terça-feira, 21 de abril de 2026

Há um ano, Fancisco partiu para os Braços do Pai. Passou entre nós como passam os ventos necessários: não ficam presos nas mãos, mas deixam o ar mais limpo.

 Um ano depois da morte de Francisco, permanece qualquer coisa rara: a memória de uma presença que não precisava de aparato para ser reconhecida. Não foi um Papa de distância nem de moldura dourada. Foi um homem que escolheu a simplicidade não como gesto de imagem, mas como modo de habitar o mundo e de servir a Igreja. Havia nele essa qualidade cada vez mais escassa: a coragem de falar com o coração sem deixar de tocar na ferida, de dizer o que precisava de ser dito sem se esconder atrás de fórmulas cansadas.

O seu legado não cabe apenas em decisões, documentos ou frases que ficaram. Cabe, antes de tudo, numa deslocação de centro: com Francisco, a Igreja parecia voltar a respirar mais perto do Evangelho do que do protocolo, mais perto das pessoas do que da encenação, mais perto da carne ferida do mundo do que das suas próprias solenidades. Não aboliu a tradição, mas recordou que ela só tem sentido se conduzir à fonte. E a fonte nunca foi a pompa; foi sempre o rosto vivo de Cristo, encontrado nos pobres, nos esquecidos, nos frágeis, nos que ficam à porta enquanto os perfeitos discutem as dobragens da toalha do altar.

Isso incomodou muita gente. A simplicidade incomoda sempre os que se habituaram a confundir grandeza com ornamento. A franqueza perturba os que preferem a segurança de discursos impecáveis e inofensivos. Francisco não pertenceu à categoria dos que adormecem o mundo com palavras polidas e sorrisos diplomáticos. Tinha arestas, impulsos, até contradições. Por vezes, sentia-se nele a dificuldade de segurar ao mesmo tempo a misericórdia e a justiça, como quem sabe que ambas são necessárias, mas nem sempre encontra o gesto exato para as reconciliar. Houve momentos em que pareceu ceder a um certo justicialismo demasiado humano, demasiado terreno. E talvez tenha sido precisamente isso que o tornou mais próximo: não uma estátua sem falha, mas um homem real, com a luz e a sombra de quem tenta servir algo maior do que si mesmo.

Francisco foi humano, ponto. E falhou, como falham todos os que vivem verdadeiramente expostos ao peso das escolhas. Mas há falhas que diminuem e falhas que revelam. As dele, no conjunto, nunca apagaram o essencial: foi uma lufada de ar fresco numa Igreja que, tantas vezes, corre o risco de fechar as janelas e confundir fidelidade com medo. Trouxe consigo o desconforto bom do Evangelho, esse que desinstala, que desalinha as vaidades, que recorda que a fé não é um museu de certezas frias, mas um caminho de encontro, conversão e serviço.

Talvez o mais importante tenha sido isso: Francisco devolveu à palavra cristã alguma da sua temperatura humana. Fez lembrar que a verdade, quando não vem acompanhada de compaixão, endurece; e que a doutrina, quando se basta a si própria, corre o risco de perder de vista Aquele que lhe dá sentido. Não para negar a importância da tradição, dos dogmas ou da inteligência da fé, mas para os recolocar no seu lugar justo: não como fim, mas como caminho; não como troféu, mas como serviço; não como arma de distinção, mas como humilde auxílio para seguir Cristo.

Porque esse é, afinal, o perigo de todas as épocas religiosas: começar por adorar Deus e acabar a defender-se a si mesmas. Quando isso acontece, os olhos viram-se para dentro, quase para a nuca, e a alma distrai-se com as vestes, os títulos, os ritos, os lugares, as hierarquias do prestígio. E Cristo, sem ser negado, vai sendo empurrado para a margem, ou então convocado apenas para legitimar preferências, endurecimentos e pequenas soberbas travestidas de zelo. Francisco, com todas as suas limitações, veio lembrar que o centro não está aí. O centro continua a ser o Nazareno sem aparato, o que lavou pés, tocou feridas e preferiu a mesa imperfeita dos pecadores à impecabilidade satisfeita dos justos.

Por isso, um ano depois, o que nele permanece não é apenas a lembrança de um pontificado, mas a saudade de uma voz. Uma voz sem luxo, sem teatro, sem excesso de cálculo. Uma voz que, mesmo quando errava, parecia nascer de um lugar sincero. E talvez seja isso que mais falta faz: não a nostalgia de um estilo, mas a memória de uma autenticidade. Francisco recordou à Igreja que a sua autoridade não cresce com a distância, mas com a proximidade; não com o esplendor que impõe, mas com a verdade que serve; não com a rigidez que intimida, mas com a esperança que abre espaço.

Ficou-nos, por isso, mais do que uma figura: ficou-nos uma interpelação. A de escolher entre uma fé que respira e uma fé que sufoca. Entre uma Igreja preocupada em parecer irrepreensível e uma Igreja disposta a ajoelhar-se diante das feridas do mundo. Entre o brilho das superfícies e a humilde radicalidade do Evangelho. Francisco não resolveu tudo, não purificou tudo, não acertou sempre. Mas passou entre nós como passam os ventos necessários: não ficam presos nas mãos, mas deixam o ar mais limpo.

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