domingo, 11 de outubro de 2026

Boas maneiras: onde é que elas param?


Antigamente, aprendia-se em casa a cumprimentar quem chegava, a respeitar os mais velhos, a agradecer um favor e a pedir licença. Na escola, reforçavam-se essas regras simples, que ajudavam cada um a saber estar. Não era preciso andar de fato e gravata, nem falar de maneira complicada. Bastava ter educação.

Hoje, há hábitos que parecem ter caído em desuso. Não se trata de dizer que tudo era melhor antigamente, nem de querer voltar a outros tempos. Trata-se apenas de perguntar por que razão certas regras tão simples estão a ser esquecidas. Vejamos alguns exemplos:

  • Dizer palavrões em qualquer conversa, mesmo na presença de crianças ou pessoas mais velhas.

  • Falar aos gritos, interromper os outros e querer ter sempre a última palavra.

  • Não cumprimentar quem chega nem se levantar para receber uma visita.

  • Tratar por «tu» pessoas mais velhas ou desconhecidas, sem ter confiança para isso.

  • Não ceder passagem nas portas nem dar o lugar a quem precisa, nos transportes públicos.

  • Furar filas ou fingir que não se vê quem chegou primeiro.

  • Estar à mesa com os olhos no telemóvel e atender chamadas durante a refeição.

  • Começar a comer antes de os outros estarem servidos, mastigar de boca aberta ou falar com a boca cheia.

  • Servir-se em excesso, sem pensar se chega para todos.

  • Ir à igreja ou a uma cerimónia com roupa própria para a praia.

  • Levar cães para espaços públicos e não apanhar os dejectos que deixam no chão.

  • Deixar os animais aproximarem-se de outras pessoas sem saber se estas o desejam.

  • Fazer barulho com motas, carros ou música em volume tão alto que toda a vizinhança é obrigada a ouvir.

  • Estacionar nos passeios, bloquear entradas ou ocupar lugares destinados a pessoas com deficiência.

  • Deixar que a paixão pelo futebol dê lugar a insultos e ofensas, esquecendo que o desporto, mesmo nos jogos dos mais jovens, deve ser uma escola de respeito e de fair-play.

  • Chegar atrasado e não pedir desculpa.

  • Interromper uma conversa para contar uma história própria, sem deixar os outros acabar de falar.

  • Usar as redes sociais para insultar, espalhar boatos ou humilhar outras pessoas.

  • Confundir sinceridade com falta de delicadeza e à-vontade com falta de respeito.

  • Deixar lixo no chão, nas bermas das estradas, nos jardins ou nos locais de convívio.

Poderíamos continuar. São coisas pequenas, dirão alguns. Mas é precisamente nas coisas pequenas que se vê a educação de cada um. E não custa dinheiro cumprimentar, agradecer, pedir licença, falar sem ofender ou respeitar o sossego dos outros.

A boa educação não é coisa do passado. É uma necessidade de todos os dias. Não exige riqueza, estudos ou posição social. Aprende-se em casa, cultiva-se na escola e mostra-se na maneira como vivemos e convivemos. Se queremos uma terra mais agradável para viver, comecemos por aquilo que está ao alcance de cada um: voltar a dar valor às boas maneiras.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Região do Douro. Só tem margem norte???


O bispo de Vila Real lembrou a “difícil situação das pessoas que se dedicam à atividade da vinha e do vinho”, e os migrantes que trabalham nesta região do Douro, na Missa da Festa das Vindimas, na Régua.
“A Festa deste dia não nos pode fazer esquecer a difícil situação das pessoas da região que se dedicam à atividade da vinha e do vinho. De facto, há muitos que se debatem com grandes dificuldades e que cedem ao desânimo. Esta situação que se vem arrastando ao longo dos anos exige que todos os diretamente envolvidos busquem em conjunto os melhores caminhos”, disse D. António Augusto Azevedo, este domingo, dia 27 de setembro, no Museu do Douro, na Régua.
Na Festa das Vindimas 2026, momento solene de ação de graças a Deus no Peso da Régua, o bispo de Vila Real partilhou “gratidão e profunda admiração” por todas as pessoas que, ao longo de uma vida, “sempre se dedicaram ao Douro e à vinha”, o “trabalho é duro mas muito digno”.

A nossa Igreja está verdadeiramente no meio da vida das pessoas ou está cada vez mais fechada sobre si própria?


Há uma Igreja na margem norte do Douro que parece ter olhos para a vida concreta das pessoas.

Na Festa das Vindimas, na Régua, o bispo de Vila Real falou da vinha, do vinho, da dureza do trabalho, das dificuldades de quem vive desta atividade e também dos migrantes que aqui trabalham. Agradeceu, reconheceu, mas também denunciou. Falou de pessoas concretas, de problemas concretos, de uma situação que se arrasta há anos. E pediu que todos os diretamente envolvidos procurem, em conjunto, os melhores caminhos.

É uma Igreja que não se limita a rezar sobre o Douro: olha para o Douro, escuta o Douro e fala do Douro. Uma Igreja que agradece, anuncia, mas também denuncia. Que pede intervenção quando a vida das pessoas assim o exige.

E depois atravessamos o rio.

Na margem sul, às vezes parece que vivemos noutro Douro. Indiferentes ao mundo, continuamos a coçar para dentro: os nossos retiros, as nossas recoleções, as nossas assembleias, os nossos jubileus, as nossas reuniões, as nossas preocupações internas.

Uma Igreja que só coça para dentro acaba por se tornar autófaga. Alimenta-se de si própria, fala consigo própria e corre o risco de deixar de ouvir a vida que acontece à sua volta.

Mas o Douro não acaba na margem norte.

Também deste lado há gente envelhecida, há isolamento, há solidão, há pobreza, há agricultores e trabalhadores com dificuldades, há jovens que partem, há comunidades que definham. Há muita vida calejada. E há pessoas que não têm vez nem voz.

Onde está a Igreja que lhes dá vez? Onde está a Igreja que empresta a sua voz a quem não a consegue fazer ouvir?

Não se trata de comparar dioceses nem de distribuir culpas. Trata-se de fazer uma pergunta simples e incómoda:

A nossa Igreja está verdadeiramente no meio da vida das pessoas ou está cada vez mais fechada sobre si própria?

O Douro tem duas margens.

E uma Igreja que queira ser presença, palavra e profecia não pode escolher apenas uma delas.