terça-feira, 15 de setembro de 2015

Pais e filhos frente a frente

Solicitámos a um grupinho de pessoas, pais e filhos, que manifestassem a sua opinião sobre a maneira como mutuamente se veem. Pedimos ainda que o fizessem frente a frente, evitando o debate, apenas escutando a opinião de cada um. Por fim, sugerimos que, embora partindo da sua experiência, abordassem o tema de forma abrangente em que os pais procurassem traduzir a opinião dos pais de hoje e os filhos refletissem o sentir dos filhos de hoje.
Agradecemos aos intervenientes a aceitação do desafio e a maneira séria, espontânea, sincera como decorreu o encontro.
 O que mais apreciam nos filhos de hoje?
Ana, 50 anos – A capacidade de dialogarem com os pais. É hoje mais fácil os filhos abrirem-se com os pais do que noutros tempos. Também aprecio a alegria dos miúdos.
Nuno, 49 anos – A liberdade de pensamento. Talvez por conhecerem e dominarem a internet, a globalização está-lhes ao alcance de um clique. Por outro lado, a geração 10-20 é uma geração solidária com as vítimas das crises mundiais, as minorias, o ambiente os animais, etc.
Maria, 59 anos – A capacidade de resolver problemas, tomar iniciativas. Os jovens são hoje mais desenrascados e abertos aos pais.
Gouveia, 54 anos – A sensibilidade e o carinho, o apreço pela verdade e um coração puro. A capacidade de ensinar os pais porque há coisas em que estão muito à frente, veja-se o caso das novas tecnologias.
O que mais apreciam nos pais de hoje?
André, 16 anos – A capacidade de nos perceberem, porque temos interesses novos e outra maneira de fazer as coisas, muito diferente do tempo deles e, apesar disso, dá-nos uma liberdade responsável.
João, 17 anos – O mais admiro é a preocupação que os pais de hoje têm com os filhos, tanto na educação, como na proteção e saúde. Se soubermos conquistar a confiança deles, eles confiam em nós. Não sei se antigamente seria assim…
Rita, 18 anos – O à-vontade que temos em falar com os nossos pais e a forma como nos tentam compreender apesar de muitas vezes se contrariarem na sua maneira de pensar. Aprecio quando não percebem alguma coisa e perguntam aos filhos, especialmente no que toca às novas tecnologias.
Inês, quase 18 anos – A capacidade de os pais aceitarem que os filhos são pessoas, com vontades e gostos, orientações, opções vocacionais e projetos próprios.
O que  gostam menos nos filhos de hoje?
Ana – Os filhos de hoje são pouco persistentes. São capazes de quer virar o mundo por uma ideia, mas após um obstáculo desistem. Por culpa das tecnologias, são solitários, egoístas e, de algum modo, individualistas. Muitas vezes veem o mundo pelo tamanho do seu computador.
Nuno – Na geração 10-20, nota-se uma inversão de valores ou ausência deles. Ou não os aceitam ou não os compreendem. É uma geração preguiçosa, pois fazem o mínimo e não revelam capacidade de sofrimento. Aos 30 anos ainda vemos gente a pensar no que quer ser quando for grande…
Maria – São jovens bastante consumistas, sem preocupação com o futuro, porque os pais estão lá para os apoiar. Só se preocupam com eles próprios.
Gouveia – Ausência de valores, e opção por facilidades. Indecisos quanto ao futuro e dependentes dos pais.
O que  gostam menos nos pais de hoje?
Inês – Os pais criticam a nossa geração, mas foram eles que a criaram. Somos jovens persistentes nas causas que muitas vezes os pais desvalorizam porque são diferentes dos projetos deles.
André – Os pais não percebem que, se nós não temos capacidade de sofrimento e de persistência, é porque hoje não é preciso. Os pais não deixam que os filhos passem pelas dificuldades que eles passaram, logo não podem criticar. Os pais facilitam a vida aos filhos e depois criticam pelo facilitismo jovem?!...
João – A educação familiar que nos foi dada é basicamente aquilo que somos. Apesar da sociedade nos poder modificar um pouco, somos o que for a nossa educação familiar. “Eu quero dar ao meu filho o que eu não tive”, ouve-se. Os pais querem ver em nós o que gostariam de ter tido. Neste sentido, somos uma geração muito consumista porque os pais nos dão tudo. Os pais vivem excessivamente para o trabalho para nos poderem dar tudo, o que lhes retira tempo para nós e para a família. Isto faz com que nós recorramos aos nossos amigos e suas exigências, mas há pais que conseguem controlar as amizades dos filhos.
Rita – Não gosto de ouvir os pais a comparar sistematicamente o tempo deles com o nosso. Acho isso uma mariquice. Ainda bem que hoje é diferente. Cada tempo tem coisas boas e coisas más.
 In Sopé da Montanha, agosto de 2015



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