quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Entrei no Seminário há 50 anos



Ano letivo 1963-1964. Depois do exame de admissão que, durante uma semana  de agosto, teve lugar no Seminário de Resende, 56 miúdos foram chamados para frequentar aquele Seminário. Entre eles, estava eu.
Recordo ainda alguns episódios. Entrei no Seminário a mancar, pois tinha escaldado um pé una dias antes da entrada. Sei o número que me foi dado para marcar a roupa. O 320. E nunca mais usei este número para nada. Ficou para sempre reservado àquela experiência. Recordo o fato preto e o chapéu que tive que levar na mala. Recordo a azáfama de minha mãe e suas amigas na marcação da minha roupa. Recordo uma casa apinhada de miúdos e os padres de batina.
Recordo as saudades imensas que sentia da família. Afinal era uma criança que nunca tinha saído de casa. Ai, como contava os dias que faltavam para o Natal!
Recordo o bofetão que ainda hoje me dói. Era o dia 28 de outubro. Segunda aula de música. O professor chamou-nos um a um para irmos até à secretário e indicarmos o lugar do "dó" na pauta. Quantos errámos - e fomos quase todos - fomos corridos a bofetão que nos fez ver estrelas...
Recordo os silêncios, intensos e pesados, que o dia-a-dia da casa nos impunha. E a transgressão recebia o troco, dorido, intenso. Reconheço que não era para transgressões nesse campo, mais por medo do que por convicção.
Recordo o episódio do colega que, choroso, disse ao professor de Desenho que lhe tinham tirado o compasso. O mestre percorreu as carteiras todas daquele grande salão. Quando chegou ao pé de mim, afirmou: "Pronto, está encontrado quem roubou o compasso." É que o meu  era o único que já não tinha o logotipo. Parece que o chão me engoliu. A revolta misturou-se com as lágrimas e gritei com quanta força tinha: "Não fui eu! Eu não sou ladrão!"
O professor chamou-me imediatamente ao seu quarto. Ameaçou-me com tudo, até mesmo com a expulsão.  Com as lagrimitas a escorrer pela face, lembro-me de lhe ter enfatizado: "Pode-me mandar embora, mas não fui eu!"
Há coisas que, se pudéssemos voltar atrás, certamente todos mudaríamos.  Mas deste cena, eu orgulho-me. Defendi a verdade, podendo sofrer as piores consequências. Não quero nem nunca quis mal ao referido professor de Desenho. No final desse ano letivo, saiu do Seminário e nunca mais o vi. Gostaria muito de o ter encontrado mais tarde para lhe dizer umas coisas. Não como vingança ou retaliação. Apenas para o ajudar a tomar consciência do crime cometido. Seja qual for o tempo, nada explica que se acuse daquela maneira uma criança.
Recordo o tempo em que, à noite, o diretor espiritual, durante o exame de consciência, proclamava solenemente "não queirais dormir numa cama suspensa sobre o inferno!" A ênfase posta na advertência e a pronúncia, prolongando-a, atemorizavam crianças e adolescentes. Não estranha, por isso, que muitos, antes do deitar, passassem pelo diretor espiritual para se confessarem.
Recordo o tempo em que, durante o recreio, tínhamos que pedir autorização para ir à capela visitar o Santíssimo. A transgressão valia mais uns castigos...
Sim, a educação no Seminário, naquele tempo, tinha muito de "Manhã Submersa", de Virgílio Ferreira. 
Não há aqui propriamente uma acusação aos padres formadores, até porque muitos estavam lá contrariados, obedecendo ao bispo. E nem sempre os bispos têm cuidado nos padres que escolhem para o Seminário. Além disto, há a contextualização.  A maneira de educar vai mudando com o tempo e hoje, felizmente, a formação nos Seminários não tem nada a ver com a daquele tempo.
Estou grato ao Seminário. Muito. Apesar de tanto negrume educacional, foi lá que fui  amadurecendo a fé. Foi lá que me apaixonei por Jesus Cristo. E só isto ultrapassaria infinitamente tudo o que de menos bom senti e presenciei. O Seminário foi uma escola de superação, de método, de valores. Ali caminhei com grandes amigos que o tempo não apaga. Lá encontrei mestres que me marcaram pela simpatia, pelo acolhimento, pela compreensão, pelo saber, pela bondade.
Obrigado, Seminário!

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