barulhenta  extrema-esquerda. 

Portugal precisa de imigrantes. Sem eles uma parte da economia portuguesa pára. Vejam-se os casos da agricultura, construção civil, turismo, restauração e outros.  Essa gente que vem para trabalhar, ajudar a economia nacional e promover as suas condições de vida é bem-vinda. Mais, é necessária.  Tem que ser acolhida, respeitada e ter acessos às condições laborais, socioculturais e habitacionais dignas. Os governos têm que ser implacáveis para com quem explora a situação dos emigrantes e/ou pratica tráfego humano.

Mas Portugal tem que ter sumo cuidado para com os que vêm para cá parasitar, fomentar o mundo da droga, dedicar-se a atividades ilícitas ou criminosas. 

De maneira nenhuma nos identificamos com posições da extrema-direita em relação à imigração. Posições essas que abominámos. Pois não são os imigrantes os grandes responsáveis pelo aumento da criminalidade e da insegurança. Mas que é precisa alguma regulação claro e precisa em relação à abertura das portas à imigração, pensamos que sim. 

Toda a Europa tem hoje um problema  com os bairros onde se amontoam emigrantes.  Marginalizados, com baixos rendimentos, expostos a algum tipo de segregação, desempregados, sem uma escolarização que os acolha e respeite o seu ritmo, podem ser sempre um vulcão social. Há que encontrar soluções. Foi com satisfação que tivemos conhecimento de um encontro alargado entre o governo e representantes dos vários bairros. Oxalá seja um ponto de partida. 

Precisamos todos de comportamentos respeitadores para com as forças policiais. A começar pela extrema-esquerda!!! Sem um forças de segurança respeitadas na sua autoridade, a nossa insegurança aumenta exponencialmente.  Esperamos também que quem de direito promova a melhor formação às forças policiais para que possam executar o seu serviço cívico à sociedade com respeito e humanidade.

Não queremos terminar sem confessar a nossa fé. "Creio na  vida humana, inviolável desde a conceção até à morte natural."

As chamadas bocas, e em gentes com grandes línguas: "O senhor padre fora da igreja é como os outros..."

a Igreja e o 'um aqui e um ali'
O senhor padre fora da igreja é como os outros, dizia a senhora Maria. Mas quem são esses outros?! pensava eu. Para haver outros, tem de haver algo que diferencia ou separa. Assim também a observação d ‘O senhor padre é que sabe’, aumenta uma distância que não é desejável. São afirmações que ainda se ouvem da boca de um número notório de paroquianos e que fazem parte de um entendimento com quase dois milénios de história da Igreja que potenciou um aqui e um ali. Como se houvesse um binómio antagónico entre o religioso e o secular. Como se houvesse um dentro da Igreja e um fora da Igreja. Como se a Igreja se identificasse apenas com a sua hierarquia. Como se houvesse uma distância entre presbíteros e leigos. Como se houvesse um espaço sagrado e um espaço mundano ou profano. Ou seja, como se a Igreja fosse um espaço e o mundo outro. E em cada um destes espaços houvesse um sujeito diferente: na Igreja o clero e no mundo os outros, os leigos. Como se a Igreja se definisse por lugares e por estados de vida. Por isso me cansam certas dicotomias dentro da Igreja que apenas servem para separar aquilo que deveria estar unido. Ora, nós, padres e leigos, somos Igreja onde estivermos, porque o que nos faz Igreja não é o lugar onde estamos, mas o que somos e como vivemos. A Igreja existe e é Igreja em todo o lado onde estejamos os que somos Igreja.

Fonte: aqui

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

A decomposição da sinodalidade

 
Uma leitura que vale a pena - aqui


segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Podemos ou não concordar, mas este testemunho merece a reflexão de todos

 "As leis que não são minhas

Há muitos padres que vivem facilitando a vida àquelas pessoas que fazem pedidos fora das normas, fora do Direito Canónico, fora da doutrina e, muitas vezes, longe do Evangelho e longe da fé. São, de certo modo, padres merceeiros que fazem da Igreja um supermercado e fazem das paróquias uma agência de produtos sagrados “fast food” para atrair clientes. Evito julgá-los, porque quero crer que não o fazem com má intenção. Talvez o façam porque não têm a força e coragem necessária para responder com um Não. Talvez. Talvez. Há que dizer, no entanto, que são motivo de grandes sofrimentos a outros colegas que, tentando ser honestos com a sua missão, procuram ser correctos e coerentes o mais possível com as orientações, regras e leis que também eles devem cumprir. Quando me fazem alguns pedidos a que tenho de responder Não, é meu costume recordar, a quem me faz o pedido, que as leis não são minhas. Tanto as têm de cumprir eles como as tenho de cumprir eu."

Fonte: aqui

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

A senhora que não quis crismar-se, de modo algum

Foi convidada para ser madrinha de um baptismo, mas não está crismada. Foi-lhe proposto que pensasse no assunto e que fizesse o necessário para se crismar e poder ser uma madrinha no verdadeiro sentido da palavra. Não. A resposta foi um rotundo Não, de modo algum. Não está interessada. Isto é, não tem qualquer interesse neste sacramento. Não lhe diz nada e também não está interessada que lhe falem da fé ou de Deus. Não quer, com um rotundo Não. Mas gostava de ser madrinha de baptismo da sobrinha. 

Fonte: aqui

Serão precisos comentários?

Nunca percamos o direito à indignação!

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Transcrevo porque concordo e só porque concordo

Há um sínodo?

O sínodo que está a decorrer em Roma é de uma pobreza que nem franciscana é. Ou há lá coisas muito interessantes que não saem para fora ou aquilo é de uma banalidade tremenda.

Leio as notícias na Ecclesia e fico espantado com a irrelevância de tudo. Evidentemente, não há qualquer notícia do sínodo na imprensa generalista. É uma coisa que passa completamente ao lado.

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Erros de olhar

Na sociedade, comete-se com frequência o erro que consiste em avaliar o passado com os olhos do presente.

Na Igreja, comete-se com elevada frequência o erro que consiste em avaliar o presente com os olhos do passado.

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Igreja "em saída"

Na Alemanha, 522.821 católicos abandonaram a Igreja em 2022.

Será isto a "Igreja em saída" de que fala o Papa Francisco?

Temos de sugerir ao Papa que passe a falar de "Igreja em entrada".

Fonte: aqui

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Uma Igreja que se quer sinodal, mas na mesma


Vou lendo aos poucos o Instrumentum Laboris para a segunda sessão da XVI assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos a ocorrer no próximo mês de outubro, e vou lendo também as opiniões e os comentários de alguns observadores. Não me reconheço abalizado para fazer parte deste grupo de pessoas, mas tenho as minhas opiniões, que são, acima de tudo, formas de sentir. Neste sentido, devo referir que também eu não tenho soluções fáceis ou óbvias que transformem a estrutura institucional pesada e milenar da Igreja Católica. Contudo, leio e vejo tantas palavras que me parecem só palavras, que fico algo constrangido. Tenho receio que as palavras vençam, mais uma vez, as acções, atitudes e mentalidades. Tenho receio que não se passe das palavras às práticas. Tenho receio que este sínodo sobre a sinodalidade não consiga acabar com o modelo clerical hierárquico, autoritário e patriarcal. É certo que muitos dos temas importantes não estão contidos de forma clara no Instrumentum Laboris porque foram entregues a dezasseis grupos de estudos especiais, mas, por sinal, constituídos por 74% de clérigos. Não faz sentido querer uma Igreja sinodal e manter uma Igreja clericalizada, autoritária e patriarcal. Tenho receio que este sínodo seja como muitos dos anos especiais disto e daquilo, dos sínodos dos bispos para isto e para aquilo que, depois, na prática, mantêm quase tudo igual. A Igreja não pode continuar a repetir palavras sem alma e sem vida.

Fonte: aqui

terça-feira, 3 de setembro de 2024

Marcas das férias

 

Divinizar os animais, desumanizar as pessoas

A praia é um microcosmos. Por ali passam marcas evidentes do mundo que somos.

Gosto de caminhar na praia, sozinho no meio da multidão. Gosto de observar, não por cusquice, mas para perceber o mundo de hoje.

Numa tarde, passava pela praia um carrinho de mão. Gente ainda nova acompanhava-o. O homem puxava o carrinho, duas senhoras acompanham o veículo com indisfarçáveis cuidados e esmeros. Quem ia dentro do carrinho? Exatamente, um cão, daqueles de raça pequenina.

Na mesma tarde e na mesma praia, uma família numerosa estendia-se debaixo de alguns guarda-sóis abertos. Pais, filhos e netos. Com eles estava uma pessoa deficiente que  se encontrava ao Sol. A família convivia, falava, ria-se, bebia em alta festa cúmplice. Mas a deficiente não era tida nem achada. Só. Abandonada. Desprezada.

No fim do dia, a pergunta vulcanizava a alma: Que sociedade é esta que diviniza os animais e desumaniza as pessoas? 

Vai lá colocar a bola!

Era um troço de praia com pouca gente. Uma família passeava à minha frente.  Nisto uma das crianças, que caminhava ainda mais à frente, volta atrás para mostrar aos pais uma bolinha de Ténis que encontrava à beira da água.   

- Olha o que encontrei! - exclamou o petiz. 

- Filho, essa bola não nos pertence. Vais  colocá-la onde a encontraste.

- Mas não vejo aqui mais ninguém à nossa frente! O dono de certeza que a perdeu...

- Filho, não é nossa. Pode ser que o dono dê pela falta dela e venha procurá-la - sentenciava afavelmente o pai perante o acenar de cabeça confirmativo da mãe. 

O que o berço dá, a tumba o leva, diz o povo. A educação pertence à família. Educar não é dizer ámen a tudo, é saber contrariar no tempo certo e com modos certos.

A idade não perdoa!

Costumo participar na Eucaristia dominical com a família. Em férias não presido, participo  no meio da assembleia.

Há vários anos que o sacerdote que paroquia aquela comunidade é o mesmo. Embora não o demonstre, caminha para os oitenta! E de ano para ano, os sinais são evidentes. Por exemplo, este ano, na 1ª Eucaristia em que participei e a que ele presidiu, não percebi nada da homilia. Cá fora, os que me acompanhavam disseram o mesmo.

É preciso saber sair! Padres e Bispos tenham  isto muito em conta. Lembremo-nos que até aos setenta, somos nós que mandamos; a partir dos setenta é a idade que manda em nós! Vale muito mais ser um bom colaborante do que um mau líder.

Obrigado, família!

Aos meus irmãos, cunhados e sobrinhos a minha gratidão. Pela atenção, carinho, gratuitidade, amizade.

Gosto muito de vós!

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

O esvaziamento do Sínodo

 
Muito provavelmente, o Sínodo vai ser mais uma oportunidade perdida pela Igreja Católica. A atual decisão de afastar do Sínodo as questões candentes da moral sexual e dos ministérios ordenados das mulheres poderá representar o esvaziamento do conteúdo sinodal. Mais uma vez, as mulheres, fustigadas por centenas de anos de ocultamento e subserviência, serão sacrificadas no altar de uma doutrina cautelosamente construída sobre preconceitos, mas ideologicamente mascarada de lei divina.

Se há coisa que me perturba é ouvir os membros da hierarquia eclesial declararem como vontade de Deus doutrinas mais do que dúbias. Em vez disso, a Igreja hierárquica nada perderia (e muito ganharia) em ser bem mais humilde quando se trata de declarações fechadas e doutrinas contundentes que colocam Deus num espartilho a que nunca se acomodará. Deus é bem mais do que as nossas limitadas perspetivas. E ainda que o queiramos açaimar, Ele será sempre o Outro, inteiramente livre para dinamitar os nossos míopes pontos de vista. É por isso que a ideia de uma lista de dogmas irreformável é, em si mesma, um ato idolátrico. Com a afirmação dogmática daquilo que consideramos ser a vontade de Deus, afirmamos provir dele o que corresponde apenas aos nossos balbucios imperfeitos, passageiros e, muitas vezes, insensatos.

Regressemos à questão das mulheres. Durante séculos foram afastadas dos lugares de chefia, sem qualquer justificação racionalmente plausível. Foi a cultura de dominação dos machos a introduzir-se insidiosamente nas estruturas da Igreja. E aquilo que havia sido o cristianismo inicial foi rapidamente substituído pela lógica da cultura dominante, eminentemente patriarcal.

Concílio Vaticano Segundo não veio trazer alterações significativas a este respeito. E percebe-se porquê: as questões a reformar eram tantas que não era possível resolver todas elas em simultâneo, nem havia abertura para chegar tão longe. Além disso, a Cúria era dominada por um grupo reacionário que tudo fez para diminuir o alcance dos documentos conciliares. Encerrado o Concílio, essa mesma trupe de “funcionários de Deus” manteve o domínio sobre o aparelho eclesial. E assim inicia, logo que pode, uma reinterpretação tradicionalista do Concílio, apagando a sua vertente claramente reformista. A eleição do papa João Paulo II é o corolário e a consolidação desta política de apagamento conciliar e das suas linhas de força. As mulheres, apesar dos elogios que lhe são tecidos, continuam a ser relegadas para o campo subalterno que sempre lhes foi atribuído e para as funções secundárias que sempre exerceram.

A eleição de Francisco trouxe uma nova esperança à continuidade da reforma, sobretudo à questão do papel das mulheres, à “desmasculinização” da Igreja e, consequentemente, à sua “desclericalização”, como tem referido insistentemente o Papa. Há quem não entenda qual o alcance da palavra clericalismo. Na verdade, quem viveu a vida sob o manto sombrio da floresta raramente consegue equacionar a possibilidade de um mundo com acesso direto à beleza luminosa dos céus. Toda a Igreja está orientada e se comporta como uma comunidade clericalizada. Um Papa todo-poderoso comanda inequivocamente a Igreja. Um bispo comanda inequivocamente a comunidade diocesana. Um padre comanda inequivocamente a comunidade paroquial. Todos homens, exercem a título individual um poder “divino”. É isto o clericalismo!

Como combatê-lo? Obviamente, dando poder de decisão aos leigos, retirando o poder absoluto das mãos de um indivíduo apenas e repartindo-o por toda a comunidade de pessoas que se reconhecem como irmãos e concedendo às mulheres o acesso direto e incontestável aos mesmos papéis que os homens representam. Só assim teremos realmente uma comunidade de irmãos onde todos serão efetivamente iguais: “Quanto a vós, não vos deixeis tratar por ‘mestres’, pois um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos. E, na terra, a ninguém chameis ‘Pai’, porque um só é o vosso ‘Pai’: aquele que está no Céu. Nem permitais que vos tratem por ‘doutores’, porque um só é o vosso ‘Doutor’: Cristo. O maior de entre vós será o vosso servo. Quem se exaltar será humilhado e quem se humilhar será exaltado” (Mt 23, 8-12).

Sínodo foi uma nova brisa soprando contra o sufoco enfadonho e triste do passado. No entanto, receio que nenhum resultado realmente significativo saia da sua segunda e derradeira sessão. Fiquei deveras apreensivo quando verifiquei que as questões candentes, sobretudo as que se referem à questão feminina, tinham sido estrategicamente afastadas de qualquer discussão sinodal. A razão é deveras incompreensível.

Já é o segundo grupo de trabalho que reúne para preparar um documento de caráter histórico-teológico sobre o diaconado feminino. O primeiro, segundo se diz, foi inconclusivo. Não se vê por que razão o segundo tirará melhores conclusões que o primeiro. Por motivos ideológicos, haverá sempre quem considere ser vontade de Deus a discriminação a que as mulheres têm sido sistematicamente sujeitas (que Deus é este em que acreditamos?). Jamais haverá consenso sobre o assunto. Por isso, esperarmos um consenso que nunca vai ocorrer conduz-nos a um beco sem saída e à manutenção de uma injustiça milenar.

Se observarmos como as mentalidades se vão modificando, verificamos que o processo passa em boa medida por alterações estruturais com implicações nos comportamentos e na formação das mentalidades. Estar à espera que as mentalidades mudem por si mesmas, sem nenhum empurrão institucional, seja ele interno ou externo à Igreja, é mais ou menos o mesmo que esperar o Reino de Deus sem nada fazer para que ele se torne efetivamente presente na vida de toda a gente. Os estudos estão feitos, os problemas estão detetados, urge passar à ação. Qual seria a melhor circunstância para tomar decisões concretas sobre estes assuntos senão a que nos oferece um Sínodo? Em vez disso, as cúpulas eclesiais, ao arrepio daquilo que pregam (uma Igreja efetivamente sinodal), recusam ao Sínodo a possibilidade de tomar posição sobre estas questões, entregando-as ao organismo que tem provocado, ao longo dos séculos, maiores engulhos à vida da Igreja, o Dicastério para a Doutrina da Fé. Tudo vai, portanto, permanecer em banho-maria por tempo indeterminado, sem qualquer atenção ao grito de justiça que os confins da história não param de nos fazer chegar.

Esta estratégia não é nova. Também no Concílio se procedeu ao mesmo expediente. O objetivo é sempre o mesmo: retirar o poder de decisão efetiva ao conjunto da Igreja para o entregar, inteiro e inapelável, ao “Papa”, ou melhor, a um conjunto reservado de tradicionalistas que dominam o aparelho eclesial. Relembremos o que sucedeu e os estragos que provocou a avaliação moral do uso de anticoncecionais. Arredada da discussão conciliar, foi entregue a uma comissão que surpreendeu pela rutura com a perspetiva tradicionalista. Apesar disso, o “Papa”, ou melhor, esse conjunto seleto de dignitários da Cúria romana que “se sentaram na cátedra de Moisés” (Mt 23,2), toma a decisão exatamente contrária, iniciando aí um novo processo de rutura com o tempo em que vivemos e afundando a doutrina católica numa moral da negação e da proibição.

Fico triste que os sinais sejam pouco animadores. Infelizmente, cada vez tenho menos esperança de que a realidade da vida eclesial mude significativamente em tempo útil. Não tenho obviamente qualquer dúvida de que vai mudar. As mulheres hão de ser ordenadas, os padres hão de poder casar-se, se assim o entenderem, os membros do grupo LGBT hão de ser resgatados à exclusão moral a que foram e são sujeitos, os anticoncecionais hão de ser resgatados à proibição vergonhosa em que foram enclausurados, etc. Mas temo que o tempo em que tais mudanças venham a ocorrer as tornem efetivamente pouco significativas pelo facto de a Igreja se ter tornado, entretanto, um pequeno grupo sem relevância social. É o que acontece amiúde quando nos recusamos obstinadamente a ouvir o Espírito que nos fala através do tempo em que a vida nos foi concedida, por meio dos movimentos sociais, culturais, políticos e filosóficos que nela se configuram. 

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.

Fonte do texto: aqui

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Começa amanhã a Primeira Liga


A seguir à Supertaça, que o Futebol Clube do Porto ganhou, vencendo o Sporting por 4-3, depois de ter estado a perder 0-3. Jogo épico com todos os condimentos que o início da época proporciona. Muitos erros defensivos de parte a parte, muita entrega dos atletas, falta de frescura física à medida que o jogo caminhava para o fim, perspicácia dos treinadores - na minha opinião o técnico do Porto esteve melhor....
Houve factos novos e oxalá se mantenham e aprofundem. Cito o caso do almoço entre presidentes dos dois clubes. Depois de uma época com tantos problemas de arbitragem, penso que o árbitro esteve bem. Houve desportivismo e fair-play entre os atletas em campo, tanto durante o jogo como depois na receção dos prémios.
Também aconteceram situações evitáveis e a evitar. Cito o caso do presidente do Sporting que não quis cumprimentar o presidente do Porto no fim do jogo e, muito grave, aquele atleta leonino que provocou a fratura de um vidro, vindo a magoar uma adepta desse clube. Mais cortesia e serenidade por parte dos atletas e dirigentes.

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Normalmente não acerto muito nas previsões da bola. Mas acho que:

- O Benfica, pela equipa que tem, pelo investimento realizado e pela estabilidade diretiva e técnica parece-me ser o principal candidato ao título.

- O Sporting, campeão em título, tem recebido alguns reforços e mantem igualmente a estabilidade técnica e diretiva. É por isso um forte candidato ao título.

- O Futebol Clube do Porto tem nova direção e nova equipa técnica. A sua situação económica é muito grave. Não há dinheiro para grandes reforços e vão ter que apostar na prata da casa. Por mais que me custe, tenho que admitir que parte em desvantagem em relação aos da 2ª Circular.

Mas Porto é Porto. É raça, acreditar, suor, união, entrega. Épocas houve em que não era nada favorito e ganhou. Vamos, Porto!

Muita força aos nossos rapazes da formação! Espero ver brilhar na equipa Porto e como equipa Porto, o Mora, o Vasco , o Martim, o Gonçalo , o Iván e outros. Espero ver aquela defesa a funcionar como um pêndulo e que os mais velhos ajudem e entusiasmem os mais novos. Espero um treinador que seja um caso de urbanismo, sem deixar de ser apaixonado e interventivo. Um treinador sem medo e que mantenha o clube e equipa unidos. Um treinador ao mesmo tempo prudente e ousado, que não tem medo de fazer substituições quando estas são necessárias, sem as guardar para os últimos instantes do jogo.

Eu acredito em Vítor Bruno.

No fundo, no fundo sonho com belas e agradáveis surpresas. Força, Porto! Força, portistas!

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Não gosto de zangas por causa do futebol. Gosto de brincar com com pessoas que têm gostos clubísticos diferentes e aceito de bom grado que brinquem com os meus gostos clubistas.

Quando uma pessoa não sabe brincar e passa logo ao insulto ou ao ataque desesperado ao clube do outro, dou-lhe o silêncio por resposta, pois só essa é a resposta que tal pessoa merece!

Uma pessoa chatear-se por causa do futebol? Por favor. Deve mas é elevar mais  os níveis de inteligência e de bom senso.

Compreendo a paixão do futebol e alguns excessos durante o jogo. Mas transportar isto tudo para as conversas semanais com os amigos será de baixo nível.

Quem não sabe brincar aos futebóis nem sequer é desportista.

Que também neste aspeto a nova época seja nova! Em desportivismo e em saber brincar sem achincalhar, sem se armar em esperto.

domingo, 4 de agosto de 2024

4 de agosto - S. João Maria Vianney, o Santo Cura d'Ars, Patrono dos párocos

Após ter-se dedicado totalmente a Deus e aos seus paroquianos, João Maria Vianney faleceu no dia 4 de agosto de 1859, com 73 anos de idade. Seus restos mortais descansam em Ars, no Santuário a ele consagrado, que recebe a visita de cerca de 450 mil peregrinos por ano.

Ensinamentos do Santo Cura d'Ars que continuam com uma atualidade flagrante!

ENSINAMENTOS DE SÃO JOÃO MARIA VIANNEY
[padroeiro dos párocos]
1- Porque fala tão alto quando prega?
«Por que o Senhor fala tão alto quando prega, e tão baixo quando reza? É que quando prego, falo a surdos, e quando rezo falo a Deus, que não o é.»
2- Ir para a taberna ou para o café em vez de ir à Missa
Aos domingos uma boa parte dos homens, em vez de ir à Missa, ia para uma taberna. O santo cura os exprobrava do alto do púlpito, servindo-se dos termos de São João Clímaco: «A taberna é a tenda do demónio, a escola onde o inferno prega e ensina a sua doutrina, e o lugar onde se vendem as almas, onde as fortunas se arruínam, onde a saúde se perde, onde começam as rixas, e onde se cometem os assassinatos.»
3- Contra os que trabalhavam ao Domingo
«Vós trabalhais, mas o que ganhais é a ruína para a vossa alma e para o vosso corpo. Se perguntássemos aos que trabalham nos domingos: ‘Que acabais de fazer?’, bem poderiam responder: ‘Acabamos de vender a nossa alma ao demónio e de crucificar Nosso Senhor. Estamos no caminho do inferno’.
O domingo é um dom de Deus, é o seu dia. É o dia do Senhor. Ele fez todos os dias da semana. Bem poderia tê-los reservado todos para si, mas deu-nos seis e ficou apenas com um. Com que direito vos apoderais do que não vos pertence? Sabeis que os bens roubados não trazem proveito. O dia que roubais ao Senhor tampouco vos aproveitará. Conheço dois meios bem seguros para alguém empobrecer e chegar à miséria: trabalhar no domingo e tirar o alheio. Ide pelos campos dos que trabalham durante os dias santos: sempre têm terras para vender».
4- A Missa vale mais que todas as boas obras
«Todas as boas obras reunidas não igualam o valor do Sacrifício da Missa, porque aquelas são obras de homens, enquanto a Santa Missa é obra de Deus».
Fonte: Sopro e Vida (Facebook)

quarta-feira, 31 de julho de 2024

Por este pedaço da Diocese, bem podem os leitores concluir que as coisas não andam fáceis por essa Diocese fora...

 Há 10 anos, trabalhavam neste espaço pastoral estes sacerdotes: Matias, Manuel Ramos, Carlos, Armindo, Vítor, José Ramos e Adriano. Entretanto o P.e Manuel Ramos partiu para o Pai, os P.es Matias e Armindo adoeceram . Três sacerdotes que deixaram a vida paroquial e  apenas um vai chegar. O P.e José Miguel, até agora Pároco de Penedono.  

Outros, por motivos de saúde e cansaço, bem mostraram desejo de deixar a vida ativa, mas não foi possível este ano, pois não há nenhuma ordenação sacerdotal.

Por este pedaço da Diocese, bem podem os leitores concluir que as coisas não andam fáceis por essa Diocese fora...

Precisamos, como Igreja sinodal, de acolher caminhos novos, escutando o que o Espírito diz à Igreja. Uma Igreja menos, muito menos clerical, e muito, muito mais povo de Deus.

Uma Igreja onde os leigos despertem finalmente e assumam a sua vocação batismal e onde os ministros ordenados (Bispos, padres e diáconos) estimulem constantemente os leigos assumir o seu batismo no dia a dia da Igreja e do mundo.

Uma Igreja onde os padres sejam mais acarinhados, correspondidos e defendidos pelos crentes. Menos farpas, menos má língua e mais oração e amizade.

Uma Igreja centrada em Cristo e na exigência do Evangelho. Não, não e não ao porreirismo mundano para agradar e criar simpatia. O porreirismo na Igreja é puro mundanismo. 

Cristão que se preze não procura o facilitismo. Nem  na catequese, nem na celebração dos Sacramentos, nem noutras circunstâncias. Porque sabe que ao procurar o facilitismo está a ser mundano e a conspurcar o rosto de Cristo. O Evangelho da liberdade é o Evangelho da exigência! Por isso o padre e o bispo não podem fazer do porreirismo facilitista o caminho!

É PRECISO MUDAR!  QUE CADA UM MUDE! "Convertei-vos e acreditai no Evangelho." - Jesus

Mudar para uma Igreja inclusiva que seja para todos. Mas uma Igreja que rechaça liminarmente que ela seja tudo!!!

A Igreja é para todos, mas não é para tudo!

A Igreja não pode ser um supermercado de sacramentos onde só se vai quando apetece e para as coisas que apetece e exigindo que tudo seja feito conforme apetece!  Isso é andar a brincar com o que é Santo!

Sejamos cristãos sérios e sérios cristãos! Chega de andar a criticar quem pratica, talvez para esquecer a má consciência de não praticar! 

terça-feira, 30 de julho de 2024

FEZADAS E FESTINHAS NA(S) IGREJA(S)

 “Não sabia” (não quiseste saber). “Nunca me disseram” (nunca quiseste ouvir). “Cá tenho a minha fé” (então não precisas da Igreja). “Falo diretamente com Deus” (e regista o que Ele te diz). “Gosto de rezar sozinho” (sabes lá o que é comunidade!). “Vou a Fátima todos os anos” (e à bruxa ou aos arraiais?). “A religião não é sempre a mesma?” (talvez, o dever de ir à Missa aos Domingos já tem dois mil anos). “Sempre me ensinaram assim” (há sempre quem rejeite a teoria da evolução). E outras demagogias e lugares-comuns que justificam as diferentes fezinhas, fezadas e festinhas.

A Fé não é uma teoria, um sistema religioso ou ideológico, um ritualismo vazio e desencarnado nem uma simples filosofia (teosofia?), uma boa vontade inócua. Tão pouco há de ser apresentada e defendida a olhar para os “registos” passados (o cemitério e as cadeias estão sobrelotados) ou adiada para o futuro das boas intenções, que cevam o Inferno. A fé cristã (dos que seguem Cristo) é presente ( = hoje e dom): vivida (vivenciada) nas escolhas, valores/princípios e prioridades. A fé diz-se com a vida.

Dizer-se cristão (ser?) é conhecer (amar) Cristo: Pessoa e Mensagem (Evangelho). É encontro de pessoas (Ele, Eu, Nós = comunidade) que se amam, conhecem, (con)vivem e se empenham em dar continuidade ao Reino por Ele inaugurado. É saborear o Pão e Palavra dos filhos de Deus em cada banquete dominical que Jesus nos oferece. Que privilégio!
É a “hora” de matar de vez a hipocrisia (má-fé, artimanha) e mentira da “fé à la carte”, onde cada um sabe tudo, escolhe o que quer, rejeita o que não lhe dá jeito, define os próprios valores e doutrina, dissemina gostos e oculta princípios ao arrepio do Evangelho. Piedosos e oportunistas. Devotos e usurpadores. Gente que faz da igreja um salão de festas, do padre um fantoche e dos outros cristãos uns pategos, dos quais se riem e criticam ferozmente. Sem esquecer que “tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta”.
Quem muito conhece, muito ama. Quem muito ama, quer encontrar-se. Quem O encontra, mais O há de dar a conhecer. E quem O diz razão da sua vida, mais razões tem para O levar à vida aos outros. Porque a identidade do cristão é Cristo: “É que, para mim, viver é Cristo e morrer, um lucro.” (Fil 1,21)
O Papa Francisco sugere, mas muitos insistem em não entender (padres e bispos incluídos): «A pastoral em chave missionária exige o abandono deste cómodo critério pastoral: «fez-se sempre assim». Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respetivas comunidades. Uma identificação dos fins, sem uma condigna busca comunitária dos meios para os alcançar, está condenada a traduzir-se em mera fantasia.» ("Evangelho da Alegria" 33)
(P. António Magalhães Sousa)