segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Uma Europa em protesto: onde estão a justiça, o diálogo e a autoridade?

 A Europa e Portugal vivem tempos de inquietação. Multiplicam-se as manifestações em torno da escola, da habitação, do custo de vida, dos salários e das desigualdades sociais. A estas reivindicações juntam-se causas internacionais, como a Palestina, e questões relacionadas com os direitos das minorias. São motivos diferentes, por vezes legítimos, que nem sempre escapam à instrumentalização política.´

O que nos dizem estes protestos? Que há pessoas que não se sentem ouvidas, famílias com
dificuldades e jovens sem confiança no futuro. Ignorar este descontentamento seria um erro. Mas também importa perguntar se certas forças políticas mais extremistas não aproveitam causas legítimas para promover a divisão e o confronto... A crítica é legítima, mas exige factos: nem todos os manifestantes partilharão as mesmas intenções.

A liberdade de manifestação é um direito fundamental. Contudo, não justifica a violência, o vandalismo ou o desrespeito pelos outros. A intervenção policial pode ser necessária, mas deve ser proporcional e respeitar os direitos dos cidadãos.

E os governos? Governar não é apenas reagir às crises. É antecipar problemas, tomar decisões corajosas e apresentar soluções concretas. A habitação, a educação e o custo de vida exigem mais do que promessas e respostas de circunstância. Exigem competência, sentido de Estado e responsabilidade.

Do ponto de vista do humanismo, não podemos ficar indiferentes. A dignidade humana, a justiça, a solidariedade e o bem comum obrigam-nos a olhar para quem sofre, independentemente da sua origem ou condição. O sofrimento dos palestinianos, os direitos das minorias e as dificuldades das famílias portuguesas merecem atenção e respeito.

Mas o Evangelho também nos alerta para o perigo do ódio, da manipulação e da divisão. Cristo não nos pede indiferença perante a injustiça, mas também não nos ensina a combater a injustiça com outra injustiça.

A Europa não precisa de menos liberdade, mas de mais responsabilidade. Precisa de governos que saibam governar, de cidadãos que saibam reivindicar e de instituições que saibam escutar. A autoridade sem justiça torna-se abuso; a liberdade sem responsabilidade transforma-se em desordem.

O desafio é construir uma sociedade em que ninguém seja ignorado, nenhuma causa seja manipulada e a dignidade humana esteja acima dos interesses partidários. É também esse o testemunho que os cristãos são chamados a dar: defender a verdade, promover a justiça e trabalhar pela paz, sem se deixarem aprisionar pelas trincheiras ideológicas.

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