terça-feira, 7 de julho de 2026

OS QUE PARTEM, OS QUE FICAM!

- OS QUE PARTEM!
- E lá se vai definitivamente a Fraternidade São Pio X, após décadas de paciência da Santa Sé, após terem passado por 5 Papas que ao longo de seus Pontificados não pouparam esforços e humildade em dialogar e estarem sempre de braços abertos em receber seus líderes para a plena comunhão;
- Eles partem com seus 6 Bispos, algumas centenas de padres e alguns milhares de fiéis, agora fora da comunhão da sucessão apostólica, fora da comunhão com a Igreja Una, Santa, católica e Apostólica, fora da Bênção Apostólica do sucessor de Pedro, o Papa Leão XIV;
- Eles partem fechados em seu tradicionalismo, e ao ficar com este tradicionalismo deixam a Tradição Apostólica, rompem com as palavras de Cristo dirigidas a Pedro: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18);
- Não posso dizer que me alegro com esta partida como tenho visto e ouvido de muitos: Já foram tarde! São rebeldes? Sim! Desobedeceram a Igreja e os Papas? Sim! Mas não consigo deixar de pensar que ainda que rebeldes e desobedientes ainda são nossos irmãos tal qual filho pródigo que se foi e o Pai chorou sua partida, imagino também como está o coração de sua Santidade o Papa Leão...
....ninguém quer separação! Ninguém quer cisma! É sempre uma ferida que fica! É o corpo de Cristo que foi ferido, são membros rompidos que se foram e tal qual corpo físico que quando sofre um ferimento dói também a Igreja como corpo de Cristo também sofre, por mais rebeldes e desobedientes e agora cismáticos que sejam!
- O Papa Leão foi firme e não poderia deixar de sê-lo em nome da unidade da Igreja, em nome do direito canônico, em nome daqueles que mesmo não concordando com alguma coisa na Igreja são obedientes à Igreja e sua unidade!
- OS QUE FICAM!
- Nós que aqui ficamos, ficamos com o Papa Leão XIV, ficamos com os 5.430 Bispos presentes no mundo inteiro, ficamos com os 406.900 Padres, com os 51.400 Diáconos permanentes, ficamos com os cerca de 106.495 mil seminaristas, ficamos com as 608,958 religiosas...e ficamos as centenas de Congregações Religiosas com seus Religiosos e Religiosas e muitas delas milenares que com suas vocações e carismas específicos enriquecem toda a Igreja! Com os demais 1.400 Bilhão de católicos no mundo inteiro;
- Ficamos com o Concilio Vaticano Segundo, que, graças a ação do Espirito Santo abriu as portas da Igreja para o mundo, para a Palavra de Deus, para a Santa Missa Celebrada em cada idioma de cada parte deste mundo e assim cada um destes 1.400 Bilhão de católicos possam ouvir a palavra de Deus e a Santa Liturgia em sua própria língua.........Que maravilha!
- Ficamos com o Concilio Vaticano II que pela força do Espirito Santo fez florescer dezenas de novos movimentos de leigos com diferentes dons e carismas, novas comunidades e associações de fiéis leigos fazem com que a Igreja através de sua face laical chegue onde a hierarquia não consegue chegar, cumprindo-se assim a vértebra da missão dos leigos: “Vós sois o sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-14);
- Ficamos com o Concilio Vaticano II que tal em sua primeira edição conhecido como o Concilio de Jerusalém (At 15,4-30) souberam ler os sinais dos tempos e como Igreja Universal respondem aos mais profundos anseios do Homem de seu tempo....
ESTA LEITURA A FRATERNIDADE SÃO PIO X NÃO SOUBE FAZER!
-PRINCIPALMENTE A LEITURA E A GRANDE DIFERENÇA ENTRE “TRADIÇAO” E “TRADICIONALISMO”
- Nós que ficamos, ficamos com São Pedro e São Paulo, cuja solenidade acabamos de celebrar, ficamos com o Papa São Pedro até o nosso Leão XIV, ficamos com o trabalho destes milhares de Bispos, Padres, Religiosos e Religiosas que mundo afora trabalham incansavelmente anunciando a Palavra de Deus e levando os Sacramentos da Salvação na língua onde cada católico possa ouvir e entender;
- Nós que ficamos, ficamos com a profunda e atual palavra do Papa Leão através de sua “MAGNIFICAT HUMANITAS” que mais uma vez como todas as Cartas Encíclicas de todos os demais Papas e pronunciamentos oficiais do Magistério da Igreja lançam luzes sobre a sociedade e a ilumina com a Palavra de Deus e sua Doutrina (CF: GS-3);
- ESTA LEITURA A FRATERNIDADE SÃO PIO X NÃO SOUBE FAZER!
- TAMBÉM NÃO SOUBERAM FAZER A LEITURA DA OBEDIENCIA, SALVAGUARDA DA UNIDADE NA IGREJA!
-Amo demais esta minha Igreja: UNA, SANTA, CATÓLICA E APOSTÓLICA!
- Nós que ficamos, ficamos sim porque sabemos o que significa o SENTIMENTO DE PERTENÇA A IGREJA que Dom Antônio de Assis Ribeiro (Que quando disse estas palavras, então Bispo auxiliar de Belém, hoje Bispo de Macapá):
“O SENTIMENTO DE PERTENÇA À IGREJA NASCE DE UM PROFUNDO VINCULO COM A IGREJA. TRATA-SE DE UMA REALIDADE QUE BROTA DA CONSCIENCIA DO BATISMO. PORTANTO, NA SUA ORIGEM HÁ UMA REALIDADE DE FÉ QUE SE FAZ RELAÇÃO AFETIVA”.
- NÓS QUE FICAMOS, FICAMOS COM O CONCILIO VATIVANO II, FICAMOS COM O PAPA LEÃO XIV!
- ABRAÇO AMIGO!
CRISTÓVÃO GONÇALVES!

terça-feira, 30 de junho de 2026

O Estado não pode desperdiçar o tempo dos cidadãos

 
Na semana passada dirigi-me à Loja do Cidadão para alterar a morada do meu Cartão de Cidadão. Levei o cartão e fui atendido com toda a simpatia e profissionalismo. Informaram-me de que seria enviado um código para o meu telemóvel. Como não costumo andar com o telemóvel – utilizo-o apenas quando preciso – tive de regressar a casa para o ir buscar. Felizmente, moro muito perto.

Recebi depois uma carta com códigos e voltei à Loja do Cidadão. Levei o Cartão de Cidadão e o documento que me tinham entregue na primeira visita. Nunca me passou pela cabeça que voltaria a ser necessário levar o telemóvel. Afinal, era. Resultado: mais uma viagem a casa e novo regresso à Loja do Cidadão.

No meu caso, tratou-se apenas de um incómodo. Mas imagine-se um cidadão que viva a dez ou quinze quilómetros da Loja do Cidadão, sem automóvel e com escassos transportes públicos. Ou um idoso que não utiliza telemóvel, ou que o usa apenas para fazer e receber chamadas. Ou alguém que não domina as ferramentas digitais. Quantas deslocações? Quanto tempo perdido? Quanta frustração?

É verdade que muitos destes procedimentos já podem ser feitos pela Internet. Mas essa solução não serve todos os cidadãos. Um Estado moderno deve apostar na digitalização sem esquecer aqueles que não têm competências digitais ou que, por opção, não vivem permanentemente dependentes de um telemóvel.

Importa deixar um ponto muito claro: os funcionários da Loja do Cidadão não têm qualquer responsabilidade por esta situação. Pelo contrário, fui tratado com competência, educação, disponibilidade e grande profissionalismo. Eles limitam-se a cumprir procedimentos que lhes são impostos.

O verdadeiro problema está na forma como o Estado continua a organizar demasiados dos seus serviços. Cada exigência pode parecer insignificante quando analisada isoladamente. Mas, somadas, representam milhões de horas desperdiçadas todos os anos por cidadãos e empresas. Horas que deixam de ser dedicadas ao trabalho, à família, ao descanso, ao estudo ou à criação de riqueza.

Depois admiram-se de que Portugal tenha dificuldades em aumentar a produtividade. Como poderá um país ser produtivo quando obriga diariamente os seus cidadãos a perder tempo em procedimentos que poderiam ser muito mais simples? A burocracia tem um enorme custo económico, mas tem também um custo humano e psicológico, invisível nas estatísticas.

É difícil não sentir que existe um enorme desfasamento entre as preocupações dos cidadãos e as prioridades da classe política. Enquanto milhares de portugueses perdem horas em burocracias evitáveis, grande parte do debate político parece consumir-se em polémicas, confrontos partidários e assuntos que pouco alteram a vida quotidiana das pessoas.

Os cidadãos esperam dos seus representantes algo mais do que discursos e disputas. Esperam que utilizem o poder que lhes foi confiado para remover obstáculos, simplificar procedimentos e tornar o Estado mais eficiente. Se a burocracia continua a consumir tempo, recursos e energia, é legítimo perguntar: quem assume a responsabilidade por essa realidade?

A função de um Parlamento não é apenas legislar. É também identificar os problemas concretos do país e resolvê-los. Enquanto a simplificação da vida dos cidadãos não ocupar um lugar central na agenda política, continuará a existir uma distância preocupante entre quem governa e quem é governado.

Não precisamos de um Estado mais complicado. Precisamos de um Estado mais inteligente. Um Estado que respeite o tempo dos cidadãos, porque o tempo é um dos bens mais preciosos que possuímos e nunca pode ser devolvido.

Portugal tem excelentes profissionais na Administração Pública. O que muitas vezes lhes falta não é competência, mas procedimentos mais simples, mais claros e mais humanos. Desburocratizar não significa diminuir a segurança nem facilitar a fraude. Significa eliminar etapas inúteis, evitar deslocações desnecessárias, confiar mais na tecnologia quando ela ajuda e oferecer alternativas quando ela não serve todos.

A grande questão é esta: haverá vontade política para enfrentar seriamente este problema? Porque a burocracia não é uma fatalidade. É uma opção de organização. E aquilo que foi criado por decisões políticas pode ser mudado por decisões políticas.

Talvez tenha chegado o momento de exigir menos discursos e mais resultados. Menos conflitos estéreis e mais reformas concretas. Menos tempo perdido em discussões que amanhã ninguém recordará e mais tempo dedicado a resolver os problemas reais das pessoas.

Os portugueses não pedem privilégios. Pedem apenas que o Estado respeite o seu tempo, a sua inteligência e a sua dignidade. E esse é, afinal, um dos primeiros deveres de qualquer democracia que queira merecer esse nome.

domingo, 28 de junho de 2026

Participei na celebração das Bodas de Ouro Sacerdotais do Pároco da minha Paróquia natal


Há celebrações que passam pelo calendário; outras ficam gravadas na memória. A desta tarde pertence, sem dúvida, às segundas.

Na minha Paróquia natal celebrou-se o jubileu dos cinquenta anos de sacerdócio do P.e Cón. Joaquim de Assunção, dos quais vinte e seis vividos ao serviço daquela comunidade paroquial. Foi uma tarde em que a gratidão encontrou voz e em que a fé se fez festa.

A paróquia, dispersa por vários povos, alguns separados por quilómetros e caminhos, revelou aquilo que verdadeiramente a une. As distâncias não venceram a comunhão. Pelo contrário, todos convergiram para o mesmo altar, como ramos de uma mesma árvore que encontram na raiz a sua força.

Tudo respirava harmonia. O acolhimento discreto e fraterno, a organização sem sobressaltos, o coral que elevava a oração, as leituras proclamadas com dignidade, o ofertório vivido com solenidade. Nada procurava protagonismo; tudo apontava para o essencial. Quando cada um serve com humildade o lugar que lhe pertence, a beleza acontece naturalmente.

Também o Senhor Bispo, que presidiu à Eucaristia, soube conduzir a celebração com serenidade e elevação, ajudando a assembleia a viver aquele momento com profundidade.

No final, um simples conjunto de imagens tornou-se muito mais do que uma apresentação. Foi uma peregrinação pela vida do Cón. Joaquim: as marcas da sua história humana, a resposta ao chamamento de Deus, os anos de estudo, o ministério sacerdotal e o serviço pastoral. As imagens iam passando, mas eram cinquenta anos de entrega que desfilavam diante dos nossos olhos, vinte e seis deles profundamente entrelaçados com a história daquela paróquia.

Seguiu-se a homenagem das instituições que caminham lado a lado com esta comunidade — a Autarquia, a Junta de Freguesia, a Paróquia e a Santa Casa da Misericórdia. Cada uma fez chegar ao jubilado palavras de apreço, reconhecimento e gratidão, acompanhadas de ofertas que quiseram ser mais do que simples lembranças: expressão visível da estima de um povo por quem o serviu com fidelidade, dedicação e generosidade.

Por fim, falou o aniversariante. E fê-lo como vivem os homens de Deus: sem grandiloquência, com a serenidade de quem sabe que tudo é graça. As suas palavras tiveram a beleza dos testemunhos que não precisam de adornos, porque nascem de uma fé amadurecida no tempo e confirmada pela vida.

Regresso desta celebração com a alegria de ver a minha terra natal unida em torno de um sacerdote que, durante vinte e seis anos, caminhou com este povo, partilhando as suas alegrias e dores, anunciando o Evangelho e edificando a comunidade. Hoje, a homenagem foi ao Cón. Joaquim; mas foi também uma bela homenagem à própria paróquia, que soube agradecer com elegância, dignidade e coração.

Parabéns aos meus conterrâneos. Estiveram verdadeiramente à altura da ocasião.

E parabéns, meu caro Abade! Que Deus continue a recompensar a fidelidade de quem, há cinquenta anos, respondeu "sim" ao seu chamamento e continua a fazer desse "sim" um dom quotidiano para a Igreja e para o povo que lhe foi confiado.

sábado, 13 de junho de 2026

Seguradoras: Clientes Durante Décadas, Descartáveis na Velhice

 
Ao longo de décadas, as seguradoras gostam de falar de confiança, proximidade e proteção. Fazem campanhas emotivas, apresentam-se como parceiras para toda a vida e prometem estar presentes nos momentos mais difíceis. Mas a realidade de muitos clientes, sobretudo dos mais idosos, é bem diferente.

Durante décadas, um cliente paga os seus prémios, raramente dá despesa e contribui para os resultados da empresa. Porém, quando a idade avança e a necessidade de cuidados de saúde aumenta, o prémio sobe sucessivamente até atingir valores incomportáveis. O que era apresentado como uma rede de proteção transforma-se, na prática, num mecanismo de exclusão económica. Não é a seguradora que rescinde o contrato; limita-se a aumentar o preço até o cliente ser empurrado para fora do sistema.

A crueldade desta lógica está precisamente no momento em que ela se manifesta. Quando a pessoa é mais jovem e saudável, é um cliente desejado. Quando envelhece e mais precisa da cobertura pela qual pagou durante anos, passa a ser um custo a reduzir. O mercado chama-lhe gestão de risco. Muitos cidadãos chamam-lhe abandono.

Mais chocante ainda é a desatenção humana que frequentemente acompanha estas situações. Décadas de fidelidade podem terminar sem um telefonema, sem uma proposta alternativa, sem uma tentativa séria de encontrar uma solução. O cliente deixa de ser uma pessoa com uma história; passa a ser apenas um número numa folha de cálculo. A relação construída ao longo de décadas evapora-se no instante em que deixa de ser suficientemente rentável.

E o silêncio de muitos intermediários e responsáveis que, perante estas situações, se limitam a encolher os ombros e a dizer que “nada podem fazer”??? Curiosamente, são muitas vezes as mesmas vozes que, quando ocupam espaços de intervenção social, exigem respostas imediatas para os problemas da saúde, do envelhecimento e da solidão dos idosos. Nesses momentos, multiplicam-se as propostas, os discursos e as exigências. Mas quando vestem o fato empresarial, a indignação desaparece, substituída pela resignação perante as regras do mercado.

Esta dualidade é difícil de aceitar. Não se pode exigir responsabilidade social num contexto e invocar impotência noutro. Não se pode defender os idosos nos discursos e ignorá-los nas decisões que afetam diretamente a sua vida. A coerência mede-se precisamente quando os interesses económicos entram em conflito com os princípios proclamados.

O caso dos seguros de saúde para os mais velhos revela uma contradição profunda da nossa sociedade: fala-se muito de envelhecimento digno, mas aceita-se com demasiada facilidade que aqueles que contribuíram durante décadas sejam afastados dos sistemas de proteção exatamente quando deles mais necessitam. E o mais inquietante não é apenas a política das seguradoras. É o silêncio conformado de quem, noutras circunstâncias, faz da exigência e da denúncia uma bandeira permanente.

Porque há silêncios que dizem tanto quanto os discursos. E há omissões que revelam mais sobre os valores de uma pessoa ou de uma instituição do que todas as declarações de boas intenções.

domingo, 7 de junho de 2026

Subida à serra pela Daniela

No dia 5 de junho de 2026, a nossa Daniela faria 55 anos. Há 5 meses deixou de estar connosco fisicamente e quisemos relembrá-la de uma forma bonita, num sítio especial, a Serra de Santa Helena.

Quando a dor se transforma em amor tudo se torna mais suportável e foi assim com esta caminhada, esta oração, este momento de partilha e amizade.
Só assim faria sentido pela Daniela que sempre viveu com os outros e pelos outros, sempre pronta a dar a mão a todos, a cuidar e a estar presente sem pedir nada em troca. Queremos agora que a sua energia e vontade de viver se transformem em fé e força para continuar a caminhar, por ela e com ela, sempre!
E assim, caminhamos, rimos, choramos, rezamos, tal e qual como ela gostava.
Num mar de gente viveu, num mar de gente nos despedimos, num mar de gente a recordamos.
No meio de amigos e família, que nunca nos falharam, que dizem sempre "presente" e que todos os dias tornam esta caminhada da vida um bocadinho mais leve.
A nossa profunda gratidão a todos.
A ti, Daniela, obrigado por tudo, mas principalmente pelo exemplo de vida que nos deixaste!
Caminharemos sempre por ti.
Débora e Miguel

Em total sintonia com o testemunho do marido e da filha. 
Daniela, uma amiga que nunca morrerá no coração de uma multidão de amigos!
Daniela, coloca-nos sempre no Coração  de Jesus! 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Petizes, abandonados na estrada, encontraram humanidade no coração de um desconhecido


Há notícias que passam pelos olhos.
E há outras que ficam alojadas no peito.

A história daquelas duas crianças francesas encontradas sozinhas numa estrada do Alentejo pertence à segunda categoria. Não apenas pelo abandono em si, mas pelo silêncio que ele carrega. Porque nenhuma criança devia conhecer o medo da solidão antes de aprender plenamente o significado da palavra “proteção”.

É impossível não pensar no que lhes terá passado pela cabeça naquele momento. A espera. A fome. O frio. O calor. A ausência de respostas. Crianças não compreendem estratégias de adultos, conflitos emocionais ou desorientações da vida. Compreendem apenas gestos. E quando um adulto desaparece, o mundo inteiro parece desaparecer com ele.

Sem julgamentos precipitados, porque a verdade completa raramente cabe nas manchetes, permanece inevitável a inquietação perante o papel da mãe e do padrasto. O que leva dois adultos a permitirem que duas crianças cheguem a um cenário destes? Que fragilidade, egoísmo, desespero ou ausência de consciência pode sobrepor-se ao dever primordial de proteger? Há perguntas que não precisam de tribunal para doerem.

Mas no meio da escuridão desta história houve uma luz profundamente portuguesa. Um cidadão anónimo que não virou a cara. Que viu duas crianças antes de ver um problema. Que escolheu acolher em vez de ignorar. Dar água. Dar comida. Dar colo emocional quando o mundo lhes tinha acabado de falhar.

É nesses gestos discretos que ainda se salva a esperança humana.

Num tempo em que tantas vezes se fala de indiferença, houve alguém que parou. E às vezes salvar um pedaço da humanidade é exatamente isso: parar. Escutar. Aproximar-se. Cuidar.

As crianças talvez nunca compreendam totalmente a dimensão daquele encontro no Alentejo. Mas um dia perceberão que, no momento em que mais precisaram, apareceu alguém que lhes devolveu aquilo que nunca devia faltar a uma criança: segurança, dignidade e humanidade.

E talvez seja essa a parte mais importante desta história.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Santuários cheios… mas que fica no coração das pessoas?


Os grandes santuários portugueses continuam a atrair multidões. Em especial Santuário de Fátima, mas não só. De norte a sul do país, milhares de pessoas peregrinam todos os anos movidas pela fé, pela tradição, pela dor, pela esperança ou pela gratidão.

Vai-se a pé, de carro, em grupo ou sozinho. Acendem-se velas, cumprem-se promessas, fazem-se procissões, dão-se voltas de joelhos, multiplicam-se pedidos e lágrimas silenciosas.

Mas é inevitável perguntar: que fica verdadeiramente de tudo isto?

Que leva o peregrino para casa além da emoção do momento ou da sensação de dever cumprido? Que mudança acontece na vida? Que conversão? Que maior seguimento de Cristo? Que compromisso com a comunidade cristã, com os pobres, com a justiça, com a paz, com a dignidade da vida humana?

O problema não é a peregrinação. O povo continua a mostrar uma sede espiritual impressionante. O problema é outro: muitos dos nossos santuários parecem contentar-se com recintos cheios, sem perceber que multidão não significa necessariamente evangelização.

Por vezes, dá a impressão de que o sucesso pastoral se mede pelo número de velas queimadas, pelas estatísticas de peregrinos ou pela dimensão das celebrações. Mas uma Igreja não vive de enchentes; vive de pessoas transformadas pelo Evangelho.

E aqui surge uma fragilidade evidente: a comunicação da mensagem cristã.

Em muitos santuários, as homilias tornam-se longas, abstractas, excessivamente formais, “eclesialmente correctas”, mas incapazes de tocar profundamente a vida concreta das pessoas. Dizem coisas certas, sem dúvida, mas poucas permanecem na memória do povo. Poucas inquietam. Poucas formam. Poucas mobilizam para uma vida cristã mais séria e comprometida.

Depois da celebração terminar, que ideia fica? Que frase acompanha o peregrino no regresso a casa? Que apelo continua a ecoar durante a semana?

Falta frequentemente uma comunicação mais viva, mais simples, mais directa e mais humana. Falta uma linguagem que fale ao coração sem perder profundidade. Falta transformar a riqueza da fé em mensagens claras, memoráveis e mobilizadoras.

Não sou especialista em comunicação. Mas custa acreditar que a Igreja, com tanta experiência humana e espiritual acumulada, não consiga encontrar formas mais eficazes de semear o essencial do Evangelho no coração do povo.

Uma frase simples, verdadeira e repetida com convicção pode permanecer anos dentro de uma pessoa. Pode converter mais do que longos discursos teologicamente impecáveis, mas emocionalmente estéreis.

Por exemplo:
“Todos, todos, todos os baptizados são Igreja.”
“Cristão sem Missa ao domingo é como sino sem badalo.”
“Ir a Maria e não caminhar para Cristo é ofender Maria.”
“Rezar não é só pedir; é também louvar, agradecer e pedir perdão.”
“Sem conversão, não há cristão.”
“Ama e trabalha na tua comunidade: não há cristãos sozinhos.”
“O outro é teu irmão; também ele é caminho de salvação.”
“Queres a paz? Trabalha pela justiça social.”
“A vida é dom de Deus: respeita-a e protege-a.”

Os santuários deveriam ser lugares de renovação interior, escolas de fé e pontos de partida para uma vida cristã mais autêntica. A devoção popular tem uma força enorme, mas precisa de ser acompanhada, iluminada e orientada para o essencial: Cristo e o Evangelho vivido no quotidiano.

Porque peregrinar não pode ser apenas “ir”. Tem de significar regressar diferente.

Caso contrário, corremos o risco de ter santuários cheios… mas uma fé cada vez mais superficial e sem consequência na vida real.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Quando deixaremos de ser cristãos de velinhas para sermos cristãos de Cristo?

 
“Amiga, ao virmos de Lisboa, passámos por Fátima, por tua causa, para que melhores.
Eu dei duas voltas de joelhos à Capelinha das Aparições e o meu marido foi acender duas velinhas.”

(Visto no Facebook)

Meu Deus! É isto que se leva de Fátima? Velinhas e voltas de joelhos?

E a oração? E o encontro com Deus? Pararam sequer diante da Mãe para Lhe falar da pessoa doente — ou limitaram-se a cumprir um ritual, como se estivessem a pagar uma promessa?

Onde ficou o silêncio que permite escutar? Onde ficou o exame de consciência? Onde ficou o pedido sério de conversão — a única coisa que realmente muda a vida?

Desde quando é que Nossa Senhora pediu velas? Desde quando pediu joelhos em sangue ou sacrifícios que ferem o corpo mas deixam o coração intacto? Quando foi que ensinou uma fé de gestos vazios?

Em Fátima, a Mãe não pediu teatro religioso: pediu conversão. Pediu penitência verdadeira. Pediu vida mudada. Pediu que se faça tudo o que o seu Filho manda.

Quando deixaremos de ser cristãos de velinhas para sermos cristãos de Cristo?

Maria não é destino — é sinaleira. E o caminho é Cristo.

Por isso, de que servem as velas acesas e os quilómetros percorridos, se depois Cristo é ignorado? De que servem os joelhos no chão, se a vida continua de pé contra o Evangelho? De que servem promessas, se a Missa dominical é descartada, a comunidade esquecida, os irmãos ignorados e o testemunho cristão trocado por uma vida igual à de quem não crê?

Isto não é devoção. É ilusão religiosa.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Há um ano, Fancisco partiu para os Braços do Pai. Passou entre nós como passam os ventos necessários: não ficam presos nas mãos, mas deixam o ar mais limpo.

 Um ano depois da morte de Francisco, permanece qualquer coisa rara: a memória de uma presença que não precisava de aparato para ser reconhecida. Não foi um Papa de distância nem de moldura dourada. Foi um homem que escolheu a simplicidade não como gesto de imagem, mas como modo de habitar o mundo e de servir a Igreja. Havia nele essa qualidade cada vez mais escassa: a coragem de falar com o coração sem deixar de tocar na ferida, de dizer o que precisava de ser dito sem se esconder atrás de fórmulas cansadas.

O seu legado não cabe apenas em decisões, documentos ou frases que ficaram. Cabe, antes de tudo, numa deslocação de centro: com Francisco, a Igreja parecia voltar a respirar mais perto do Evangelho do que do protocolo, mais perto das pessoas do que da encenação, mais perto da carne ferida do mundo do que das suas próprias solenidades. Não aboliu a tradição, mas recordou que ela só tem sentido se conduzir à fonte. E a fonte nunca foi a pompa; foi sempre o rosto vivo de Cristo, encontrado nos pobres, nos esquecidos, nos frágeis, nos que ficam à porta enquanto os perfeitos discutem as dobragens da toalha do altar.

Isso incomodou muita gente. A simplicidade incomoda sempre os que se habituaram a confundir grandeza com ornamento. A franqueza perturba os que preferem a segurança de discursos impecáveis e inofensivos. Francisco não pertenceu à categoria dos que adormecem o mundo com palavras polidas e sorrisos diplomáticos. Tinha arestas, impulsos, até contradições. Por vezes, sentia-se nele a dificuldade de segurar ao mesmo tempo a misericórdia e a justiça, como quem sabe que ambas são necessárias, mas nem sempre encontra o gesto exato para as reconciliar. Houve momentos em que pareceu ceder a um certo justicialismo demasiado humano, demasiado terreno. E talvez tenha sido precisamente isso que o tornou mais próximo: não uma estátua sem falha, mas um homem real, com a luz e a sombra de quem tenta servir algo maior do que si mesmo.

Francisco foi humano, ponto. E falhou, como falham todos os que vivem verdadeiramente expostos ao peso das escolhas. Mas há falhas que diminuem e falhas que revelam. As dele, no conjunto, nunca apagaram o essencial: foi uma lufada de ar fresco numa Igreja que, tantas vezes, corre o risco de fechar as janelas e confundir fidelidade com medo. Trouxe consigo o desconforto bom do Evangelho, esse que desinstala, que desalinha as vaidades, que recorda que a fé não é um museu de certezas frias, mas um caminho de encontro, conversão e serviço.

Talvez o mais importante tenha sido isso: Francisco devolveu à palavra cristã alguma da sua temperatura humana. Fez lembrar que a verdade, quando não vem acompanhada de compaixão, endurece; e que a doutrina, quando se basta a si própria, corre o risco de perder de vista Aquele que lhe dá sentido. Não para negar a importância da tradição, dos dogmas ou da inteligência da fé, mas para os recolocar no seu lugar justo: não como fim, mas como caminho; não como troféu, mas como serviço; não como arma de distinção, mas como humilde auxílio para seguir Cristo.

Porque esse é, afinal, o perigo de todas as épocas religiosas: começar por adorar Deus e acabar a defender-se a si mesmas. Quando isso acontece, os olhos viram-se para dentro, quase para a nuca, e a alma distrai-se com as vestes, os títulos, os ritos, os lugares, as hierarquias do prestígio. E Cristo, sem ser negado, vai sendo empurrado para a margem, ou então convocado apenas para legitimar preferências, endurecimentos e pequenas soberbas travestidas de zelo. Francisco, com todas as suas limitações, veio lembrar que o centro não está aí. O centro continua a ser o Nazareno sem aparato, o que lavou pés, tocou feridas e preferiu a mesa imperfeita dos pecadores à impecabilidade satisfeita dos justos.

Por isso, um ano depois, o que nele permanece não é apenas a lembrança de um pontificado, mas a saudade de uma voz. Uma voz sem luxo, sem teatro, sem excesso de cálculo. Uma voz que, mesmo quando errava, parecia nascer de um lugar sincero. E talvez seja isso que mais falta faz: não a nostalgia de um estilo, mas a memória de uma autenticidade. Francisco recordou à Igreja que a sua autoridade não cresce com a distância, mas com a proximidade; não com o esplendor que impõe, mas com a verdade que serve; não com a rigidez que intimida, mas com a esperança que abre espaço.

Ficou-nos, por isso, mais do que uma figura: ficou-nos uma interpelação. A de escolher entre uma fé que respira e uma fé que sufoca. Entre uma Igreja preocupada em parecer irrepreensível e uma Igreja disposta a ajoelhar-se diante das feridas do mundo. Entre o brilho das superfícies e a humilde radicalidade do Evangelho. Francisco não resolveu tudo, não purificou tudo, não acertou sempre. Mas passou entre nós como passam os ventos necessários: não ficam presos nas mãos, mas deixam o ar mais limpo.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Estamos disponíveis para sair do “sempre foi assim”? Estamos verdadeiramente comprometidos com a missão… ou apenas com hábitos?

Por Paulo Terroso, Facebook 

A Arquidiocese de Dubuque suspende as Missas de fim de semana em 84 paróquias do Iowa, nos EUA
Alguns dados:
menos 46% de participação na Missa em 20 anos
menos de metade dos casamentos católicos
menos batismos
apenas 85 sacerdotes para cerca de 182 mil fiéis
Resultado? Reorganização profunda: mais de 80 paróquias deixarão de ter Missa ao fim de semana, passando a integrar 24 novas unidades pastorais.
A questão não é apenas estrutural. É espiritual e pastoral.
Quando há um sacerdote para várias paróquias, o risco é evidente:
– desgaste físico e emocional
– perda de qualidade no acompanhamento
– um ministério vivido no limite
E isso não é sustentável.
Estas decisões, por duras que sejam, procuram evitar precisamente isso: o esgotamento, o colapso silencioso, a solidão de quem serve.
Algumas perguntas incómodas, mas necessárias:
– Queremos manter estruturas… ou cuidar das pessoas?
– Estamos disponíveis para sair do “sempre foi assim”?
– Estamos verdadeiramente comprometidos com a missão… ou apenas com hábitos?

terça-feira, 7 de abril de 2026

A Ressurreição de Jesus não é a mesma coisa que a ressurreição de Lázaro

 O mistério da Ressurreição é o centro da fé cristã. Nele, a Igreja proclama que Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, venceu a morte e abriu para toda a humanidade o caminho da vida nova. Não é apenas um facto do passado, mas uma realidade viva que dá sentido à nossa esperança.

Antes de mais, é essencial distinguir: a Ressurreição de Jesus não é a mesma coisa que a ressurreição de Lázaro. Lázaro voltou à vida terrena, à mesma condição de antes, e um dia voltou a morrer. Já Jesus não regressa à vida mortal: Ele ressuscita para uma vida nova, definitiva, onde a morte já não tem qualquer poder. A sua Ressurreição é passagem para a vida gloriosa.

O corpo ressuscitado de Jesus é real — não é uma ideia nem um espírito —, mas está transformado. É o mesmo corpo que sofreu na cruz, mas agora plenamente glorificado. Por isso, os Evangelhos mostram que Ele pode ser tocado e come com os discípulos, mas também aparece de modo inesperado e não está sujeito às limitações habituais do espaço.

Este é o chamado corpo glorioso. A tradição da Igreja ensina que ele possui características próprias: é incorruptível (já não sofre nem morre), é luminoso (participa da glória de Deus), é ágil (não está sujeito às limitações físicas como antes) e é plenamente espiritualizado (totalmente unido a Deus). É a realização plena daquilo que o ser humano é chamado a ser.

E aqui está o coração da nossa esperança: graças à Ressurreição de Cristo, também nós somos chamados à ressurreição para a vida gloriosa. A morte não é o fim, mas uma passagem. Aqueles que vivem em Cristo participarão da sua vitória, ressuscitando com um corpo transformado, semelhante ao d’Ele. A sua Ressurreição é a garantia da nossa.

Quanto a Maria, basta recordá-la como a Senhora da Alegria: aquela que, unida de modo único ao seu Filho, acolhe plenamente a vitória da Ressurreição e aponta para a esperança que nos está prometida.

Assim, tudo está profundamente ligado: Cristo ressuscita e inaugura a vida gloriosa; nós somos chamados a participar dessa mesma vida; e a fé na Ressurreição sustenta o nosso caminho. Não é apenas uma verdade para acreditar, mas uma vida nova que começa já agora e se cumprirá plenamente na eternidade.

segunda-feira, 23 de março de 2026

OBRIGADO A TODOS, TODOS!

 

quinta-feira, 19 de março de 2026

Meu pai - "há quem parta, ficando; há quem fique partindo..."

Também ficava contente quando o levavam a Santa Helena

Meu pai partiu, aos 95 anos, para a Casa do Pai. No domingo, dia 15 de março, parecia muito bem. Na quarta-feira de manhã, partiu. É a vida, que traz sempre consigo a fragilidade.

Partiu no pleno uso das suas capacidades. Aos médicos, no hospital, contou várias vezes, com pormenor, todos os sintomas que tinha experimentado nas últimas 24 horas.

Sabia de cor e salteado os dias em que os seis filhos, genros e noras, e os nove netos faziam anos. Sem computador, sem agenda. De memória.

Não tinha vícios. Não bebia — infelizmente para ele, nem água. Não fumava, não tinha desmandos morais. Vivia para a família.

Em família, enquanto os filhos eram novos, e conforme as circunstâncias daquele tempo, era algo rigoroso — o que não significa violência, nada disso. Com os netos, foi sempre um “avô babado”, louco por eles, preocupado, um bom conselheiro. Claro que todos os netos gostavam muito dele. Um deles, em trabalho na Suíça, fez tudo para chegar junto dos restos mortais do avô antes da Missa de Corpo Presente.

Nunca foi egocêntrico, mas “filhocêntrico”. Pensava nos filhos. Quando estes khe queriam fazer uma festinha de anos, por exemplo, encontrava sempre motivos para a evitar.

Sinal curioso: este ano aceitou comemorar os seus 95 anos, e com alegria. No dia 3 de janeiro, véspera do seu aniversário, alguns netos fizeram-lhe uma surpresa: levaram-no ao Santuário de Nossa Senhora da Lapa, sem que ele minimamente contasse. Exultou com a experiência. Nos dias seguintes, os familiares que puderam almoçaram com ele.

No sábado de Carnaval, já com quase toda a família, fizemos a celebração aniversária completa: Missa de Ação de Graças na igreja onde fez todo o seu percurso cristão e almoço a seu gosto.

Era um homem profundamente crente. Uma fé simples, profunda, comprometida com a vida. Deus era tudo para ele. Nos últimos anos, em que já lhe custava imenso andar, sempre que o visitava à tarde, encontrava-o sentado a rezar o seu terço. Nesses encontros, gostava de fazer análises críticas às leituras que fazia.

Quando o visitava, normalmente jantava com ele e com a família do meu irmão, que vivia perto dele. No fim, em família, rezávamos sempre o terço e partilhávamos as intenções de oração. Encantava-me a sua abertura e a forma como confiava a Deus os problemas reais deste tempo. Não havia ali nada de “beatice a cheirar a mofo”.

Obrigado, Deus, pelo meu pai!
Obrigado, pai, por tudo e por tanto!

Tínhamos, junto do Coração de Deus, a interceder por nós e pelo mundo, a mãe. A partir de 18 de março, temos pai e mãe!

Obrigado, meus amores! Vós partistes, mas ficastes gravados, a letras de ouro, no coração de filhos e netos.

Colocai-nos bem pertinho do Coração de Deus!
Descansai os dois em paz, meus heróis, nos braços de Deus!

quinta-feira, 12 de março de 2026

Quando o silêncio de um padre se torna demasiado pesado


Este ano já tive notícia de cinco.
Cinco sacerdotes que morreram por suicídio.
Escrever isto custa-me.
Porque quando digo “cinco” parece apenas um número.
Mas não são números.
São nomes pronunciados um dia diante do altar.
São vidas que um dia disseram “sim” com alegria.
São histórias inteiras de serviço, de escuta, de entrega.
Um padre não nasce padre.
Vai-se tornando.
Nas madrugadas em que responde ao telefone porque alguém morreu.
Nos hospitais onde segura a mão de quem tem medo da última noite.
Nas confissões onde escuta lágrimas que ninguém mais conhece.
Nas casas onde se senta à mesa com famílias feridas para tentar juntar pedaços de vida.
No Centro Social entre papéis, funcionários, utentes a ser visto como patrão.
Um padre aprende, lentamente, a carregar as dores dos outros.
Mas quase ninguém lhe pergunta quem carrega as dele.
Durante muito tempo repetiram-se explicações fáceis.
Quando um padre cai, dizem alguns, foi por causa de uma paixão.
Ou porque perdeu a fé.
Mas a alma humana não cabe em frases simples.
Há padres que continuam a acreditar profundamente.
Que rezam em silêncio diante do sacrário.
Que levantam o pão e o vinho todos os dias com reverência.
E mesmo assim, por dentro, sentem um cansaço que ninguém vê.
Há noites em que a igreja fica vazia.
As luzes apagam-se.
As portas fecham-se.
E o padre regressa a casa.
Uma mesa.
Uma cadeira.
Um silêncio demasiado grande.
A solidão não faz barulho.
Mas infiltra-se devagar.
Primeiro nas noites longas.
Depois nos dias cheios em que ninguém pergunta verdadeiramente como ele está.
Depois naquele peso interior que já não se sabe bem de onde vem.
Há também o peso do ministério.
As expectativas de todos.
As críticas fáceis.
A sensação de que é preciso estar sempre disponível, sempre equilibrado, sempre forte.
Como se a ordenação tivesse apagado a fragilidade humana.
Mas não apagou.
Um sacerdote continua a ser um homem.
Com feridas antigas.
Com fragilidades.
Com dias de luz e dias de sombra.
A ordenação sacerdotal não protege o coração humano da tristeza.
Nem da ansiedade.
Nem daquela escuridão silenciosa que às vezes cresce por dentro.
Recentemente o arcebispo de Saragoça, Carlos Escribano, tomou uma decisão silenciosa, mas profundamente significativa: suspendeu as visitas pastorais previstas para dedicar um ano inteiro ao cuidado dos sacerdotes da sua diocese.
Quis encontrá-los em grupo.
Depois individualmente.
Para escutar.
Para compreender.
Para perguntar simplesmente:
como estás a viver o teu ministério?
Há algo de profundamente evangélico nisto.
Porque o sacerdote é, por vocação, um homem para os outros.
Mas um homem para os outros também precisa de alguém que seja para ele.
Talvez a Igreja do futuro precise de aprender melhor isto:
cuidar de quem cuida.
Antes que o silêncio se torne demasiado pesado.
Antes que a solidão se transforme num abismo.
Porque por trás de cada padre há um coração humano.
E nenhum coração deveria caminhar sozinho durante demasiado tempo.
Foto: Sebastien Desarmaux I Godong
Texto:Padre João Torres, Facebook

segunda-feira, 9 de março de 2026

Sai Marcelo, entra Seguro

9 de março de 2026

António José Seguro toma posse como 21.º Presidente da República.

O agora ex-Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, como qualquer pessoa que exerce funções públicas, teve momentos que agradaram e momentos que desagradaram. Muitos o elogiam e enaltecem, outros o criticam. É a vida.

Não tenho nada contra a pessoa em si. No entanto, como Presidente da República, confesso que nunca fui seu fã.

Claro que apreciei o seu lado humano: a presença junto das pessoas, o sorriso, os abraços e as selfies. Reconheço-lhe um estofo cultural fora do comum.

Mas, quanto ao seu exercício de funções, deixo algumas críticas:

  • Tentou fazer da redução do número de sem-abrigo um desígnio nacional, mas esse número continuou a aumentar ao longo dos seus dois mandatos;

  • Não aprecio Presidentes “tagarelas”, que falam constantemente sem acrescentar substância. Marcelo acabou por banalizar as palavras, tornando-as menos impactantes;

  • A sua necessidade de estar sempre em evidência, de manter popularidade elevada, revelou um certo egocentrismo sorridente, levando-o por vezes a contradizer afirmações anteriores;

  • Realizou muitas eleições durante os seus mandatos. Em democracia, os mandatos devem ser cumpridos até ao fim, respeitando a decisão dos eleitores. Uma das funções do Presidente é prevenir crises e atuar para evitá-las;

  • Demonstrou hiperatividade em política externa, visitando inúmeros países, com resultados pouco claros, e cujas viagens foram pagas pelos portugueses;

  • Interveio excessivamente no funcionamento do governo, pessoalizando frequentemente a ação em relação a determinados ministros. O funcionamento do governo é, na minha opinião, da responsabilidade do Primeiro-Ministro;

  • Passava a impressão de falta de consistência: anunciava prioridades, mas depois deixava-as cair sem retomá-las.

Em resumo, não apreciei de todo o seu exercício presidencial e considero que não foi o Presidente que o país precisava.

Espero e desejo um bom mandato ao novo Presidente António José Seguro. Parece ser um homem discreto, atento e conciliador. Com um bom mandato, todos nós sairemos a ganhar.