domingo, 8 de fevereiro de 2026

Dr. António José Seguro eleito, por larga maioria, Presidente da República

 A segunda volta das presidenciais deixou uma mensagem clara: a maioria dos portugueses escolheu moderação, previsibilidade e compromisso democrático. A vitória de António José Seguro não foi apenas pessoal; foi o resultado de uma convergência ampla de eleitores que, vindos de diferentes quadrantes, optaram por um Presidente visto como estável, institucional e dialogante.

Este voto expressa também uma preferência por um chefe de Estado que respeite o equilíbrio de poderes e o papel moderador da Presidência, num contexto político já marcado por tensão e fragmentação parlamentar.

Ao mesmo tempo, os portugueses rejeitaram uma Presidência de confronto permanente. Embora o candidato derrotado tenha consolidado uma base eleitoral significativa, essa base revelou-se totalmente insuficiente para convencer a maioria do país. O resultado mostra que o discurso mais agressivo e polarizador continua a ter limites claros quando está em causa o cargo mais alto do Estado.

Em suma, Portugal não escolheu uma rutura, mas uma travagem. Não apagou as mudanças políticas em curso, mas deixou claro que, para Belém, prefere prudência a risco — e consenso a conflito.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Quem joga bem está sempre mais próximo de ganhar

 "Como disse depois do jogo com o Benfica no Dragão para o campeonato, continuo a achar Farioli bom treinador, não é o grande treinador que eu já pensava que era, mas tem todas as condições para lá chegar. Que não se deixe atemorizar por fantasmas do passado e solte as amarras da equipa" - Alexandre F., in DRAGÃO ATÉ À MORTE, Comentário ao Post " Não há razões para desconfiar, mas é preciso prevenir, alertar para não sofrer desilusões"

Preocupam-me as exibições do meu Porto nos últimos 2 meses...  As vitórias têm, felizmente, aparecido, mas é "um tem-te-não-caias" aflitivo e que não deixa de ser muito preocupante.  Que saudades do futebol que os Dragões apresentaram no princípio da época!

Pelas dificuldades financeiras que atravessa, o Clube não pode  ter os jogadores de que precisa. Mas os que tem já demonstraram ser capazes de muito e muito melhor!

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

"A democracia é o pior dos regimes, à excepção de todos os outros." - Winston Churchill

“A democracia é o pior dos regimes, à exceção de todos os outros”, lembrava Winston Churchill, com o realismo de quem conhecia bem as fragilidades e, sobretudo, a força desse sistema. A democracia não promete perfeição; promete algo mais exigente: escolha, responsabilidade e liberdade.

Numa segunda volta presidencial, essa exigência torna-se ainda mais clara. Já não se trata apenas de preferências, mas de uma decisão consciente entre caminhos distintos para o país. A democracia vive desse momento: quando os cidadãos, informados e livres, assumem o peso do seu voto não como um gesto emocional, mas como um compromisso com o futuro comum.

Defender a democracia é defender instituições fortes, respeito pelas regras, pela Constituição e pelo pluralismo. É acreditar que o poder deve servir, unir e representar, e não dividir ou enfraquecer. É reconhecer que o Presidente da República deve ser um garante da estabilidade, do diálogo e da confiança, sobretudo em tempos de incerteza.

A segunda volta é, por isso, menos sobre slogans e mais sobre carácter. Menos sobre ruído e mais sobre serenidade. A democracia precisa de líderes que compreendam os seus limites, respeitem o seu espírito e saibam colocar o interesse coletivo acima de ambições pessoais.

Votar é mais do que escolher um nome: é afirmar que acreditamos num país governado pela razão, pela moderação e pelo respeito democrático. E, nesse sentido, cada voto consciente é também uma defesa ativa da própria democracia.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

BATISMO, O MAGNÍFICO TEATRO ONDE A ÁGUA LAVA A COERÊNCIA

 
Dia do Batismo do Senhor, tão diferente do batismo moderno, o magnífico espetáculo de ilusionismo espiritual onde, num passe de mágica e com meia dúzia de gotas de água, transformamos pequenos pagãos em "cristãos de bancada" sem que ninguém tenha de mexer um dedo.

É comovente ver o empenho das famílias. No início da Igreja, o Batismo era o culminar de uma conversão profunda, uma decisão consciente. Que chatice, não é? Hoje, somos muito mais práticos: despachamos o assunto mal a criança solta o primeiro gemido, garantindo que entre no grémio cristão sem o incómodo de ter de saber quem é Jesus Cristo. Afinal, para quê uma "decisão pessoal" quando podemos ter uma festa, matizada por arranjos florais, com catering e fotografias para as redes sociais?
E os protagonistas deste teatro? Os pais, esses baluartes da fé que não põem os pés numa igreja desde o seu próprio batismo (ou talvez desde o casamento, pelo cenário), apresentam-se agora com uma autoridade moral invejável para exigir o sacramento. Ao lado, os padrinhos: esses "fiadores rotos" que, em termos de vida espiritual, estão mais próximos de um manual de instruções de um frigorífico do que do Evangelho. São escolhidos a dedo, não pela idoneidade da fé — que isso dá muito trabalho — mas pelo grau de amizade, pela influência social ou, quem sabe, pela qualidade do presente que vão dar.
Realmente, que ideia mais descabida essa de sugerir que o Batismo deveria ser o início de uma caminhada consciente! Onde é que já se viu exigir "maturidade" ou "ratificação" quando temos algo muito mais sagrado em jogo: o álbum de fotografias e o banquete num quinta com vista para o mar? Para quê esperar pela idade adulta — essa fase incómoda onde as pessoas têm a mania de fazer perguntas e querer compreender o que professam — se podemos resolver o assunto enquanto o "fiel" ainda não tem dentes e a sua única preocupação teológica é a temperatura do leite? É a eficiência máxima da burocracia espiritual: carimbamos a alma da criança, guardamos o certificado na gaveta junto às faturas do condomínio e, pronto, "está despachada".
É, de facto, uma encenação de mestre. O padre, com uma paciência de santo (ou esfregando as mãos pela recompensa generosa) finge que está a recrutar um novo soldado para o exército de Cristo, enquanto os pais tentam desesperadamente que a criança não chore para não estragar o vídeo do TikTok. Os padrinhos, esses pilares da moralidade que não veem o interior de uma igreja desde o seu próprio "carimbo" obrigatório, prometem solenemente guiar o afilhado nos caminhos do Senhor — um caminho que eles próprios não encontrariam nem com o Google Maps.
O melhor de tudo é mesmo o papel do padre minimamente sério... Coitado do pároco que se atreva a sugerir que, talvez, fosse bom haver um pingo de coerência ou uma réstia de vida cristã naquela casa. "Como ousa?", gritam os ofendidos. "A criança não tem culpa!". É o argumento matador, a blindagem perfeita para qualquer hipocrisia. Usa-se a inocência da criança como escudo humano para proteger a vacuidade espiritual dos adultos.
O que importa é que o ritual cumpriu a sua função social. Batizámos o vazio com pompa e circunstância. Celebrámos a entrada triunfal numa instituição cujos dogmas os pais ignoram e cujos valores os padrinhos consideram "passados de moda". Mas não sejamos puristas! A teologia pode ser nula, mas a amêndoa era de qualidade e o fato de renda era uma relíquia. No final do dia, a criança, coitadinha, já tem o passaporte para o céu (ou pelo menos para a aceitação social da família), e nós podemos voltar à nossa vida perfeitamente pagã, descansados por saber que, entre um croquete e um cálice de vinho do Porto, salvámos mais uma alma sem o incómodo de ter de acreditar em nada.
(P. António Magalhães Sousa, Facebook)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

“Entre a Vida e a Espera: A Crise Normalizada da Saúde em Portugal”

 A situação da saúde em Portugal tornou-se um espelho desconfortável das fragilidades estruturais do Estado e da dificuldade em transformar direitos formais em direitos reais. O Serviço Nacional de Saúde (SNS), concebido como um dos pilares da democracia portuguesa, continua a ser amplamente valorizado pela população. No entanto, os episódios que se acumulam — alguns quase inacreditáveis — revelam um sistema sob forte tensão, onde a exceção começa perigosamente a confundir-se com a regra.

Casos de cidadãos convocados para intervenções cirúrgicas depois de já terem falecido não são apenas falhas administrativas isoladas; são sinais de um sistema desarticulado, onde a informação não circula de forma eficaz e onde a gestão parece incapaz de acompanhar a realidade clínica e humana. Estes episódios, além de chocantes, revelam uma desumanização involuntária: o doente transforma-se num número, num processo atrasado numa base de dados que ninguém atualizou a tempo.

Ainda mais inquietante é a normalização de situações que deveriam ser absolutamente excecionais. Estradas transformadas em salas de parto improvisadas e ambulâncias a funcionar como maternidades revelam não apenas falta de recursos, mas falhas graves de planeamento e resposta. O problema não é apenas a inexistência de serviços em determinados territórios, mas a incapacidade de garantir que eles funcionem quando são mais necessários. Quando uma grávida entra em trabalho de parto, o tempo não é negociável — e o Estado deveria saber disso melhor do que ninguém.

A atuação do INEM, frequentemente apontada como salvadora em momentos críticos, também tem sido marcada por atrasos dramáticos. Pessoas que morrem à espera de socorro levantam questões difíceis, mas inevitáveis: faltam meios, faltam profissionais, faltam condições de trabalho — ou falta coordenação eficaz entre todos estes fatores? Qualquer que seja a resposta, o resultado final é o mesmo: vidas perdidas onde deveria ter havido resposta rápida e eficaz.

Nos serviços de urgência, o cenário repete-se com outras formas de sofrimento. Esperas de horas intermináveis, doentes em macas nos corredores, profissionais exaustos e cidadãos que deixam de saber se devem insistir ou desistir. A urgência, em muitos casos, deixou de ser sinónimo de rapidez e passou a ser apenas o último recurso de quem não encontra resposta noutro ponto do sistema.

Paralelamente, cresce o número de pessoas sem médico de família, fragilizando a base do SNS: os cuidados de saúde primários. Sem acompanhamento regular, a prevenção falha, as doenças agravam-se e a pressão sobre os hospitais aumenta. Trata-se de um círculo vicioso que penaliza sobretudo os mais vulneráveis, aqueles que não têm alternativas fora do sistema público.

Neste contexto, a medicina privada surge como uma solução para quem pode pagar, mas também como um sintoma de desigualdade crescente. O acesso à saúde começa a depender cada vez mais da carteira e menos da cidadania. Não se trata de demonizar o setor privado, mas de reconhecer que a sua expansão descontrolada pode transformar um direito universal num privilégio progressivo.

A expansão da medicina privada em Portugal não pode ser analisada apenas como resposta à falência do sistema público. Em muitos casos, ela alimenta-se ativamente dessa falência. O sofrimento, a angústia e o medo tornam-se oportunidades de negócio, exploradas através de preços incomportáveis, seguros cada vez mais seletivos e práticas que transformam a necessidade em urgência paga. Quando alguém recorre ao privado não por escolha, mas por desespero, já não estamos perante mercado livre — estamos perante aproveitamento. Há aqui uma lógica de lucro que prospera sobre a incapacidade do Estado em garantir cuidados atempados, criando uma saúde a duas velocidades onde quem pode paga e quem não pode espera, adoece ou morre. Chamar-lhe apenas “alternativa” é insuficiente; em muitos casos, trata-se de um negócio construído sobre a fragilidade alheia.

Nada disto invalida o esforço diário de milhares de profissionais de saúde que continuam a sustentar o sistema com competência e dedicação. O problema não reside neles, mas nas opções políticas, na gestão de recursos e na falta de uma visão estratégica de longo prazo. A saúde não pode ser tratada como um custo a conter, mas como um investimento essencial numa sociedade justa e funcional.

Em suma, a situação da saúde em Portugal exige mais do que indignação episódica. Exige diagnóstico sério, responsabilidade política e compromisso com soluções estruturais. Porque quando um sistema de saúde falha, não falha apenas um serviço público — falha um contrato social inteiro.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O cumprimento perdido

Antigamente, sair à rua era um desfile de “bons dias”, “boas tardes” e acenos de cabeça. Hoje, muitas vezes, é um desfile de auscultadores. A gente nova passa por nós de olhos colados ao chão, ao telemóvel ou ao amigo do lado, como se o resto do mundo estivesse em modo silencioso. Não saúdam, não respondem, não veem. E não, não é timidez: é falta de educação.
Cumprimentar não custa dinheiro, não gasta bateria e não provoca efeitos secundários. É um gesto simples, quase automático, que reconhece o outro como pessoa. Ignorar quem se conhece não é modernidade, nem pressa, nem “coisa da idade”. É má educação, dita sem rodeios.
E convém lembrar: isto não se aprende na escola. Aprende-se em casa. Aprende-se com os pais, com os avós, com o exemplo diário de quem diz “bom dia” ao vizinho e “obrigado” a quem ajuda. A escola ensina muita coisa importante, mas não pode ensinar tudo — muito menos aquilo que devia vir de berço.
Talvez esteja na hora de tirar um auricular, levantar os olhos e recuperar um velho hábito. Um simples “olá” ainda faz milagres.