domingo, 26 de julho de 2026

Dia dos Avós: entre o colo e a bengala


No Dia dos Avós, apetece-me recordar uma cena que testemunhei, há alguns anos, numa praia portuguesa.

Debaixo de um chapéu de sol estava o que parecia ser uma família: um casal, uma senhora já muito idosa, uma criança pequena e um cão irrequieto, que não parava de saltitar.

A dada altura, o senhor pegou em algumas coisas e saiu da praia. Já passava do meio-dia quando os restantes se prepararam para ir embora.

À frente seguia a mãe, com o cão ao colo. Logo atrás vinha a criança, choramingando, certamente porque a areia escaldante lhe queimava os pezinhos.

Mais atrás caminhava a senhora idosa, apoiada numa bengala, arrastando lentamente os pés pela areia. Cada passo revelava o enorme esforço que fazia para avançar. A distância entre ela e os restantes aumentava a cada instante, como se o tempo e a fragilidade lhe impusessem um ritmo que ninguém parecia disposto a acompanhar.

Aquela imagem chocou-me. E continua a acompanhar-me.

Nada tenho contra os animais. Pelo contrário: sou totalmente contra qualquer forma de maus-tratos e acredito que devem ser tratados com respeito, cuidado e dignidade.

Mas também não consigo ignorar um fenómeno que me inquieta. Em certos casos, parece que alguns animais passaram a ocupar um lugar quase intocável, recebendo toda a atenção, todos os cuidados e todos os sacrifícios, enquanto tantos seres humanos — sobretudo idosos, mas também crianças, doentes e pessoas frágeis — vivem o abandono, o desprezo, a solidão e, por vezes, a mais profunda desumanização.

O que me revoltou naquela praia não foi ver um cão tratado com carinho. Foi ver uma senhora idosa, com evidentes dificuldades de locomoção, entregue apenas à sua bengala e ao peso dos anos, enquanto o único colo disponível era para um animal perfeitamente saudável. Foi ver uma criança a chorar porque a areia lhe queimava os pezinhos, sem que isso parecesse merecer a mesma preocupação.

Uma sociedade verdadeiramente humana não tem de escolher entre amar os animais ou cuidar das pessoas. Deve fazer as duas coisas. Mas quando o cuidado pelos animais se torna, em alguns casos, mais visível do que a compaixão pelos mais vulneráveis entre nós, há motivo para refletir.

Neste Dia dos Avós, desejo que nunca nos falte a gratidão por aqueles que caminharam antes de nós. Que nunca lhes neguemos um braço quando já lhes faltam as forças, uma palavra quando lhes pesa o silêncio, ou a presença quando mais precisam de companhia. Porque a grandeza de uma sociedade mede-se, acima de tudo, pela forma como trata os seus membros mais frágeis.

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