quinta-feira, 12 de março de 2026

Quando o silêncio de um padre se torna demasiado pesado


Este ano já tive notícia de cinco.
Cinco sacerdotes que morreram por suicídio.
Escrever isto custa-me.
Porque quando digo “cinco” parece apenas um número.
Mas não são números.
São nomes pronunciados um dia diante do altar.
São vidas que um dia disseram “sim” com alegria.
São histórias inteiras de serviço, de escuta, de entrega.
Um padre não nasce padre.
Vai-se tornando.
Nas madrugadas em que responde ao telefone porque alguém morreu.
Nos hospitais onde segura a mão de quem tem medo da última noite.
Nas confissões onde escuta lágrimas que ninguém mais conhece.
Nas casas onde se senta à mesa com famílias feridas para tentar juntar pedaços de vida.
No Centro Social entre papéis, funcionários, utentes a ser visto como patrão.
Um padre aprende, lentamente, a carregar as dores dos outros.
Mas quase ninguém lhe pergunta quem carrega as dele.
Durante muito tempo repetiram-se explicações fáceis.
Quando um padre cai, dizem alguns, foi por causa de uma paixão.
Ou porque perdeu a fé.
Mas a alma humana não cabe em frases simples.
Há padres que continuam a acreditar profundamente.
Que rezam em silêncio diante do sacrário.
Que levantam o pão e o vinho todos os dias com reverência.
E mesmo assim, por dentro, sentem um cansaço que ninguém vê.
Há noites em que a igreja fica vazia.
As luzes apagam-se.
As portas fecham-se.
E o padre regressa a casa.
Uma mesa.
Uma cadeira.
Um silêncio demasiado grande.
A solidão não faz barulho.
Mas infiltra-se devagar.
Primeiro nas noites longas.
Depois nos dias cheios em que ninguém pergunta verdadeiramente como ele está.
Depois naquele peso interior que já não se sabe bem de onde vem.
Há também o peso do ministério.
As expectativas de todos.
As críticas fáceis.
A sensação de que é preciso estar sempre disponível, sempre equilibrado, sempre forte.
Como se a ordenação tivesse apagado a fragilidade humana.
Mas não apagou.
Um sacerdote continua a ser um homem.
Com feridas antigas.
Com fragilidades.
Com dias de luz e dias de sombra.
A ordenação sacerdotal não protege o coração humano da tristeza.
Nem da ansiedade.
Nem daquela escuridão silenciosa que às vezes cresce por dentro.
Recentemente o arcebispo de Saragoça, Carlos Escribano, tomou uma decisão silenciosa, mas profundamente significativa: suspendeu as visitas pastorais previstas para dedicar um ano inteiro ao cuidado dos sacerdotes da sua diocese.
Quis encontrá-los em grupo.
Depois individualmente.
Para escutar.
Para compreender.
Para perguntar simplesmente:
como estás a viver o teu ministério?
Há algo de profundamente evangélico nisto.
Porque o sacerdote é, por vocação, um homem para os outros.
Mas um homem para os outros também precisa de alguém que seja para ele.
Talvez a Igreja do futuro precise de aprender melhor isto:
cuidar de quem cuida.
Antes que o silêncio se torne demasiado pesado.
Antes que a solidão se transforme num abismo.
Porque por trás de cada padre há um coração humano.
E nenhum coração deveria caminhar sozinho durante demasiado tempo.
Foto: Sebastien Desarmaux I Godong
Texto:Padre João Torres, Facebook

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