segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Papa Francisco: uma revolução tranquila

Não me custa admitir que nas Jornadas Mundiais da Juventude possa haver muito de Woodstock católico, mas também é verdade que aqueles três milhões que estiveram presentes no Rio saíram de lá, na sua grande maioria, mais felizes e mais decididos ao combate pela paz, pela justiça e pela fraternidade. Embora a culpa não seja dele, será igualmente necessário estar atento para o perigo real de o encandeamento provocado pela figura de Francisco e até algum populismo e culto da personalidade apagarem a lúcida e necessária capacidade crítica.

De qualquer forma, em quatro meses, Francisco pôs em marcha uma revolução tranquila, mas real, na Igreja, e a sua figura e mensagem estão a abrir espaços de esperança num mundo globalizado, habitado por imensos perigos.

A viagem ao Brasil foi um êxito. A sua mensagem foi, em primeiro lugar, ele próprio, na simplicidade, na bondade, na imensa cordialidade, proximidade e empatia com as pessoas, que quer ver autenticamente felizes. Para isso, foi deixando recados e exigências para todos, à maneira de profeta livre e exigente, em voz encantatória.

O programa para a Igreja toda: "As Bem-aventuranças e o Evangelho de Mateus, no capítulo 25 (parábola dos talentos e o Juízo Final). Não precisam de ler mais nada." "A Igreja tem de reformar-se continuamente; se não, fica para trás. Há coisas que serviam no século passado ou noutras épocas e agora já não servem; então, é necessário reformá-las."

Aos jovens: "Tendes o futuro, sois o futuro, sede protagonistas da mudança." "Ide sem medo para servir", "destruir as barreiras do egoísmo, da intolerância e do ódio e edificar um mundo novo".

Contra a exclusão, proclamou a necessidade da luta pela dignidade de todos, concretamente, para "os dois pólos da vida: os jovens e os anciãos". Nesta civilização, é "tal o culto que se presta ao deus dinheiro que estamos na presença de uma filosofia e de uma praxis de exclusão". "Não se deixem excluir nem excluam."

Nas favelas: "Ninguém pode permanecer indiferente perante as desigualdades." "A medida da grandeza de uma sociedade é determinada pela forma como trata quem está mais necessitado, quem não tem senão a sua pobreza." "Porque somos irmãos, ninguém é descartável."

Aos desesperados da droga: "A lepra dos nossos dias chama-se droga", mas "não estais sós". "Não deixeis que vos roubem a esperança." "Tu és o protagonista da subida, ninguém pode subir por ti." E atacou os "negociantes de morte, que seguem a lógica do dinheiro e do poder a todo o custo".

Aos eclesiásticos: "Fazem falta bispos que amem a pobreza e não tenham psicologia de príncipes." "Devem ser pastores, próximos das pessoas, pais, irmãos, pacientes e misericordiosos." "Reina a cultura da exclusão e do descartável." Que tenham a coragem de ir contra dois dogmas da sociedade atual, "eficiência e pragmatismo", e "sair ao encontro das periferias, que têm sede de Deus e não têm quem lho anuncie". Devem ir à procura dos "afastados, que são os convidados vip".

Aos políticos: condenou a corrupção e pediu-lhes que sejam humanos, que tenham "sentido ético" e pratiquem o "diálogo, diálogo, diálogo". É preciso "reabilitar a política", que deve estar ao serviço do bem comum, que "evite o elitismo e erradique a pobreza".

Porque é que tantos têm abandonado a Igreja, incluindo "aqueles que parece viverem já sem Deus?" A Igreja "mostrou-se demasiado débil, demasiado afastada das necessidades deles, demasiado fria, demasiado auto-referencial, prisioneira da sua própria linguagem rígida". Talvez tenha tido "respostas para a infância do homem, mas não para a sua idade adulta".

"Com a Cruz, Jesus une-se ao silêncio das vítimas da violência, que já não podem gritar; com a Cruz, Jesus une-se a tantos jovens que perderam a confiança nas instituições políticas porque vêem egoísmo e corrupção, ou que perderam a fé na Igreja, e até em Deus, por causa da incoerência dos cristãos e dos ministros do Evangelho."

Anselmo Borges, aqui

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