terça-feira, 30 de junho de 2026

O Estado não pode desperdiçar o tempo dos cidadãos

 
Na semana passada dirigi-me à Loja do Cidadão para alterar a morada do meu Cartão de Cidadão. Levei o cartão e fui atendido com toda a simpatia e profissionalismo. Informaram-me de que seria enviado um código para o meu telemóvel. Como não costumo andar com o telemóvel – utilizo-o apenas quando preciso – tive de regressar a casa para o ir buscar. Felizmente, moro muito perto.

Recebi depois uma carta com códigos e voltei à Loja do Cidadão. Levei o Cartão de Cidadão e o documento que me tinham entregue na primeira visita. Nunca me passou pela cabeça que voltaria a ser necessário levar o telemóvel. Afinal, era. Resultado: mais uma viagem a casa e novo regresso à Loja do Cidadão.

No meu caso, tratou-se apenas de um incómodo. Mas imagine-se um cidadão que viva a dez ou quinze quilómetros da Loja do Cidadão, sem automóvel e com escassos transportes públicos. Ou um idoso que não utiliza telemóvel, ou que o usa apenas para fazer e receber chamadas. Ou alguém que não domina as ferramentas digitais. Quantas deslocações? Quanto tempo perdido? Quanta frustração?

É verdade que muitos destes procedimentos já podem ser feitos pela Internet. Mas essa solução não serve todos os cidadãos. Um Estado moderno deve apostar na digitalização sem esquecer aqueles que não têm competências digitais ou que, por opção, não vivem permanentemente dependentes de um telemóvel.

Importa deixar um ponto muito claro: os funcionários da Loja do Cidadão não têm qualquer responsabilidade por esta situação. Pelo contrário, fui tratado com competência, educação, disponibilidade e grande profissionalismo. Eles limitam-se a cumprir procedimentos que lhes são impostos.

O verdadeiro problema está na forma como o Estado continua a organizar demasiados dos seus serviços. Cada exigência pode parecer insignificante quando analisada isoladamente. Mas, somadas, representam milhões de horas desperdiçadas todos os anos por cidadãos e empresas. Horas que deixam de ser dedicadas ao trabalho, à família, ao descanso, ao estudo ou à criação de riqueza.

Depois admiram-se de que Portugal tenha dificuldades em aumentar a produtividade. Como poderá um país ser produtivo quando obriga diariamente os seus cidadãos a perder tempo em procedimentos que poderiam ser muito mais simples? A burocracia tem um enorme custo económico, mas tem também um custo humano e psicológico, invisível nas estatísticas.

É difícil não sentir que existe um enorme desfasamento entre as preocupações dos cidadãos e as prioridades da classe política. Enquanto milhares de portugueses perdem horas em burocracias evitáveis, grande parte do debate político parece consumir-se em polémicas, confrontos partidários e assuntos que pouco alteram a vida quotidiana das pessoas.

Os cidadãos esperam dos seus representantes algo mais do que discursos e disputas. Esperam que utilizem o poder que lhes foi confiado para remover obstáculos, simplificar procedimentos e tornar o Estado mais eficiente. Se a burocracia continua a consumir tempo, recursos e energia, é legítimo perguntar: quem assume a responsabilidade por essa realidade?

A função de um Parlamento não é apenas legislar. É também identificar os problemas concretos do país e resolvê-los. Enquanto a simplificação da vida dos cidadãos não ocupar um lugar central na agenda política, continuará a existir uma distância preocupante entre quem governa e quem é governado.

Não precisamos de um Estado mais complicado. Precisamos de um Estado mais inteligente. Um Estado que respeite o tempo dos cidadãos, porque o tempo é um dos bens mais preciosos que possuímos e nunca pode ser devolvido.

Portugal tem excelentes profissionais na Administração Pública. O que muitas vezes lhes falta não é competência, mas procedimentos mais simples, mais claros e mais humanos. Desburocratizar não significa diminuir a segurança nem facilitar a fraude. Significa eliminar etapas inúteis, evitar deslocações desnecessárias, confiar mais na tecnologia quando ela ajuda e oferecer alternativas quando ela não serve todos.

A grande questão é esta: haverá vontade política para enfrentar seriamente este problema? Porque a burocracia não é uma fatalidade. É uma opção de organização. E aquilo que foi criado por decisões políticas pode ser mudado por decisões políticas.

Talvez tenha chegado o momento de exigir menos discursos e mais resultados. Menos conflitos estéreis e mais reformas concretas. Menos tempo perdido em discussões que amanhã ninguém recordará e mais tempo dedicado a resolver os problemas reais das pessoas.

Os portugueses não pedem privilégios. Pedem apenas que o Estado respeite o seu tempo, a sua inteligência e a sua dignidade. E esse é, afinal, um dos primeiros deveres de qualquer democracia que queira merecer esse nome.

domingo, 28 de junho de 2026

Participei na celebração das Bodas de Ouro Sacerdotais do Pároco da minha Paróquia natal


Há celebrações que passam pelo calendário; outras ficam gravadas na memória. A desta tarde pertence, sem dúvida, às segundas.

Na minha Paróquia natal celebrou-se o jubileu dos cinquenta anos de sacerdócio do P.e Cón. Joaquim de Assunção, dos quais vinte e seis vividos ao serviço daquela comunidade paroquial. Foi uma tarde em que a gratidão encontrou voz e em que a fé se fez festa.

A paróquia, dispersa por vários povos, alguns separados por quilómetros e caminhos, revelou aquilo que verdadeiramente a une. As distâncias não venceram a comunhão. Pelo contrário, todos convergiram para o mesmo altar, como ramos de uma mesma árvore que encontram na raiz a sua força.

Tudo respirava harmonia. O acolhimento discreto e fraterno, a organização sem sobressaltos, o coral que elevava a oração, as leituras proclamadas com dignidade, o ofertório vivido com solenidade. Nada procurava protagonismo; tudo apontava para o essencial. Quando cada um serve com humildade o lugar que lhe pertence, a beleza acontece naturalmente.

Também o Senhor Bispo, que presidiu à Eucaristia, soube conduzir a celebração com serenidade e elevação, ajudando a assembleia a viver aquele momento com profundidade.

No final, um simples conjunto de imagens tornou-se muito mais do que uma apresentação. Foi uma peregrinação pela vida do Cón. Joaquim: as marcas da sua história humana, a resposta ao chamamento de Deus, os anos de estudo, o ministério sacerdotal e o serviço pastoral. As imagens iam passando, mas eram cinquenta anos de entrega que desfilavam diante dos nossos olhos, vinte e seis deles profundamente entrelaçados com a história daquela paróquia.

Seguiu-se a homenagem das instituições que caminham lado a lado com esta comunidade — a Autarquia, a Junta de Freguesia, a Paróquia e a Santa Casa da Misericórdia. Cada uma fez chegar ao jubilado palavras de apreço, reconhecimento e gratidão, acompanhadas de ofertas que quiseram ser mais do que simples lembranças: expressão visível da estima de um povo por quem o serviu com fidelidade, dedicação e generosidade.

Por fim, falou o aniversariante. E fê-lo como vivem os homens de Deus: sem grandiloquência, com a serenidade de quem sabe que tudo é graça. As suas palavras tiveram a beleza dos testemunhos que não precisam de adornos, porque nascem de uma fé amadurecida no tempo e confirmada pela vida.

Regresso desta celebração com a alegria de ver a minha terra natal unida em torno de um sacerdote que, durante vinte e seis anos, caminhou com este povo, partilhando as suas alegrias e dores, anunciando o Evangelho e edificando a comunidade. Hoje, a homenagem foi ao Cón. Joaquim; mas foi também uma bela homenagem à própria paróquia, que soube agradecer com elegância, dignidade e coração.

Parabéns aos meus conterrâneos. Estiveram verdadeiramente à altura da ocasião.

E parabéns, meu caro Abade! Que Deus continue a recompensar a fidelidade de quem, há cinquenta anos, respondeu "sim" ao seu chamamento e continua a fazer desse "sim" um dom quotidiano para a Igreja e para o povo que lhe foi confiado.

sábado, 13 de junho de 2026

Seguradoras: Clientes Durante Décadas, Descartáveis na Velhice

 
Ao longo de décadas, as seguradoras gostam de falar de confiança, proximidade e proteção. Fazem campanhas emotivas, apresentam-se como parceiras para toda a vida e prometem estar presentes nos momentos mais difíceis. Mas a realidade de muitos clientes, sobretudo dos mais idosos, é bem diferente.

Durante décadas, um cliente paga os seus prémios, raramente dá despesa e contribui para os resultados da empresa. Porém, quando a idade avança e a necessidade de cuidados de saúde aumenta, o prémio sobe sucessivamente até atingir valores incomportáveis. O que era apresentado como uma rede de proteção transforma-se, na prática, num mecanismo de exclusão económica. Não é a seguradora que rescinde o contrato; limita-se a aumentar o preço até o cliente ser empurrado para fora do sistema.

A crueldade desta lógica está precisamente no momento em que ela se manifesta. Quando a pessoa é mais jovem e saudável, é um cliente desejado. Quando envelhece e mais precisa da cobertura pela qual pagou durante anos, passa a ser um custo a reduzir. O mercado chama-lhe gestão de risco. Muitos cidadãos chamam-lhe abandono.

Mais chocante ainda é a desatenção humana que frequentemente acompanha estas situações. Décadas de fidelidade podem terminar sem um telefonema, sem uma proposta alternativa, sem uma tentativa séria de encontrar uma solução. O cliente deixa de ser uma pessoa com uma história; passa a ser apenas um número numa folha de cálculo. A relação construída ao longo de décadas evapora-se no instante em que deixa de ser suficientemente rentável.

E o silêncio de muitos intermediários e responsáveis que, perante estas situações, se limitam a encolher os ombros e a dizer que “nada podem fazer”??? Curiosamente, são muitas vezes as mesmas vozes que, quando ocupam espaços de intervenção social, exigem respostas imediatas para os problemas da saúde, do envelhecimento e da solidão dos idosos. Nesses momentos, multiplicam-se as propostas, os discursos e as exigências. Mas quando vestem o fato empresarial, a indignação desaparece, substituída pela resignação perante as regras do mercado.

Esta dualidade é difícil de aceitar. Não se pode exigir responsabilidade social num contexto e invocar impotência noutro. Não se pode defender os idosos nos discursos e ignorá-los nas decisões que afetam diretamente a sua vida. A coerência mede-se precisamente quando os interesses económicos entram em conflito com os princípios proclamados.

O caso dos seguros de saúde para os mais velhos revela uma contradição profunda da nossa sociedade: fala-se muito de envelhecimento digno, mas aceita-se com demasiada facilidade que aqueles que contribuíram durante décadas sejam afastados dos sistemas de proteção exatamente quando deles mais necessitam. E o mais inquietante não é apenas a política das seguradoras. É o silêncio conformado de quem, noutras circunstâncias, faz da exigência e da denúncia uma bandeira permanente.

Porque há silêncios que dizem tanto quanto os discursos. E há omissões que revelam mais sobre os valores de uma pessoa ou de uma instituição do que todas as declarações de boas intenções.

domingo, 7 de junho de 2026

Subida à serra pela Daniela

No dia 5 de junho de 2026, a nossa Daniela faria 55 anos. Há 5 meses deixou de estar connosco fisicamente e quisemos relembrá-la de uma forma bonita, num sítio especial, a Serra de Santa Helena.

Quando a dor se transforma em amor tudo se torna mais suportável e foi assim com esta caminhada, esta oração, este momento de partilha e amizade.
Só assim faria sentido pela Daniela que sempre viveu com os outros e pelos outros, sempre pronta a dar a mão a todos, a cuidar e a estar presente sem pedir nada em troca. Queremos agora que a sua energia e vontade de viver se transformem em fé e força para continuar a caminhar, por ela e com ela, sempre!
E assim, caminhamos, rimos, choramos, rezamos, tal e qual como ela gostava.
Num mar de gente viveu, num mar de gente nos despedimos, num mar de gente a recordamos.
No meio de amigos e família, que nunca nos falharam, que dizem sempre "presente" e que todos os dias tornam esta caminhada da vida um bocadinho mais leve.
A nossa profunda gratidão a todos.
A ti, Daniela, obrigado por tudo, mas principalmente pelo exemplo de vida que nos deixaste!
Caminharemos sempre por ti.
Débora e Miguel

Em total sintonia com o testemunho do marido e da filha. 
Daniela, uma amiga que nunca morrerá no coração de uma multidão de amigos!
Daniela, coloca-nos sempre no Coração  de Jesus!