segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Hoje estamos aqui para celebrar 50 anos de casamento dos nossos avós.

50 anos é muito tempo. É uma vida inteira de histórias, de mudanças, de momentos bons e de momentos menos bons. E, olhando para trás, é difícil imaginar tudo o que aconteceu desde aquele dia em que decidiram casar.

Até porque, no vosso caso, parece que havia alguma pressa. Começaram a namorar e, 15 dias depois, estavam casados.

Não sabemos se isto foi amor à primeira vista ou simplesmente falta de tempo para pensar bem no assunto.

Mas resultou.

E 50 anos depois, aqui estamos nós.

E entretanto veio uma vida inteira.

Houve França, houve Paris, nasceram lá os nossos pais, e depois veio o regresso a Portugal e uma nova fase da vida.

E dessa vida nasceu também uma família que foi crescendo.

E nós, os quatro netos, tivemos a sorte de crescer muito perto dos avós.

Passámos grande parte dos nossos primeiros anos em casa deles. Foi a avó que nos viu crescer, que cuidou de nós, que nos mudou as fraldas e que esteve presente em tantas das pequenas coisas que, quando somos crianças, nem percebemos a importância que têm.

Hoje percebemos.

A avó sempre foi aquela pessoa que conhece toda a gente. E quando dizemos toda a gente, é mesmo toda a gente.

É quase impossível ir a algum lado com ela sem aparecer alguém que ela conhece.

Acho que, se um dia a deixássemos sozinha no meio de uma cidade qualquer, passado meia hora já tinha feito amigos.

E depois temos o avô, o nosso Pinto, o grande Gadanha.

O avô é uma personagem completamente diferente.

É o homem das piadas, dos conselhos e, sobretudo, dos conselhos que ninguém pediu.

Especialmente quando o assunto é amor.

E lá vem ele “Oh meu netinho, tu ouve os conselhos do teu avô.”

E nós ouvimos. Nem sempre seguimos, mas ouvimos. Também temos de reconhecer uma coisa: o avô sempre foi uma figura de proteção para nós. Aquela pessoa que está ali, que toma conta, que se preocupa e que, se for preciso, aparece logo.

Mesmo quando essa proteção vem acompanhada de uma piada ou de um conselho amoroso completamente inesperado ou então de uma mini sagres.

Os avós também nos ensinaram que uma família é estar juntos. E isso vê-se especialmente na casa deles.

No dia de Santa Tecla, por exemplo, parece que a casa deixa de ser uma casa e passa a ser um restaurante.

Há sempre imensa gente, comida, conversa e muita alegria.

E, de alguma maneira, cabe sempre mais alguém.

Acho que isso é uma das coisas mais bonitas que temos na nossa família: saber que há sempre espaço para mais uma pessoa.

E claro que, para alimentar tanta gente, também era preciso alguma criatividade.

O avô e a avó tinham uma técnica muito própria para fazer o vinho chegar para todos quando estavam em França, que passava por misturar vinho português com água para oferecer aos franceses….

Não sabemos se era uma receita tradicional, uma questão de economia ou simplesmente uma maneira de garantir que ninguém ficava sem beber.

Mas funcionava.

E, olhando para trás, talvez essa seja uma das melhores representações da vida que construíram, fazer muito com aquilo que tinham, partilhar o que tinham com os outros e nunca deixar ninguém de fora, nem ninguém com sede.

Porque, se há uma coisa que reconhecemos nos nossos avós, é que nunca baixaram os braços.

Construíram uma vida juntos, atravessaram mudanças, viveram em França, regressaram a Portugal, criaram uma família e chegaram até aqui.

E fizeram tudo isto mantendo aquilo que sempre foi tão característico deles: a família reunida, a porta aberta e a vontade de estar sempre presente para os outros.

E nós tivemos a sorte de crescer com isso.

Tivemos avós que estiveram presentes quando éramos pequenos e que continuam presentes agora que estamos a crescer.

E talvez seja essa a melhor maneira de explicar o que estes 50 anos significam para nós.

Não são apenas 50 anos de casamento.

São 50 anos de uma história que acabou por se tornar também a nossa história.

Uma história que começou com duas pessoas que decidiram casar 15 dias depois de se conhecerem, e que acabou por dar origem a quatro netos que hoje estão aqui, a agradecer-vos por tudo aquilo que fizeram por nós.

Avó e avô,

obrigado por nos terem dado uma família onde nunca faltou amor, comida, histórias, piadas, conselhos e, aparentemente, vinho com água.

Esperamos poder continuar a celebrar muitos momentos convosco.

Gostamos muito de vocês.

 Os vossos netos: Tiago, Diogo, Camila e Daniel

Daniel: “Quero dizer que gosto muito dos meus avós e espero que eles façam mais 50 anos!”

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

QUANDO NEM DE NÓS GOSTAMOS!

 Um Yaris Híbrido custa 23.500 €. Cerca de 4.600 € são impostos.

Um Lexus NX custa 64.977 €. Cerca de 17.350 € são impostos.

Isto significa que, ao comprar o Lexus, são entregues ao Estado mais 12.750 € em impostos.

E há uma realidade que não devemos esquecer:

Quanto mais impostos uma compra gera, maior é a contribuição para o Estado.

E esses impostos ajudam a financiar a Saúde, a Educação, as reformas e os serviços públicos que todos utilizamos.

Por isso, quando alguém critica uma pessoa por comprar um carro mais caro, está muitas vezes a esquecer o essencial:

essa pessoa está a gastar o seu próprio dinheiro e, ao mesmo tempo, a entregar muito mais dinheiro ao Estado.

E agora, a parte que talvez devêssemos todos ter presente:

O carro é de uma pessoa.

Os impostos que ele gera são de todos.

E beneficiam também quem critica quem o comprou.

Até quem mais critica beneficia da contribuição fiscal de quem comprou o carro.

Essa é a realidade.

sábado, 12 de setembro de 2026

Quando mais de 90% do clero português não esteve no Simpósio do Clero em Fátima...

As estatísticas frias dizem-nos que cerca de 250 clérigos se reuniram em Fátima. A matemática, implacável, acrescenta o reverso da medalha: mais de 90% do clero português esteve ausente. Perante este cenário, a narrativa oficial apressa-se a estender o manto das desculpas habituais — a falta de tempo, a agonia das agendas, o peso burocrático de quem multiplica os seus dias por cinco, dez ou mais paróquias. Mas quem conhece o pulsar real das bases sabe que a ausência não foi uma distração coletiva. Foi um voto explícito de silêncio; um sinal profundo de desconexão.

Os padres ficaram em casa porque os modelos tradicionais se esvaziaram. O formato destes simpósios assenta, frequentemente, numa comunicação unidirecional — um "banho de doutrina" onde oradores do mais puro situacionismo garantem filtros totais para que não haja desvios. Cria-se a ilusão de harmonia blindando o evento contra o debate real. Porém, ao evitar a frontalidade, afasta-se o pensamento crítico. Aqueles que gastam a vida no terreno recusam-se a validar um simulacro de comunhão onde as grandes questões são sistematicamente silenciadas: o avanço de um conservadorismo aguerrido e legalista que asfixia a frescura do Evangelho; o tabu do celibato e da nomeação dos bispos; questionamentos acerca das unidades pastorais; e o isolamento egóico de um clero dividido, onde falta partilha e sobra solidão.
Mais grave ainda: os padres ficam em casa porque a instituição prefere focar-se no cansaço físico para não ter de encarar o cansaço existencial. É o drama humano de homens que doaram uma vida inteira ao povo de Deus e que, aos setenta e tal ou oitenta anos, continuam a arrastar-se no trabalho pastoral. Mas esta realidade não se deve apenas à passividade de um episcopado marcadamente recatado, que tantas vezes confunde prudência com receio de arriscar face à desculpa crónica de que "não há padres". Há aqui uma responsabilidade partilhada e um mistério humano mais profundo: até aos setenta anos mandamos nós no tempo, mas a partir dos setenta é o tempo que manda em nós. Muitos destes sacerdotes, idosos e gastos, acabam por não pedir a substituição. Uns perderam já o controlo e o discernimento sobre as suas próprias capacidades físicas e mentais; outros caem na armadilha humana de se acharem imprescindíveis, incapazes de desapegar de uma identidade pastoral que os sustentou uma vida inteira. Perante isto, e face a um laicado historicamente mortiço ou anticlerical, a Igreja em Portugal parece paralisada, "a coçar para dentro", bloqueada por todos os lados.
E, no entanto, no coração de quem caminha nesta Igreja, a escuridão que cerca as estruturas humanas não tem o poder de anular a esperança. É um otimismo que não nasce de organogramas ou de ilusões ingénuas, mas sim da certeza teologal de que a alma da Igreja é o Espírito Santo. A história prova que nada nem ninguém pode domar o Espírito: foi Ele que, nas épocas mais sombrias, despertou a audácia profética de Francisco de Assis, Teresa de Ávila, João XXIII ou António Ferreira Gomes. O Espírito opera por ruturas e surpresas, precisamente onde termina o limite humano e começa a força de Deus.
Enquanto o tempo de Deus não suscita os profetas de amanhã, o verdadeiro sustento da fé sobrevive no silêncio e fora dos palcos. Sobrevive na noite, onde um pastor cansado conversa com o Senhor na intimidade da sua casa, sabendo que Ele fará o favor de o entender, mesmo quando o servo fala mais do que ouve. E sobrevive no calor de algumas famílias que abriram as portas para serem mais do que paroquianos: tornaram-se amigos generosos que concedem ao seu pároco o favor de se sentir membro da família. É aí, nessas conversas sem filtros dentro do aceitável e no aconchego do afeto partilhado, que a Mesa da Eucaristia se prolonga e que a Igreja, discretamente, se renova.

sábado, 5 de setembro de 2026

Uma folha passou de mão em mão. E a oração multiplicou-se.

Quando a criatividade pastoral dá fruto

Em cada primeira sexta-feira, na Igreja Paroquial, celebramos a Eucaristia, seguida de um tempo de exposição e adoração do Santíssimo Sacramento. Há um tempo de intimidade pessoal com o Senhor e um tempo de oração comunitária, que vai alternando entre o terço, o Terço da Divina Misericórdia e a Oração de Vésperas.

Habitualmente, com a ajuda do projector, são apresentados os textos que acompanham estes momentos de oração, bem como a intenção de oração do Papa para cada mês e as Vésperas. Nesta primeira sexta-feira, porém, optou-se por preparar fotocópias das Vésperas. Depois de utilizadas na nossa celebração, essas folhas foram levadas para outros momentos de oração na paróquia.

E o resultado foi admirável: vários grupos rezaram as Vésperas nesse mesmo dia!

Foi uma experiência fantástica! Admirável foi a adesão das pessoas, a forma como compreenderam o modus orandi, a maneira como participaram e, sobretudo, como rezaram. Percebeu-se que, quando lhes proporcionamos caminhos novos e lhes damos instrumentos simples para rezar, as pessoas acolhem, participam e envolvem-se.

Esta experiência deixa-nos uma certeza: quando investimos pastoralmente, quando saímos do “ram-ram” de sempre e ousamos ir mais longe, a resposta das pessoas pode surpreender-nos. E há uma recompensa que não se mede em números: vê-se no interesse, na participação, na alegria e, sobretudo, na oração que se multiplica.

Precisamos, por isso, de imaginação pastoral. Precisamos de criatividade, de coragem para experimentar, de atenção aos sinais e de vontade de procurar novos caminhos para ajudar as pessoas a encontrar-se com Deus.

Às vezes, basta uma simples folha de papel para que a oração chegue mais longe.

Uma folha passou de mão em mão. E a oração multiplicou-se.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

A benfiquização da comunicação social: um problema que já ninguém consegue esconder

 Tempo de antena (representação satírica)

🦅 Benfica ⬤⬤⬤⬤⬤⬤⬤⬤⬤⬤⬤⬤⬤⬤⬤⬤

🦁 Sporting ⬤⬤⬤⬤

🐉 FC Porto

Há realidades que, de tão repetidas, acabam por ser tratadas como se fossem normais. Uma delas é a crescente benfiquização da comunicação social desportiva portuguesa, sobretudo nas televisões.

Não, não está em causa o Benfica enquanto clube. Está em causa a forma como uma parte significativa da comunicação social parece ter perdido qualquer sentido de proporcionalidade quando noticia tudo o que lhe diz respeito.

Basta acompanhar os noticiários desportivos durante alguns dias. Uma vitória do Benfica, por mais rotineira que seja, transforma-se num acontecimento nacional. Horas de emissão, diretos, debates, entrevistas, comentários, análises e repetições incessantes das mesmas imagens. A narrativa é construída como se cada jogo representasse um capítulo decisivo da história do futebol europeu.

Entretanto, quando outros clubes conseguem resultados igualmente relevantes — ou até mais importantes —, o tratamento muda radicalmente. A informação surge de forma breve, quase protocolar, para rapidamente desaparecer da agenda. A diferença de critérios é demasiado evidente para ser ignorada.

O exemplo mais recente voltou a demonstrá-lo. A goleada do Benfica por 5-0 sobre um adversário suíço gerou um entusiasmo televisivo que faria pensar que tinha sido conquistada a Liga dos Campeões diante do Real Madrid. No mesmo período, o SC Braga também goleou nas competições europeias, mas quase passou despercebido. É legítimo perguntar: porquê?

E quanto ao FC Porto, atual campeão nacional, o contraste é ainda mais evidente. Um clube com dezenas de títulos, enorme prestígio internacional e um papel determinante na afirmação do futebol português parece, demasiadas vezes, remetido para segundo plano. Os seus sucessos duram um dia; qualquer episódio relacionado com o Benfica pode alimentar vários.

Não se trata de exigir que se fale menos do Benfica. Trata-se de exigir que se fale mais dos outros quando os factos o justificam. O jornalismo sério mede a importância das notícias pelos acontecimentos, não pela dimensão da massa adepta de um clube.

As televisões parecem ter descoberto uma fórmula cómoda: Benfica, Benfica e mais Benfica. Se faltarem novidades, reciclam-se as antigas. Se não houver notícias, inventam-se debates. Se não houver jogos, discutem-se hipóteses, rumores ou conferências de imprensa. O importante é manter sempre o mesmo protagonista no centro da emissão.

Esta opção editorial empobrece o jornalismo desportivo. Pior: empobrece o próprio futebol português. Os adeptos têm direito a uma informação plural, equilibrada e proporcional. Não pagam serviços de informação para assistirem, diariamente, a uma programação quase monotemática.

É evidente que cada órgão de comunicação social é livre de definir a sua linha editorial. Mas a liberdade editorial não elimina a responsabilidade perante o público. Quando a desproporção se torna sistemática, deixa de ser apenas uma opção e passa a suscitar dúvidas legítimas sobre o pluralismo da informação.

A democracia vive da diversidade de opiniões. O jornalismo vive da credibilidade. E a credibilidade constrói-se tratando situações semelhantes de forma semelhante.

Enquanto isso não acontecer, muitos portugueses continuarão a olhar para a informação desportiva televisiva com crescente desconfiança. Não porque um clube vença. Mas porque parece que, para uma parte da comunicação social, só as vitórias de um clube merecem verdadeiramente ser celebradas.

E essa é uma derrota para o jornalismo.

domingo, 26 de julho de 2026

Dia dos Avós: entre o colo e a bengala


No Dia dos Avós, apetece-me recordar uma cena que testemunhei, há alguns anos, numa praia portuguesa.

Debaixo de um chapéu de sol estava o que parecia ser uma família: um casal, uma senhora já muito idosa, uma criança pequena e um cão irrequieto, que não parava de saltitar.

A dada altura, o senhor pegou em algumas coisas e saiu da praia. Já passava do meio-dia quando os restantes se prepararam para ir embora.

À frente seguia a mãe, com o cão ao colo. Logo atrás vinha a criança, choramingando, certamente porque a areia escaldante lhe queimava os pezinhos.

Mais atrás caminhava a senhora idosa, apoiada numa bengala, arrastando lentamente os pés pela areia. Cada passo revelava o enorme esforço que fazia para avançar. A distância entre ela e os restantes aumentava a cada instante, como se o tempo e a fragilidade lhe impusessem um ritmo que ninguém parecia disposto a acompanhar.

Aquela imagem chocou-me. E continua a acompanhar-me.

Nada tenho contra os animais. Pelo contrário: sou totalmente contra qualquer forma de maus-tratos e acredito que devem ser tratados com respeito, cuidado e dignidade.

Mas também não consigo ignorar um fenómeno que me inquieta. Em certos casos, parece que alguns animais passaram a ocupar um lugar quase intocável, recebendo toda a atenção, todos os cuidados e todos os sacrifícios, enquanto tantos seres humanos — sobretudo idosos, mas também crianças, doentes e pessoas frágeis — vivem o abandono, o desprezo, a solidão e, por vezes, a mais profunda desumanização.

O que me revoltou naquela praia não foi ver um cão tratado com carinho. Foi ver uma senhora idosa, com evidentes dificuldades de locomoção, entregue apenas à sua bengala e ao peso dos anos, enquanto o único colo disponível era para um animal perfeitamente saudável. Foi ver uma criança a chorar porque a areia lhe queimava os pezinhos, sem que isso parecesse merecer a mesma preocupação.

Uma sociedade verdadeiramente humana não tem de escolher entre amar os animais ou cuidar das pessoas. Deve fazer as duas coisas. Mas quando o cuidado pelos animais se torna, em alguns casos, mais visível do que a compaixão pelos mais vulneráveis entre nós, há motivo para refletir.

Neste Dia dos Avós, desejo que nunca nos falte a gratidão por aqueles que caminharam antes de nós. Que nunca lhes neguemos um braço quando já lhes faltam as forças, uma palavra quando lhes pesa o silêncio, ou a presença quando mais precisam de companhia. Porque a grandeza de uma sociedade mede-se, acima de tudo, pela forma como trata os seus membros mais frágeis.

terça-feira, 7 de julho de 2026

OS QUE PARTEM, OS QUE FICAM!

- OS QUE PARTEM!
- E lá se vai definitivamente a Fraternidade São Pio X, após décadas de paciência da Santa Sé, após terem passado por 5 Papas que ao longo de seus Pontificados não pouparam esforços e humildade em dialogar e estarem sempre de braços abertos em receber seus líderes para a plena comunhão;
- Eles partem com seus 6 Bispos, algumas centenas de padres e alguns milhares de fiéis, agora fora da comunhão da sucessão apostólica, fora da comunhão com a Igreja Una, Santa, católica e Apostólica, fora da Bênção Apostólica do sucessor de Pedro, o Papa Leão XIV;
- Eles partem fechados em seu tradicionalismo, e ao ficar com este tradicionalismo deixam a Tradição Apostólica, rompem com as palavras de Cristo dirigidas a Pedro: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18);
- Não posso dizer que me alegro com esta partida como tenho visto e ouvido de muitos: Já foram tarde! São rebeldes? Sim! Desobedeceram a Igreja e os Papas? Sim! Mas não consigo deixar de pensar que ainda que rebeldes e desobedientes ainda são nossos irmãos tal qual filho pródigo que se foi e o Pai chorou sua partida, imagino também como está o coração de sua Santidade o Papa Leão...
....ninguém quer separação! Ninguém quer cisma! É sempre uma ferida que fica! É o corpo de Cristo que foi ferido, são membros rompidos que se foram e tal qual corpo físico que quando sofre um ferimento dói também a Igreja como corpo de Cristo também sofre, por mais rebeldes e desobedientes e agora cismáticos que sejam!
- O Papa Leão foi firme e não poderia deixar de sê-lo em nome da unidade da Igreja, em nome do direito canônico, em nome daqueles que mesmo não concordando com alguma coisa na Igreja são obedientes à Igreja e sua unidade!
- OS QUE FICAM!
- Nós que aqui ficamos, ficamos com o Papa Leão XIV, ficamos com os 5.430 Bispos presentes no mundo inteiro, ficamos com os 406.900 Padres, com os 51.400 Diáconos permanentes, ficamos com os cerca de 106.495 mil seminaristas, ficamos com as 608,958 religiosas...e ficamos as centenas de Congregações Religiosas com seus Religiosos e Religiosas e muitas delas milenares que com suas vocações e carismas específicos enriquecem toda a Igreja! Com os demais 1.400 Bilhão de católicos no mundo inteiro;
- Ficamos com o Concilio Vaticano Segundo, que, graças a ação do Espirito Santo abriu as portas da Igreja para o mundo, para a Palavra de Deus, para a Santa Missa Celebrada em cada idioma de cada parte deste mundo e assim cada um destes 1.400 Bilhão de católicos possam ouvir a palavra de Deus e a Santa Liturgia em sua própria língua.........Que maravilha!
- Ficamos com o Concilio Vaticano II que pela força do Espirito Santo fez florescer dezenas de novos movimentos de leigos com diferentes dons e carismas, novas comunidades e associações de fiéis leigos fazem com que a Igreja através de sua face laical chegue onde a hierarquia não consegue chegar, cumprindo-se assim a vértebra da missão dos leigos: “Vós sois o sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-14);
- Ficamos com o Concilio Vaticano II que tal em sua primeira edição conhecido como o Concilio de Jerusalém (At 15,4-30) souberam ler os sinais dos tempos e como Igreja Universal respondem aos mais profundos anseios do Homem de seu tempo....
ESTA LEITURA A FRATERNIDADE SÃO PIO X NÃO SOUBE FAZER!
-PRINCIPALMENTE A LEITURA E A GRANDE DIFERENÇA ENTRE “TRADIÇAO” E “TRADICIONALISMO”
- Nós que ficamos, ficamos com São Pedro e São Paulo, cuja solenidade acabamos de celebrar, ficamos com o Papa São Pedro até o nosso Leão XIV, ficamos com o trabalho destes milhares de Bispos, Padres, Religiosos e Religiosas que mundo afora trabalham incansavelmente anunciando a Palavra de Deus e levando os Sacramentos da Salvação na língua onde cada católico possa ouvir e entender;
- Nós que ficamos, ficamos com a profunda e atual palavra do Papa Leão através de sua “MAGNIFICAT HUMANITAS” que mais uma vez como todas as Cartas Encíclicas de todos os demais Papas e pronunciamentos oficiais do Magistério da Igreja lançam luzes sobre a sociedade e a ilumina com a Palavra de Deus e sua Doutrina (CF: GS-3);
- ESTA LEITURA A FRATERNIDADE SÃO PIO X NÃO SOUBE FAZER!
- TAMBÉM NÃO SOUBERAM FAZER A LEITURA DA OBEDIENCIA, SALVAGUARDA DA UNIDADE NA IGREJA!
-Amo demais esta minha Igreja: UNA, SANTA, CATÓLICA E APOSTÓLICA!
- Nós que ficamos, ficamos sim porque sabemos o que significa o SENTIMENTO DE PERTENÇA A IGREJA que Dom Antônio de Assis Ribeiro (Que quando disse estas palavras, então Bispo auxiliar de Belém, hoje Bispo de Macapá):
“O SENTIMENTO DE PERTENÇA À IGREJA NASCE DE UM PROFUNDO VINCULO COM A IGREJA. TRATA-SE DE UMA REALIDADE QUE BROTA DA CONSCIENCIA DO BATISMO. PORTANTO, NA SUA ORIGEM HÁ UMA REALIDADE DE FÉ QUE SE FAZ RELAÇÃO AFETIVA”.
- NÓS QUE FICAMOS, FICAMOS COM O CONCILIO VATIVANO II, FICAMOS COM O PAPA LEÃO XIV!
- ABRAÇO AMIGO!
CRISTÓVÃO GONÇALVES!

terça-feira, 30 de junho de 2026

O Estado não pode desperdiçar o tempo dos cidadãos

 
Na semana passada dirigi-me à Loja do Cidadão para alterar a morada do meu Cartão de Cidadão. Levei o cartão e fui atendido com toda a simpatia e profissionalismo. Informaram-me de que seria enviado um código para o meu telemóvel. Como não costumo andar com o telemóvel – utilizo-o apenas quando preciso – tive de regressar a casa para o ir buscar. Felizmente, moro muito perto.

Recebi depois uma carta com códigos e voltei à Loja do Cidadão. Levei o Cartão de Cidadão e o documento que me tinham entregue na primeira visita. Nunca me passou pela cabeça que voltaria a ser necessário levar o telemóvel. Afinal, era. Resultado: mais uma viagem a casa e novo regresso à Loja do Cidadão.

No meu caso, tratou-se apenas de um incómodo. Mas imagine-se um cidadão que viva a dez ou quinze quilómetros da Loja do Cidadão, sem automóvel e com escassos transportes públicos. Ou um idoso que não utiliza telemóvel, ou que o usa apenas para fazer e receber chamadas. Ou alguém que não domina as ferramentas digitais. Quantas deslocações? Quanto tempo perdido? Quanta frustração?

É verdade que muitos destes procedimentos já podem ser feitos pela Internet. Mas essa solução não serve todos os cidadãos. Um Estado moderno deve apostar na digitalização sem esquecer aqueles que não têm competências digitais ou que, por opção, não vivem permanentemente dependentes de um telemóvel.

Importa deixar um ponto muito claro: os funcionários da Loja do Cidadão não têm qualquer responsabilidade por esta situação. Pelo contrário, fui tratado com competência, educação, disponibilidade e grande profissionalismo. Eles limitam-se a cumprir procedimentos que lhes são impostos.

O verdadeiro problema está na forma como o Estado continua a organizar demasiados dos seus serviços. Cada exigência pode parecer insignificante quando analisada isoladamente. Mas, somadas, representam milhões de horas desperdiçadas todos os anos por cidadãos e empresas. Horas que deixam de ser dedicadas ao trabalho, à família, ao descanso, ao estudo ou à criação de riqueza.

Depois admiram-se de que Portugal tenha dificuldades em aumentar a produtividade. Como poderá um país ser produtivo quando obriga diariamente os seus cidadãos a perder tempo em procedimentos que poderiam ser muito mais simples? A burocracia tem um enorme custo económico, mas tem também um custo humano e psicológico, invisível nas estatísticas.

É difícil não sentir que existe um enorme desfasamento entre as preocupações dos cidadãos e as prioridades da classe política. Enquanto milhares de portugueses perdem horas em burocracias evitáveis, grande parte do debate político parece consumir-se em polémicas, confrontos partidários e assuntos que pouco alteram a vida quotidiana das pessoas.

Os cidadãos esperam dos seus representantes algo mais do que discursos e disputas. Esperam que utilizem o poder que lhes foi confiado para remover obstáculos, simplificar procedimentos e tornar o Estado mais eficiente. Se a burocracia continua a consumir tempo, recursos e energia, é legítimo perguntar: quem assume a responsabilidade por essa realidade?

A função de um Parlamento não é apenas legislar. É também identificar os problemas concretos do país e resolvê-los. Enquanto a simplificação da vida dos cidadãos não ocupar um lugar central na agenda política, continuará a existir uma distância preocupante entre quem governa e quem é governado.

Não precisamos de um Estado mais complicado. Precisamos de um Estado mais inteligente. Um Estado que respeite o tempo dos cidadãos, porque o tempo é um dos bens mais preciosos que possuímos e nunca pode ser devolvido.

Portugal tem excelentes profissionais na Administração Pública. O que muitas vezes lhes falta não é competência, mas procedimentos mais simples, mais claros e mais humanos. Desburocratizar não significa diminuir a segurança nem facilitar a fraude. Significa eliminar etapas inúteis, evitar deslocações desnecessárias, confiar mais na tecnologia quando ela ajuda e oferecer alternativas quando ela não serve todos.

A grande questão é esta: haverá vontade política para enfrentar seriamente este problema? Porque a burocracia não é uma fatalidade. É uma opção de organização. E aquilo que foi criado por decisões políticas pode ser mudado por decisões políticas.

Talvez tenha chegado o momento de exigir menos discursos e mais resultados. Menos conflitos estéreis e mais reformas concretas. Menos tempo perdido em discussões que amanhã ninguém recordará e mais tempo dedicado a resolver os problemas reais das pessoas.

Os portugueses não pedem privilégios. Pedem apenas que o Estado respeite o seu tempo, a sua inteligência e a sua dignidade. E esse é, afinal, um dos primeiros deveres de qualquer democracia que queira merecer esse nome.

domingo, 28 de junho de 2026

Participei na celebração das Bodas de Ouro Sacerdotais do Pároco da minha Paróquia natal


Há celebrações que passam pelo calendário; outras ficam gravadas na memória. A desta tarde pertence, sem dúvida, às segundas.

Na minha Paróquia natal celebrou-se o jubileu dos cinquenta anos de sacerdócio do P.e Cón. Joaquim de Assunção, dos quais vinte e seis vividos ao serviço daquela comunidade paroquial. Foi uma tarde em que a gratidão encontrou voz e em que a fé se fez festa.

A paróquia, dispersa por vários povos, alguns separados por quilómetros e caminhos, revelou aquilo que verdadeiramente a une. As distâncias não venceram a comunhão. Pelo contrário, todos convergiram para o mesmo altar, como ramos de uma mesma árvore que encontram na raiz a sua força.

Tudo respirava harmonia. O acolhimento discreto e fraterno, a organização sem sobressaltos, o coral que elevava a oração, as leituras proclamadas com dignidade, o ofertório vivido com solenidade. Nada procurava protagonismo; tudo apontava para o essencial. Quando cada um serve com humildade o lugar que lhe pertence, a beleza acontece naturalmente.

Também o Senhor Bispo, que presidiu à Eucaristia, soube conduzir a celebração com serenidade e elevação, ajudando a assembleia a viver aquele momento com profundidade.

No final, um simples conjunto de imagens tornou-se muito mais do que uma apresentação. Foi uma peregrinação pela vida do Cón. Joaquim: as marcas da sua história humana, a resposta ao chamamento de Deus, os anos de estudo, o ministério sacerdotal e o serviço pastoral. As imagens iam passando, mas eram cinquenta anos de entrega que desfilavam diante dos nossos olhos, vinte e seis deles profundamente entrelaçados com a história daquela paróquia.

Seguiu-se a homenagem das instituições que caminham lado a lado com esta comunidade — a Autarquia, a Junta de Freguesia, a Paróquia e a Santa Casa da Misericórdia. Cada uma fez chegar ao jubilado palavras de apreço, reconhecimento e gratidão, acompanhadas de ofertas que quiseram ser mais do que simples lembranças: expressão visível da estima de um povo por quem o serviu com fidelidade, dedicação e generosidade.

Por fim, falou o aniversariante. E fê-lo como vivem os homens de Deus: sem grandiloquência, com a serenidade de quem sabe que tudo é graça. As suas palavras tiveram a beleza dos testemunhos que não precisam de adornos, porque nascem de uma fé amadurecida no tempo e confirmada pela vida.

Regresso desta celebração com a alegria de ver a minha terra natal unida em torno de um sacerdote que, durante vinte e seis anos, caminhou com este povo, partilhando as suas alegrias e dores, anunciando o Evangelho e edificando a comunidade. Hoje, a homenagem foi ao Cón. Joaquim; mas foi também uma bela homenagem à própria paróquia, que soube agradecer com elegância, dignidade e coração.

Parabéns aos meus conterrâneos. Estiveram verdadeiramente à altura da ocasião.

E parabéns, meu caro Abade! Que Deus continue a recompensar a fidelidade de quem, há cinquenta anos, respondeu "sim" ao seu chamamento e continua a fazer desse "sim" um dom quotidiano para a Igreja e para o povo que lhe foi confiado.

sábado, 13 de junho de 2026

Seguradoras: Clientes Durante Décadas, Descartáveis na Velhice

 
Ao longo de décadas, as seguradoras gostam de falar de confiança, proximidade e proteção. Fazem campanhas emotivas, apresentam-se como parceiras para toda a vida e prometem estar presentes nos momentos mais difíceis. Mas a realidade de muitos clientes, sobretudo dos mais idosos, é bem diferente.

Durante décadas, um cliente paga os seus prémios, raramente dá despesa e contribui para os resultados da empresa. Porém, quando a idade avança e a necessidade de cuidados de saúde aumenta, o prémio sobe sucessivamente até atingir valores incomportáveis. O que era apresentado como uma rede de proteção transforma-se, na prática, num mecanismo de exclusão económica. Não é a seguradora que rescinde o contrato; limita-se a aumentar o preço até o cliente ser empurrado para fora do sistema.

A crueldade desta lógica está precisamente no momento em que ela se manifesta. Quando a pessoa é mais jovem e saudável, é um cliente desejado. Quando envelhece e mais precisa da cobertura pela qual pagou durante anos, passa a ser um custo a reduzir. O mercado chama-lhe gestão de risco. Muitos cidadãos chamam-lhe abandono.

Mais chocante ainda é a desatenção humana que frequentemente acompanha estas situações. Décadas de fidelidade podem terminar sem um telefonema, sem uma proposta alternativa, sem uma tentativa séria de encontrar uma solução. O cliente deixa de ser uma pessoa com uma história; passa a ser apenas um número numa folha de cálculo. A relação construída ao longo de décadas evapora-se no instante em que deixa de ser suficientemente rentável.

E o silêncio de muitos intermediários e responsáveis que, perante estas situações, se limitam a encolher os ombros e a dizer que “nada podem fazer”??? Curiosamente, são muitas vezes as mesmas vozes que, quando ocupam espaços de intervenção social, exigem respostas imediatas para os problemas da saúde, do envelhecimento e da solidão dos idosos. Nesses momentos, multiplicam-se as propostas, os discursos e as exigências. Mas quando vestem o fato empresarial, a indignação desaparece, substituída pela resignação perante as regras do mercado.

Esta dualidade é difícil de aceitar. Não se pode exigir responsabilidade social num contexto e invocar impotência noutro. Não se pode defender os idosos nos discursos e ignorá-los nas decisões que afetam diretamente a sua vida. A coerência mede-se precisamente quando os interesses económicos entram em conflito com os princípios proclamados.

O caso dos seguros de saúde para os mais velhos revela uma contradição profunda da nossa sociedade: fala-se muito de envelhecimento digno, mas aceita-se com demasiada facilidade que aqueles que contribuíram durante décadas sejam afastados dos sistemas de proteção exatamente quando deles mais necessitam. E o mais inquietante não é apenas a política das seguradoras. É o silêncio conformado de quem, noutras circunstâncias, faz da exigência e da denúncia uma bandeira permanente.

Porque há silêncios que dizem tanto quanto os discursos. E há omissões que revelam mais sobre os valores de uma pessoa ou de uma instituição do que todas as declarações de boas intenções.

domingo, 7 de junho de 2026

Subida à serra pela Daniela

No dia 5 de junho de 2026, a nossa Daniela faria 55 anos. Há 5 meses deixou de estar connosco fisicamente e quisemos relembrá-la de uma forma bonita, num sítio especial, a Serra de Santa Helena.

Quando a dor se transforma em amor tudo se torna mais suportável e foi assim com esta caminhada, esta oração, este momento de partilha e amizade.
Só assim faria sentido pela Daniela que sempre viveu com os outros e pelos outros, sempre pronta a dar a mão a todos, a cuidar e a estar presente sem pedir nada em troca. Queremos agora que a sua energia e vontade de viver se transformem em fé e força para continuar a caminhar, por ela e com ela, sempre!
E assim, caminhamos, rimos, choramos, rezamos, tal e qual como ela gostava.
Num mar de gente viveu, num mar de gente nos despedimos, num mar de gente a recordamos.
No meio de amigos e família, que nunca nos falharam, que dizem sempre "presente" e que todos os dias tornam esta caminhada da vida um bocadinho mais leve.
A nossa profunda gratidão a todos.
A ti, Daniela, obrigado por tudo, mas principalmente pelo exemplo de vida que nos deixaste!
Caminharemos sempre por ti.
Débora e Miguel

Em total sintonia com o testemunho do marido e da filha. 
Daniela, uma amiga que nunca morrerá no coração de uma multidão de amigos!
Daniela, coloca-nos sempre no Coração  de Jesus! 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Petizes, abandonados na estrada, encontraram humanidade no coração de um desconhecido


Há notícias que passam pelos olhos.
E há outras que ficam alojadas no peito.

A história daquelas duas crianças francesas encontradas sozinhas numa estrada do Alentejo pertence à segunda categoria. Não apenas pelo abandono em si, mas pelo silêncio que ele carrega. Porque nenhuma criança devia conhecer o medo da solidão antes de aprender plenamente o significado da palavra “proteção”.

É impossível não pensar no que lhes terá passado pela cabeça naquele momento. A espera. A fome. O frio. O calor. A ausência de respostas. Crianças não compreendem estratégias de adultos, conflitos emocionais ou desorientações da vida. Compreendem apenas gestos. E quando um adulto desaparece, o mundo inteiro parece desaparecer com ele.

Sem julgamentos precipitados, porque a verdade completa raramente cabe nas manchetes, permanece inevitável a inquietação perante o papel da mãe e do padrasto. O que leva dois adultos a permitirem que duas crianças cheguem a um cenário destes? Que fragilidade, egoísmo, desespero ou ausência de consciência pode sobrepor-se ao dever primordial de proteger? Há perguntas que não precisam de tribunal para doerem.

Mas no meio da escuridão desta história houve uma luz profundamente portuguesa. Um cidadão anónimo que não virou a cara. Que viu duas crianças antes de ver um problema. Que escolheu acolher em vez de ignorar. Dar água. Dar comida. Dar colo emocional quando o mundo lhes tinha acabado de falhar.

É nesses gestos discretos que ainda se salva a esperança humana.

Num tempo em que tantas vezes se fala de indiferença, houve alguém que parou. E às vezes salvar um pedaço da humanidade é exatamente isso: parar. Escutar. Aproximar-se. Cuidar.

As crianças talvez nunca compreendam totalmente a dimensão daquele encontro no Alentejo. Mas um dia perceberão que, no momento em que mais precisaram, apareceu alguém que lhes devolveu aquilo que nunca devia faltar a uma criança: segurança, dignidade e humanidade.

E talvez seja essa a parte mais importante desta história.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Santuários cheios… mas que fica no coração das pessoas?


Os grandes santuários portugueses continuam a atrair multidões. Em especial Santuário de Fátima, mas não só. De norte a sul do país, milhares de pessoas peregrinam todos os anos movidas pela fé, pela tradição, pela dor, pela esperança ou pela gratidão.

Vai-se a pé, de carro, em grupo ou sozinho. Acendem-se velas, cumprem-se promessas, fazem-se procissões, dão-se voltas de joelhos, multiplicam-se pedidos e lágrimas silenciosas.

Mas é inevitável perguntar: que fica verdadeiramente de tudo isto?

Que leva o peregrino para casa além da emoção do momento ou da sensação de dever cumprido? Que mudança acontece na vida? Que conversão? Que maior seguimento de Cristo? Que compromisso com a comunidade cristã, com os pobres, com a justiça, com a paz, com a dignidade da vida humana?

O problema não é a peregrinação. O povo continua a mostrar uma sede espiritual impressionante. O problema é outro: muitos dos nossos santuários parecem contentar-se com recintos cheios, sem perceber que multidão não significa necessariamente evangelização.

Por vezes, dá a impressão de que o sucesso pastoral se mede pelo número de velas queimadas, pelas estatísticas de peregrinos ou pela dimensão das celebrações. Mas uma Igreja não vive de enchentes; vive de pessoas transformadas pelo Evangelho.

E aqui surge uma fragilidade evidente: a comunicação da mensagem cristã.

Em muitos santuários, as homilias tornam-se longas, abstractas, excessivamente formais, “eclesialmente correctas”, mas incapazes de tocar profundamente a vida concreta das pessoas. Dizem coisas certas, sem dúvida, mas poucas permanecem na memória do povo. Poucas inquietam. Poucas formam. Poucas mobilizam para uma vida cristã mais séria e comprometida.

Depois da celebração terminar, que ideia fica? Que frase acompanha o peregrino no regresso a casa? Que apelo continua a ecoar durante a semana?

Falta frequentemente uma comunicação mais viva, mais simples, mais directa e mais humana. Falta uma linguagem que fale ao coração sem perder profundidade. Falta transformar a riqueza da fé em mensagens claras, memoráveis e mobilizadoras.

Não sou especialista em comunicação. Mas custa acreditar que a Igreja, com tanta experiência humana e espiritual acumulada, não consiga encontrar formas mais eficazes de semear o essencial do Evangelho no coração do povo.

Uma frase simples, verdadeira e repetida com convicção pode permanecer anos dentro de uma pessoa. Pode converter mais do que longos discursos teologicamente impecáveis, mas emocionalmente estéreis.

Por exemplo:
“Todos, todos, todos os baptizados são Igreja.”
“Cristão sem Missa ao domingo é como sino sem badalo.”
“Ir a Maria e não caminhar para Cristo é ofender Maria.”
“Rezar não é só pedir; é também louvar, agradecer e pedir perdão.”
“Sem conversão, não há cristão.”
“Ama e trabalha na tua comunidade: não há cristãos sozinhos.”
“O outro é teu irmão; também ele é caminho de salvação.”
“Queres a paz? Trabalha pela justiça social.”
“A vida é dom de Deus: respeita-a e protege-a.”

Os santuários deveriam ser lugares de renovação interior, escolas de fé e pontos de partida para uma vida cristã mais autêntica. A devoção popular tem uma força enorme, mas precisa de ser acompanhada, iluminada e orientada para o essencial: Cristo e o Evangelho vivido no quotidiano.

Porque peregrinar não pode ser apenas “ir”. Tem de significar regressar diferente.

Caso contrário, corremos o risco de ter santuários cheios… mas uma fé cada vez mais superficial e sem consequência na vida real.