terça-feira, 7 de abril de 2026

A Ressurreição de Jesus não é a mesma coisa que a ressurreição de Lázaro

 O mistério da Ressurreição é o centro da fé cristã. Nele, a Igreja proclama que Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, venceu a morte e abriu para toda a humanidade o caminho da vida nova. Não é apenas um facto do passado, mas uma realidade viva que dá sentido à nossa esperança.

Antes de mais, é essencial distinguir: a Ressurreição de Jesus não é a mesma coisa que a ressurreição de Lázaro. Lázaro voltou à vida terrena, à mesma condição de antes, e um dia voltou a morrer. Já Jesus não regressa à vida mortal: Ele ressuscita para uma vida nova, definitiva, onde a morte já não tem qualquer poder. A sua Ressurreição é passagem para a vida gloriosa.

O corpo ressuscitado de Jesus é real — não é uma ideia nem um espírito —, mas está transformado. É o mesmo corpo que sofreu na cruz, mas agora plenamente glorificado. Por isso, os Evangelhos mostram que Ele pode ser tocado e come com os discípulos, mas também aparece de modo inesperado e não está sujeito às limitações habituais do espaço.

Este é o chamado corpo glorioso. A tradição da Igreja ensina que ele possui características próprias: é incorruptível (já não sofre nem morre), é luminoso (participa da glória de Deus), é ágil (não está sujeito às limitações físicas como antes) e é plenamente espiritualizado (totalmente unido a Deus). É a realização plena daquilo que o ser humano é chamado a ser.

E aqui está o coração da nossa esperança: graças à Ressurreição de Cristo, também nós somos chamados à ressurreição para a vida gloriosa. A morte não é o fim, mas uma passagem. Aqueles que vivem em Cristo participarão da sua vitória, ressuscitando com um corpo transformado, semelhante ao d’Ele. A sua Ressurreição é a garantia da nossa.

Quanto a Maria, basta recordá-la como a Senhora da Alegria: aquela que, unida de modo único ao seu Filho, acolhe plenamente a vitória da Ressurreição e aponta para a esperança que nos está prometida.

Assim, tudo está profundamente ligado: Cristo ressuscita e inaugura a vida gloriosa; nós somos chamados a participar dessa mesma vida; e a fé na Ressurreição sustenta o nosso caminho. Não é apenas uma verdade para acreditar, mas uma vida nova que começa já agora e se cumprirá plenamente na eternidade.

segunda-feira, 23 de março de 2026

OBRIGADO A TODOS, TODOS!

 

quinta-feira, 19 de março de 2026

Meu pai - "há quem parta, ficando; há quem fique partindo..."

Também ficava contente quando o levavam a Santa Helena

Meu pai partiu, aos 95 anos, para a Casa do Pai. No domingo, dia 15 de março, parecia muito bem. Na quarta-feira de manhã, partiu. É a vida, que traz sempre consigo a fragilidade.

Partiu no pleno uso das suas capacidades. Aos médicos, no hospital, contou várias vezes, com pormenor, todos os sintomas que tinha experimentado nas últimas 24 horas.

Sabia de cor e salteado os dias em que os seis filhos, genros e noras, e os nove netos faziam anos. Sem computador, sem agenda. De memória.

Não tinha vícios. Não bebia — infelizmente para ele, nem água. Não fumava, não tinha desmandos morais. Vivia para a família.

Em família, enquanto os filhos eram novos, e conforme as circunstâncias daquele tempo, era algo rigoroso — o que não significa violência, nada disso. Com os netos, foi sempre um “avô babado”, louco por eles, preocupado, um bom conselheiro. Claro que todos os netos gostavam muito dele. Um deles, em trabalho na Suíça, fez tudo para chegar junto dos restos mortais do avô antes da Missa de Corpo Presente.

Nunca foi egocêntrico, mas “filhocêntrico”. Pensava nos filhos. Quando estes khe queriam fazer uma festinha de anos, por exemplo, encontrava sempre motivos para a evitar.

Sinal curioso: este ano aceitou comemorar os seus 95 anos, e com alegria. No dia 3 de janeiro, véspera do seu aniversário, alguns netos fizeram-lhe uma surpresa: levaram-no ao Santuário de Nossa Senhora da Lapa, sem que ele minimamente contasse. Exultou com a experiência. Nos dias seguintes, os familiares que puderam almoçaram com ele.

No sábado de Carnaval, já com quase toda a família, fizemos a celebração aniversária completa: Missa de Ação de Graças na igreja onde fez todo o seu percurso cristão e almoço a seu gosto.

Era um homem profundamente crente. Uma fé simples, profunda, comprometida com a vida. Deus era tudo para ele. Nos últimos anos, em que já lhe custava imenso andar, sempre que o visitava à tarde, encontrava-o sentado a rezar o seu terço. Nesses encontros, gostava de fazer análises críticas às leituras que fazia.

Quando o visitava, normalmente jantava com ele e com a família do meu irmão, que vivia perto dele. No fim, em família, rezávamos sempre o terço e partilhávamos as intenções de oração. Encantava-me a sua abertura e a forma como confiava a Deus os problemas reais deste tempo. Não havia ali nada de “beatice a cheirar a mofo”.

Obrigado, Deus, pelo meu pai!
Obrigado, pai, por tudo e por tanto!

Tínhamos, junto do Coração de Deus, a interceder por nós e pelo mundo, a mãe. A partir de 18 de março, temos pai e mãe!

Obrigado, meus amores! Vós partistes, mas ficastes gravados, a letras de ouro, no coração de filhos e netos.

Colocai-nos bem pertinho do Coração de Deus!
Descansai os dois em paz, meus heróis, nos braços de Deus!

quinta-feira, 12 de março de 2026

Quando o silêncio de um padre se torna demasiado pesado


Este ano já tive notícia de cinco.
Cinco sacerdotes que morreram por suicídio.
Escrever isto custa-me.
Porque quando digo “cinco” parece apenas um número.
Mas não são números.
São nomes pronunciados um dia diante do altar.
São vidas que um dia disseram “sim” com alegria.
São histórias inteiras de serviço, de escuta, de entrega.
Um padre não nasce padre.
Vai-se tornando.
Nas madrugadas em que responde ao telefone porque alguém morreu.
Nos hospitais onde segura a mão de quem tem medo da última noite.
Nas confissões onde escuta lágrimas que ninguém mais conhece.
Nas casas onde se senta à mesa com famílias feridas para tentar juntar pedaços de vida.
No Centro Social entre papéis, funcionários, utentes a ser visto como patrão.
Um padre aprende, lentamente, a carregar as dores dos outros.
Mas quase ninguém lhe pergunta quem carrega as dele.
Durante muito tempo repetiram-se explicações fáceis.
Quando um padre cai, dizem alguns, foi por causa de uma paixão.
Ou porque perdeu a fé.
Mas a alma humana não cabe em frases simples.
Há padres que continuam a acreditar profundamente.
Que rezam em silêncio diante do sacrário.
Que levantam o pão e o vinho todos os dias com reverência.
E mesmo assim, por dentro, sentem um cansaço que ninguém vê.
Há noites em que a igreja fica vazia.
As luzes apagam-se.
As portas fecham-se.
E o padre regressa a casa.
Uma mesa.
Uma cadeira.
Um silêncio demasiado grande.
A solidão não faz barulho.
Mas infiltra-se devagar.
Primeiro nas noites longas.
Depois nos dias cheios em que ninguém pergunta verdadeiramente como ele está.
Depois naquele peso interior que já não se sabe bem de onde vem.
Há também o peso do ministério.
As expectativas de todos.
As críticas fáceis.
A sensação de que é preciso estar sempre disponível, sempre equilibrado, sempre forte.
Como se a ordenação tivesse apagado a fragilidade humana.
Mas não apagou.
Um sacerdote continua a ser um homem.
Com feridas antigas.
Com fragilidades.
Com dias de luz e dias de sombra.
A ordenação sacerdotal não protege o coração humano da tristeza.
Nem da ansiedade.
Nem daquela escuridão silenciosa que às vezes cresce por dentro.
Recentemente o arcebispo de Saragoça, Carlos Escribano, tomou uma decisão silenciosa, mas profundamente significativa: suspendeu as visitas pastorais previstas para dedicar um ano inteiro ao cuidado dos sacerdotes da sua diocese.
Quis encontrá-los em grupo.
Depois individualmente.
Para escutar.
Para compreender.
Para perguntar simplesmente:
como estás a viver o teu ministério?
Há algo de profundamente evangélico nisto.
Porque o sacerdote é, por vocação, um homem para os outros.
Mas um homem para os outros também precisa de alguém que seja para ele.
Talvez a Igreja do futuro precise de aprender melhor isto:
cuidar de quem cuida.
Antes que o silêncio se torne demasiado pesado.
Antes que a solidão se transforme num abismo.
Porque por trás de cada padre há um coração humano.
E nenhum coração deveria caminhar sozinho durante demasiado tempo.
Foto: Sebastien Desarmaux I Godong
Texto:Padre João Torres, Facebook

segunda-feira, 9 de março de 2026

Sai Marcelo, entra Seguro

9 de março de 2026

António José Seguro toma posse como 21.º Presidente da República.

O agora ex-Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, como qualquer pessoa que exerce funções públicas, teve momentos que agradaram e momentos que desagradaram. Muitos o elogiam e enaltecem, outros o criticam. É a vida.

Não tenho nada contra a pessoa em si. No entanto, como Presidente da República, confesso que nunca fui seu fã.

Claro que apreciei o seu lado humano: a presença junto das pessoas, o sorriso, os abraços e as selfies. Reconheço-lhe um estofo cultural fora do comum.

Mas, quanto ao seu exercício de funções, deixo algumas críticas:

  • Tentou fazer da redução do número de sem-abrigo um desígnio nacional, mas esse número continuou a aumentar ao longo dos seus dois mandatos;

  • Não aprecio Presidentes “tagarelas”, que falam constantemente sem acrescentar substância. Marcelo acabou por banalizar as palavras, tornando-as menos impactantes;

  • A sua necessidade de estar sempre em evidência, de manter popularidade elevada, revelou um certo egocentrismo sorridente, levando-o por vezes a contradizer afirmações anteriores;

  • Realizou muitas eleições durante os seus mandatos. Em democracia, os mandatos devem ser cumpridos até ao fim, respeitando a decisão dos eleitores. Uma das funções do Presidente é prevenir crises e atuar para evitá-las;

  • Demonstrou hiperatividade em política externa, visitando inúmeros países, com resultados pouco claros, e cujas viagens foram pagas pelos portugueses;

  • Interveio excessivamente no funcionamento do governo, pessoalizando frequentemente a ação em relação a determinados ministros. O funcionamento do governo é, na minha opinião, da responsabilidade do Primeiro-Ministro;

  • Passava a impressão de falta de consistência: anunciava prioridades, mas depois deixava-as cair sem retomá-las.

Em resumo, não apreciei de todo o seu exercício presidencial e considero que não foi o Presidente que o país precisava.

Espero e desejo um bom mandato ao novo Presidente António José Seguro. Parece ser um homem discreto, atento e conciliador. Com um bom mandato, todos nós sairemos a ganhar.

domingo, 8 de março de 2026

MISSAS DE “CORPO PRESENTE”: CELEBRAR A FÉ QUE JÁ MORREU

Às vezes, confesso, sinto-me como um conservador de um museu que ninguém visita para ver a arte, mas apenas para usar a casa de banho ou tirar uma “selfie” contra a luz. Ainda vivo na ilusão de que a missão é um diálogo, quando, na verdade, parece mais um solilóquio num teatro vazio, onde as cadeiras estão ocupadas, é certo, mas por manequins de gesso. É um exercício de masoquismo intelectual e espiritual: passar horas a fio a escavar o texto sagrado, a burilar a homilia, a tentar encontrar aquela ponte que ligue a Eternidade ao quotidiano cinzento desta gente, para depois ser confrontado com o vazio. No final da Missa, o “feedback” que recebo é um silêncio ensurdecedor. Ninguém diz "aquela palavra ajudou-me" ou "aquela reflexão fez-me pensar". O silêncio é a norma, como se a Palavra de Deus fosse um som de fundo descartável.
Entrementes, o silêncio só é quebrado para a reclamação. Sim, para isso o povo tem uma eloquência admirável! Se a homilia durou mais cinco minutos do que o esperado, se o coro desafinou, se a igreja estava fria, se chamei a atenção para um telemóvel que insiste em tocar ou se eu ousei recordar um dever cristão que beliscou o ego de alguém, aí o “feedback” chega rápido, voraz e implacável. Somos ignorados no que é essencial e fuzilados no que é acessório.
Olho do ambão e vejo o desfile das ausências: os que estão lá, mas não "estão"; os que conferem o relógio com uma impaciência mal disfarçada, como se a Palavra de Deus fosse um anúncio publicitário que não se pode saltar no YouTube. É o triunfo da "presença por obrigação", onde o corpo ocupa um lugar no banco, mas a mente já está a marinar a carne para o churrasco ou a discutir o penálti da noite anterior. Por vezes, penso mesmo que deveríamos usar a expressão “corpo presente” mais vezes, para além dos funerais.
E o Pão da Vida? Tornou-se o banquete dos indiferentes. É fascinante (e profundamente doloroso) ver a fila da comunhão. Transformou-se num automatismo social, um desfile de moda espiritual onde o conceito de "estado de graça" parece uma peça de museu, algo tão anacrónico como o latim. Comungam por hábito, por pressão de grupo, para serem vistos ou talvez para não parecerem mal perante o vizinho, ignorando alegremente que o pecado não é uma sugestão de comportamento, mas uma rutura real (sacrilégio). Mas quem sou eu para falar em ofensa a Deus? Hoje em dia, Deus foi domesticado; é um "avô porreiro" que, na cabeça desta gente, não se chateia com nada, nem mesmo com o desprezo sistemático por aquilo que Ele próprio instituiu.
O que dizer, então, da gestão dos sacramentos de "ocasião"? Batismos e casamentos tornaram-se eventos de “catering” com uma breve introdução religiosa obrigatória. Quando tento aplicar as orientações da Igreja (aquelas que não inventei, mas que jurei defender) sou tratado como um burocrata ranzinza ou um ditador de paróquia. "Ó senhor padre, não complique, a gente só quer a cerimónia!", dizem os olhos deles. A insistência em práticas pagãs, o folclore vazio e a afronta direta à dignidade do altar são o pão nosso de cada dia. E a audácia é tal que, se o pároco ousa pedir o mínimo de dignidade ou verdade, o infrator veste imediatamente a capa de vítima. O "clero é autoritário", dizem, enquanto pisam séculos de tradição com o salto agulha da vaidade.
Mas o golpe de misericórdia vem da "educação" cristã das novas gerações. É de uma beleza trágica ver pais que se dizem católicos a tornarem-se cúmplices do analfabetismo espiritual dos filhos. A catequese é a primeira coisa a cair quando há um treino de futebol, uma festa de anos ou uma simples ponta de preguiça. E o pior: os pais não só permitem, como justificam. Mentem-me na cara, inventam doenças, viagens e compromissos inadiáveis, ensinando aos filhos a lição mais valiosa de todas: "A Igreja é secundária; o que importa é o teu prazer imediato". Mentir para socorrer as nossas razões é virtude! Defendem os filhos com unhas e dentes contra qualquer exigência de compromisso, criando uma geração de cristãos "flutuantes", que não pertencem a nada, não creem em nada, mas que quererão, daqui a uns anos, um casamento de luxo "com tudo a que têm direito".
Sinceramente, pergunto-me se não estarei a ser o único tonto a levar isto a sério. Então, a pergunta impõe-se, fria e lógica: porquê continuar a dar pérolas a quem prefere a lavagem? Não seria muito mais sensato "profissionalizar" o meu desespero? Tornar-me um mero prestador de serviços rituais. Queres um batismo? Aqui está a fatura, paga o emolumento e eu faço o teatro, sem perguntas, sem catequese, sem alma. Queres casar? Escolhe o pacote A, B ou C, paga a taxa de urgência e não me fales de fé. Eu passaria a ser um funcionário público do sagrado, com horário de expediente rigoroso e o coração devidamente blindado com uma camada espessa de cinismo. Vivia a minha vida, dedicava-me aos meus livros e músicas, às minhas viagens, aos meus silêncios, e tratava esta massa amorfa com o mesmo desprezo refinado com que eles tratam o Evangelho.
Seria, finalmente, um homem "moderno": focado no lucro, na agenda e no bem-estar individual. Deixaria de sofrer pela salvação de quem não se quer salvar. Deixaria de me indignar com a mentira de quem faz da mentira o seu modo de vida. Mas o problema é que, no fundo desta amargura, resta aquela voz incómoda que me sussurra que o Pastor não abandona as ovelhas, mesmo quando elas o tentam morder. É uma condenação, eu sei. A condenação de continuar a amar quem não sabe o que perde, de continuar a preparar a mesa para convidados que nunca vêm, e de, no fim do dia, fechar a porta da igreja com a mesma esperança teimosa e absurda de quem acredita que, amanhã, talvez um único coração se deixe tocar. Mas que a vontade de mandar as chaves para dentro do poço é grande... disso não tenham dúvidas.
(P. António Magalhães Sousa, Sopro e Vida, Facebook)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

A Igreja do “Tudo Fácil”


 Vivemos numa época em que tudo tem de ser rápido, fácil e confortável. Queremos resultados imediatos, sem obstáculos, sem “nãos”, sem esforço. E a Igreja, muitas vezes, acaba cedendo a essa lógica.

Sacramentos transformados em serviços
Sacramentos deixam de ser compromissos sérios e passam a ser serviços personalizados. Padres viram fornecedores de facilidades, e quem mantém coerência é visto como rígido ou distante. O valor do sacramento é medido pela conveniência, não pela fé.

A vontade individual acima da comunidade
No dia a dia das paróquias, vemos pedidos para moldar tudo às vontades pessoais: mudar músicas, escolher leitores, alterar/manter tradições, propor realizações de cunho mundano,  escolher datas e templos, querer este padre ou aquela para a cerimónia... Tudo para agradar aos próprios desejos, ignorando quem participa regularmente e se dedica de verdade. E há quem aceite, tentando ser popular, esquecendo que a missão da Igreja não é agradar, mas formar e orientar.

O perigo da Igreja fácil
O resultado é claro: uma Igreja fácil. Sedutora no conforto, mas vazia no compromisso, no sacramento, na fé. Uma Igreja que cede a todos os caprichos perde o sentido do que é ser comunidade, do que é ser discípulo, do que é ser Igreja.

O desafio é resistir
Ser Igreja exige coragem. Coragem para dizer “não” quando necessário, para manter regras e princípios, para resistir ao “porreirismo” que valoriza apenas a popularidade. Ser Igreja não é servir desejos passageiros; é guiar, exigir, acompanhar e formar. É oferecer verdade, mesmo que doa, mesmo que não seja fácil.

O caminho da fé verdadeira
Viver a fé não é ter tudo ao alcance imediato. Ser Igreja não é fazer tudo para agradar. É caminhar juntos, exigir coerência e manter a porta aberta para o encontro genuíno com Deus. Só assim a Igreja permanece viva, relevante e transformadora — mesmo num mundo que só quer o “tudo fácil”.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Dr. António José Seguro eleito, por larga maioria, Presidente da República

 A segunda volta das presidenciais deixou uma mensagem clara: a maioria dos portugueses escolheu moderação, previsibilidade e compromisso democrático. A vitória de António José Seguro não foi apenas pessoal; foi o resultado de uma convergência ampla de eleitores que, vindos de diferentes quadrantes, optaram por um Presidente visto como estável, institucional e dialogante.

Este voto expressa também uma preferência por um chefe de Estado que respeite o equilíbrio de poderes e o papel moderador da Presidência, num contexto político já marcado por tensão e fragmentação parlamentar.

Ao mesmo tempo, os portugueses rejeitaram uma Presidência de confronto permanente. Embora o candidato derrotado tenha consolidado uma base eleitoral significativa, essa base revelou-se totalmente insuficiente para convencer a maioria do país. O resultado mostra que o discurso mais agressivo e polarizador continua a ter limites claros quando está em causa o cargo mais alto do Estado.

Em suma, Portugal não escolheu uma rutura, mas uma travagem. Não apagou as mudanças políticas em curso, mas deixou claro que, para Belém, prefere prudência a risco — e consenso a conflito.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Quem joga bem está sempre mais próximo de ganhar

 "Como disse depois do jogo com o Benfica no Dragão para o campeonato, continuo a achar Farioli bom treinador, não é o grande treinador que eu já pensava que era, mas tem todas as condições para lá chegar. Que não se deixe atemorizar por fantasmas do passado e solte as amarras da equipa" - Alexandre F., in DRAGÃO ATÉ À MORTE, Comentário ao Post " Não há razões para desconfiar, mas é preciso prevenir, alertar para não sofrer desilusões"

Preocupam-me as exibições do meu Porto nos últimos 2 meses...  As vitórias têm, felizmente, aparecido, mas é "um tem-te-não-caias" aflitivo e que não deixa de ser muito preocupante.  Que saudades do futebol que os Dragões apresentaram no princípio da época!

Pelas dificuldades financeiras que atravessa, o Clube não pode  ter os jogadores de que precisa. Mas os que tem já demonstraram ser capazes de muito e muito melhor!

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

"A democracia é o pior dos regimes, à excepção de todos os outros." - Winston Churchill

“A democracia é o pior dos regimes, à exceção de todos os outros”, lembrava Winston Churchill, com o realismo de quem conhecia bem as fragilidades e, sobretudo, a força desse sistema. A democracia não promete perfeição; promete algo mais exigente: escolha, responsabilidade e liberdade.

Numa segunda volta presidencial, essa exigência torna-se ainda mais clara. Já não se trata apenas de preferências, mas de uma decisão consciente entre caminhos distintos para o país. A democracia vive desse momento: quando os cidadãos, informados e livres, assumem o peso do seu voto não como um gesto emocional, mas como um compromisso com o futuro comum.

Defender a democracia é defender instituições fortes, respeito pelas regras, pela Constituição e pelo pluralismo. É acreditar que o poder deve servir, unir e representar, e não dividir ou enfraquecer. É reconhecer que o Presidente da República deve ser um garante da estabilidade, do diálogo e da confiança, sobretudo em tempos de incerteza.

A segunda volta é, por isso, menos sobre slogans e mais sobre carácter. Menos sobre ruído e mais sobre serenidade. A democracia precisa de líderes que compreendam os seus limites, respeitem o seu espírito e saibam colocar o interesse coletivo acima de ambições pessoais.

Votar é mais do que escolher um nome: é afirmar que acreditamos num país governado pela razão, pela moderação e pelo respeito democrático. E, nesse sentido, cada voto consciente é também uma defesa ativa da própria democracia.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

BATISMO, O MAGNÍFICO TEATRO ONDE A ÁGUA LAVA A COERÊNCIA

 
Dia do Batismo do Senhor, tão diferente do batismo moderno, o magnífico espetáculo de ilusionismo espiritual onde, num passe de mágica e com meia dúzia de gotas de água, transformamos pequenos pagãos em "cristãos de bancada" sem que ninguém tenha de mexer um dedo.

É comovente ver o empenho das famílias. No início da Igreja, o Batismo era o culminar de uma conversão profunda, uma decisão consciente. Que chatice, não é? Hoje, somos muito mais práticos: despachamos o assunto mal a criança solta o primeiro gemido, garantindo que entre no grémio cristão sem o incómodo de ter de saber quem é Jesus Cristo. Afinal, para quê uma "decisão pessoal" quando podemos ter uma festa, matizada por arranjos florais, com catering e fotografias para as redes sociais?
E os protagonistas deste teatro? Os pais, esses baluartes da fé que não põem os pés numa igreja desde o seu próprio batismo (ou talvez desde o casamento, pelo cenário), apresentam-se agora com uma autoridade moral invejável para exigir o sacramento. Ao lado, os padrinhos: esses "fiadores rotos" que, em termos de vida espiritual, estão mais próximos de um manual de instruções de um frigorífico do que do Evangelho. São escolhidos a dedo, não pela idoneidade da fé — que isso dá muito trabalho — mas pelo grau de amizade, pela influência social ou, quem sabe, pela qualidade do presente que vão dar.
Realmente, que ideia mais descabida essa de sugerir que o Batismo deveria ser o início de uma caminhada consciente! Onde é que já se viu exigir "maturidade" ou "ratificação" quando temos algo muito mais sagrado em jogo: o álbum de fotografias e o banquete num quinta com vista para o mar? Para quê esperar pela idade adulta — essa fase incómoda onde as pessoas têm a mania de fazer perguntas e querer compreender o que professam — se podemos resolver o assunto enquanto o "fiel" ainda não tem dentes e a sua única preocupação teológica é a temperatura do leite? É a eficiência máxima da burocracia espiritual: carimbamos a alma da criança, guardamos o certificado na gaveta junto às faturas do condomínio e, pronto, "está despachada".
É, de facto, uma encenação de mestre. O padre, com uma paciência de santo (ou esfregando as mãos pela recompensa generosa) finge que está a recrutar um novo soldado para o exército de Cristo, enquanto os pais tentam desesperadamente que a criança não chore para não estragar o vídeo do TikTok. Os padrinhos, esses pilares da moralidade que não veem o interior de uma igreja desde o seu próprio "carimbo" obrigatório, prometem solenemente guiar o afilhado nos caminhos do Senhor — um caminho que eles próprios não encontrariam nem com o Google Maps.
O melhor de tudo é mesmo o papel do padre minimamente sério... Coitado do pároco que se atreva a sugerir que, talvez, fosse bom haver um pingo de coerência ou uma réstia de vida cristã naquela casa. "Como ousa?", gritam os ofendidos. "A criança não tem culpa!". É o argumento matador, a blindagem perfeita para qualquer hipocrisia. Usa-se a inocência da criança como escudo humano para proteger a vacuidade espiritual dos adultos.
O que importa é que o ritual cumpriu a sua função social. Batizámos o vazio com pompa e circunstância. Celebrámos a entrada triunfal numa instituição cujos dogmas os pais ignoram e cujos valores os padrinhos consideram "passados de moda". Mas não sejamos puristas! A teologia pode ser nula, mas a amêndoa era de qualidade e o fato de renda era uma relíquia. No final do dia, a criança, coitadinha, já tem o passaporte para o céu (ou pelo menos para a aceitação social da família), e nós podemos voltar à nossa vida perfeitamente pagã, descansados por saber que, entre um croquete e um cálice de vinho do Porto, salvámos mais uma alma sem o incómodo de ter de acreditar em nada.
(P. António Magalhães Sousa, Facebook)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

“Entre a Vida e a Espera: A Crise Normalizada da Saúde em Portugal”

 A situação da saúde em Portugal tornou-se um espelho desconfortável das fragilidades estruturais do Estado e da dificuldade em transformar direitos formais em direitos reais. O Serviço Nacional de Saúde (SNS), concebido como um dos pilares da democracia portuguesa, continua a ser amplamente valorizado pela população. No entanto, os episódios que se acumulam — alguns quase inacreditáveis — revelam um sistema sob forte tensão, onde a exceção começa perigosamente a confundir-se com a regra.

Casos de cidadãos convocados para intervenções cirúrgicas depois de já terem falecido não são apenas falhas administrativas isoladas; são sinais de um sistema desarticulado, onde a informação não circula de forma eficaz e onde a gestão parece incapaz de acompanhar a realidade clínica e humana. Estes episódios, além de chocantes, revelam uma desumanização involuntária: o doente transforma-se num número, num processo atrasado numa base de dados que ninguém atualizou a tempo.

Ainda mais inquietante é a normalização de situações que deveriam ser absolutamente excecionais. Estradas transformadas em salas de parto improvisadas e ambulâncias a funcionar como maternidades revelam não apenas falta de recursos, mas falhas graves de planeamento e resposta. O problema não é apenas a inexistência de serviços em determinados territórios, mas a incapacidade de garantir que eles funcionem quando são mais necessários. Quando uma grávida entra em trabalho de parto, o tempo não é negociável — e o Estado deveria saber disso melhor do que ninguém.

A atuação do INEM, frequentemente apontada como salvadora em momentos críticos, também tem sido marcada por atrasos dramáticos. Pessoas que morrem à espera de socorro levantam questões difíceis, mas inevitáveis: faltam meios, faltam profissionais, faltam condições de trabalho — ou falta coordenação eficaz entre todos estes fatores? Qualquer que seja a resposta, o resultado final é o mesmo: vidas perdidas onde deveria ter havido resposta rápida e eficaz.

Nos serviços de urgência, o cenário repete-se com outras formas de sofrimento. Esperas de horas intermináveis, doentes em macas nos corredores, profissionais exaustos e cidadãos que deixam de saber se devem insistir ou desistir. A urgência, em muitos casos, deixou de ser sinónimo de rapidez e passou a ser apenas o último recurso de quem não encontra resposta noutro ponto do sistema.

Paralelamente, cresce o número de pessoas sem médico de família, fragilizando a base do SNS: os cuidados de saúde primários. Sem acompanhamento regular, a prevenção falha, as doenças agravam-se e a pressão sobre os hospitais aumenta. Trata-se de um círculo vicioso que penaliza sobretudo os mais vulneráveis, aqueles que não têm alternativas fora do sistema público.

Neste contexto, a medicina privada surge como uma solução para quem pode pagar, mas também como um sintoma de desigualdade crescente. O acesso à saúde começa a depender cada vez mais da carteira e menos da cidadania. Não se trata de demonizar o setor privado, mas de reconhecer que a sua expansão descontrolada pode transformar um direito universal num privilégio progressivo.

A expansão da medicina privada em Portugal não pode ser analisada apenas como resposta à falência do sistema público. Em muitos casos, ela alimenta-se ativamente dessa falência. O sofrimento, a angústia e o medo tornam-se oportunidades de negócio, exploradas através de preços incomportáveis, seguros cada vez mais seletivos e práticas que transformam a necessidade em urgência paga. Quando alguém recorre ao privado não por escolha, mas por desespero, já não estamos perante mercado livre — estamos perante aproveitamento. Há aqui uma lógica de lucro que prospera sobre a incapacidade do Estado em garantir cuidados atempados, criando uma saúde a duas velocidades onde quem pode paga e quem não pode espera, adoece ou morre. Chamar-lhe apenas “alternativa” é insuficiente; em muitos casos, trata-se de um negócio construído sobre a fragilidade alheia.

Nada disto invalida o esforço diário de milhares de profissionais de saúde que continuam a sustentar o sistema com competência e dedicação. O problema não reside neles, mas nas opções políticas, na gestão de recursos e na falta de uma visão estratégica de longo prazo. A saúde não pode ser tratada como um custo a conter, mas como um investimento essencial numa sociedade justa e funcional.

Em suma, a situação da saúde em Portugal exige mais do que indignação episódica. Exige diagnóstico sério, responsabilidade política e compromisso com soluções estruturais. Porque quando um sistema de saúde falha, não falha apenas um serviço público — falha um contrato social inteiro.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O cumprimento perdido

Antigamente, sair à rua era um desfile de “bons dias”, “boas tardes” e acenos de cabeça. Hoje, muitas vezes, é um desfile de auscultadores. A gente nova passa por nós de olhos colados ao chão, ao telemóvel ou ao amigo do lado, como se o resto do mundo estivesse em modo silencioso. Não saúdam, não respondem, não veem. E não, não é timidez: é falta de educação.
Cumprimentar não custa dinheiro, não gasta bateria e não provoca efeitos secundários. É um gesto simples, quase automático, que reconhece o outro como pessoa. Ignorar quem se conhece não é modernidade, nem pressa, nem “coisa da idade”. É má educação, dita sem rodeios.
E convém lembrar: isto não se aprende na escola. Aprende-se em casa. Aprende-se com os pais, com os avós, com o exemplo diário de quem diz “bom dia” ao vizinho e “obrigado” a quem ajuda. A escola ensina muita coisa importante, mas não pode ensinar tudo — muito menos aquilo que devia vir de berço.
Talvez esteja na hora de tirar um auricular, levantar os olhos e recuperar um velho hábito. Um simples “olá” ainda faz milagres.