sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Há mudanças na religiosidade dos portugueses, mas 80% continuam católicos!


Portugal está cada vez mais diverso em matéria de religião: cresce o número de pessoas sem fé religiosa

Portugal está a mudar, e essa transformação também se faz sentir na forma como os portugueses vivem a sua espiritualidade. Cada vez mais pessoas dizem não ter qualquer religião, enquanto outras confissões religiosas ganham espaço numa sociedade que se revela progressivamente mais diversificada.

Esta é uma das principais conclusões do estudo «Um Atlas da Religião em Portugal», publicado pela Universidade Católica Editora, com base nos Censos de 2021.

O dado que mais chama a atenção é o crescimento daqueles que não se identificam com nenhuma religião. Em apenas dez anos, este grupo mais do que duplicou, ultrapassando já 1,2 milhões de pessoas.

Apesar desta mudança, o catolicismo continua a ser a religião predominante no país. Cerca de oito em cada dez residentes identificam-se como católicos, embora a sua presença tenha diminuído ligeiramente em relação a 2011.

Um país, diferentes formas de acreditar

A religião católica continua a ter uma presença particularmente forte nos Açores, na Madeira e na região Norte. Em contrapartida, o Algarve e a Área Metropolitana de Lisboa apresentam uma menor expressão do catolicismo.

Mas Portugal já não é apenas um país de tradição católica. Outras comunidades cristãs têm vindo a ganhar visibilidade, nomeadamente protestantes, evangélicos, ortodoxos e Testemunhas de Jeová.

Também as religiões não cristãs estão cada vez mais presentes na sociedade portuguesa. Muçulmanos, hindus e budistas fazem parte de uma realidade cultural e religiosa que reflete, em grande medida, a diversidade das comunidades que escolheram Portugal para viver.

O Algarve e Odemira revelam uma nova realidade

Alguns dos exemplos mais interessantes desta diversidade encontram-se no Sul do país.

Lagos, Albufeira e Portimão destacam-se pela presença de diferentes comunidades cristãs, enquanto Odemira surge como o concelho onde as religiões não cristãs têm maior expressão.

Neste último caso, a presença de comunidades oriundas de diferentes países, sobretudo da Ásia, ajuda a explicar esta realidade. Hindus, budistas e muçulmanos contribuem para um mosaico religioso cada vez mais visível.

Albufeira, Lisboa, Odivelas e Amadora são também concelhos onde estas comunidades têm uma presença significativa.

Sines destaca-se pelo número de pessoas sem religião

Uma das revelações mais curiosas do estudo encontra-se em Sines. É neste concelho que se regista a maior proporção de pessoas que afirmam não professar qualquer religião.

Vila do Bispo e Grândola também se destacam por apresentarem uma percentagem elevada de residentes sem identificação religiosa.

No extremo oposto está Mesão Frio, no distrito de Vila Real, onde o catolicismo mantém uma presença extraordinariamente forte: praticamente todos os residentes se identificam como católicos.

Lisboa, o espelho da diversidade religiosa

Se há lugar onde a diversidade religiosa de Portugal se torna particularmente evidente, esse lugar é Lisboa.

A capital reúne comunidades de diferentes origens e tradições religiosas. Embora o catolicismo continue a ser maioritário, a cidade destaca-se pela presença de muçulmanos, hindus e seguidores de outras religiões.

Mais do que uma simples mudança estatística, esta realidade mostra como a sociedade portuguesa está a transformar-se, acompanhando os movimentos migratórios e as novas formas de viver a fé — ou de não a viver.

Uma sociedade em transformação

Os dados deste estudo revelam um Portugal onde a tradição religiosa continua a ter importância, mas já não representa a única realidade.

Há quem mantenha a fé dos seus antepassados, quem descubra outras tradições espirituais e quem prefira viver sem qualquer ligação religiosa.

No fundo, Portugal está a tornar-se um país mais plural, onde diferentes crenças, culturas e formas de pensar coexistem.

E talvez essa seja a mensagem mais importante deste retrato: a identidade religiosa dos portugueses está a mudar, e o país está cada vez mais longe de ser religiosamente homogéneo.

Fonte: aqui

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Uma Europa em protesto: onde estão a justiça, o diálogo e a autoridade?

 A Europa e Portugal vivem tempos de inquietação. Multiplicam-se as manifestações em torno da escola, da habitação, do custo de vida, dos salários e das desigualdades sociais. A estas reivindicações juntam-se causas internacionais, como a Palestina, e questões relacionadas com os direitos das minorias. São motivos diferentes, por vezes legítimos, que nem sempre escapam à instrumentalização política.´

O que nos dizem estes protestos? Que há pessoas que não se sentem ouvidas, famílias com
dificuldades e jovens sem confiança no futuro. Ignorar este descontentamento seria um erro. Mas também importa perguntar se certas forças políticas mais extremistas não aproveitam causas legítimas para promover a divisão e o confronto... A crítica é legítima, mas exige factos: nem todos os manifestantes partilharão as mesmas intenções.

A liberdade de manifestação é um direito fundamental. Contudo, não justifica a violência, o vandalismo ou o desrespeito pelos outros. A intervenção policial pode ser necessária, mas deve ser proporcional e respeitar os direitos dos cidadãos.

E os governos? Governar não é apenas reagir às crises. É antecipar problemas, tomar decisões corajosas e apresentar soluções concretas. A habitação, a educação e o custo de vida exigem mais do que promessas e respostas de circunstância. Exigem competência, sentido de Estado e responsabilidade.

Do ponto de vista do humanismo, não podemos ficar indiferentes. A dignidade humana, a justiça, a solidariedade e o bem comum obrigam-nos a olhar para quem sofre, independentemente da sua origem ou condição. O sofrimento dos palestinianos, os direitos das minorias e as dificuldades das famílias portuguesas merecem atenção e respeito.

Mas o Evangelho também nos alerta para o perigo do ódio, da manipulação e da divisão. Cristo não nos pede indiferença perante a injustiça, mas também não nos ensina a combater a injustiça com outra injustiça.

A Europa não precisa de menos liberdade, mas de mais responsabilidade. Precisa de governos que saibam governar, de cidadãos que saibam reivindicar e de instituições que saibam escutar. A autoridade sem justiça torna-se abuso; a liberdade sem responsabilidade transforma-se em desordem.

O desafio é construir uma sociedade em que ninguém seja ignorado, nenhuma causa seja manipulada e a dignidade humana esteja acima dos interesses partidários. É também esse o testemunho que os cristãos são chamados a dar: defender a verdade, promover a justiça e trabalhar pela paz, sem se deixarem aprisionar pelas trincheiras ideológicas.

domingo, 11 de outubro de 2026

Boas maneiras: onde é que elas param?


Antigamente, aprendia-se em casa a cumprimentar quem chegava, a respeitar os mais velhos, a agradecer um favor e a pedir licença. Na escola, reforçavam-se essas regras simples, que ajudavam cada um a saber estar. Não era preciso andar de fato e gravata, nem falar de maneira complicada. Bastava ter educação.

Hoje, há hábitos que parecem ter caído em desuso. Não se trata de dizer que tudo era melhor antigamente, nem de querer voltar a outros tempos. Trata-se apenas de perguntar por que razão certas regras tão simples estão a ser esquecidas. Vejamos alguns exemplos:

  • Dizer palavrões em qualquer conversa, mesmo na presença de crianças ou pessoas mais velhas.

  • Falar aos gritos, interromper os outros e querer ter sempre a última palavra.

  • Não cumprimentar quem chega nem se levantar para receber uma visita.

  • Tratar por «tu» pessoas mais velhas ou desconhecidas, sem ter confiança para isso.

  • Não ceder passagem nas portas nem dar o lugar a quem precisa, nos transportes públicos.

  • Furar filas ou fingir que não se vê quem chegou primeiro.

  • Estar à mesa com os olhos no telemóvel e atender chamadas durante a refeição.

  • Começar a comer antes de os outros estarem servidos, mastigar de boca aberta ou falar com a boca cheia.

  • Servir-se em excesso, sem pensar se chega para todos.

  • Ir à igreja ou a uma cerimónia com roupa própria para a praia.

  • Levar cães para espaços públicos e não apanhar os dejectos que deixam no chão.

  • Deixar os animais aproximarem-se de outras pessoas sem saber se estas o desejam.

  • Fazer barulho com motas, carros ou música em volume tão alto que toda a vizinhança é obrigada a ouvir.

  • Estacionar nos passeios, bloquear entradas ou ocupar lugares destinados a pessoas com deficiência.

  • Deixar que a paixão pelo futebol dê lugar a insultos e ofensas, esquecendo que o desporto, mesmo nos jogos dos mais jovens, deve ser uma escola de respeito e de fair-play.

  • Chegar atrasado e não pedir desculpa.

  • Interromper uma conversa para contar uma história própria, sem deixar os outros acabar de falar.

  • Usar as redes sociais para insultar, espalhar boatos ou humilhar outras pessoas.

  • Confundir sinceridade com falta de delicadeza e à-vontade com falta de respeito.

  • Deixar lixo no chão, nas bermas das estradas, nos jardins ou nos locais de convívio.

Poderíamos continuar. São coisas pequenas, dirão alguns. Mas é precisamente nas coisas pequenas que se vê a educação de cada um. E não custa dinheiro cumprimentar, agradecer, pedir licença, falar sem ofender ou respeitar o sossego dos outros.

A boa educação não é coisa do passado. É uma necessidade de todos os dias. Não exige riqueza, estudos ou posição social. Aprende-se em casa, cultiva-se na escola e mostra-se na maneira como vivemos e convivemos. Se queremos uma terra mais agradável para viver, comecemos por aquilo que está ao alcance de cada um: voltar a dar valor às boas maneiras.