domingo, 25 de outubro de 2015

O Sínodo dos Bispos e as situações regionais de conflito


O Sínodo dos Bispos de 2015 decorreu em torno do tema “A vocação e a missão da família na igreja e no mundo contemporâneo”. No entanto, os padres sinodais tiveram que ter em linha de conta, além das famílias atingidas por marcas situacionais diversas da proposta eclesial e feridas pelo sofrimento, todas as famílias e pessoas que passam por situações de sofrimento, exclusão ou ataques à sua dignidade. O princípio “Deus ama-te como és, embora não se conforme” parece constituir uma velha-nova regra de ouro que decorre o mistério de Deus Amor e Pai misericordioso que chama insistentemente e não sabe abandonar.

Esta postura dos Bispos insere-se na esteira daquela visão humanista da Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo, a Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II:

As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao género humano e à sua história.”.

É uma visão humanista assumida pelo Concílio e pelo Pontífice que promulgou as suas deliberações plasmadas nos 16 documentos conhecidos de todos, embora provavelmente pouco lidos e relidos. Tanto o Papa Paulo VI como os diversos padres conciliares manifestaram a disponibilidade de escutar o Espírito e o que Ele diz à Igreja, bem como o que o Espírito fez dizer a outros homens que não tiveram oportunidade de conhecer por dentro a dimensão eclesial.

Assim, já Publius Terentius Afer, no prólogo da sua comedia palliataAdelpfoi: “Homo sum, et humani nihil a me alienum puto” (Sou homem, nada do que é humano me é estranho).

Nesta linha de pensamento, preocupação, sintonia e reflexão, o areópago de mais alto nível eclesial de funcionamento periódico não pôde deixar se ter, na sua oração, palavra e mensagem, a calamitosa situação que se vive no e a partir do Médio Oriente, África e Ucrânia. Isto transpareceu em algumas das declarações dos intervenientes nas conferências de imprensa que o diretor deste pelouro na Santa Sé promoveu a um ritmo quase diário.

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Não contentes com tudo isto, os padres sinodais, no termo dos trabalhos da XIV Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos optaram por uma declaração pública ao mundo sobre a situação

Que se vive no Médio Oriente, na África e na Ucrânia.

Situam-se na condição de reunidos em torno do Sucessor de Pedro e agregam a esta declaração todas as outras personalidades que trabalharam no sínodo: os delegados fraternos, os auditores e as auditoras e os restantes colaboradores.

Além da verificação que fazem das realidades dramáticas, da oração que exercitam, dos apelos que lançam, dos agradecimentos que tecem, das convicções que exprimem e dos ensinamentos que formulam, os participantes no Sínodo confiam à Sagrada Família de Nazaré – Jesus, Maria e José – que experimentou o sofrimento, as suas intenções em relação às famílias em dificuldade, de modo que, em breve, o mundo se torne uma única família de irmãos e irmãs.

É certo que o seu pensamento se dirige, em especial, a todas as famílias do Médio Oriente, vítimas de inauditas atrocidades resultantes de sanguinários conflitos em curso desde longa data e cujas condições de vida se agravaram nos meses e semanas mais recentes – mas sem deixar de exprimir a sua solicitude para com todas aquelas que estão envolvidas por vicissitudes similares.

Porém, os Bispos não se limitam a uma referência genérica. Pelo contrário, especificam a enumeração pormenorizada dos factos iníquos: o uso de armas de destruição em massa; os assassinatos indiscriminados, as decapitações, o rapto de seres humanos, o tráfico de mulheres, o alistamento de crianças, as perseguições por motivos religiosos e étnicos, a devastação de lugares de culto, a destruição do património cultural e outras inumeráveis atrocidades. Tudo isto obrigou, segundo os Bispos, milhares e milhares de famílias a fugir das suas casas e a procurar refúgio noutros lugares, muitas vezes, em condições de extrema precariedade.

Os autores da solene declaração reconhecem que “atualmente estas famílias estão impedidas de regressar e de exercer o seu direito a viver em dignidade e segurança na sua própria terra”. Em violação flagrante dos direitos humanos, estas famílias estão impedidas de contribuir “para a reconstrução e para o bem-estar material e espiritual dos seus países”, o que configura a proibição do exercício dos direitos cívicos, económicos e sociais em oposição à consecução do bem comum e uma inibição de as pessoas cumprirem os seus deveres para consigo próprias, para com as suas famílias e para com as comunidades que integram.

Os Bispos sublinham o “dramático contexto” em que “são continuamente violados os princípios da dignidade humana e da convivência pacífica e harmoniosa entre as pessoas e os povos”; e mais do que isso, está em causa a sonegação clamorosa dos “mais elementares direitos elementares” como são os direitos “à vida e à liberdade religiosa”, bem como “o direito humanitário internacional”. Trata-se de situações inaceitáveis neste terceiro milénio de cristianismo e de civilização a que o iluminismo teima em não chegar.

Face a este contexto, os Bispos reunidos em assembleia sinodal exprimem a sua proximidade solidária e orante junto dos patriarcas, bispos, sacerdotes, consagrados e fiéis, bem como a todos os habitantes dos países do Médio Oriente. Além disso, em concreto: pedem a libertação de todas as pessoas sequestradas; e querem que as suas vozes se unam ao grito de tantos inocentes:

Não mais violência, não mais destruições, não mais perseguições! Cessem imediatamente as hostilidades e o tráfico das armas!

Oxalá que, tal como Deus os ouve, também os decisores escutem a sua voz e os humilhados ouçam o grito destes senadores da Igreja, servindo-lhes de refrigério e de alimento da esperança.

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Mas os Bispos não se limitam à verificação da realidade, à oração solidária e ao grito de pacificação. Têm também uma palavra de gratidão para com todos aqueles países que se disponibilizaram efetivamente a acolher os refugiados, designadamente a Jordânia, o Líbano, a Turquia e numerosos países europeus. E, ao mesmo tempo, lançam um novo apelo à Comunidade internacional para que faça com que se ponham de parte “os interesses particulares” e se busquem soluções com recurso aos “instrumentos da diplomacia, do diálogo e do direito internacional”.

Por outro lado, afirmam a sua convicção de que a paz no Médio Oriente não se obterá com “escolhas impostas pela força”, mas com “decisões políticas respeitadoras das particularidades culturais e religiosas de cada uma das Nações e das várias realidades que as compõem”.

Talvez tenha sido este um dos mais graves erros do dito Ocidente ao querer impor nalguns países um regime democrático concebido, gizado estruturado à maneira dos países que se autoproclamam livres e democráticos.

Afirmam-se outrossim os Bispos convictos de que “a paz é possível” e de que “é possível acabar com as violências que, na Síria, no Iraque, em Jerusalém e em toda a Terra Santa, envolvem cada vez mais famílias e civis e inocentes e agravam a crise humanitária”. E creem e ensinam que a “reconciliação é fruto da fraternidade, da justiça, do respeito e do perdão”.

Talvez aqui pudesse ser colhida a lição do exemplo de Timor-Leste, que no seguimento do termo da guerra civil e da independência, propôs e conseguiu, pelo menos, em muito grande parte, o desígnio nacional da reconciliação.

Para sustentarem as suas convicções atinentes à fraternidade, justiça, respeito e perdão – fatores e fautores da paz – citam as palavras do Papa Francisco em Jerusalém, a 26 de maio de 2014, dirigidas a “todas as pessoas e comunidades que se reconhecem em Abraão: respeitemo-nos e amemo-nos uns aos outros como irmãos e irmãs! Aprendamos a compreender a dor do outro! Ninguém instrumentalize pela violência o nome de Deus! Trabalhemos em conjunto pela justiça e pela paz!”.

Firmam-se também nas palavras de Bento XVI no n.º 19 da sua exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in Medio Oriente, de 14 de setembro de 2012: “Possam os judeus, os cristãos e os muçulmanos entrever no outro crente um irmão a respeitar e a amar, para darem – em primeiro lugar nas suas terras – um bom testemunho de serena convivência entre filhos de Abraão”. 

Por isso, os Bispos reunidos em sínodo só podem ter um “único desejo”, igual ao das demais pessoas de boa vontade, que fazem parte da grande família humana: que se possa viver em paz.

Por fim, os padres sinodais, a partir de Roma, tornam extensivo o seu pensamento e oração – com igual preocupação, solicitude e amor – a todas as famílias que se encontram envolvidas em situações semelhantes noutras partes do mundo, referindo, em especial, a África e a Ucrânia. E declararam expressamente que as tiveram muito presentes durante os trabalhos da assembleia sinodal, do mesmo modo que as famílias do Médio Oriente. Também por elas pedem “o retorno a uma vida digna e tranquila”.

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Supondo que esta oportuna declaração sinodal teria sido mais completa, se no alinhamento das várias declarações de Francisco, tivesse incluído também o reparo sobre a exploração que determinados intermediários fazem incidir sobre refugiados e migrantes, frustrando-lhes a esperança, conduzindo-os à desagregação familiar, à invalidez e à morte, bem como sobre a postura de pensamento e de ação de algumas forças políticas, dirigentes governativos e agentes de autoridade em diversos países da União Europeia contra os migrantes e refugiados, incluindo as instituições europeias que andam de cimeira em cimeira enquanto as pessoas sofrem.

E os que sofrem estão demasiado tempo à espera.

E o Reino de Deus, que não é deste mundo, prega-se neste mundo a todos, mas dirige-se sobretudo aos excluídos, aos não reconhecidos, aso deixados à sua sorte.

Bem-aventurados os que estão em saída a lutar pela paz e pela justiça!

2015.10.24 – Louro de Carvalho

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