sexta-feira, 31 de outubro de 2014

"É PARA O NOSSO MENINO"

- Para que é que queremos as coisas se não as usamos para ajudar!? - foi assim que aquela senhora começou o diálogo comigo, atirando de chofre a pergunta como quem responde.
Perante o meu aceno de concordância, acrescentou:
- Deste mundo só levamos o que damos, não o que temos.
Pois. Trata-se de uma viúva, doente, cuja reforma (a dela e a da parte do marido que lhe pertence) mal dá para a alimentação e os muitos remédios que precisa de tomar. Mas ela é assim. Generosa, otimista, preocupada com os outros e o bem comum.
- Ai, senhor padre, se eu pudesse... - fez uma pausa para deixar o coração voar. - Criaria emprego, pois custa-me tanto ver jovens e adultos sem trabalho!... Ajudaria tantas causas sociais, apoiaria tanta gente que precisa... Mas o Euromilhões nunca mais me sai! E olhe que eu jogo 4 euros em cada semana. Não posso mais. Tenho que levar as contas controladinhas.
Ri-me da espontaneidade sincera da senhora.
Depois abriu o seu porta-moedas e retirou uma nota. Estendeu-a na minha direção e acrescentou:
- É para o nosso 'menino'! Olhe que não quero o meu nome no nosso jornal. Ponha anónimo. "Não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita." Não foi isso que o "Patrão" nos ensinou?...
Achei graça à palavra usada "Patrão".  Mas ela explicou que Deus é o melhor "Patrão", pois tudo Lhe pertence e nós somos apenas administradores  e que teremos que Lhe prestar contas. E sublinhou que é um "Patrão" maravilhoso pois paga muito além dos serviços prestados e dos trabalhos realizados...
Disse-lhe que cada oferta significa um milímetro no crescimento do nosso 'menino'.
Acenou com a cabeça longamente e disse:
- Sim, o Centro Paroquial é o 'menino' mais pobre da freguesia, já viu!? A criança tem uma família - melhor ou pior - que  sente a obrigação de cuidar dela. O Centro só pode crescer se não lhe faltar a ajuda caritativa e amiga de cada um de nós...
 Depois colocou a mão dela na minha, suspirou e continuou:
- Há tanta gente rica por esse mundo fora que podia ajudar estas causas sociais! Bem rezo para que Nosso Senhor torne o coração dessa gente mais solidário...
Caminhámos um bocadinho juntos até ao ponto do caminho em que os destinos nos separaram. Contou-me a história do penso que trazia na mão. Fora ao poleiro dar de comer  às galinhas. Sem mais nem menos, o galo saltou-lhe e deu-lhe uma valente picada na mão.
- Patife! Não me pica mais! Daqui a dias vem cá o meu filho e o patife do galo vai picar as paredes do pote! Vai dar uma valente cabidela! O senhor quer vir?
Despedimo-nos. Tinha andado uns passos, quando voltei a ouvir a voz da senhora:
- É só para pedir que diga à comissão que escusa de perder tempo a pedir à minha porta. Eu vou dando sempre que possa. É a nossa obrigação...
- Tá bem...

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