quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Dai-lhes vós de comer

Chegou-me às mãos esta composição “em jeito de oração” de Alberto Andrade.
Tem um conteúdo tão actual e tão belo que não posso deixar de a oferecer aos meus queridos leitores:
Senhor:
Tal como há dois mil anos
As multidões procuram-Te, famintas.
Também hoje as queremos despedir –Não pertencem ao nosso grupo,
Não têm a nossa cor,
Não pensam como nós.
Chamamos-lhe nomes:
São homossexuais,
São recasados,
Não alinham pela ortodoxia,
Não se revêem
Na frieza desta Igreja...
Também, hoje,
Nos convocas:“Dai-lhes vós de comer.”
Mas nós, Que já perdemos
O sabor do maná,
Dizemo-nos de mãos vazias,
E vamos arranjando desculpas
Para não Te acolhermos
Em tantos irmãos famintos.

Começa o autor a comparar as multidões famintas que procuravam Jesus às multidões do nosso tempo famintas de tudo: – pão, alegria, saúde, trabalho, felicidade...
E quanta gente – quantos cristãos católicos – despedem de mãos vazias, de estômago vazio, alguns abandonados, alguns rejeitados, porque não pertencem ao grupo da sua fé ou porque destoam da sua comunidade.
Outra gente sofre e chora porque encontra muita frieza em muitos membros da Igreja.
Foi também para nós aquela palavra de Jesus, perante aquela multidão que se abeirava Dele com esperança: “Dai-lhes vós de comer.”

Mário Salgueirinho

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Mudarmo-nos ou mudar?

"É preciso mudar!" - disse o Papa aos Bispos Portugueses e a toda a Igreja que está em Portugal.

Mas será mesmo que nós queremos mudar? Leigos, diáconos, religiosos, padres, bispos querem mesmo mudar? Ou melhor, querem mudar-se?
Entendo que é pela"conversão do coração" que mudamos a vida. Ou então a mudança ficará pela moda...

Alguns tópicos que, no meu modestíssimo entender, será bom ter em conta se queremos a tal propalada mudança:

1. A absoluta centralidade de Cristo na vida de cada cristão e de toda a Igreja.
2. Uma Igreja que foge da tentação de se auto-anunciar, porque se sente enviada, mensageira d'Aquele que actua no mundo e o quer salvar.
3. A vitalidade da oração na vida de cada pessoa e da comunidade. Aprender a rezar é preciso. Sem oração somos como canos desligados do depósito.
4. Na comunhão da Igreja, há que dar lugar aos leigos. O que lhe pertence! Mas é preciso também que o padre descubra o âmbito da sua missão e o abrace. Nem leigos "a fazer de padres", nem padres a ocupar o espaço dos leigos.
Vejamos: por que razão hão-de os padres dirigir jornais, tipografias, a economia da diocese, a burocracia das chancelarias eclesiásticas, escolas, centros de dia, obras paroquiais ou diocesanas, etc? Não será esse um campo em que é preciso mesmo mudar? Esse é, claramente, um espaço de trabalho laical.
5. Os cristãos portugueses estão mal preparados, vivem agarrados a uma religiosidade popular mal fundamentada e pouco esclarecida. Uma religiosidade de santos, procissões, velas, peregrinações, baptismos, casamentos e funerais... Onde fica Cristo no meio de tanta cera e da tanto paganismo religioso?
6. "Em Portugal baptiza-se quase tudo à nascença, aos oito anos faz-se a primeira comunhão e aos 15 despacha-se o crisma - como se fosse possível aos sete alguém compreender a profundidade da eucaristia e aos 15 estar em condições de afirmar a maturidade da sua fé. Esta juvenília religiosa é boa para se chegar aos noventa e tal por cento de católicos em Portugal, mas leva a que aos 15 esteja feita a licenciatura cristã e que aos 18 já só haja jovens no coro."
7. Baptizar em criança hoje? Para quê? Para termos os livros de baptismos cheios, alimentarmos "feiras de vaidades sociais" de pais e padrinhos, continuarmos a alimentar a neblina do medo de Deus (se morre não vai para o Céu...)e a sombra dos preconceitos ... Colocar o pároco a gerir situações complicadas em que implicam a realidade social hodierna e as leis e leizinhas da Igreja...
Crismar aos 14-16 anos parece-me ser um disparate pegado. Então é na adolescência, quando a pessoa está mais fechada sobre si mesma, que queremos que ela assume um compromisso com a Igreja??? Como é possível?
8. A fundamentalidade da caridade. Em muitas paróquias, vai havendo a missa ao domingo, algumas devoções populares, catequese, outras actividades juvenis, mas a marca da caridade, pelo menos organizadamente, está ausente.
Falta a "fantasia da caridade", profecia, serviço e alegria.
9. Penso que um dos traços da religiosidade dos portugueses é um arreigado individualismo, que os leva a procurar na fé mais um "consolo de alma" ou satisfação de necessidades individuais do que um compromisso comunitário e social. Daí o escândalo de se dizerem católicos e desprezarem a Eucaristia.( Muitas vezes, peço a Deus: "Senhor, ajuda-me a compreender como é possível alguém poder dizer em verdade que é católico e não sentir necessidade da Eucaristia!")
10. Urge que "esse gigante adormecido", que é o laicado, desperte. Estou convencido que, no dia em que os leigos - que são a maioria esmagadora na Igreja- despertarem, esta Igreja terá outro rosto, outra vida, outra juventude.
Chegou a vossa hora, senhores leigos! Finalmente. Então não fiquem aí parados, nem escondam "o talento no lenço"! Assumam-se!

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

A criança que fui

Lembro-me muito bem. Era o dia da profissão de fé. Naquele tempo, mesmo as freguesias mais pequenas, tinham muitas crianças. Por isso bastante criançada fazia naquele ano a sua profissão de fé - então mais conhecida por comunhão solene ou segunda comunhão.
Depois de durante várias semanas ter caminhado lá da minha aldeia para a residência paroquial onde o senhor abade, paciente e bondosamente, tentava a todo o custo empanturrar-nos de fórmulas que não entendíamos, chegou a grande festa. Para os pequenos da minha aldeia penso que o dia ainda era maior porque significava o fim do pesadelo de caminhadas diárias por caminhos de cabras. Eram bem duas horas!
Treinados militarmente para sabermos estar na Igreja e para desempenharmos convenientemente a nossa função, apercebo-me que nesse dia era meu parceiro de fila um rapaz pobrezinho que vestia umas calcitas de cotim, enquanto eu - sabe Deus os sacrifícios dos meus pais - aparecia todo engalanadito.
Ao almoço, graças à gentileza do dono de uma quinta vizinha da Igreja, os de longe comíamos à sombra da ramada a merenda que os pais levavam. Almoçávamos assim juntos, tentando aproveitar ao máximo a sombra das videiras. Eis que reparo então que os pais do meu colega de calças de cotim nada mais haviam posto sobre a mesa do que três ovos cozidos, um para cada um.
Esse miúdo pobre agarrou aquele ovo com vontade de o engolir de uma vez. Eu olhava para ele, enquanto minha mãe ia colocando sobre a mesa o nosso almocito melhorado. Então o coleguita corre na minha direcção, estende a mão e pergunta:
- Queres?
Confesso que quase nada comi, dizendo aos meus pais que não tinha fome. A pobreza do meu colega chocara demais a criança que eu era. E o gesto do meu meu amigo pobrezito, que da sua fome ainda me queria oferecer parte do seu ovo, desarmou-me. Sei que larguei pelo vinhedo fora porque queria chorar a mágoa que sentia perante a injustiça.
Felizmente que, ontem como hoje, a injustiça social continua a magoar-me.
Porquê? Porquê? Porquê? Tanta gente com demasiado e imensas pessoas famintas... Fortunas deixadas a animais de estimação e milhões de crianças
a morrer de fome..
Porque é que só os pobres hão-de ajudar os pobres!?

domingo, 18 de novembro de 2007

A caixinha de beijos

Há algum tempo atrás, um homem castigou a sua filhinha de três anos por desperdiçar um rolo de papel de presente dourado.
O dinheiro era pouco naqueles dias, razão pela qual o homem ficou furioso ao ver a menina a embrulhar uma caixinha com aquele papel dourado e a colocá-la debaixo da árvore de Natal.
Apesar de tudo, na manhã seguinte, a menina levou o presente ao seu pai e disse: "Isto é para ti, Papá!"
Ele sentiu-se envergonhado da sua reacção furiosa, mas voltou a "explodir" quando viu que a caixa estava vazia.
Gritou e disse: "Tu não sabes que, quando se dá um presente a alguém, se coloca alguma coisa dentro da caixa?"
A menina olhou para cima, com lágrimas nos olhos, e disse: "Oh, Papá, não está vazia. Eu soprei beijos para dentro da caixa. Todos para ti, Papá."
O pai quase morreu de vergonha, abraçou a menina e suplicou-lhe que lhe perdoasse.
Dizem que o homem guardou a caixa dourada ao lado da sua cama por anos e, sempre que se sentia triste, mal-humorado, deprimido, pegava na caixa e tirava um beijo imaginário, recordando o amor que a sua filha ali tinha colocado.
De uma forma simples, mas sensível, cada um de nós tem recebido uma caixinha dourada, cheia de amor incondicional e de beijos dos nossos pais, filhos, irmãos e amigos…
Ninguém possui uma coisa mais bonita do que esta.
O Clube de Contadores de Histórias
Biblioteca da Escola Secundária com 3º Ciclo Daniel Faria - Baltar
Uma boa semana para todos. Muita paz! Muita paz activa.

Seminário de Lamego em Tarouca


Hoje, alguns seminaristas do Seminário Maior de Lamego, acompanhados pelo senhor Reitor, Cónego Doutror João António Teixeira, estiveram na nossa comunidade paroquial, na Eucaristia de Teixelo e na Eucaristia das 11 horas, na Igreja Matriz. O senhor Reitor presidiu.
Gostei da palavra do senhor Reitor. Num tom sereno, interpelante e sábio, ajudou-nos a compreender o ministério sacerdotal, situando-o numa Igreja, comunidade de baptizados, sempre enviada em missão. Onde Cristo é o único SENHOR!
Gostei do testemunho claro, alegre e crente dos nossos seminaristas, jovens e menos jovens.
É sempre maravilhoso estar, conviver e aprender com os padres de hoje e dos que o serão amanhã.
Obrigado, amigos seminaristas, pelo vosso testemunho. Oxalá que, por vós, muitos de nós se deixem interpelar pelo Deus que chama.
Obrigado, senhor Reitor! Já não sei que lhe hei-de dizer mais. Peço que aceite o meu pobre silêncio como a eloquência da gratidão, da amizade e da admiração. Obrigado pelo silêncio mensageiro de sua bondosa mãe que esteve connosco como Maria junto dos discípulos.
Que a semente lançada à terra frutifique nesta Terra!

sábado, 17 de novembro de 2007

ASSEMBLEIA DO CLERO DA DIOCESE DE LAMEGO

Decorreu hoje no Seminário a Assembleia do Clero.
Estiveram presentes setenta e tal sacerdotes. Foi a primeira vez que tal se realizou na nossa Diocese.

GOSTEI:

- Daquele momento de oração que nos abriu Àquele que nos envia e nos concentrou no essencial.

- De encontrar colegas, alguns que não via há imenso tempo, partilhar com eles, recordar o passado, vislumbrar futuros, construirmos juntos momentos de boa disposição.

- Da presença de tão grande número de sacerdotes, apesar de ser sábado, alguns vindos dos confins da diocese.

- De sentir que o nosso Bispo estava feliz com a presença dos seus padres.

- Do contributo válido e plural dos diferentes grupos.


NÃO ME PARECEU TÃO BEM:

- Aquele ponto da agenda de trabalhos "Apresentação do Centro de Estudos sócio-pastorais". Pese embora o apreço que manifesto pelo trabalho desenvolvido pelo grupo responsável, pareceu-me uma actividade mal conseguida, que ocupou um tempo precioso que deveria ser melhor aproveitado.

- A falta de alguém que nos apresentasse claramente a chave de leitura do discurso que o Papa fez aos Bispos na visita ad Sacra Limina. É um discurso demasiado importante para ser tratado pela rama.

- O tempo para trabalho de grupo ficou aquém do desejável e alguns grupos eram grandes demais. Por exemplo, o grupo que me calhou tinha mais de metade dos participantes, penso eu.

- O plenário, de tarde, teve pouca gente. É compreensível que os sacerdotes, tendo em vista o serviço pastoral, regressassem às suas comunidades.

- Acções deste jaez, como se viu no plenário, solicitadas por todos os grupos, devem ser muito bem preparadas, centradas e enfocadas, para afastar dispersões na abordagem dos temas.

A gratidão é a memória do coração

Nesta Semana dos Seminários, deixo a minha gratidão a todos os sacerdotes que me ajudaram a caminhar humana, cristã e vocacionalmente.
Se com todos aprendi, alguns marcaram-me de forma indelével pela sabedoria, pela bondade, pelo acolhimento, pela forma como souberam estar em períodos mais conturbados.
Monsenhor Carlos Resende. Meu Reitor e professor. Ressoava bondade por todos os poros. A sua pessoa era um belo poema à bondade. Monsenhor certamente sorrirá no Céu ao recordar tantos momentos bonitos que o P.e Armindo e eu vivemos com ele. Qual avozito bondoso para com os netitos reguilas que o admiravam e estimavam profundamente. Obrigado, senhor Reitor.
Monsenhor Simão Botelho. Este portista confessso foi meu vice-reitor e professor. Com ele vivenciei que viver é servir. Num tempo em que a casa estava cheia, o cónego Simão estava de serviço 24 horas por dia para cada seminarista. Foi fundamental na minha caminhada vocacional. Muito obrigado.
P.e João Mendes. Durante mais de 50 anos, pároco da minha terra natal. Foi quem me mandou para o Seminário. A sua casa era a minha casa. Sempre me entusiasmou e confiou em mim. Obrigado, senhor abade.
Monsenhor Arnaldo Cardoso. Meu professor. Foi quem me inculcou um verdadeiro interesse pela Sagrada Escritura. Com ele muitos seminaristas se abriram pastoralmente ao mundo, através dos cursos bíblicos e de iniciativas com jovens. Obrigado.
D. Jacinto Botelho. O actual Bispo de Lamego foi meu professor, vice-reitor e vigário-geral. Nele vi sempre a pessoa de uma fé profunda e de uma humanidade extrema. Obrigado.
Cónegos Zé Cardoso e Duarte Júnior. Cada um à sua maneira, souberam oferecer-me ajuda oportuna em momentos menos tranquilos da minha caminhada. Obrigado.
D. António Francisco dos Santos. Sem me estar “a armar”, penso que fui dos sacerdotes que mais sentiu a sua saída da diocese. Com ele mantive longas conversas. Era um coração atento, que sabia escutar e perscrutar. Dele recebi sempre uma palavra clara, admoestadora, serena e orientadora. Muito obrigado.
Monsenhor José Guedes e P.e Adriano Monteiro. Personalidades muito diversas que me ensinaram imenso em campos diferentes. Sem o conseguir, tentei que eles fossem uma referência da minha vida sacerdotal. Obrigado.
Drs. Mário e Alfeu. Foram meus professores no Seminário de Resende. Actualmente fora do exercício sacerdotal, mas tal não invalida que lhes esteja grato pelo muito que me deram. O Dr. Alfeu, porque era uma pessoa próxima dos miúdos, jogava com eles, falava com eles e sempre me aceitou e respeitou na minha maneira de ser. O Dr. Mário, então vice-reitor, foi que me meteu na alma a ideia de ser portista, que nunca mais larguei.
Os sacerdotes deste arciprestado de Tarouca. Trabalhamos juntos há vários anos neste Vale Encantado. São formidáveis. Obrigado.
Cónego Joaquim Rebelo. Trabalhamos juntos na mesma escola durante alguns anos. Daí nasceu uma boa amizade. Com ele aprendi e por ele e seus bondosos pais sempre me senti bem acolhido em sua casa. Obrigado.
P.e Dr. Borges. Este sacerdote de Vila Real foi meu professor, director espiritual e, mais tarde, colega de escola. Num corpo de gigante uma alma gigantesca. Nele sabedoria e humanidade brilhavam a grande altura. Muito obrigado.
O meu condiscípulo Adriano Alberto. O arcipreste de Cinfães é daquelas pessoas de quem se é “obrigado a gostar”. É um amigo, um colega e um condiscípulo fantástico. Aquele abraço, Adriano!
Cónego Doutor João António Pinheiro. O actual Reitor do Seminário, que faz o favor de ser meu amigo, é um mestre. Na sabedoria, na profundidade, na simplicidade, no acolhimento. Na fé. Obrigado, amigão!
Não posso esquecer o meu antecessor nesta comunidade, P.e Duarte Santos. Por tudo o que fez e ensinou.
Monsenhor Afonso. O velho Reitor de Almacave era um homem à antiga. Frontal, convicto, terra-a-terra, amigo dos colegas, de um profundo amor à Igreja.
Monsenhor Bouça Pires. O amigo que tantas vezes em seminarista me recebeu em sua casa; o sacerdote de iniciativa, convicção e entusiasmo. Onde esteve deu sempre o “corpo ao manifesto” e soube movimentar. Obrigado.
Muitos e muitos mais me passam neste momento pelo filme da gratidão que vai rolando na minha alma. Guardo a sua memória e louvo ao Senhor por ter tido a dita de se entrecruzarem com a minha vida.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Mãos que não dais, o que é que esperais?

Há muitos anos, em determinada diocese, um grupo de cristãos, representativo de certa paróquia, dirigiu-se ao Bispo para lhe pedir um pároco próprio. Invocaram todas as razões que relevaram de conclusivas para o Prelado lhes dar um sacerdote. O Bispo ouviu, ouviu e, por fim, perguntou-lhes:
- Quantos sacerdotes deu a vossa paróquia à diocese?
Uma vaga de silencia percorreu aquelas pessoas que se entreolharam surpresas. Então o Bispo insistiu:
- Estão aqui casais. Já falastes da vocação sacerdotal aos vossos filhos? Que tendes feito nesse sentido?
Uma mãe então levanta a voz e responde:
- Senhor Bispo, só tenho um filho. O senhor queria que ele fosse padre? Não acha que tenho direito a ter amanhã os meus netinhos?
É esta ilógica que nos comanda. Pedimos tudo aos outros, mas não nos sentimos na obrigação de dar nada à comunidade. A quem assim pensa e age responde o velho ditado popular: “Mãos que não dais, o que é que esperais?”
Sempre, mas particularmente nesta semana, procuremos rezar pelas vocações sacerdotais. Que as famílias sejam escolas de discernimento vocacional e acolham na alegria o dom da vocação. Que as paróquias e a diocese promovam uma séria, persistente e estruturada pastoral vocacional. Que os seminários formem os padres que o presente e o futuro reclamam. Padres apaixonados por Deus e dedicados ao homem. Que os jovens vocacionados respondam à mensagem que Deus deixou no telemóvel do seu coração. Fazer delete é deitar fora a oportunidade de ser feliz, pois cada um só é feliz quando segue a vocação que Deus lhe deu.
Depois, acolhamos, apoiemos, acarinhemos as vocações. Também através da partilha de bens, sem os quais a diocese não pode formar os padres que as comunidades precisam.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

De volta ao Seminário

Estamos na Semana dos Seminários.
Hoje estive no Seminário de Lamego, a convite do senhor Reitor, pessoa por quem sinto grande admiração e que faz o favor de ser meu amigo.
Presidi à Eucaristia, jantei com superiores e alunos e tomei um cafezinho com alguns deles.
Procurei falar-lhes com toda a sinceridade, sem o "eclesiasticamente correcto", deixando que o testemunho escorresse. Sei que mereciam mais, mas reparti com eles da minha pobreza. Que Cristo, Aquele que nos faz correr na vida, supra as minhas lacunas.
Gostei de ter voltado àquela casa. Afinal os sacerdotes são seus filhos. Prendem-nos a ela laços vitais e afectivos.
Gostei de sentir a juventude, alegria, delicadeza e espontaneidade dos seminaristas.
Gostei da amizade, franqueza, partilha e acolhimento do senhor Reitor e do senhor P.e João Carlos.
Gostei de rever o P.e Víctor "Cujó" que se cruzou connosco durante o café.
Obrigado a todos. Rezo por todos.

Que padre para o nosso tempo?

1. A vocação sacerdotal é um chamamento divino que se realiza na Igreja e pela Igreja.
2. O padre é um enviado. Por isso, não se anuncia a si mesmo, mas anuncia Aquele que o enviou.
3. Desta maneira, o padre, ou é homem de Deus ou não é padre. A oração é a alma da sua vida. Ele é o homem orante.
4. O padre deve ser o evangelizador, o formador de cristãos, o mistagogo.
5. NÃO é missão do padre: ser gestor de centros sociais; ser administrador dos bens de uma paróquia ou diocese; ser o burocrata de serviço da paróquia. Este trabalho pertence aos irmãos leigos. A César o que é de César...
6. O padre é chamado a ser o ponto de união, o incansável fomentador da paz entre todos na comunidade.
7. Não lhe compete fazer tudo, muito menos substituir as funções dos leigos. Mas, à maneira de fermento, deve inquietar pacificamente, desinstalar, ajudar a caminhar. Na liturgia, na evangelização, no serviço sócio-caritativo.
8. Mais do que fazer, o padre deve saber estar. Estar para Deus, estar para os irmãos.
9. Exactamente como qualquer ser humano, o padre está sujeito às fraquezas, limitações e pecados. Por isso, precisa da oração e da caridade dos irmãos na fé para caminhar.
10. Tal como qualquer cristão, o padre sabe que de "joelhos, só diante de Deus; de pé, diante das coisas, das instituições e das pessoas."

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

"QUERO COMUNICAR-LHES QUE VOU PARA O SEMINÁRIO"

Dois irmãos. O mais velho concluiu o 9º e não não quis estudar mais, embora fosse um aluno razoável. Durante algum tempo, trabalhou nas obras com o pai. O mais novo concluiu o seu curso universitário e seguiu o seu rumo no mundo do trabalho.
Eram jovens normais. Como os da sua idade, gostavam das saídas à noite, namoravam, tinham o seu grupo de amigos, gostavam das suas borguitas...

Um dia, para estranheza e incómodo dos pais, o mais novo disse à mãe: "Quero ser padre." Um abalo sísmico abatera-se sobre aquela família. Os pais, embora se dissessem cristãos, não ligavam grande coisa à religião. Ambos sonhavam já com os netinhos que haveriam de encher de encanto a sua reforma.
Mas o que é que acontecera? No trabalho, um amigo cristão convidara-o para participar num convívio fraterno. Aceitara, mais para agradar ao amigo do que por convicção. Fora para ver... Ficou marcado. Este encontro com Cristo seduziu-o completamente. De tal maneira que começou a colocar o problema da vocação sacerdotal. E surgiram as longas conversas com um dos sacerdotes que estivera nesse convívio. A luzinha foi brilhando cada vez com mais intensidade e encheu-lhe toda a alma. Sabia agora o que queria. Pediu a sua entrada no Seminário, tendo feito seguidamente uma experiência de pré-seminário. Estava completamente feliz e decidido. Entregaria a sua vida a Cristo para um serviço de Igreja aos irmãos.
Nem tudo fora fácil. Custara imenso dizer à namorada, deixar aquele grande amor de alguns anos. Fora difícil comunicar aos pais e arcar com a trovoada paterna. Foi custoso desenraizar-se de hábitos sociais e mergulhar noutra dinâmica. Mas subia a custo ao encontro d'Aquele que o seduzia, experimentando uma paz e alegria imensas. Está agora a acabar o seu curso de Teologia.

O irmão mais velho voltara à escola para fazer como trabalhador/estudante o secundário nocturno. Os pais admiraram-se com esta decisão, mas apoiaram-na claramente. Também ele queria entrar no Seminário. As conversas com o irmão, o testemunho deste, a sua alegria de viver mexeram com ele. Não diria nada em casa para não provocar hecatombes. Mais tarde falaria.
Não fora nada fácil aquele regresso aos estudos. Trabalhar e estudar, privar-se de borgas, menos tempo para a namorada... foi bem difícil. A tentação de desistir foi fortíssima. Mas aguentou, apoiada na amizade do seu irmão mais novo seminarista. Acabara o 12º ano. Estava pronto para entrar no Seminário. E comunicar aos pais? Estudou todas as maneiras possíveis, mas parecia que nada dava certo. Um dia, à refeição, dispara: "- Os pais não querem que eu seja feliz?" Boquiabertos com a imprevista pergunta, responderam que sim, que era o que mais queriam. "Então quero comunicar-lhes que vou para o Seminário." A mãe desmaiou e o pai irrompeu num ralho colérico de fazer parar um comboio. Podia lá ser! Logo os dois!? Se já um era um tormento... E os netos? Para que trabalharam eles uma vida!?
Aguentou a tempestade. Outra não menos forte viria. Ouviu coisas que jamais esperaria ouvir da namorada. Mas estava decidido. Ferido mas não vencido, seguiria Cristo com total disponibilidade. Sabia claramente que o Senhor o chamava. Está agora em Teologia. Feliz como nunca.

A Missa do Domingo é importante na sua vida de cristão?

Na última sondagem perguntava-se: "A Missa do Domingo é importante na sua vida de cristão?"

A maioria respondeu que era muito importante. Mas houve muita gente a afirmar que tem alguma importância.
Houve ainda quem dissesse que ia à missa por uma questão de tradição e quem afirmasse que o interesse pela missa dependia do padre que presidia à celebração.

Agradeço mais uma vez a participação das pessoas.

Fico a pensar que há muito, muito mesmo, caminho a percorrer. Por TODOS nós.
Enquanto a Eucaristia não ocupar a absoluta centralidade na nossa vida de cristãos, não estamos de perfeita saúde na fé.
Há que rever e nos revermos.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

"Os telemóveis de Deus"

"Ninguém é feliz se não seguir a sua vocação", diz o povo.
Deus chama. Sempre. A alguns chama-os ao sacerdócio.
Deus criou-nos diferentes e respeita sempre a nossa maneira de ser. Por isso, não usa um "telemóvel" único.
Muitos descobriram o chamamento através dos pais; alguns, através dos avós, do catequista, do pároco, do testemunho ou palavra de um seminarista; outros, por meio de uma experiência marcante de Deus: retiro, convívio fraterno, encontro de jovens...; ainda outros, através de um episódio especial da sua vida, da vida da comunidade ou outro...

Num mundo marcado por enorme sonolência espiritual, é preciso que o telefone toque, desperte, alerte.
Actualmente, os adolescentes e jovens estão tão marcados por uma turbulência exterior tão aguda que experimentam enorme dificuldade em entrar dentro de si mesmos para verificarem se na caixa de email do seu coração têm alguma mensagem de Deus. Ou então para a lerem e se deixarem interpelar por ela. Muitas vezes, fazem delete, deixando em branco o projecto que o Amigo lhes propõe.
Sentem-se embriagados pelo superficial deste tempo, que os põe " de rastos" perante:
- o telemóvel - qualquer dia temos que pegar numa cana para tentar pescar alguns polegares que se despregaram da mão por tanta mensagem escrevinharem;
- as musiquinhas e cantores da moda;
- os namoricos e paixonetas;
- as noitadas e as disco;
- as borgas, as bebedeiras e as distracções;
- as novas tecnologias - muitas vezes no que estas têm de mais despersonalizante;
- as roupas, pircings e outras modas;
- o cultivo do "cabedal físico";
- ...
No fundo de tudo isto, de toda esta aparência de superficialidade e de evasão, existem tantos e tantos corações belíssimos, autênticos tesouros a descobrir!

Seria fantástico que cada pessoa e as comunidades se sentissem empolgadas por ser esse telemóvel pelo qual Deus chama alguns. Sem desânimos, persistentemente.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Eu, Padre???

Era eu um jovem padre. Leccionava numa escola secundária. Numa das turmas do 11º ano, havia um rapaz muito alegre e bem disposto, que me parecia poder dar num bom padre. Era um jovem de valores que transpiravam nas mais pequenas coisas.
A determinada altura, disse-lhe que queria falar com ele no fim da aula. Falámos, falámos, até que lhe perguntei:
- Olha lá, não queres ser padre?
Olhou para mim com o ar mais espantado do mundo, virou o dedo na sua própria direcção e retorquiu:
- EUUUUUUUUUUU!!!???
A conversa prolongou-se. Da surpresa, passou à empatia. Quando eu já pensava num "vou pensar", eis que repentinamente dispara:
- Nem pense! Padre, nunca! Para um dia me fazerem aquilo que os da minha terra têm feito ao padre que lá está...

Nesta Semana dos Seminários, dá que pensar.

domingo, 11 de novembro de 2007

«É preciso mudar»!

Ponto alto de uma visita «Ad Limina» é o encontro de todos os bispos com o Papa. Aí, o sucessor de Pedro faz um discurso onde aponta as virtualidades e os caminhos a percorrer pela Igreja.
Quando recebeu os bispos portugueses (10 de Novembro), Bento XVI pediu-lhes para que mudassem “o estilo de organização da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros para se ter uma Igreja ao ritmo do Concílio Vaticano II”.

Nos bispos, toda a Igreja que está em Portugal foi interpelada, desafiada, desintalada.
Todos os que acreditam em Jesus Cristo e n'Ele são baptizados são a Sua Igreja, povo e espaço da comunhão.
Centrados em Cristo, descentrados para o mundo, acolhamos o desafio papal e integremo-lo no nosso viver eclesial.

Boa semana, com Cristo no coração.
Muita paz.

NO SEMINÁRIO CRESCE O FUTURO

MENSAGEM DO SENHOR BISPO PARA A SEMANA DOS SEMINÁRIOS
Mais uma vez a Semana dos Seminários, de 11 a 18 de Novembro, vem centrar a atenção dos cristãos na Instituição fundamental da Diocese e convergir o nosso olhar para a Casa que pertence a todos e por isso devemos considerar como nossa, onde, à imitação do grupo dos apóstolos com Jesus, se preparam os futuros sacerdotes.A Equipa Formadora e os seminaristas bem desejam que assim o penseis, e apreciam as vossas visitas, tanto dos sacerdotes como dos leigos, muito especialmente das crianças e dos jovens, como expressão duma comunhão responsável e solidária.O tema que nos é proposto para meditarmos, está carregado de esperança: No Seminário cresce o futuro; mas simultaneamente é desafio ao nosso compromisso. Não há crescimento sem nascimento, o que supõe um prévio semear. Aqui está a nossa responsabilidade.A palavra semear tem uma relação etimológica com Seminário.Semear é trabalhar para que se torne sadio o ambiente cristão das nossas comunidades paroquiais, de modo a que nelas se perceba o chamamento do Senhor e desperte nos chamados o desejo de segui-lo; semear é contribuir para que o clima espiritual das famílias as faça crescer na consciência de que o seu seio é o berço natural das vocações; semear é pedir com empenho e perseverança ao Senhor da messe que mande operários para a Sua seara; semear é compreender que as dificuldades materiais dos seminários são apelo e estímulo à partilha da riqueza que a benemerência do Senhor colocou nas nossas mãos.A vivência consciente desta Semana exprime-se no amor e solicitude para com todos quantos nela residem, formadores e seminaristas, concretizados na oração mais atenta, se possível em família, ajudando os filhos a sentir e a viver esta realidade, e no sacrifício mais alegre e generoso, pelas intenções que nos são propostas; e pelo desprendimento na oferta material que a reflexão nos sugerir.Esta é uma forma de semear.Que Jesus, Maria, Ana e S. José, padroeiros do Seminário de Lamego, o abençoem, e que Nossa Senhora de Lourdes, aparecida há 150 anos e venerada no Seminário de Resende na primeira imagem que em Portugal lhe foi dedicada, desperte em todos o apreço pelo sacerdócio.
Em Roma, na Visita Ad Limina, rezo por todos.Lamego, 1 de Novembro,

Solenidade de Todos os Santos, de 2007
+ Jacinto, Bispo de Lamego

sábado, 10 de novembro de 2007

DISCURSO DO SANTO PADRE AOS BISPOS PORTUGUESES

É preciso mudar o estilo de organização da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros para se ter uma Igreja ao ritmo do Concílio Vaticano II, na qual esteja bem estabelecida a função do clero e do laicado, tendo em conta que todos somos um, desde quando fomos baptizados e integrados na família dos filhos de Deus, e todos somos corresponsáveis pelo crescimento da Igreja” – pediu esta manhã (10 de Novembro) Bento XVI aos bispos portugueses.
Neste encontro integrado na visita «Ad Limina» que os prelados estão a realizar até 12 de Novembro, o Papa também apontou caminhos novos para a Igreja Portuguesa: “eclesiologia da comunhão na senda do Concílio, à qual a Igreja portuguesa se sente particularmente interpelada na sequência do Grande Jubileu é a rota certa a seguir, sem perder de vista eventuais escolhos tais como o horizontalismo na sua fonte, a democratização na atribuição dos ministérios sacramentais, a equiparação entre a Ordem conferida e serviços emergentes, a discussão sobre qual dos membros da comunidade seja o primeiro”.
Depois de analisados os relatórios das dioceses portuguesas e verificar “a maré crescente de cristãos não praticantes”, Bento XVI alertou os pastores portugueses para que estudassem “a eficácia dos percursos de iniciação actuais, para que o cristão seja ajudado, pela acção educativa das nossas comunidades, a maturar cada vez mais até chegar a assumir na sua vida uma orientação autenticamente eucarística, de tal modo que seja capaz de dar razão da própria esperança de maneira adequada ao nosso tempo”.
No seu discurso ao bispos portugueses, Bento XVI também elogia a caminhada que a Igreja Portuguesa tem feito em diversos sectores: “o recenseamento geral da prática dominical, o retomar a caminhada sinodal feita ou a fazer, a convocação em mais do que uma diocese da statio eucarística ou da missão geral segundo modalidades novas e antigas, a realização nacional do encontro de movimentos e novas comunidades eclesiais e do congresso da família, a vontade de servir o homem consignada pela Igreja e o Estado numa nova Concordata, a aclamação da santidade exemplar na pessoa de novos Beatos…”
In ecclesia

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Bodas de Prata Sacerdotais

O P.e Doutor Víctor, natural de Várzea da Serra e actual Pároco de Granja Nova, Paçô e Vila Chã da Beira, celebra este ano as suas Bodas de Prata Sacerdotais.
Hoje os sacerdotes que trabalham no Arciprestado de Tarouca, conjuntamente com o Reitor de Almacave, associaram-se à feliz efeméride. Na Capela da Senhora da Serra, concelebraram, dando graças ao pai pelo dom do sacerdócio e louvando-O pela vida, amizade e sacerdócio do P.e Víctor. No fim, ofereceram ao aniversariante uma recordação, que vale mais pelo que significa do que pelo valor material.
Depois, também em clima de comunhão sacerdotal, partilharam juntos uma refeição.
A Igreja tem em grande apreço, estimula e fomenta as experiências de comunhão no presbitério. Elas são importântíssimas na vivência do sacerdócio.
Parabéns, amigo Padre Víctor! Por muitos e muitos anos.