terça-feira, 14 de maio de 2013

Despejados

Despejados, sem casa! É a perspetiva que hoje está a deixar milhões de portugueses em pânico.

Porque não conseguem pagar a hipoteca ao banco, ou porque não irão aguentar o aumento das rendas. No entanto, enquanto as famílias veem perigar o seu direito a ter uma habitação condigna, há dois milhões de casas vazias. Um absurdo!
O crédito imobiliário mal parado atingiu dimensões colossais. São mais de cem mil as famílias em situação de incumprimento. Muitas já entregaram a casa ao banco, tendo deitado a perder as poupanças duma vida. Para a maioria dos incumpridores, a ameaça de despejo é iminente. E só não há mais despejos porque os bancos já não sabem onde colocar tanto património imobiliário desvalorizado.
Mesmo os que conseguem honrar os compromissos bancários se encontram numa situação desconfortável, pois percebem hoje que compraram "gato por lebre". A maioria da habitação adquirida em propriedade horizontal depreciou, em média, quarenta por cento. Por um lado, porque as vendas nas últimas décadas foram muito inflacionadas por movimentos de especulação imobiliária. Por outro lado, porque a procura caiu abruptamente e, com ela, os preços.
Nuvens negras de despejo pairam ainda sobre aqueles que dispõem de casas com rendas antigas que poderão ser muito agravadas, em função da nova Lei das Rendas. Se não conseguirem pagar os novos valores, ficam sem alternativa, pois não existe mercado de arrendamento.
Esta é também uma situação incompreensível, pois há muitas mais casas do que famílias. Só que a maioria dos milhões de casas vazias pertence a especuladores que não as querem colocar no mercado. Nem precisam, pois têm este património titulado em fundos de investimento imobiliário fechados e estão isentos de impostos, nomeadamente IMI e IMT. Se tivessem de pagar impostos como todos os portugueses, só lhes restaria colocar as casas no mercado e dessa forma os preços desceriam. Mas como não há coragem para impor um princípio básico, o de que os detentores de património têm de lhe dar uso sob pena de o perderem, "use it or lose it" – o mercado de arrendamento continuará a definhar e o drama dos despejos irá agravar-se.
Iremos pois continuar a ter mais gente sem casa… e mais casas sem gente.
 
Paulo Morais, Professor Universitário, aqui

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