domingo, 6 de setembro de 2015

Crise dos refugiados: a hipocrisia dos países árabes-islâmicos ricos

A crise de refugiados que hoje enfrentamos é, de alguma forma, consequência da rebelião armada contra o governo de Assad.

1. A actual crise dos refugiados que fogem da guerra na Síria e de outros conflitos no Médio Oriente e Sul do Mediterrâneo (Iraque, Afeganistão, Líbia, etc.) tem provocado intermináveis discussões e profundas divisões entre os europeus.
O assunto é, sem dúvida, dos mais delicados que a União Europeia tem em mãos — mais até do que a crise da Zona Euro e da Grécia —, devido às possíveis consequências duradouras nas sociedades europeias. Nada indica que a dimensão da vaga de refugiados vá diminuir nos próximos tempos, pela persistência das guerras que as originam. Às vagas de refugiados acrescem os expressivos fluxos de migrantes à procura de melhores condições de vida, da Europa Balcânica (especialmente do Kosovo) e da África subsariana. Tendo em conta que, na crise actual, a principal origem dos refugiados é a Síria — e que estes são maioritariamente árabes e muçulmanos sunitas —, uma questão ocorre: por que razão não são os países árabes ricos do Médio Oriente o principal destino de acolhimento desses refugiados? (Ver a análise feita neste artigo da BBC de 2/9//2015, “Migrant crisis: Why Syrians do not flee to Gulf States”, http://www.bbc.com/news/world-middle-east-34132308.) A questão faz tanto mais sentido se pensarmos que a proximidade geográfica, linguística, cultural e religiosa é muito maior do que face a Estados europeus como a Alemanha, a Áustria, ou a Itália, por exemplo. (Poderá ser um contra-argumento que aquilo que atrai os refugiados para a Europa não é só a prosperidade material, mas também a democracia, a liberdade e a tolerância). Esta mesma interrogação foi colocada por um muçulmano britânico, Zahid Nawaz, numa carta dirigida ao Financial Times, publicada a 28/08/2015 sob o título “Hypocrisy of the Muslim Gulf countries” / Hipocrisia dos Países Muçulmanos do Golfo. Vale a pena reproduzir aqui alguns excertos. O autor começa por deplorar a tragédia humana em curso, mostrando a sua decepção pela atitude dos países muçulmanos ricos do golfo “[…] ver refugiados sírios, iraquianos, afegãos e sudaneses, quase todos muçulmanos, arriscarem as suas vidas tentando viajar para a Europa quando há, potencialmente, uma rota muito mais fácil para a Arábia Saudita e os Emiratos, é extremamente decepcionante.” Em seguida, faz notar a atitude de quase indiferença face aos refugiados, contrastivamente com a política de financiamento de grupos rebeldes na guerra da Síria e a riqueza que ostentam: “Esta falta de vontade de enfrentar o custo humano ocorre apesar do alegado financiamento significativo da rebelião na Síria, pelo Qatar, Arábia Saudita e Emiratos. Enquanto isso, o Qatar continua a gastar enormes quantias num Mundial de Futebol e o Dubai em infra-estruturas para uma Expo-Mundial.” Por último, termina notando o seguinte: “os muçulmanos são continuamente lembrados para tratar os outros muçulmanos como parte da umma [a comunidade dos crentes] um elemento constante no desenvolvimento do Islão. Mas quando se trata de fomentar, a longo prazo, uma acção sustentável para manter refugiados muçulmanos em países muçulmanos, a hipocrisia dos regimes locais da Arábia Saudita, Emiratos Árabes e Qatar é uma fonte de enorme decepção para mim e estou certo que para muitos outros muçulmanos.“
2. Se a Turquia (0,8 milhões), o Líbano (1,2 milhões) e a Jordânia (0,6 milhões) — Estados com fronteiras directas com a Síria — já receberam um número elevado de refugiados do conflito sírio, o mesmo não se pode dizer da Arábia Saudita, Emiratos Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Omã e Bahrein. Todos estes Estado estão, em termos geográficos, relativamente próximos da Síria, embora sem fronteiras directas. Mas, mais importante do que isso, estão entre os mais ricos do mundo — mais até do que muitos dos países mais prósperos da União Europeia como veremos em seguida. Estão, certamente também, como já referimos, muito mais próximos em termos culturais, religiosos e linguísticos. Importa notar que estes são objectivamente factores que tendem a facilitar a integração nas sociedades de acolhimento. Um olhar para as estatísticas do Banco Mundial (2014) não deixa grandes dúvidas sobre a riqueza e meios materiais destes países para acolherem muitos dos refugiados. Olhando para o topo, para os primeiros vinte e cinco lugares do ranking mundial do PIB per capita — ou seja dos países mais ricos do mundo —, encontramos o seguinte quadro. Seis Estados árabe-islâmicos encontram-se nesse ranking, por esta ordem: em 1º lugar o Qatar (à frente dos países europeus mais ricos, como o Luxemburgo e a Noruega); em 4º lugar o Kuwait (à frente, da Noruega, frequentemente considerada o país com mais qualidade de vida); em 8º lugar os Emiratos Árabes Unidos (à frente da Suíça); em 11º lugar a Arábia Saudita (à frente de países europeus como a Holanda, Áustria, Suécia, Dinamarca ou Alemanha); em 17º lugar Omã (à frente da Suécia, Dinamarca e Alemanha); em 23º lugar o Bahrein (à frente da Bélgica, Finlândia, Reino Unido e França). Note-se ainda que, todos eles, à excepção de Omã, se encontram classificados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), na categoria mais elevada, o desenvolvimento humano muito elevado. No ranking do PIB, as estatísticas do Banco Mundial (2014) confirmam também o já mencionado. A Arábia Saudita 19º lugar (à frente, por exemplo, de economias como a Suíça, a Suécia, a Bélgica ou Áustria); os Emiratos Árabes Unidos em 30.º lugar (à frente da Dinamarca e Finlândia); o Qatar em 50.º, à frente da República Checa; o Kuwait, em 56.º lugar, à frente da Hungria, onde temos visto algumas das imagens mais desesperadas de refugiados em solo europeu.
José Pedro Teixeira Fernandes, aqui

1 comentário:

António Pires disse...

A sua extensiva e pormenorizada análise peca por um pequeno defeito: não vai à raiz do problema onde estão aqueles que mandam nisto tudo. Se não veja:
Ao mesmo tempo que as aldeias rurais quase só existem nas memórias dos seus derradeiros habitantes, o mundo vai-se transformando numa única e imensa aldeia, onde o meu vizinho tanto é o chinês que come arroz com dois pauzinhos, como o esquimó que se protege do frio no interior da sua habitação de gelo, ou o senhor Ferrão, do segundo esquerdo, que não sabe que as duas da manhã não são horas para ouvir rádio no volume máximo!
O sofrimento, e a morte !..., dos refugiados que, nos últimos dias, têm estado debaixo dos focos mediáticos, toca-nos a todos – não podemos ignorar !, tal como nos alertava Sophia de Mello Andresen.
As reflexões seguintes procuram esclarecer muita gente, enganada e inocente, que não sabe que por trás das declarações tonitruantes dos representantes políticos da alta finança e da indústria das armas de destruição maciça escondem-se as mentiras e maldades abjetas daqueles que provocaram esta tragédia humana dos refugiados. A minha esperança está na bondade das ideias racionais que defendo e quero partilhar com milhões de pessoas, através da internet, na certeza de que o amor, sendo mais forte do que o dinheiro e o armamento pesado de uma minoria insignificante e má, impedirá para sempre a loucura da guerra!
Temos de voltar aos Açores, ao ano de 2003, quando um Cherne recebeu na Base das Lajes três estadistas: Bucho, Bleizer e Asno. Ficou então decidido, pelo americano, que o Iraque devia desaparecer da face da Terra porque, por um lado, os iraquianos eram maus como as cobras e, por outro lado, o seu petróleo era melhor do que o milho!
Depois é o que todos já sabem: não ligaram aos apelos de paz do Sumo Pontífice, fartaram-se de matar a tiro e à bomba pessoas que apenas tinham cometido o “crime” de serem iraquianos, destruíram o estado mau e no seu lugar colocaram os fantoches traidores que governariam o novo país. Como seria de esperar, a anarquia instalou-se imediatamente e hoje os iraquianos humilhados e desesperados matam-se uns aos outros. As tais armas químicas de destruição maciça, essas, nunca foram encontradas – afinal não passavam de um mero pretexto!
O peixe graúdo e os seus três amigos, quais jogadores alcoolizados de taberna, continuaram a divertir-se, ao longo dos anos seguintes, assistindo ao efeito dominó, desencadeado com a destruição do Iraque, da queda em catadupa da Síria, da Líbia, do Egito e de outros países, todos por mera coincidência mal governados por ditadores cujo atraso mental ia ao ponto de apoiarem moralmente o povo oprimido da Palestina!
Os primeiros responsáveis pela hecatombe vêm agora, com lágrimas de crocodilo, pedir a países miseráveis como Portugal, que eles classificam abaixo de lixo, que contribuam com boas casas, alimentação e muito dinheiro, obviamente, no acolhimento condigno dos refugiados vítimas das suas armas e do seu dinheiro sujo!
Como eles é que mandam, Portugal pode vir a ser obrigado a receber dois ou três milhões de migrantes forçados, a instalar numa faixa litoral com 12 km, entre Caminha e a Figueira da Foz. Então, sim, a nossa sociedade será realmente mais rica, pelo menos no que diz respeito à multiculturalidade, acabando de vez com a supremacia do cristianismo, à multietnicidade e à multi-imbecilidade, também!...
Num mundo decente, todos os refugiados teriam direito a usufruir de corredores aéreos que os fariam chegar às terras onde vivem à grande aqueles que os obrigaram a abandonar os seus lares, como o estado de Nova Iorque, onde o dinheiro não falta, ou o estado do Alasca, onde o que não falta é espaço!