terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O Papa que revoluciona o modo de dizer



Foi a 13 de Março: apareceu na varanda da Basílica de São Pedro, no Vaticano, e anunciou de onde veio. "Irmãos e irmãs, boa noite. Como sabeis, o dever do Conclave era dar um Bispo a Roma, mas os meus irmãos cardeais foram buscá-lo quase ao fim do mundo." Chegou de longe para ficar perto: com um registo humilde e imprevisível, Francisco aproximou a Igreja Católica de crentes e não crentes. Esta terça-feira, o Papa faz 77 anos.

No início do 2013, poucos tinham ouvido falar nele. Hoje, é a personalidade do ano da revista "Time" e a pessoa mais comentada nas redes sociais. Os primeiros nove meses de pontificado do Papa Francisco ficaram marcados por inúmeros gestos de simplicidade e humildade, de aproximação às pessoas com palavras simples e fáceis de entender. Aos 77 anos, que celebra esta terça-feira, usufrui de uma enorme popularidade.

Para o director do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais da Igreja, cónego João Aguiar Campos, é na forma de comunicar do Papa que está uma chave do fenómeno. "Este Papa comunica ele todo. Não usa só palavras, mas comunica com gestos: sobretudo o que ele diz traz uma profunda simplicidade e autenticidade. Aproxima-se, usa metáforas e desafia os outros a aproximar-se. Ele é um homem que toca, que aspira, que vive, que não tem medo. Aliás, recomendou aos demais 'o cheiro das ovelhas' e tudo isso se nota."

Para o cónego João Aguiar Campos, a mudança na receptividade à mensagem é operada não tanto pelo conteúdo, mas pela forma. "Estamos numa mudança de estilo, pura e simplesmente. Ele é um Papa de continuidade. Todos os Papas são de continuidade, nesta perspectiva. A Igreja tem uma história de dois mil anos, não faz saltos, não faz erupções nem cortes na sua história. Mas acho importante realçar isto da continuidade, porque o Papa Francisco está a revolucionar o modo de dizer, mas não vai revolucionar tudo", aponta o também presidente do conselho de gerência do Grupo Renascença Comunicação Multimédia.

Os gestos do Papa carregam uma mensagem forte. Logo no início do pontificado, há uma série de acções que transmitem a humildade que o caracteriza. Depois do conclave, já eleito, decide evitar o carro oficial e junta-se aos outros cardeais no autocarro. No dia seguinte, vai pagar a conta à pensão onde tinha estado hospedado. Dispensa o calçado vermelho e continua a usar uma cruz de metal, recusando a cruz de ouro e pedras preciosas. Prefere viver na Casa de Santa Marta, uma residência, em vez dos mais confortáveis aposentos oficiais do Papa.

"Não há melhor comunicação do que o testemunho e o Papa é de uma franqueza, de uma naturalidade que demonstra de uma forma marcante. Ele faz uma espécie de 'bypass' a qualquer máquina de comunicação que possa estar montada", considera Manuel Pinto, professor da comunicação da Universidade do Minho. "O Papa mudou a própria figura do Papado. O ter uma vida próxima de uma pessoa normal, com gestos e linguagem de qualquer pessoa, não instaura desde logo uma separação."

Comunicados substituídos por telefonemas
D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal, lembra um episódio que ilustra a forma distintiva que o Papa tem de comunicar. Em meados de Novembro, foi noticiado o despedimento de um jornalista italiano numa rádio católica devido a críticas que fez a Francisco. No seguimento do caso, o repórter acabou por receber uma chamada de apoio do próprio Papa.

"É de registar aquele gesto que Francisco teve com o jornalista que teria escrito um artigo desfavorável: o Papa agradeceu a ajuda que o repórter lhe tinha dado com aquele texto, quando outras pessoas, noutros tempos, poderiam esperar um comunicado da sala de imprensa", refere o bispo emérito de Setúbal.

"Este Papa tem realmente encantado a Igreja. Só tenho medo, sem querer escandalizar ninguém, que o Papa passe à história como um Papa que fez coisas bonitas, invulgares, extraordinárias, mas que não sejamos capazes de apanhar as suas palavras, os seus gestos, como alertas, gritos de atenção do Espírito Santo relativamente à Igreja que Jesus quer e à Igreja que devemos ser", considera ainda D. Manuel Martins.

Manuel Pinto também espera que a mensagem não se perca pelo caminho. "Não estou muito contente com a reacção de importantes sectores na hierarquia da Igreja", afirma.

"Alguns bispos aparentam a dificuldade de encaixar ou de digerir o que tem acontecido e os reptos que tem sido lançados, com argumentos como 'isto já é o que nós fazemos' ou 'isto é o que a Igreja sempre disse'", prossegue o docente da Universidade do Minho. "São formas - um pouco caprichosas, às vezes - de não agarrar esta oportunidade de a Igreja se abrir mais e assumir gestos que possam localmente repercutir este entusiamo e esta adesão, este novo momento que a Igreja vive. Não vemos muito as coisas a agitarem-se. Espero que se acorde e que sejamos capazes de ser dignos do Papa que temos", acrescenta Manuel Pinto.

"Ele não se coloca diante do capitalismo como um ideólogo, mas como alguém sensível"
O Papa tem sido extremamente crítico das consequências do capitalismo e da "idolatria do dinheiro". Considera a fome "um escândalo global", equipara as consequências das "guerras financeiras" às dos conflitos armados e, na sua primeira exortação apostólica, diz que o "dinheiro deve servir e não governar". "Assim como o mandamento 'não matar' põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer 'não a uma economia da exclusão e da desigualdade social'. Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento de um idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na bolsa. Isto é exclusão", escreveu o Papa.
Para Manuel Pinto, Francisco pretende evidenciar que "não podemos tolerar um capitalismo desgovernado, com uma agenda que pretende levar para a frente os interesses de uma parte da sociedade, desprezando muitas vezes o interesse das maiorias". "Faz-nos perceber que alguns dos problemas do mundo não resultam apenas de deficiências pontuais, mas são muitas vezes estruturais de um sistema que marginaliza sobretudo os mais pobres e que não dá oportunidade a todos. Ele não se coloca diante do problema do capitalismo como um ideólogo ou um político, mas como alguém que é sensível e que deita a mão aos dramas provocados pelo capitalismo. Não se limita a acolher as pessoas que estão nas periferias, mas procurando ir às raízes do que faz crescer a pobreza", aponta o docente de comunicação da Universidade do Minho.
Para o bispo emérito de Setúbal, D. Manuel Martins, o problema do sistema é "uma questão de filosofia económica que só terá solução quando houver uma revolução de mentalidades". "O Papa está sempre a chamar atenção para isto, que é causa da pobreza, e foi até muito longe quando justificou a possibilidade de uma certa violência por parte daqueles que têm fome, que é devida ao sistema económico que vivemos e que impera sobre o nosso mundo", considera o bispo emérito.

"À Igreja compete descobrir quais são as causas da fome e denunciar as causas dessa fome. O Papa, para desagrado de muita gente, tem denunciado o capitalismo, a que chama mesmo 'capitalismo selvagem', que é a causa primeira, não sei por quanto tempo, desta pobreza que o nosso mundo vive, que Portugal vive e que a Europa vive", continua D. Manuel da Silva Martins. "Esquecemo-nos, às vezes, do conselho de São Paulo, de que a Palavra de Deus não está comprometida com nada nem com ninguém, e esquecemo-nos de denunciar as causas destas agressões aos direitos da pessoa humana."

Um ideal de justiça
O Papa tem feito, desde o início, um esforço para chamar a atenção para os mais marginalizados. Começou por fazê-lo numa visita à ilha italiana de Lampedusa, onde criticou a "globalização da indiferença" e lamentou a perda da capacidade de chorar com o sofrimento dos outros. Na sua primeira deslocação oficial fora de Roma, o Papa quis chamar a atenção para os milhares de imigrantes, oriundos sobretudo de África, que muitas vezes morrem a tentar chegar a Itália.

Para D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal, a viagem a Lampedusa foi uma primeira prova da "comunhão que ele tem com o mundo que sofre". "Ele pediu ao mundo que não deixasse que a insensibilidade se globalizasse. Tem a coragem de dizer que prefere uma Igreja acidentada no mundo dos homens do que uma Igreja bem tratada, bem guardada e bela. Isto significa que, para ele - como foi para Jesus -, a Igreja tem de estar no mundo, tem de sofrer com os que sofre, alegrar-se com os que se alegram", aponta.

Para o bispo-eleito das Forças Armadas, D. Manuel Linda, "o Papa não governa a Igreja por decreto, mas faz revolução a partir do exemplo da sua vida". "Pelos vistos, a maioria das pessoas, mesmo as que estão fora da Igreja, dão-lhe crédito. É sinal então de que há uma espécie de perspectiva geral de moral, de justiça, que continua a influenciar os comportamentos e as mentes das pessoas. Claro que depois esta visão de justiça pode não ser seguida porque outros factores intervêem - as leis das economia, por exemplo, que são leis absolutamente injustas", acrescenta D. Manuel Linda.

"Mas está aí colocada a justiça que o Papa encarna, pelo menos como ânsia, como uma perspectiva de aspiração, como esperança. Na proximidade com o humilde, com o pobre, com aquele que efectivamente precisa, o Papa está a ser uma espécie de voz de consciência audível, que vem de encontro a uma estrutura que existe em todo o ser humano, que é a ideia de justiça", aponta o bispo-eleito das Forças Armadas.

A humildade e proximidade de Francisco são características destacadas por outras confissões religiosas. O rabino Eliezer Shai di Martino sublinha "a capacidade que o Papa possui de falar aos pobres": "É uma coisa de que gostei muito e que me toca pessoalmente". Para o líder da comunidade islâmica em Portugal, Abdul Karim Vakil, trata-se de um Papa que segue "de facto as pisadas de Cristo". "A forma como se tem comportado mostra aquela pobreza, sem ostentação, de um homem simples e isso é digno da nossa admiração."

"Tirar o melhor que há em nós"
A exortação apostólica de Francisco, que agitou o mundo, vai além de considerações sobre o sistema económico e financeiro. Parte do texto é dirigido à própria Igreja: no seu modo directo e simples, o Papa lamenta quem evangeliza com "cara de funeral", porque constata na alegria uma característica inerente aos cristãos. E pede mais: diz que prefere "uma Igreja acidentada, ferida e manchada por sair à rua em vez de uma Igreja enferma pela reclusão".
Para Manuel Pinto, este é um dos pontos centrais da mensagem do Papa: a defesa de uma Igreja que seja "como um hospital de campanha, enlameada por sair à rua" em vez de "ficar centrada em si mesma". A freira e missionárioa Irene Guia, do Sagrado Coração de Jesus, contribui para o hospital de campanha solicitado por Francisco e mencionado por Manuel Pinto: ajuda há anos os mais necessitados e fá-lo no terreno.

"A Igreja só pode ser universal se for missionária. Nas últimas décadas, a Igreja voltou a meter-se para dentro. O que o Papa está a dizer, em relação ao acolhimento de pessoas em sofrimento pela sua não plena comunhão com a Igreja, é dar uma orientação completamente diferente", refere Irene Guia.

"O que vemos em Jesus é o grande consolador, o compassivo. Creio que este é o valor máximo que o Papa tem dado ao mundo: que as pessoas encontrem descanso na Igreja, porque são acolhidas, porque encontram compaixão", considera a freira e missionária. "Há uma alteração, não da doutrina, mas do paradigma e da maneira de fazer."

No início de Novembro, o Papa Francisco interrompeu uma audiência geral no Vaticano para consolar um homem doente que aparentemente sofre de neurofibromatose, que se caracteriza pelo aparecimento de tumores benignos na pele. "Vermos o Papa a abraçar e a agarrar corpos distorcidos, deformados, e que depois os vemos passados dias a deixarem de se esconder é das melhores recuperações de seres humanos que tenho visto", aponta Irene Guia. "Acho que este Papa vai ter um impacto muito grande. Está a conseguir tirar o melhor de nós."
Fonte: aqui

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