As estatísticas frias dizem-nos que cerca de 250 clérigos se reuniram em Fátima. A matemática, implacável, acrescenta o reverso da medalha: mais de 90% do clero português esteve ausente. Perante este cenário, a narrativa oficial apressa-se a estender o manto das desculpas habituais — a falta de tempo, a agonia das agendas, o peso burocrático de quem multiplica os seus dias por cinco, dez ou mais paróquias. Mas quem conhece o pulsar real das bases sabe que a ausência não foi uma distração coletiva. Foi um voto explícito de silêncio; um sinal profundo de desconexão.
Os padres ficaram em casa porque os modelos tradicionais se esvaziaram. O formato destes simpósios assenta, frequentemente, numa comunicação unidirecional — um "banho de doutrina" onde oradores do mais puro situacionismo garantem filtros totais para que não haja desvios. Cria-se a ilusão de harmonia blindando o evento contra o debate real. Porém, ao evitar a frontalidade, afasta-se o pensamento crítico. Aqueles que gastam a vida no terreno recusam-se a validar um simulacro de comunhão onde as grandes questões são sistematicamente silenciadas: o avanço de um conservadorismo aguerrido e legalista que asfixia a frescura do Evangelho; o tabu do celibato e da nomeação dos bispos; questionamentos acerca das unidades pastorais; e o isolamento egóico de um clero dividido, onde falta partilha e sobra solidão.
Mais grave ainda: os padres ficam em casa porque a instituição prefere focar-se no cansaço físico para não ter de encarar o cansaço existencial. É o drama humano de homens que doaram uma vida inteira ao povo de Deus e que, aos setenta e tal ou oitenta anos, continuam a arrastar-se no trabalho pastoral. Mas esta realidade não se deve apenas à passividade de um episcopado marcadamente recatado, que tantas vezes confunde prudência com receio de arriscar face à desculpa crónica de que "não há padres". Há aqui uma responsabilidade partilhada e um mistério humano mais profundo: até aos setenta anos mandamos nós no tempo, mas a partir dos setenta é o tempo que manda em nós. Muitos destes sacerdotes, idosos e gastos, acabam por não pedir a substituição. Uns perderam já o controlo e o discernimento sobre as suas próprias capacidades físicas e mentais; outros caem na armadilha humana de se acharem imprescindíveis, incapazes de desapegar de uma identidade pastoral que os sustentou uma vida inteira. Perante isto, e face a um laicado historicamente mortiço ou anticlerical, a Igreja em Portugal parece paralisada, "a coçar para dentro", bloqueada por todos os lados.
E, no entanto, no coração de quem caminha nesta Igreja, a escuridão que cerca as estruturas humanas não tem o poder de anular a esperança. É um otimismo que não nasce de organogramas ou de ilusões ingénuas, mas sim da certeza teologal de que a alma da Igreja é o Espírito Santo. A história prova que nada nem ninguém pode domar o Espírito: foi Ele que, nas épocas mais sombrias, despertou a audácia profética de Francisco de Assis, Teresa de Ávila, João XXIII ou António Ferreira Gomes. O Espírito opera por ruturas e surpresas, precisamente onde termina o limite humano e começa a força de Deus.
Enquanto o tempo de Deus não suscita os profetas de amanhã, o verdadeiro sustento da fé sobrevive no silêncio e fora dos palcos. Sobrevive na noite, onde um pastor cansado conversa com o Senhor na intimidade da sua casa, sabendo que Ele fará o favor de o entender, mesmo quando o servo fala mais do que ouve. E sobrevive no calor de algumas famílias que abriram as portas para serem mais do que paroquianos: tornaram-se amigos generosos que concedem ao seu pároco o favor de se sentir membro da família. É aí, nessas conversas sem filtros dentro do aceitável e no aconchego do afeto partilhado, que a Mesa da Eucaristia se prolonga e que a Igreja, discretamente, se renova.
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