quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

BATISMO, O MAGNÍFICO TEATRO ONDE A ÁGUA LAVA A COERÊNCIA

 
Dia do Batismo do Senhor, tão diferente do batismo moderno, o magnífico espetáculo de ilusionismo espiritual onde, num passe de mágica e com meia dúzia de gotas de água, transformamos pequenos pagãos em "cristãos de bancada" sem que ninguém tenha de mexer um dedo.

É comovente ver o empenho das famílias. No início da Igreja, o Batismo era o culminar de uma conversão profunda, uma decisão consciente. Que chatice, não é? Hoje, somos muito mais práticos: despachamos o assunto mal a criança solta o primeiro gemido, garantindo que entre no grémio cristão sem o incómodo de ter de saber quem é Jesus Cristo. Afinal, para quê uma "decisão pessoal" quando podemos ter uma festa, matizada por arranjos florais, com catering e fotografias para as redes sociais?
E os protagonistas deste teatro? Os pais, esses baluartes da fé que não põem os pés numa igreja desde o seu próprio batismo (ou talvez desde o casamento, pelo cenário), apresentam-se agora com uma autoridade moral invejável para exigir o sacramento. Ao lado, os padrinhos: esses "fiadores rotos" que, em termos de vida espiritual, estão mais próximos de um manual de instruções de um frigorífico do que do Evangelho. São escolhidos a dedo, não pela idoneidade da fé — que isso dá muito trabalho — mas pelo grau de amizade, pela influência social ou, quem sabe, pela qualidade do presente que vão dar.
Realmente, que ideia mais descabida essa de sugerir que o Batismo deveria ser o início de uma caminhada consciente! Onde é que já se viu exigir "maturidade" ou "ratificação" quando temos algo muito mais sagrado em jogo: o álbum de fotografias e o banquete num quinta com vista para o mar? Para quê esperar pela idade adulta — essa fase incómoda onde as pessoas têm a mania de fazer perguntas e querer compreender o que professam — se podemos resolver o assunto enquanto o "fiel" ainda não tem dentes e a sua única preocupação teológica é a temperatura do leite? É a eficiência máxima da burocracia espiritual: carimbamos a alma da criança, guardamos o certificado na gaveta junto às faturas do condomínio e, pronto, "está despachada".
É, de facto, uma encenação de mestre. O padre, com uma paciência de santo (ou esfregando as mãos pela recompensa generosa) finge que está a recrutar um novo soldado para o exército de Cristo, enquanto os pais tentam desesperadamente que a criança não chore para não estragar o vídeo do TikTok. Os padrinhos, esses pilares da moralidade que não veem o interior de uma igreja desde o seu próprio "carimbo" obrigatório, prometem solenemente guiar o afilhado nos caminhos do Senhor — um caminho que eles próprios não encontrariam nem com o Google Maps.
O melhor de tudo é mesmo o papel do padre minimamente sério... Coitado do pároco que se atreva a sugerir que, talvez, fosse bom haver um pingo de coerência ou uma réstia de vida cristã naquela casa. "Como ousa?", gritam os ofendidos. "A criança não tem culpa!". É o argumento matador, a blindagem perfeita para qualquer hipocrisia. Usa-se a inocência da criança como escudo humano para proteger a vacuidade espiritual dos adultos.
O que importa é que o ritual cumpriu a sua função social. Batizámos o vazio com pompa e circunstância. Celebrámos a entrada triunfal numa instituição cujos dogmas os pais ignoram e cujos valores os padrinhos consideram "passados de moda". Mas não sejamos puristas! A teologia pode ser nula, mas a amêndoa era de qualidade e o fato de renda era uma relíquia. No final do dia, a criança, coitadinha, já tem o passaporte para o céu (ou pelo menos para a aceitação social da família), e nós podemos voltar à nossa vida perfeitamente pagã, descansados por saber que, entre um croquete e um cálice de vinho do Porto, salvámos mais uma alma sem o incómodo de ter de acreditar em nada.
(P. António Magalhães Sousa, Facebook)

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