Casos de cidadãos convocados para intervenções cirúrgicas depois de já terem falecido não são apenas falhas administrativas isoladas; são sinais de um sistema desarticulado, onde a informação não circula de forma eficaz e onde a gestão parece incapaz de acompanhar a realidade clínica e humana. Estes episódios, além de chocantes, revelam uma desumanização involuntária: o doente transforma-se num número, num processo atrasado numa base de dados que ninguém atualizou a tempo.
Ainda mais inquietante é a normalização de situações que deveriam ser absolutamente excecionais. Estradas transformadas em salas de parto improvisadas e ambulâncias a funcionar como maternidades revelam não apenas falta de recursos, mas falhas graves de planeamento e resposta. O problema não é apenas a inexistência de serviços em determinados territórios, mas a incapacidade de garantir que eles funcionem quando são mais necessários. Quando uma grávida entra em trabalho de parto, o tempo não é negociável — e o Estado deveria saber disso melhor do que ninguém.
A atuação do INEM, frequentemente apontada como salvadora em momentos críticos, também tem sido marcada por atrasos dramáticos. Pessoas que morrem à espera de socorro levantam questões difíceis, mas inevitáveis: faltam meios, faltam profissionais, faltam condições de trabalho — ou falta coordenação eficaz entre todos estes fatores? Qualquer que seja a resposta, o resultado final é o mesmo: vidas perdidas onde deveria ter havido resposta rápida e eficaz.
Nos serviços de urgência, o cenário repete-se com outras formas de sofrimento. Esperas de horas intermináveis, doentes em macas nos corredores, profissionais exaustos e cidadãos que deixam de saber se devem insistir ou desistir. A urgência, em muitos casos, deixou de ser sinónimo de rapidez e passou a ser apenas o último recurso de quem não encontra resposta noutro ponto do sistema.
Paralelamente, cresce o número de pessoas sem médico de família, fragilizando a base do SNS: os cuidados de saúde primários. Sem acompanhamento regular, a prevenção falha, as doenças agravam-se e a pressão sobre os hospitais aumenta. Trata-se de um círculo vicioso que penaliza sobretudo os mais vulneráveis, aqueles que não têm alternativas fora do sistema público.
Neste contexto, a medicina privada surge como uma solução para quem pode pagar, mas também como um sintoma de desigualdade crescente. O acesso à saúde começa a depender cada vez mais da carteira e menos da cidadania. Não se trata de demonizar o setor privado, mas de reconhecer que a sua expansão descontrolada pode transformar um direito universal num privilégio progressivo.
A expansão da medicina privada em Portugal não pode ser analisada apenas como resposta à falência do sistema público. Em muitos casos, ela alimenta-se ativamente dessa falência. O sofrimento, a angústia e o medo tornam-se oportunidades de negócio, exploradas através de preços incomportáveis, seguros cada vez mais seletivos e práticas que transformam a necessidade em urgência paga. Quando alguém recorre ao privado não por escolha, mas por desespero, já não estamos perante mercado livre — estamos perante aproveitamento. Há aqui uma lógica de lucro que prospera sobre a incapacidade do Estado em garantir cuidados atempados, criando uma saúde a duas velocidades onde quem pode paga e quem não pode espera, adoece ou morre. Chamar-lhe apenas “alternativa” é insuficiente; em muitos casos, trata-se de um negócio construído sobre a fragilidade alheia.
Nada disto invalida o esforço diário de milhares de profissionais de saúde que continuam a sustentar o sistema com competência e dedicação. O problema não reside neles, mas nas opções políticas, na gestão de recursos e na falta de uma visão estratégica de longo prazo. A saúde não pode ser tratada como um custo a conter, mas como um investimento essencial numa sociedade justa e funcional.
Em suma, a situação da saúde em Portugal exige mais do que indignação episódica. Exige diagnóstico sério, responsabilidade política e compromisso com soluções estruturais. Porque quando um sistema de saúde falha, não falha apenas um serviço público — falha um contrato social inteiro.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.