domingo, 1 de novembro de 2026

QUANDO A FÉ SE ESQUECE DA VIDA…


"Há católicos capazes de escrever trinta parágrafos sobre a forma correta de comungar, na mão ou na boca, de joelhos ou de pé, mas não encontram uma linha para o imigrante que paga 300 euros por um colchão numa cave. Nem para quem trabalha e não consegue pagar a renda. Nem para quem chega à caixa do supermercado e tem de deixar produtos para trás.
(Padre Miguel Lopes Neto)

Defende-se a vida, e muito bem, contra o aborto. Mas a defesa da vida não termina no nascimento. Também passa pelas crianças sujeitas ao trabalho infantil, pelas que crescem em famílias desestruturadas, pelas que vivem na pobreza, sem oportunidades e sem futuro.

Fala-se de tradições, leis, costumes e dogmas. Mas o mandamento novo do amor fica esquecido entre tantas outras preocupações.

Apresenta-se Cristo como Sacerdote, Profeta e Rei. Mas a profecia, essa, vai sendo arrumada na gaveta. Mesmo quando a injustiça grita. Mesmo quando os poderosos abusam. Mesmo quando os pobres deixam de ter voz. E a Igreja, que devia ser voz dos sem voz, quase não se ouve...

Gastam-se horas a discutir anjos, demónios e aparições de Nossa Senhora, enquanto se poupam palavras para defender a dignidade humana espezinhada: a dos migrantes explorados, dos reformados com pensões de miséria, dos idosos abandonados e das populações do interior condenadas ao esquecimento.

Discutem-se rituais, rubricas e minúcias litúrgicas, mas perde-se de vista o essencial: a comunhão, a participação, o serviço, a fraternidade e a alegria de celebrar a fé.

Deus encarnou. Fez-Se próximo. Entrou na nossa história, partilhou as nossas dores e sentou-Se à mesa dos pobres. Nós, porém, parecemos empenhados em mandá-Lo de volta para o céu, deixando cá em baixo os problemas da humanidade.

Temos uma Igreja a "coçar para dentro", às voltas e voltinhas com a sua vida (movimentos, extruturas, Código do Direito Canónico, sínodos, espiritualidades, comunicações que passam ao lado do mundo... Uma Igreja muito reativa e condenatória e pouco pró-ativa).  

Uma Igreja de manutenção, mesmo quando já não haja gente. Mas com medo das reformas que preparam o futuro. 

A fé não pode ser um refúgio para fugir ao mundo. Tem de ser uma força para o transformar.

A santidade não está apenas nos altares, nos gestos piedosos ou na observância rigorosa das normas. Está também na defesa dos frágeis, na denúncia das injustiças, na solidariedade concreta e na coragem de não pactuar com a indiferença.

Porque não há verdadeira fidelidade a Cristo sem fidelidade ao ser humano.

E não há Evangelho sem amor vivido.