segunda-feira, 23 de março de 2026

OBRIGADO A TODOS, TODOS!

 

quinta-feira, 19 de março de 2026

Meu pai - "há quem parta, ficando; há quem fique partindo..."

Também ficava contente quando o levavam a Santa Helena

Meu pai partiu, aos 95 anos, para a Casa do Pai. No domingo, dia 15 de março, parecia muito bem. Na quarta-feira de manhã, partiu. É a vida, que traz sempre consigo a fragilidade.

Partiu no pleno uso das suas capacidades. Aos médicos, no hospital, contou várias vezes, com pormenor, todos os sintomas que tinha experimentado nas últimas 24 horas.

Sabia de cor e salteado os dias em que os seis filhos, genros e noras, e os nove netos faziam anos. Sem computador, sem agenda. De memória.

Não tinha vícios. Não bebia — infelizmente para ele, nem água. Não fumava, não tinha desmandos morais. Vivia para a família.

Em família, enquanto os filhos eram novos, e conforme as circunstâncias daquele tempo, era algo rigoroso — o que não significa violência, nada disso. Com os netos, foi sempre um “avô babado”, louco por eles, preocupado, um bom conselheiro. Claro que todos os netos gostavam muito dele. Um deles, em trabalho na Suíça, fez tudo para chegar junto dos restos mortais do avô antes da Missa de Corpo Presente.

Nunca foi egocêntrico, mas “filhocêntrico”. Pensava nos filhos. Quando estes khe queriam fazer uma festinha de anos, por exemplo, encontrava sempre motivos para a evitar.

Sinal curioso: este ano aceitou comemorar os seus 95 anos, e com alegria. No dia 3 de janeiro, véspera do seu aniversário, alguns netos fizeram-lhe uma surpresa: levaram-no ao Santuário de Nossa Senhora da Lapa, sem que ele minimamente contasse. Exultou com a experiência. Nos dias seguintes, os familiares que puderam almoçaram com ele.

No sábado de Carnaval, já com quase toda a família, fizemos a celebração aniversária completa: Missa de Ação de Graças na igreja onde fez todo o seu percurso cristão e almoço a seu gosto.

Era um homem profundamente crente. Uma fé simples, profunda, comprometida com a vida. Deus era tudo para ele. Nos últimos anos, em que já lhe custava imenso andar, sempre que o visitava à tarde, encontrava-o sentado a rezar o seu terço. Nesses encontros, gostava de fazer análises críticas às leituras que fazia.

Quando o visitava, normalmente jantava com ele e com a família do meu irmão, que vivia perto dele. No fim, em família, rezávamos sempre o terço e partilhávamos as intenções de oração. Encantava-me a sua abertura e a forma como confiava a Deus os problemas reais deste tempo. Não havia ali nada de “beatice a cheirar a mofo”.

Obrigado, Deus, pelo meu pai!
Obrigado, pai, por tudo e por tanto!

Tínhamos, junto do Coração de Deus, a interceder por nós e pelo mundo, a mãe. A partir de 18 de março, temos pai e mãe!

Obrigado, meus amores! Vós partistes, mas ficastes gravados, a letras de ouro, no coração de filhos e netos.

Colocai-nos bem pertinho do Coração de Deus!
Descansai os dois em paz, meus heróis, nos braços de Deus!

quinta-feira, 12 de março de 2026

Quando o silêncio de um padre se torna demasiado pesado


Este ano já tive notícia de cinco.
Cinco sacerdotes que morreram por suicídio.
Escrever isto custa-me.
Porque quando digo “cinco” parece apenas um número.
Mas não são números.
São nomes pronunciados um dia diante do altar.
São vidas que um dia disseram “sim” com alegria.
São histórias inteiras de serviço, de escuta, de entrega.
Um padre não nasce padre.
Vai-se tornando.
Nas madrugadas em que responde ao telefone porque alguém morreu.
Nos hospitais onde segura a mão de quem tem medo da última noite.
Nas confissões onde escuta lágrimas que ninguém mais conhece.
Nas casas onde se senta à mesa com famílias feridas para tentar juntar pedaços de vida.
No Centro Social entre papéis, funcionários, utentes a ser visto como patrão.
Um padre aprende, lentamente, a carregar as dores dos outros.
Mas quase ninguém lhe pergunta quem carrega as dele.
Durante muito tempo repetiram-se explicações fáceis.
Quando um padre cai, dizem alguns, foi por causa de uma paixão.
Ou porque perdeu a fé.
Mas a alma humana não cabe em frases simples.
Há padres que continuam a acreditar profundamente.
Que rezam em silêncio diante do sacrário.
Que levantam o pão e o vinho todos os dias com reverência.
E mesmo assim, por dentro, sentem um cansaço que ninguém vê.
Há noites em que a igreja fica vazia.
As luzes apagam-se.
As portas fecham-se.
E o padre regressa a casa.
Uma mesa.
Uma cadeira.
Um silêncio demasiado grande.
A solidão não faz barulho.
Mas infiltra-se devagar.
Primeiro nas noites longas.
Depois nos dias cheios em que ninguém pergunta verdadeiramente como ele está.
Depois naquele peso interior que já não se sabe bem de onde vem.
Há também o peso do ministério.
As expectativas de todos.
As críticas fáceis.
A sensação de que é preciso estar sempre disponível, sempre equilibrado, sempre forte.
Como se a ordenação tivesse apagado a fragilidade humana.
Mas não apagou.
Um sacerdote continua a ser um homem.
Com feridas antigas.
Com fragilidades.
Com dias de luz e dias de sombra.
A ordenação sacerdotal não protege o coração humano da tristeza.
Nem da ansiedade.
Nem daquela escuridão silenciosa que às vezes cresce por dentro.
Recentemente o arcebispo de Saragoça, Carlos Escribano, tomou uma decisão silenciosa, mas profundamente significativa: suspendeu as visitas pastorais previstas para dedicar um ano inteiro ao cuidado dos sacerdotes da sua diocese.
Quis encontrá-los em grupo.
Depois individualmente.
Para escutar.
Para compreender.
Para perguntar simplesmente:
como estás a viver o teu ministério?
Há algo de profundamente evangélico nisto.
Porque o sacerdote é, por vocação, um homem para os outros.
Mas um homem para os outros também precisa de alguém que seja para ele.
Talvez a Igreja do futuro precise de aprender melhor isto:
cuidar de quem cuida.
Antes que o silêncio se torne demasiado pesado.
Antes que a solidão se transforme num abismo.
Porque por trás de cada padre há um coração humano.
E nenhum coração deveria caminhar sozinho durante demasiado tempo.
Foto: Sebastien Desarmaux I Godong
Texto:Padre João Torres, Facebook

segunda-feira, 9 de março de 2026

Sai Marcelo, entra Seguro

9 de março de 2026

António José Seguro toma posse como 21.º Presidente da República.

O agora ex-Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, como qualquer pessoa que exerce funções públicas, teve momentos que agradaram e momentos que desagradaram. Muitos o elogiam e enaltecem, outros o criticam. É a vida.

Não tenho nada contra a pessoa em si. No entanto, como Presidente da República, confesso que nunca fui seu fã.

Claro que apreciei o seu lado humano: a presença junto das pessoas, o sorriso, os abraços e as selfies. Reconheço-lhe um estofo cultural fora do comum.

Mas, quanto ao seu exercício de funções, deixo algumas críticas:

  • Tentou fazer da redução do número de sem-abrigo um desígnio nacional, mas esse número continuou a aumentar ao longo dos seus dois mandatos;

  • Não aprecio Presidentes “tagarelas”, que falam constantemente sem acrescentar substância. Marcelo acabou por banalizar as palavras, tornando-as menos impactantes;

  • A sua necessidade de estar sempre em evidência, de manter popularidade elevada, revelou um certo egocentrismo sorridente, levando-o por vezes a contradizer afirmações anteriores;

  • Realizou muitas eleições durante os seus mandatos. Em democracia, os mandatos devem ser cumpridos até ao fim, respeitando a decisão dos eleitores. Uma das funções do Presidente é prevenir crises e atuar para evitá-las;

  • Demonstrou hiperatividade em política externa, visitando inúmeros países, com resultados pouco claros, e cujas viagens foram pagas pelos portugueses;

  • Interveio excessivamente no funcionamento do governo, pessoalizando frequentemente a ação em relação a determinados ministros. O funcionamento do governo é, na minha opinião, da responsabilidade do Primeiro-Ministro;

  • Passava a impressão de falta de consistência: anunciava prioridades, mas depois deixava-as cair sem retomá-las.

Em resumo, não apreciei de todo o seu exercício presidencial e considero que não foi o Presidente que o país precisava.

Espero e desejo um bom mandato ao novo Presidente António José Seguro. Parece ser um homem discreto, atento e conciliador. Com um bom mandato, todos nós sairemos a ganhar.

domingo, 8 de março de 2026

MISSAS DE “CORPO PRESENTE”: CELEBRAR A FÉ QUE JÁ MORREU

Às vezes, confesso, sinto-me como um conservador de um museu que ninguém visita para ver a arte, mas apenas para usar a casa de banho ou tirar uma “selfie” contra a luz. Ainda vivo na ilusão de que a missão é um diálogo, quando, na verdade, parece mais um solilóquio num teatro vazio, onde as cadeiras estão ocupadas, é certo, mas por manequins de gesso. É um exercício de masoquismo intelectual e espiritual: passar horas a fio a escavar o texto sagrado, a burilar a homilia, a tentar encontrar aquela ponte que ligue a Eternidade ao quotidiano cinzento desta gente, para depois ser confrontado com o vazio. No final da Missa, o “feedback” que recebo é um silêncio ensurdecedor. Ninguém diz "aquela palavra ajudou-me" ou "aquela reflexão fez-me pensar". O silêncio é a norma, como se a Palavra de Deus fosse um som de fundo descartável.
Entrementes, o silêncio só é quebrado para a reclamação. Sim, para isso o povo tem uma eloquência admirável! Se a homilia durou mais cinco minutos do que o esperado, se o coro desafinou, se a igreja estava fria, se chamei a atenção para um telemóvel que insiste em tocar ou se eu ousei recordar um dever cristão que beliscou o ego de alguém, aí o “feedback” chega rápido, voraz e implacável. Somos ignorados no que é essencial e fuzilados no que é acessório.
Olho do ambão e vejo o desfile das ausências: os que estão lá, mas não "estão"; os que conferem o relógio com uma impaciência mal disfarçada, como se a Palavra de Deus fosse um anúncio publicitário que não se pode saltar no YouTube. É o triunfo da "presença por obrigação", onde o corpo ocupa um lugar no banco, mas a mente já está a marinar a carne para o churrasco ou a discutir o penálti da noite anterior. Por vezes, penso mesmo que deveríamos usar a expressão “corpo presente” mais vezes, para além dos funerais.
E o Pão da Vida? Tornou-se o banquete dos indiferentes. É fascinante (e profundamente doloroso) ver a fila da comunhão. Transformou-se num automatismo social, um desfile de moda espiritual onde o conceito de "estado de graça" parece uma peça de museu, algo tão anacrónico como o latim. Comungam por hábito, por pressão de grupo, para serem vistos ou talvez para não parecerem mal perante o vizinho, ignorando alegremente que o pecado não é uma sugestão de comportamento, mas uma rutura real (sacrilégio). Mas quem sou eu para falar em ofensa a Deus? Hoje em dia, Deus foi domesticado; é um "avô porreiro" que, na cabeça desta gente, não se chateia com nada, nem mesmo com o desprezo sistemático por aquilo que Ele próprio instituiu.
O que dizer, então, da gestão dos sacramentos de "ocasião"? Batismos e casamentos tornaram-se eventos de “catering” com uma breve introdução religiosa obrigatória. Quando tento aplicar as orientações da Igreja (aquelas que não inventei, mas que jurei defender) sou tratado como um burocrata ranzinza ou um ditador de paróquia. "Ó senhor padre, não complique, a gente só quer a cerimónia!", dizem os olhos deles. A insistência em práticas pagãs, o folclore vazio e a afronta direta à dignidade do altar são o pão nosso de cada dia. E a audácia é tal que, se o pároco ousa pedir o mínimo de dignidade ou verdade, o infrator veste imediatamente a capa de vítima. O "clero é autoritário", dizem, enquanto pisam séculos de tradição com o salto agulha da vaidade.
Mas o golpe de misericórdia vem da "educação" cristã das novas gerações. É de uma beleza trágica ver pais que se dizem católicos a tornarem-se cúmplices do analfabetismo espiritual dos filhos. A catequese é a primeira coisa a cair quando há um treino de futebol, uma festa de anos ou uma simples ponta de preguiça. E o pior: os pais não só permitem, como justificam. Mentem-me na cara, inventam doenças, viagens e compromissos inadiáveis, ensinando aos filhos a lição mais valiosa de todas: "A Igreja é secundária; o que importa é o teu prazer imediato". Mentir para socorrer as nossas razões é virtude! Defendem os filhos com unhas e dentes contra qualquer exigência de compromisso, criando uma geração de cristãos "flutuantes", que não pertencem a nada, não creem em nada, mas que quererão, daqui a uns anos, um casamento de luxo "com tudo a que têm direito".
Sinceramente, pergunto-me se não estarei a ser o único tonto a levar isto a sério. Então, a pergunta impõe-se, fria e lógica: porquê continuar a dar pérolas a quem prefere a lavagem? Não seria muito mais sensato "profissionalizar" o meu desespero? Tornar-me um mero prestador de serviços rituais. Queres um batismo? Aqui está a fatura, paga o emolumento e eu faço o teatro, sem perguntas, sem catequese, sem alma. Queres casar? Escolhe o pacote A, B ou C, paga a taxa de urgência e não me fales de fé. Eu passaria a ser um funcionário público do sagrado, com horário de expediente rigoroso e o coração devidamente blindado com uma camada espessa de cinismo. Vivia a minha vida, dedicava-me aos meus livros e músicas, às minhas viagens, aos meus silêncios, e tratava esta massa amorfa com o mesmo desprezo refinado com que eles tratam o Evangelho.
Seria, finalmente, um homem "moderno": focado no lucro, na agenda e no bem-estar individual. Deixaria de sofrer pela salvação de quem não se quer salvar. Deixaria de me indignar com a mentira de quem faz da mentira o seu modo de vida. Mas o problema é que, no fundo desta amargura, resta aquela voz incómoda que me sussurra que o Pastor não abandona as ovelhas, mesmo quando elas o tentam morder. É uma condenação, eu sei. A condenação de continuar a amar quem não sabe o que perde, de continuar a preparar a mesa para convidados que nunca vêm, e de, no fim do dia, fechar a porta da igreja com a mesma esperança teimosa e absurda de quem acredita que, amanhã, talvez um único coração se deixe tocar. Mas que a vontade de mandar as chaves para dentro do poço é grande... disso não tenham dúvidas.
(P. António Magalhães Sousa, Sopro e Vida, Facebook)