terça-feira, 15 de agosto de 2023

As Jornadas Mundiais da Juventude - Uma desilusão

 Recomendo ao Santo Padre que devolva aos jovens o seu natural desejo de melhorar o mundo com paus e pedras nas mãos e diga-lhes que só quer ver Seul a arder.


Desde o Maio de 68 que a juventude que os intelectuais admiram está empenhada em salvar o mundo, ou melhorar o mundo, ou transformar o mundo, ou então, se nada disso for possível, pegar fogo ao mundo. Para tal, vai para as ruas protestar contra alguma coisa, partir montras, incendiar carros e apedrejar a polícia. Essa alguma coisa é, na verdade, o Capitalismo e as suas ramificações: o colonialismo, o racismo, a discriminação sexual, o aquecimento global, os direitos dos animais, os bifes, e a violência policial. O protesto pacífico à moda de Gandhi há muito que passou de moda. O mais pacífico que os jovens conseguem é vandalizar obras de arte ou mostrar as mamas. Ou, então, ir para a rua culpar o Capitalismo pelas alterações climáticas, sendo eles próprios os principais consumidores que financiam esse mesmo sistema. Também o sonho de Luther King de a cor da pele desaparecer e todos os seres humanos serem iguais passou de moda. Pior ainda, tornou-se uma ideia racista. A guerra racial e o juste de contas histórico é que são modernos e recomendáveis.

Portanto, a juventude que os intelectuais admiram protesta, culpa os outros, é violenta, e, não raras vezes, faz figuras tristes.

É por isso mesmo que estas Jornadas Mundiais da Juventude foram uma profunda desilusão. O início até parecia prometedor: um grupo de jovens egípcios desatou à porrada num bar; os herdeiros de Torquemada invadiram uma missa LGBTQIA+ com zurros em latim; havia uma mistura potencialmente explosiva de religiões diferentes; e havia freiras à solta. Demais, alguns daqueles jovens tinham mesmo cara de quem gosta de se meter nos copos e armar desacatos. E algumas meninas até tinham belos seios católicos, decerto virginais, para mostrar ao mundo. Mas, infelizmente, nada disso aconteceu: nem cabeças rachadas, nem mamas ao léu, naturalmente a apontar para o céu.

Onde estavam os jovens de todas as religiões a lutarem entre si? Onde estavam os jovens com cartazes contra as injustiças sociais, contras as alterações climáticas, contra a falta de habitação e as rendas altas? Onde estavam os esvaziadores de pneus? Aqueles que idolatram ditaduras? As boinas Guevara e os lenços árabes? As ambulâncias e os carros da polícia? Em suma, onde estavam os jovens a protestar contra o Capitalismo, o Patriarcado e a Bruxa Má do Oeste? Nem um cocktail de água benta se viu.

E onde estavam os bêbedos e os drogados? Os grafitis e as borratadas? Valha-me Deus, que desilusão. Ao menos, podiam grafitar um peixinho e uma pombinha na peruca do Marquês de Pombal. 

Além disso, e a santa Greta? Porque não apareceu para tentar corrigir este desvio de uma juventude pacífica que substituiu o amor pelo ódio?

Foi por isso que os intelectuais se enfureceram tanto. Porque esta aberração dos jovens pacíficos que substituíram a religião moderna das guerras culturais pelas religiões antigas nunca deveria ter acontecido. Os intelectuais sabiam que aquele milhão de jovens que não protestou contra nada, que não partiu montras nem atirou pedras à polícia, que não deixou as ruas cheias de lixo só poderia ter sido vítima de uma lavagem ao cérebro com fins políticos. O Vaticano, a CIA, o Grande Capital e algumas tascas de bifes estão por detrás disto.

Por isso, recomendo ao Santo Padre que da próxima vez que organizar as Jornadas Mundiais da Juventude planifique a coisa como deve ser. Peça ajuda à Greta, aos mentores das guerras raciais, às feministas radicais, aos atacantes de obras de arte e, mais que tudo, aos intelectuais que admiram Cuba e a Venezuela, a Lula da Silva, assim como a todos os que consideram que foi a Ucrânia quem começou a guerra contra a Rússia. Apesar da sua extraordinária capacidade para escutar, ao Santo Padre não lhe será fácil ouvir este charivari de intolerância, ódio e charlatanice. Mas, com a ajuda do Espírito Santo e alguns ansiolíticos, lá conseguirá aguentar. 

Por fim, bem aconselhado, devolva aos jovens o seu natural desejo de melhorar o mundo com paus e pedras nas mãos e diga-lhes que só quer ver Seul a arder.

Os intelectuais ficarão então satisfeitos e considerá-lo-ão um Papa moderno, defensor dos oprimidos e amigo do planeta. 

Se este elogio lhe vai agradar ou envergonhar, isso só Deus sabe.

João Cerqueira, aqui

sábado, 12 de agosto de 2023

 

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

VER E SENTIR

 
No princípio era a verba. Depois a incapacidade de organização, seguida pela insegurança e os perigos da criminalidade.
E o" estado em que isto está" a patrocinar o evento.
Em cada dia, a contabilidade " eram não sei quantos mil" cálculos "talvez renais" sobre quantos por metro quadrado vezes x não pode ser um milhão e meio.
E a destruição dos espaços que essa "malta" ia pisar.
Entre muitos outros bitaites eram também os mortos e feridos sem assistência médica no local, ou nos hospitais.
E claro, as larachas , mesmo sendo o humor uma manifestação de fineza de espírito, algumas rondavam o achincalhamento, mas pronto, o humor, dizem, não tem limites nem fronteiras.
Amigos, não é nada disto que vos vou escrever porque não quero conspurcar o meu estado de tranquilidade e paz interior com as guerras de alecrim murcho e manjerona sem odor, mas com dor.
Só para vos dizer que vi, senti, e trouxe para dentro de mim, mais um pequeno valor acrescentado para o resto dos meus dias.
Da minha idade, ontem no Parque Tejo, estávamos em ampla minoria, mas com todo o direito a um acto de rejuvenescimento interior.
Da janela do autocarro em que seguia, às 3 da tarde, via ranchos de gente nova, bandeiras daquelas que nem sempre identificamos, a caminhar alegremente os quilómetros que ainda faltavam para lá chegar. E acenavam com sorrisos.
O "caos" para entrar foi uma caminhada em terra batida, saudados por "miudagem" de T-shirts amarelas que nos indicavam o caminho.
Não sei se uma hora depois já lá estava o milhão e meio das análises geográfico/matemáticas, mas quando a Sandra e eu chegámos, devemos ter feito a conta certa.
Fui sendo abordado por rádios de pequena , média e grande dimensão que me perguntavam sempre o que estava a sentir e porquê ali.
"Quero ver, viver e sentir mais de perto, a personagem mais notável do século XXI"... "Sei de cor algumas das suas frases, mesmo aquela que impressionou tanta gente, a da" única condição em que um homem pode olhar de cima para baixo para outro homem..." que não foi escrita pelo Papa , ( sim Johnny Welch, atribuída por engano a Gabriel Garcia Marquez, bendito seja o Google para tantos culturistas da cultura), e tomei nota de outras para me ensinar ainda mais qualquer coisa sobre a arte de viver.
Já sentado, tentava olhar em volta para um mar sem ondas alterosas que desaguava no rio ali em frente.
Esperar algumas horas dá para rememorar.
"Quando apertares a mão a um deficiente ou um pobre, isso não se contamina. Não vás a correr lavá-las"
" Mais vale sujar as mãos do que o coração".
Do lugar onde estávamos, via apenas de lado o palco das manchetes ,mas agora com desconto. Assim vi tudo pelo enorme ecrã ao nosso lado.
Quando os jovens de amarelo se começaram a alinhar num cordão já sabíamos que Francisco vinha aí.
E assim passou a três metros de nós, eu mais alto, consegui a foto que vos mostro e decidi que aquele aceno sorridente tinha sido só para mim.
A Vigília que se seguiu foi um momento de uma insondável espiritualidade e um acto cultural de rara qualidade.
A orquestra e coros em peças encantatórias, os bailados o canto de Carminho, e os momentos de silêncio do tal milhão e meio, foram para nós um privilégio, porque não estávamos em casa a ver pela televisão.
A música foi inteira e os silêncios esmagadores, respeitados.
E o Papa falou entre o texto escrito e o improviso.
Disse que podemos ser todos sementes de alegria, insistiu para que ultrapassemos os medos , que gosta de futebol mas que tal como o avançado que marca o golo resulta do seu treino, também nós devemos treinar muito esta dádiva de viver, e que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos, mas dos fortes.
A noite caía e no céu desenhavam-se em estrelas, mensagens de amor.
Após o Papa sair, a festa do encontro continuou. Fui fazendo selfies com gente que me abraçava e até um jovem me disse:- Esta foto é para a minha avó que também usa um aparelho nos ouvidos como o seu!
No caminho por onde Francisco tinha passado, desfilava agora um pelotão da Polícia. E não é que aquela "malta" os aplaudiu com entusiasmo. Devem ter sido os mesmos ou outros peregrinos, que ajudaram a limpar o Parque Eduardo VII que não ficou destruído como "preconizado".
De volta passámos pelos hospitais de campanha em actividade tranquila para casos de desidratação, cansaço ou até ansiedade. Tudo resolvido pelos médicos e enfermeiros sem tragédias de primeira página.
E agora? O Papa partiu e o mundo vai ficar diferente...já?! E Portugal que foi reportado por cinco mil jornalistas para todo o mundo terá amanhã os seus problemas resolvidos, o pão, a habitação, saúde e educação, porque paz até parece que vai existindo.
Francisco não resolve, alerta, desperta e nós temos que fazer o nosso papel.
Por isso, não contem comigo para polemizar sobre o que vi , senti e vivi.
Lisboa tem cheiros de flores e de mar como o papa também disse, sem assumir direito de autoria.
Pelo meu lado, confesso que só sei de orações, o Pai nosso e a Avé Maria aprendidos na escola há muitos anos. Não foi preciso repeti-las porque na Vigília a oração era um colectivo de silêncio inspirador.
Mas é nas pausas às vezes em noites de insónias, que falo com Ele porque preciso de quem me ouça.
Dei agora por mim a recordar uma frase de Elton John, que não é católico: - Francisco é um milagre de humanidade na era da vaidade.

JMJ 2023: Papa viveu «dias inesquecíveis», com mensagens para todos e desafios aos jovens

 Veja aqui: aqui



sexta-feira, 4 de agosto de 2023

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Francisco dançará connosco o seu último tango

 1.

O Papa chegará amanhã a Figo Maduro às dez da manhã.
Já tudo ou quase tudo se disse.
Francisco tem 86 anos e uma saúde frágil. É provável que não volte a Portugal, provável que a sua vida não se possa estender muito mais anos.
Amanhã, no final da madrugada, entrará num carro que o levará ao aeroporto. Duas horas depois aterrará neste nosso tão instável país.
2.
Tem sido a minha batalha, talvez inglória.
A de te dizer que será um privilégio aproveitar a vinda deste homem que nos ofereceu esperança, que nos soprou a palavra que, ao mesmo tempo, nos permite o milagre de voltar a acreditar e nos condena à inapelável desilusão do confronto com a realidade.
Temos de aproveitar Francisco enquanto aqui está.
De lhe agradecer a chispa de luz que continua a sair do seu corpo, do seu olhar terno, das suas desarmantes palavras.
Recordo-me de o ter visto a lavar os pés a um preso transsexual na Quinta Feira-Santa, noite em que se celebra a Última Ceia.
Lembro-me de o ter observado na visita que fez a um albergue de prostitutas. A maneira como as ouviu, como com elas trocou correspondência.
Lembro-me daquele homem deformado que nos obrigava a virar a cara, o modo como Francisco se aproximou e o abraçou e lhe beijou as feridas durante uns segundos que me pareceram a eternidade.
Lembro-me de Francisco celebrar a missa para uma Praça de São Pedro deserta pela força de uma pandemia que nos ameaçava com o holocausto.
Lembro-me de como convocou as vítimas de pedofilia para o palácio, de como incentivou os bispos em todo o mundo a abrirem as suas caixas de Pandora.
Lembro-me de o ver com crianças, a responder-lhes a todas as perguntas ou a pedir aos artistas para não se esquecerem dos pobres.
Lembro-me quando nos disse que era humano, que gostava de futebol e que adoraria poder voltar a passear incógnito nas ruas de Buenos Aires e a dançar um tango de Piazolla com uma mulher bonita.
3.
Sabes o que Francisco disse a Tolentino Mendonça quando o conheceu fora dos cumprimentos de circunstância?
“Senhor padre, acha que me pode conceder cinco minutos do seu tempo?”
Tolentino ficou atrapalhado, sem saber onde meter as mãos e o sorriso.
“Sua Santidade, o senhor é que me tem de conceder um bocadinho do seu tempo”.
E eles foram e encontraram-se no pequeno quarto de Tolentino, divisão que lhe fora destinada num retiro em Roma que, à última da hora, soube que teria a presença de Francisco.
Falaram quase uma hora.
E sabes do que falaram?
De Fernando Pessoa e de Jorge Luís Borges.
E no final da conversa, Francisco fez silêncio e perguntou a Tolentino se queria rezar com ele.
4.
Estas jornadas são decisivas para o que acontecerá após sua a partida.
Um homem que nos convoca para a ideia de pertença, para o martírio da esperança, para a urgência de questionamento, para a responsabilidade de estar à altura, para a vontade de combater por um mundo mais largo, para a constatação de que um ateu ou um agnóstico é também filho de Deus – mesmo que para ateus e agnósticos Deus continue a não existir.
E nele não há ponta de medo, já repararam? É como se levitasse por entre contrariedades, obstáculos, inimigos – que os tem e não tão poucos quanto isso.
4.
Impressionante como não se deixou corromper no olhar, a sua mais poderosa das armas. Um olhar capaz de devolver a dignidade aos que estão na cave do mundo, veremos isso quando o virmos rezar em Fátima ajoelhado e ao lado de alguns jovens a cumprir pena no Estabelecimento Prisional de Leiria.
Ou quando o virmos entre os miúdos de todo o mundo com os seus olhos de criança grande.
Teremos tempo para discutir as coisas más da Igreja e a relação com o Estado.
Mas amanhã chegará Francisco.
Um homem que tendo feito tanto, que tendo aberto tantas portas, continua a precisar do abraço do mundo para que a revolução não morra com ele.