sexta-feira, 27 de outubro de 2023

A NOVA EDUCAÇÃO DAS NOSSAS CRIANÇAS E DOS NOSSOS JOVENS. PORNOGRAFIA DESDE OS 9 ANOS

Nova “pandemia assustadora” tem consequências imprevisíveis (e há pais em pânico)

 

Os jovens começam a ver pornografia cada vez mais cedo, logo a partir dos 9 anos de idade. Está, assim, a criar-se uma “Geração Porno” e há pais “em pânico”, sem saberem o que fazer, perante o que já é referido como uma nova “pandemia”.

O documentário “Geração Porno” do canal espanhol TV3 alerta para uma nova realidade que ainda não está a merecer a devida atenção, mas que pode ter consequências trágicas nos próximos anos.

Há cada vez mais adolescentes a usarem a pornografia para se educarem. E o pior é que tentam transferir aquilo que veem nos vídeos porno para a vida real.

A pornografia tornou-se fundamental para esta nova geração, com as crianças a terem contacto com ela cada vez mais cedo.

Muitos jovens começam a ver vídeos pornográficos logo aos 9 anos de idade. Com 12 anos, quase metade veem pornografia e aos 15 anos, a percentagem sobe para os 90%, conforme dados divulgados pelo documentário da TV3.

“Tal como existe uma Geração Z ou os Milenial, é razoável pensar que estamos a criar uma geração de meninos e meninas pornográficos “, destaca o psicólogo e sexólogo José Luis García no documentário.

Para estes jovens, a pornografia é como “uma droga”, uma verdadeira adição. “Porno e pijama” é a solução para lidar com o aborrecimento e o sexo real já parece “pouca coisa”.

Estamos na “origem de uma pandemia assustadora“, de acordo com a análise do psicólogo Juan Carlos Prieto que é especializado em dependências e que também foi ouvido para o documentário.

A pornografia é parte relevante da vida destes jovens, e está a moldar a forma como vivem a sua sexualidade com outras pessoas. E isso acaba por afectar também os jovens que não têm contacto com o universo porno.

Há 800 milhões de sites pornográficos, cada um com uma média de 12 milhões de vídeos porno, de acordo com dados da revista The Economist.

E “88% dos vídeos porno contêm violência física“, com mulheres a serem estranguladas ou a terem os cabelos puxados, como nota o El Mundo. Mas há coisas ainda piores!

No documentário da TV3, quando perguntam aos jovens qual foi “a coisa mais aberrante” que já viram na pornografia, um rapaz refere “uma miúda esquartejada a ser f*****“.

É o que se chama a “pornografia de abutre”, como explica o realizador de filmes pornográficos Antonio Marcos ao El Mundo, salientando que o objectivo, neste caso, é oferecer “algo que seja o mais nojento possível para chamar a atenção” e os cliques dos jovens.

Pais chocados e em pânico

“O que faço?” “O que lhe digo?” “Como posso controlar isto?” Estas são as dúvidas dos pais que se apercebem do que se passa com os seus filhos. E é “pânico” o que sentem na desorientação sobre como lidar com o assunto.

Alguns pais “não dão crédito ao que os seus filhos contam” porque “não o podiam imaginar”, realça a realizadora Oiane Sagasti.

Em outros casos, os pais ficam em choque com as respostas dos filhos que dizem que assistem a filmes porno porque estão “aborrecidos” ou “stressados”.

Mais espantados ficam quando referem que tentam reproduzir nas suas relações amorosas, as cenas pornográficas que são protagonizadas por actores e que, quase sempre, ilustram o sexo de forma irreal.

Há relatos de miúdas que vão a sex shops em busca de sprays para desensibilização da garganta porque os namorados querem que elas façam sexo oral como as estrelas porno. 

O grande problema é que a pornografia está à mão de semear na Internet. É muito fácil de aceder, é gratuita, “dá prazer” e tem “um poder aditivo superior à cocaína“, “o que incentiva o consumo”, como destaca o sexólogo José Luis García.

É “um super estímulo” e quando se consome de forma continuada, chega-se a um dado momento em que uma relação real já “não resulta suficientemente satisfatória”, acrescenta o sexólogo.

Então, os jovens esperam e querem o que o porno mostra – sexo em grupo, sexo anal, violência, humilhações – e tudo isso sem preservativo.

“Se constróis o teu desejo a ver sempre violência, depois vais precisar dela para te excitares”, conclui o documentário.

Mais crimes sexuais cometidos por menores

Nos últimos tempos, têm sido reportados vários casos de crimes sexuais cometidos por menores em países como Espanha e Itália, nomeadamente com violações em grupo.

Em Espanha, o número de crimes sexuais cometidos por jovens com idades entre os 14 e os 17 anos aumentou 14% num ano, de acordo com a Euronews.

Em Itália, o número é mais elevado, com um aumento de 15,7%, segundo dados da mesma fonte.

Ainda recentemente foi notícia o caso de seis adolescentes, com idades a rondar os 14 anos, que violaram uma menina de 11 anos na casa de banho de um centro comercial da cidade espanhola de Badalona.

Há “cada vez mais rapazes nos centros de detenção juvenil por crimes contra a liberdade sexual e cada vez mais condenações por este tipo de crime”, revela na Euronews o juiz de menores em Toledo (Espanha), José Ramón Bernácer, que trabalha com este tipo de casos há 17 anos.

Bernácer revela que o número de casos que ouviu duplicou nos últimos seis anos, lamentando a “falta de educação sexual” que se reflecte em comportamentos agressivos e “machistas”.

“As crianças que não têm educação ou experiência sexual veem filmes pornográficos feitos para adultos e confundem o que é o sexo“, repara a psicóloga especializada em violência de género e stress pós-traumático María Rosario Gomis, também em declarações à Euronews.

“Como não têm nada com que comparar, assimilam a pornografia agressiva e pensam que a sexualidade é isso“, conclui, reforçando a importância da educação sexual nas escolas e defendendo legislação no âmbito do acesso livre à pornografia por parte de menores. 

Susana Valente, ZAP, 25 OUTUBRO, 2023

Os Heróis nacionais de Dom Américo

"A esmagadora maioria dos nossos padres são heróis nacionais", disse Dom Américo no improvisado discurso de uma tomada de posse "fora da caixa", como Bispo de Setúbal.
Gostei de ouvir. Fez-me bem ouvir.
Não porque o mereça, não porque me julgue acima dos leigos ou mais sacrificado que os outros. Não porque precise de elogios como de carvão para a máquina andar. Não. Nem pensar.
Mas faz-nos bem ver alguém, um Cardeal Américo Aguiar levantar "a moral das tropas" presbiterais. Sobretudo sabe bem, quando, mais uma vez, pela enésima vez, o Papa Francisco, numa intervenção sinodal, malhou forte e feio no clericalismo, que ele diz ser e é uma verdadeira praga de mundanismo (sob capa) espiritual infiltrado na Igreja.
Não é que o Papa não tenha razão nem clarividência no diagnóstico, na denúncia e na terapia da doença. Tem carradas de razão.
Mas não seria muito pedir a Dom Américo, o mais novo (e tantas vezes o Espírito fala pela boca do mais novo, diz São Bento na Regra), que, no próximo encontro pessoal com o Papa lhe diga que nós, os padres, temos apanhado merecida porrada. Mas o que é de mais é moléstia.
Sinto que é altura de palavras mais estimulantes e edificantes para a conversão pessoal e pastoral do clero. Talvez elas tenham sido proferidas mas pouco divulgadas. Amo e aprecio imenso o Papa.
Sei que ele mesmo apreciará que discordemos dele em algumas coisas e lho digamos com "parrésia". Neste momento, acho que nos regenera e motiva mais a valorização positiva do que uma censura, mesmo se merecida. Os padres também hão de fazer parte desses "Todos, todos, todos" que se quer acolher. São horas de levantar a cabeça, heróis da missão em terra e além mar.
Amaro Gonçalo, Facebook

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

 

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Dúvidas manhosas!

 
Nos últimos cinquenta anos, não houve um Papa tão contestado, dentro da Igreja, como o Papa Francisco. Aliás, o Papa Francisco é claramente mais contestado dentro da hierarquia e leigos comprometidos da Igreja, do que pelos fiéis leigos, sem compromisso ou mesmo pelos não batizados. Algo que, seguramente, nunca aconteceu nos últimos 50 anos e arriscava-me a dizer (podendo estar a proferir uma asneira), que há alguns séculos que não havia tais sentimentos em relação a um Sumo Pontífice, com a particularidade de, neste caso, o mesmo ter uma enorme aceitação e unanimidade junto do Povo Cristão e, até, não Cristão.

Para mim, isto deve-se verdadeiramente a dois aspetos essenciais: diria que um deles é o facto de o Papa Francisco ser o primeiro Papa da História a falar diretamente para as pessoas e com as pessoas. Ao contrário dos seus antecessores, não precisa de intermediários. Na verdade, dispensa-os. Antes dele, os documentos da Igreja, as mensagens papais e outro tipo de intervenções do Santo Padre necessitavam de ser explicadas pelo restante clero ou católicos empenhados na pastoral.

Pelo contrário, as palavras de Francisco são claras e compreendidas por todos e, os que outrora faziam dessa interpretação papal, não só um trabalho, mas sobretudo um poder, sentem-se, agora, desautorizados e, também, usando um eufemismo, “desempregados”. Um sinal disto torna-se visível na quantidade de gente que, em todos os fóruns contemporâneos, a começar nas redes sociais, vem explicar e complexificar as palavras do Papa Francisco, assim que ele lança um documento ou profere uma simples homilia. Ainda há dois meses, quando em Lisboa pronunciou o famoso “todos, todos, todos”, foram mais aqueles que nas redes sociais vieram explicar e complexificar o que o Papa Francisco queria dizer com isso, do que aqueles que vieram louvar a simplicidade profunda das suas palavras – fortemente assentes no Evangelho e no legado de Cristo Jesus –, que todos as pessoas que escutaram e perceberam. O que o Papa diz não precisa de explicação, precisa de aceitação!

O outro aspeto tem a ver com as redes sociais e o ambiente digital. Sendo Francisco o primeiro Papa da era da generalização e utilização massiva destes media, há que pensar em várias características novas. O conteúdo das suas palavras, não só é ponderado em termos do seu valor comunicativo, como é de fácil e de largo alcance. Se noutros tempos as palavras dos papas eram mediadas por várias pessoas (Bispos, Padres ou catequistas), agora chegam, em direto, a todos e a mediação existe, não está fora de causa, mas é uma mediação específica, com caraterísticas que importa conhecer. A iliteracia mediática e falta de honestidade intelectual e de sinceridade nas relações de algumas dessas mesmas pessoas, também provoca, não só um mal-estar, como um desvio do que é essencial, como do consenso que é necessário a Igreja Católica ter, para continuar a ser uma voz e uma presença credível no Reino de Deus.

O exemplo perfeito disto está nas perguntas manhosas que cinco cardeais fizeram, publicamente, ao Papa, sobre matérias que estão a ser faladas no atual sínodo. O Papa Francisco respondeu sinceramente às primeiras, mas como a resposta não agradou a esses senhores (tal como fazem as crianças, até arrancar dos seus pais a resposta que querem), voltaram a perguntar ao Papa Francisco de outra forma, como se o Santo Padre tivesse reprovado no primeiro exame e tivesse de repeti-lo, numa época de recurso. Não é liberdade de expressão; é mesmo discurso de ódio contra o Santo Padre. E nunca ninguém gosta de ouvir desavenças familiares, sobre heranças, quer seja na taberna da aldeia ou em alguma rede social. Aqui a situação é clara: há cinco pessoas que, não tendo o destaque desejado nas habituais salas onde trocam coscuvilhices e nos espaços onde Francisco, no presente, promove trabalho árduo e importante para a Igreja e para o mundo, vieram para o espaço mediático, dizer mal do seu Pai, da sua família. No mínimo, não é bonito; no máximo não é o que se espera de gente que se diz seguidora de Cristo – mas só da maneira que convém. Em suma: não é de boas pessoas, porque as boas pessoas têm a capacidade de perceber que não são infalíveis e que a sua visão do mundo não deve ser imposta aos demais. Esses, costumam ter outro nome: ditadores.

Será mais útil que rezemos e peçamos ao Espírito Santo que acompanhe todos os participantes no Sínodo, de modo que a Igreja possa crescer, unida e forte e capaz de acolher todos, todos, todos, pois essa seria a maior graça que poderíamos receber. Como diz a Oração Adsumus Sancte Spiritus.

“Nós somos débeis e pecadores: não permitais que sejamos causadores da desordem; que a ignorância não nos desvie do caminho, nem as simpatias humanas ou o preconceito nos tornem parciais. Que sejamos um em Vós, caminhando juntos para a vida eterna, sem jamais nos afastarmos da verdade e da justiça. Amen”.

Fonte: aqui

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

A minha expectativa do sínodo

 

Quando em 10 de outubro de 2021 o Papa Francisco abriu o sínodo sobre a sinodalidade, ninguém tinha a certeza do seu alcance. Sabia-se que seria algo importante na Igreja, ao menos, pela sua duração e pelas etapas estrategicamente propostas: local, continental e universal. As expectativas atingiram de imediato os chamados progressistas e conservadores dentro da Igreja. Os primeiros, entusiasmados, a pensar que se iriam mudar muitas regras e leis, e os segundos, preocupados, a pensar exactamente no mesmo. Que o sínodo é importante, atesta-o o facto de, entretanto, o Papa ter decidido prolongar em mais um ano a sua duração e em promover duas assembleias sinodais. Os temas que a comunicação gosta de badalar são capa. Os jornalistas não perdem a oportunidade para insistir na ordenação de mulheres, a bênção de casais LGBTQIA+, a alteração do celibato, entre outros assuntos sensíveis similares. Muita atenção se tem centrado nestes assuntos, na expectativa do que poderá vir a suceder. 
Desde outubro de 2021 que tenho acompanhado com atenção este processo. Foi-me dada a oportunidade de liderar algumas reflexões e pronunciamentos. Vou lendo o que o Papa vai dizendo, assim como alguns teólogos que aprecio. Acompanho as notícias. Rezo a Deus pelos bons frutos de tudo o que está a ser feito. Rezo bastante. Mas rezo sobretudo a pedir ao Senhor Deus que ajude os cristãos, todos eles, sem exclusão, a perceber, de uma vez por todas, que a Igreja somos todos nós. Se este sínodo apenas tivesse servido para isto, eu já ficava muito satisfeito. Todos na Igreja temos igual dignidade e missão. O que difere é o modo como o fazemos.
Fonte: Confessionário dum Padre, aqui

sábado, 7 de outubro de 2023

Os cardeais começaram no segundo milénio, podem acabar no terceiro?

 Veja aqui

Só um pequeno excerto:

"Os títulos de cardeais, cónegos, monsenhores ou outras “dignidades” são muitas vezes vistos como uma espécie de prémio de carreira. Servem para fazer distinção de cargos, honrarias e pessoas. Tal como as formas de tratamento: eminências, reverendos ou suas reverências (ou seja, que devem ser reverenciados), “Dom” (abreviatura do Domini, os senhores com os seus domínios)… Uns e outras são uma negação absoluta de princípios do Evangelho no qual a Igreja se funda: “Não vos chameis mestres, porque um só é o vosso Mestre, que é Cristo.” (Mateus 23, 10); “Reconheço que Deus não faz acepção de pessoas” (Actos dos Apóstolos 10, 34).

Ainda mais, o cardinalato é uma instituição que vem dos séculos XI/XII. O próprio nome de consistório tem origem na antiga Roma: era “o conselho privado do imperador formado pelos seus colaboradores mais próximos”, como se explica na página do Pontifício Instituto Superior de Direito Canónico, do Rio de Janeiro (Brasil)."

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

CATEQUESE DIFERENTE = AUTÊNTICA - “SÊ A MUDANÇA QUE QUERES


 Que renovação (mudança) querem aqueles que a pedem/exigem à Igreja? A que Igreja se referem? Entre as razões continua entranhada a ideia de a Igreja ser o clero (papa, bispos e padres) e o resto “paisagem”. Por isso, quando pedem mudança exigem-na unicamente a pensar no clero e entendem-na como maior abertura (disponibilidade) para satisfazer gostos (caprichos, interesses) pessoais. São públicas as mudanças (re)queridas, espelhadas e criticadas, sobretudo nas redes sociais. O Sínodo – pelos sinais e modos já evidentes – arrisca-se a embarcar na mesma onda: falar para fora, apontar para os outros.

A renovação “católica” (conversão?) só faz sentido se abraçada por todos os batizados, leigos e clero. Caso contrário, não passará de mais uma farsa (encenação), sempre usada como pedra de arremesso se querida/exigida só por uns ou só para uns. Há muito clero a precisar de “eminentíssima reforma”? Sim. Precisa a maioria dos leigos de urgentíssima mudança? Sim. Enquanto persistir a falácia de pensar e falar sempre para o outro lado da barricada não há renovação ou Sínodo que nos valha. Tem de começar pelos padres e bispos? Por que razão não podem os leigos “obrigá-los” à mudança através do seu compromisso sério e testemunho audaz? “Se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha”…

A catequese continua a ser para a maioria dos encarregados de educação e catequizandos uma “escola/escala de sacramentos”: levar os filhos à catequese para fazer a primeira comunhão ou a comunhão solene e obrigá-los a continuar até ao 10º ano para fazer o Crisma, senão “não podem ser padrinhos”.

Quando procuram os catequistas não é (tanto) para conversar sobre o crescimento espiritual e humano dos seus, dialogar sobre o seu crescimento (maturidade humana e espiritual) e a sua condição de discípulos/cristãos (seguidores/imitadores de Cristo), mas para saber a data da festa (“temos de mandar convites”) e como deve ser (roupa, lugar, intervenientes). Passado o dia, passou a romaria: fezadas e festinhas.

Estes pais – primeiros educadores dos filhos – são os primeiros a reclamar e a fazer a vida negra aos catequistas se o horário ou o lugar da catequese não lhes convém: “não temos tempo”, “não vamos andar sempre a correr para a igreja”, “no meu tempo não era assim”, “quem me paga o gasóleo?”. Os mesmos pais que, pródigos de (in)coerência, não regateiam esforços e fazem semanalmente dezenas de quilómetros para levarem os filhos ao futebol, à música ou, pasme-se, à discoteca, aniversários dos amigos e convívios de várias ordens…

Estes pais – primeiros educadores dos filhos – exigem uma mudança na Igreja, mas não querem participar na Eucaristia dominical (mesa/refeição da família cristã) e levar os filhos consigo: “não posso obrigá-lo”; “ao fim de semana precisa descansar”; “aproveito para dar um passeio com eles”; “vão quando lhes apetecer”; “a Missa é para as beatas”.


Estes pais que seriam, porventura, bons educadores pelo exemplo e verdade, não têm problemas em mentir ao padre e aos catequistas (ou arranjar desculpas falsas) afiançadas e assinadas, sem pejo, pelos próprios filhos. A verdade usa-se como adereço, a pôr de parte quando não serve ou não dá jeito aos interesses próprios.

Estes pais – primeiros educadores dos filhos – reivindicam mudança, mas não têm tempo (vontade, disponibilidade, generosidade) para colaborar como catequistas, leitores, coralistas, visitadores ou membros de grupos de formação e evangelização. No entanto, são os mesmos que semanalmente levam o/a menino/a ao futebol (“ronaldite” aguda e sistémica) e ficam por lá horas a fio a pressionar e insultar treinadores, árbitros, colegas, entre outros.

Estes pais – primeiros educadores dos filhos – sem tempo/vontade para colaborar na catequese ou qualquer “serviço paroquial”, não se coíbem de exigir a catequese para os filhos, à hora e dia que lhes convém, fazendo dos catequistas escravos dos seus interesses e caprichos, esquecendo (talvez por míngua de caridade e/ou educação/respeito) que a maioria deles são pais e mães, têm emprego e encargos familiares e ainda têm de gramar com exigências e malcriadez de quem não contribui absolutamente para nada.

Em vez de bramir por mudança nos outros, não seria oportuno pensar em mudança pessoal? Converte-te a ti mesmo para que os outros acreditem em ti! Não seria evangélico arrastar os outros pelo exemplo e sinais claros de mudança pessoal e familiar? Se a sabedoria do povo diz (e bem) que “pimenta no rabo dos outros é refresco”, Ghandi também pedia para “sermos a mudança que queremos ver no mundo”. Da minha parte, tenho pensado e cada vez levado mais a sério: “quem não estiver bem que se mude”… Ou seria evangélico mudar (adulterar ou onerar a minha consciência/fidelidade) para agradar a interesses meramente pessoais e alinhar em trejeitos puramente mundanos?

P. António Magalhães Sousa, aqui

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Nada disto interessa!

Os cristãos perseguidos, torturados e mortos por toda a África, Nicarágua, etc., não interessam à comunicação social.

Mesmo, infelizmente, a própria Igreja pouco fala disto.
Interessa é a Ucrânia e deve interessar, claro, a par com todas as outras guerras caladas que existem por todo o mundo.
Joaquim Mexia Alves

Nigéria: Seminarista morre queimado após ataque a paróquia católica

Fundação AIS denuncia onda de violência no país africano

Foto: Fundação AIS

 Na’aman Ngofe Danlami, seminarista nigeriano, morreu queimado na sequência de um ataque a uma paróquia na Diocese de Kafanchan, informou a fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (AIS).

A organização católica considera que a Igreja “está a ser alvo de constantes ataques e agressões” no país africano.

Na’aman Ngofe Danlami, de 27 anos, morreu quando “bandidos fulani atacaram e incendiaram a reitoria da paróquia de São Rafael, na Diocese de Kafanchan”, cerca de 160 quilómetros a leste da capital nigeriana.

“Quando falharam a tentativa de entrar na casa do padre, deitaram-lhe fogo. Os dois sacerdotes conseguiram escapar, mas, terrivelmente, o seminarista foi devorado pelas chamas”, relata o bispo de Kafanchan, D. Julius Kundi.

O responsável católico questiona a falta de resposta “por parte das forças militares”.

“Os cidadãos nigerianos estão desprotegidos”, lamenta.

Agência Ecclesia

terça-feira, 5 de setembro de 2023

Agrados e desagrados do momento

Foi agradável aquele tempinho de férias na companhia de familiares meus a quem agradeço todo o acolhimento, simpatia e gratuitidade.
Tive um bom tempo de praia, água agradável, mar sereno. O espaço que frequentei era muito calmo, sendo as famílias com crianças e as pessoas idosas os principais clientes.
Como gosto, caminhei imenso. Além da hora diária gasta entre casa e praia, sobraram as imensas caminhadas, que normalmente fiz sozinho, mas uma vez ou outra com familiares. É uma experiência que me encanta: sozinho no meio da multidão!
Em cada dia fiz uma boa acção: como trouxe sempre o relógio comigo, fartei-me de indicar as horas a quem mo solicitava. Foi a boa acção de escuta. Muita gente na praia. Nalguns espaços,  era preciso serpentear para contornar as pessoas. Várias vezes parava para observar crianças brincando, famílias a divertir-se, velhinhos a dar a mão aos netitos, pais, com o cansaço estampado no rosto mas que conduziam com imenso carinho o filho deficiente. Também gostei de ver as brincadeiras entre donos e cães ao pé da água. Mas o que mais me encantou foi ver famílias felizes, a jogar, a passear, a conversar, a rir.
Gostei muito das brincadeiras, das piadas, das provocações, das conversas a série com os meus sobrinhos e sobrinhas. Foram encantadores.
No especto religioso, alguma esperança, bastante deceção. Esperança quando participei na Eucaristia em 20 de agosto. Templo completamente cheio, com gente de todas as idades. Deceção quando no domingo seguinte, numa Igreja da mesma zona, vi o templo com muito menos gente do que em anos anteriores. E a hora era a mesma... Pior ainda! No dia 3 de setembro numa grande Igreja moderna, na zona do Porto. Pouquíssima gente, sem novos! 
Pensei que a Jornada Mundial da Juventude tivesse abanado mesmo a Igreja em Portugal. Que os cristãos perdessem o medo e assumissem corajosamente a sua fé. A 1ª Missa no Algarve aumentou-me essa esperança. Mas as duas experiências seguintes fizeram-me aterrar na realidade. Infelizmente não será bem assim...
A vida no Algarve é ainda mais cara do que no resto do país. Uma carestia de vida infindamente para além do razoável. Parece outro país!
Apesar da carestia em geral, apesar dos preços nos restaurantes serem chocantes, estes espaços estavam sempre cheios, obrigando sempre a marcação prévia. E não venham com a história dos estrangeiros... Era claro que a maioria dos frequentadores eram portugueses. A desigualdade de ordenados em Portugal é ofensiva e permite estas situações.

terça-feira, 15 de agosto de 2023

As Jornadas Mundiais da Juventude - Uma desilusão

 Recomendo ao Santo Padre que devolva aos jovens o seu natural desejo de melhorar o mundo com paus e pedras nas mãos e diga-lhes que só quer ver Seul a arder.


Desde o Maio de 68 que a juventude que os intelectuais admiram está empenhada em salvar o mundo, ou melhorar o mundo, ou transformar o mundo, ou então, se nada disso for possível, pegar fogo ao mundo. Para tal, vai para as ruas protestar contra alguma coisa, partir montras, incendiar carros e apedrejar a polícia. Essa alguma coisa é, na verdade, o Capitalismo e as suas ramificações: o colonialismo, o racismo, a discriminação sexual, o aquecimento global, os direitos dos animais, os bifes, e a violência policial. O protesto pacífico à moda de Gandhi há muito que passou de moda. O mais pacífico que os jovens conseguem é vandalizar obras de arte ou mostrar as mamas. Ou, então, ir para a rua culpar o Capitalismo pelas alterações climáticas, sendo eles próprios os principais consumidores que financiam esse mesmo sistema. Também o sonho de Luther King de a cor da pele desaparecer e todos os seres humanos serem iguais passou de moda. Pior ainda, tornou-se uma ideia racista. A guerra racial e o juste de contas histórico é que são modernos e recomendáveis.

Portanto, a juventude que os intelectuais admiram protesta, culpa os outros, é violenta, e, não raras vezes, faz figuras tristes.

É por isso mesmo que estas Jornadas Mundiais da Juventude foram uma profunda desilusão. O início até parecia prometedor: um grupo de jovens egípcios desatou à porrada num bar; os herdeiros de Torquemada invadiram uma missa LGBTQIA+ com zurros em latim; havia uma mistura potencialmente explosiva de religiões diferentes; e havia freiras à solta. Demais, alguns daqueles jovens tinham mesmo cara de quem gosta de se meter nos copos e armar desacatos. E algumas meninas até tinham belos seios católicos, decerto virginais, para mostrar ao mundo. Mas, infelizmente, nada disso aconteceu: nem cabeças rachadas, nem mamas ao léu, naturalmente a apontar para o céu.

Onde estavam os jovens de todas as religiões a lutarem entre si? Onde estavam os jovens com cartazes contra as injustiças sociais, contras as alterações climáticas, contra a falta de habitação e as rendas altas? Onde estavam os esvaziadores de pneus? Aqueles que idolatram ditaduras? As boinas Guevara e os lenços árabes? As ambulâncias e os carros da polícia? Em suma, onde estavam os jovens a protestar contra o Capitalismo, o Patriarcado e a Bruxa Má do Oeste? Nem um cocktail de água benta se viu.

E onde estavam os bêbedos e os drogados? Os grafitis e as borratadas? Valha-me Deus, que desilusão. Ao menos, podiam grafitar um peixinho e uma pombinha na peruca do Marquês de Pombal. 

Além disso, e a santa Greta? Porque não apareceu para tentar corrigir este desvio de uma juventude pacífica que substituiu o amor pelo ódio?

Foi por isso que os intelectuais se enfureceram tanto. Porque esta aberração dos jovens pacíficos que substituíram a religião moderna das guerras culturais pelas religiões antigas nunca deveria ter acontecido. Os intelectuais sabiam que aquele milhão de jovens que não protestou contra nada, que não partiu montras nem atirou pedras à polícia, que não deixou as ruas cheias de lixo só poderia ter sido vítima de uma lavagem ao cérebro com fins políticos. O Vaticano, a CIA, o Grande Capital e algumas tascas de bifes estão por detrás disto.

Por isso, recomendo ao Santo Padre que da próxima vez que organizar as Jornadas Mundiais da Juventude planifique a coisa como deve ser. Peça ajuda à Greta, aos mentores das guerras raciais, às feministas radicais, aos atacantes de obras de arte e, mais que tudo, aos intelectuais que admiram Cuba e a Venezuela, a Lula da Silva, assim como a todos os que consideram que foi a Ucrânia quem começou a guerra contra a Rússia. Apesar da sua extraordinária capacidade para escutar, ao Santo Padre não lhe será fácil ouvir este charivari de intolerância, ódio e charlatanice. Mas, com a ajuda do Espírito Santo e alguns ansiolíticos, lá conseguirá aguentar. 

Por fim, bem aconselhado, devolva aos jovens o seu natural desejo de melhorar o mundo com paus e pedras nas mãos e diga-lhes que só quer ver Seul a arder.

Os intelectuais ficarão então satisfeitos e considerá-lo-ão um Papa moderno, defensor dos oprimidos e amigo do planeta. 

Se este elogio lhe vai agradar ou envergonhar, isso só Deus sabe.

João Cerqueira, aqui

sábado, 12 de agosto de 2023

 

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

VER E SENTIR

 
No princípio era a verba. Depois a incapacidade de organização, seguida pela insegurança e os perigos da criminalidade.
E o" estado em que isto está" a patrocinar o evento.
Em cada dia, a contabilidade " eram não sei quantos mil" cálculos "talvez renais" sobre quantos por metro quadrado vezes x não pode ser um milhão e meio.
E a destruição dos espaços que essa "malta" ia pisar.
Entre muitos outros bitaites eram também os mortos e feridos sem assistência médica no local, ou nos hospitais.
E claro, as larachas , mesmo sendo o humor uma manifestação de fineza de espírito, algumas rondavam o achincalhamento, mas pronto, o humor, dizem, não tem limites nem fronteiras.
Amigos, não é nada disto que vos vou escrever porque não quero conspurcar o meu estado de tranquilidade e paz interior com as guerras de alecrim murcho e manjerona sem odor, mas com dor.
Só para vos dizer que vi, senti, e trouxe para dentro de mim, mais um pequeno valor acrescentado para o resto dos meus dias.
Da minha idade, ontem no Parque Tejo, estávamos em ampla minoria, mas com todo o direito a um acto de rejuvenescimento interior.
Da janela do autocarro em que seguia, às 3 da tarde, via ranchos de gente nova, bandeiras daquelas que nem sempre identificamos, a caminhar alegremente os quilómetros que ainda faltavam para lá chegar. E acenavam com sorrisos.
O "caos" para entrar foi uma caminhada em terra batida, saudados por "miudagem" de T-shirts amarelas que nos indicavam o caminho.
Não sei se uma hora depois já lá estava o milhão e meio das análises geográfico/matemáticas, mas quando a Sandra e eu chegámos, devemos ter feito a conta certa.
Fui sendo abordado por rádios de pequena , média e grande dimensão que me perguntavam sempre o que estava a sentir e porquê ali.
"Quero ver, viver e sentir mais de perto, a personagem mais notável do século XXI"... "Sei de cor algumas das suas frases, mesmo aquela que impressionou tanta gente, a da" única condição em que um homem pode olhar de cima para baixo para outro homem..." que não foi escrita pelo Papa , ( sim Johnny Welch, atribuída por engano a Gabriel Garcia Marquez, bendito seja o Google para tantos culturistas da cultura), e tomei nota de outras para me ensinar ainda mais qualquer coisa sobre a arte de viver.
Já sentado, tentava olhar em volta para um mar sem ondas alterosas que desaguava no rio ali em frente.
Esperar algumas horas dá para rememorar.
"Quando apertares a mão a um deficiente ou um pobre, isso não se contamina. Não vás a correr lavá-las"
" Mais vale sujar as mãos do que o coração".
Do lugar onde estávamos, via apenas de lado o palco das manchetes ,mas agora com desconto. Assim vi tudo pelo enorme ecrã ao nosso lado.
Quando os jovens de amarelo se começaram a alinhar num cordão já sabíamos que Francisco vinha aí.
E assim passou a três metros de nós, eu mais alto, consegui a foto que vos mostro e decidi que aquele aceno sorridente tinha sido só para mim.
A Vigília que se seguiu foi um momento de uma insondável espiritualidade e um acto cultural de rara qualidade.
A orquestra e coros em peças encantatórias, os bailados o canto de Carminho, e os momentos de silêncio do tal milhão e meio, foram para nós um privilégio, porque não estávamos em casa a ver pela televisão.
A música foi inteira e os silêncios esmagadores, respeitados.
E o Papa falou entre o texto escrito e o improviso.
Disse que podemos ser todos sementes de alegria, insistiu para que ultrapassemos os medos , que gosta de futebol mas que tal como o avançado que marca o golo resulta do seu treino, também nós devemos treinar muito esta dádiva de viver, e que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos, mas dos fortes.
A noite caía e no céu desenhavam-se em estrelas, mensagens de amor.
Após o Papa sair, a festa do encontro continuou. Fui fazendo selfies com gente que me abraçava e até um jovem me disse:- Esta foto é para a minha avó que também usa um aparelho nos ouvidos como o seu!
No caminho por onde Francisco tinha passado, desfilava agora um pelotão da Polícia. E não é que aquela "malta" os aplaudiu com entusiasmo. Devem ter sido os mesmos ou outros peregrinos, que ajudaram a limpar o Parque Eduardo VII que não ficou destruído como "preconizado".
De volta passámos pelos hospitais de campanha em actividade tranquila para casos de desidratação, cansaço ou até ansiedade. Tudo resolvido pelos médicos e enfermeiros sem tragédias de primeira página.
E agora? O Papa partiu e o mundo vai ficar diferente...já?! E Portugal que foi reportado por cinco mil jornalistas para todo o mundo terá amanhã os seus problemas resolvidos, o pão, a habitação, saúde e educação, porque paz até parece que vai existindo.
Francisco não resolve, alerta, desperta e nós temos que fazer o nosso papel.
Por isso, não contem comigo para polemizar sobre o que vi , senti e vivi.
Lisboa tem cheiros de flores e de mar como o papa também disse, sem assumir direito de autoria.
Pelo meu lado, confesso que só sei de orações, o Pai nosso e a Avé Maria aprendidos na escola há muitos anos. Não foi preciso repeti-las porque na Vigília a oração era um colectivo de silêncio inspirador.
Mas é nas pausas às vezes em noites de insónias, que falo com Ele porque preciso de quem me ouça.
Dei agora por mim a recordar uma frase de Elton John, que não é católico: - Francisco é um milagre de humanidade na era da vaidade.

JMJ 2023: Papa viveu «dias inesquecíveis», com mensagens para todos e desafios aos jovens

 Veja aqui: aqui



sexta-feira, 4 de agosto de 2023

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Francisco dançará connosco o seu último tango

 1.

O Papa chegará amanhã a Figo Maduro às dez da manhã.
Já tudo ou quase tudo se disse.
Francisco tem 86 anos e uma saúde frágil. É provável que não volte a Portugal, provável que a sua vida não se possa estender muito mais anos.
Amanhã, no final da madrugada, entrará num carro que o levará ao aeroporto. Duas horas depois aterrará neste nosso tão instável país.
2.
Tem sido a minha batalha, talvez inglória.
A de te dizer que será um privilégio aproveitar a vinda deste homem que nos ofereceu esperança, que nos soprou a palavra que, ao mesmo tempo, nos permite o milagre de voltar a acreditar e nos condena à inapelável desilusão do confronto com a realidade.
Temos de aproveitar Francisco enquanto aqui está.
De lhe agradecer a chispa de luz que continua a sair do seu corpo, do seu olhar terno, das suas desarmantes palavras.
Recordo-me de o ter visto a lavar os pés a um preso transsexual na Quinta Feira-Santa, noite em que se celebra a Última Ceia.
Lembro-me de o ter observado na visita que fez a um albergue de prostitutas. A maneira como as ouviu, como com elas trocou correspondência.
Lembro-me daquele homem deformado que nos obrigava a virar a cara, o modo como Francisco se aproximou e o abraçou e lhe beijou as feridas durante uns segundos que me pareceram a eternidade.
Lembro-me de Francisco celebrar a missa para uma Praça de São Pedro deserta pela força de uma pandemia que nos ameaçava com o holocausto.
Lembro-me de como convocou as vítimas de pedofilia para o palácio, de como incentivou os bispos em todo o mundo a abrirem as suas caixas de Pandora.
Lembro-me de o ver com crianças, a responder-lhes a todas as perguntas ou a pedir aos artistas para não se esquecerem dos pobres.
Lembro-me quando nos disse que era humano, que gostava de futebol e que adoraria poder voltar a passear incógnito nas ruas de Buenos Aires e a dançar um tango de Piazolla com uma mulher bonita.
3.
Sabes o que Francisco disse a Tolentino Mendonça quando o conheceu fora dos cumprimentos de circunstância?
“Senhor padre, acha que me pode conceder cinco minutos do seu tempo?”
Tolentino ficou atrapalhado, sem saber onde meter as mãos e o sorriso.
“Sua Santidade, o senhor é que me tem de conceder um bocadinho do seu tempo”.
E eles foram e encontraram-se no pequeno quarto de Tolentino, divisão que lhe fora destinada num retiro em Roma que, à última da hora, soube que teria a presença de Francisco.
Falaram quase uma hora.
E sabes do que falaram?
De Fernando Pessoa e de Jorge Luís Borges.
E no final da conversa, Francisco fez silêncio e perguntou a Tolentino se queria rezar com ele.
4.
Estas jornadas são decisivas para o que acontecerá após sua a partida.
Um homem que nos convoca para a ideia de pertença, para o martírio da esperança, para a urgência de questionamento, para a responsabilidade de estar à altura, para a vontade de combater por um mundo mais largo, para a constatação de que um ateu ou um agnóstico é também filho de Deus – mesmo que para ateus e agnósticos Deus continue a não existir.
E nele não há ponta de medo, já repararam? É como se levitasse por entre contrariedades, obstáculos, inimigos – que os tem e não tão poucos quanto isso.
4.
Impressionante como não se deixou corromper no olhar, a sua mais poderosa das armas. Um olhar capaz de devolver a dignidade aos que estão na cave do mundo, veremos isso quando o virmos rezar em Fátima ajoelhado e ao lado de alguns jovens a cumprir pena no Estabelecimento Prisional de Leiria.
Ou quando o virmos entre os miúdos de todo o mundo com os seus olhos de criança grande.
Teremos tempo para discutir as coisas más da Igreja e a relação com o Estado.
Mas amanhã chegará Francisco.
Um homem que tendo feito tanto, que tendo aberto tantas portas, continua a precisar do abraço do mundo para que a revolução não morra com ele.

sexta-feira, 21 de julho de 2023

Vaticano: Papa vai ligar celebração do III Dia Mundial dos Avós à JMJ 2023

Vaticano: Papa vai ligar celebração do III Dia Mundial dos Avós à JMJ 2023: Francisco preside a Missa com seis mil pessoas, que inclui entrega da «Cruz do Peregrino»

quarta-feira, 19 de julho de 2023

A Humanidade do Padre


Não pude deixar de refletir, por estes dias, na condição sacerdotal atual. Primeiro tolhido e abatido pelo número de padres que têm falecido. Não há semana em que a Ecclesia não noticie a morte de um sacerdote e há semanas em que temos um óbito de um padre todos os dias. Há uma geração de sacerdotes, que deixou uma marca indelével na Igreja e na sociedade, que está a partir. Não podia ser mais premente o apelo do Evangelho aqui há uns tempos atrás, não para se acordar Deus ou se dar um puxão de orelhas ao Espírito Santo, mas para despertar todos e cada um para a sua vocação e para a necessidade de dar mais: pedi ao dono da seara que mande trabalhadores para a sua seara. Em segundo, refletindo em dois apelos importantes: um vindo de D. Vitorino Soares, para que as comunidades cuidem dos seus pastores e os pastores também cuidem uns dos outros, e se rezasse pelos pastores que andam mais abatidos, desiludidos e cansados; outro vindo de D. António Luciano, pedindo aos padres que tenham uma vida interior séria e com profundidade espiritual.

Todos estes apelos são bem-vindos e têm razão de ser, há que rezar pela santificação dos sacerdotes, mas, hoje, mais do que nunca, é preciso primeiro cuidar da humanidade do padre. O baixo número de vocações está a levar a que os padres assumam muitas paróquias e se multipliquem por um sem número de atividades e ações. Ainda vigora o “padrocentrismo” em muitas paróquias. Tudo se faz com o padre e nada se faz sem o padre. Exige-se a sua presença em todo o lado. Por outro lado, o estatuto do padre mudou. Já não tem a autoridade de outros tempos. Ainda é ouvido, mas depois cada um faz o quer e deixa o padre a falar sozinho. Parece que anda a pregar para surdos, salvo seja. No meio deste relativismo, o padre sente-se um pouco perdido e com um trabalho muito mais dificultado, o que não deixa de ser um grande desafio. Mas, por outro lado, muitas pessoas ainda procuram o padre, porque vivem num turbilhão de dúvidas, incertezas, angústias, dificuldades, vazio existencial e desnorte moral e espiritual, que a sociedade atual oferece, e a voz do padre ainda é valorizada.

Temos uma formação vincadamente humana, intelectual, moral e espiritual, centrada na liturgia e na pregação, mas quando chegamos às paróquias percebemos que temos de ter alguma plasticina, moldada pelo engenho e pela carolice de cada um: ser secretário, burocrata, empreiteiro, cozinheiro, dono de casa, sacristão, maestro, assistente disto ou daquilo.  Como se isto não chegasse, ultimamente ainda lhe arranjaram o cargo chique de ser presidente de centros paroquiais. Muitos párocos aceitam, porque assim também mandam as regras, dá poder e visibilidade social, mas acho que os padres não são ordenados para serem presidentes de centros paroquiais, para o qual não tiveram nenhuma formação ou muito pouca. É um cargo com alguma exigência. No meio desta azáfama toda, pergunta-se: o padre ainda terá tempo para ser padre? É ordenado para ser padre e depois é quase tudo menos padre. Certamente que deve dar o seu contributo no campo social e no serviço às instituições, mas não deve ser o padre a liderar. Há leigos com formação neste campo, que perfeitamente podem ocupar o cargo. O trabalho de «funcionário» das paróquias e da Igreja, infelizmente, traz muito prejuízo para a vida espiritual e para a disponibilidade que o padre deve ter para os outros como padre. Duvido que agendas sobrecarregadas, com muitas atividades, reuniões e ações, façam dos padres bons padres.  Há um excesso de preocupação pelo fazer e não pelo ser e estar, que é o fundamental da vida de um padre. Até o povo já se habituou a comentar que «o senhor padre tem muito que fazer e, coitado, anda tão cansado». Quem me liga para o telemóvel, já me vai dizendo muitas vezes “desculpe incomodá-lo, que o Senhor deve ter muito que fazer”. Se assim é, alguma coisa não está bem na vida do padre atual.

Ser padre exige alguma prudência, equilíbrio e humildade, para não se cair no vedetismo, que é sempre uma tentação. O padre indica, deve apelar sempre e ser ponte para algo muito maior do que ele: Jesus Cristo. Na Igreja, o centro das atenções é Jesus Cristo e não o padre. Mete-me alguma confusão e impressão ver padres armados em vedetas e nas paróquias grupos de pessoas alinhados com certos padres e com outros não, ou multidões dominicais com uns padres e desertos com outros. São sinais evidentes de grande superficialidade e imaturidade cristã. O padre que é vedeta, com agenda e objetivos pessoais, é um mau padre, e uma comunidade que se centra muito no estilo do padre, é uma má comunidade. Uns têm mais talentos do que outros e alguns serão mais apelativos do que outros, mas uma boa comunidade cristã e um bom cristão centra-se em Cristo e não no padre que tem.

Mas o que mais refleti, já embalado pela vintena de anos do meu sacerdócio, foi o encontro com a minha pobreza e a minha fragilidade no exercício do sacerdócio. Julgamos que vamos ser sempre jovens e que vamos ter sempre novidade, criatividade e frescura espiritual e pastoral para dar e vender, mas não é bem assim. O encanto por ser padre e servir Cristo e a Igreja não se perdeu, mas vive-se na fragilidade da nossa humanidade. Construímos a imagem de que o padre é quase o senhor todo perfeito, um anjo de Deus na terra, sem defeitos, sem dificuldades, sem problemas, sem angústias e sem dúvidas. Não tem dramas, nem complexos, muito menos vícios e manias. Tem bons conselhos para tudo e todos, possivelmente viverá sempre uma vida espiritual elevada, nunca perde o equilíbrio e nunca precisa de ajuda, está capacitado para ter uma performance quase perfeita. O padre é encarado como um ser extraordinário que vive quase incólume ao que os outros experimentam. Um padre sem humanidade. Lamento, mas este padre não existe. Aquela imagem faz até com o padre se sinta pressionado e passe algum tempo a esconder os seus medos, as suas fragilidades e as suas angústias, porque o padre tem de ser sempre imperturbável, forte e certinho, não pode ser fraco ou manifestar fraqueza. Nada mais ilusório e desumano. O padre também falha, erra, engana-se, chora, sofre, ri, cora, irrita-se, treme e distrai-se, adoece.

Há que assumir a nossa humanidade. As comunidades cristãs têm se habituar a gostar do padre que têm, um ser humano com as suas virtudes e os seus defeitos, a não se limitarem só a exigir, sem olhar à fragilidade e limitação do sacerdote que as serve. E o padre não ter medo de mostrar o que é e o que vive, confessando-se de vez em quando à comunidade, para também ser ajudado e não viver no drama de alimentar falsas imagens e recusar a sua humanidade, na unicidade e especificidade de cada um.

E, por favor, façam-me um obséquio: não me falem mal dos padres velhos por serem velhos. Quem não vai para velho? As comunidades cristãs, e a Igreja em geral, não podem querer só a parte melhor das pessoas, o seu tempo de maior vigor e criatividade, e depois quererem facilmente arrumá-las, como se já não tivessem qualquer valor. Os critérios da Igreja não são a produtividade e a eficácia, mas o amor e o serviço. As pessoas devem ser sempre amadas e respeitadas, acolhidas na sua mais pura humanidade, independente do que fazem e produzem. A igreja, primeiro que tudo, tem de ser uma casa de humanidade.

Padre Vítor Pereira, Diocese de Vila Real, aqui