terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Finou-se uma voz eclesial de fé e convicção




Sim, soube-o pela mensagem móvel e pela voz do Padre Justino Lopes: Monsenhor Cândido Azevedo falecera a 13 de dezembro, III domingo do Advento e memória de Santa Luzia.


Não sendo eu a pessoa com mais capacidade para dizer alguma coisa a respeito deste homem da Igreja, com quem travei conhecimento pela via das lides pastorais, da docência e da intervenção social, tenho de assumir com gosto o dever moral de deixar o meu testemunho em torno de um homem de fé e convicções, que esmagava pela erudição, mas prendia pelo humanismo.


No quadro da fé do sempre conhecido por Padre Cândido, ninguém tem qualquer sombra de dúvida sobre a sua índole inabalável, ao serviço da qual colocou o seu verbo fluente e arquitetonicamente bem construído. Aparentemente gongórico, não parava de revestir a profundidade que a fé postula e sua proposta firme e afável exige, tanto nos tempos de hoje como nos tempos em que o orador se formou, mas que tentou marchar sob a batuta do tempo, sobretudo do “tempo favorável” da salvação. Todos o reconhecíamos como um dos oradores mais fulgurantes e imbatíveis. Mesmo se eventualmente um sermão se iniciava de modo menos vivo, a meio do percurso oracional começava a arrasar.


Sabia preencher o tempo longo de que dispunha, mas também era disciplinado a ponto de em três ou cinco minutos expor a mensagem que devia comunicar – sei-o por experiência própria.


Em termos sociais, Cândido de Azevedo nunca teve medo de intervir e marcar a sua posição ideária e até ideológica, o que levou a que muitos os denominassem de padre político. Porém, nunca omitiu o reconhecimento do mérito, viesse ele donde viesse, ou a apresentação da censura do demérito ou mesmo do desaforo onde quer que fosse necessário.


Apesar de firme nas suas convicções pessoais e eclesiais, sociais e políticas, nunca as suas maneiras de ver constituíram impedimento ao abraço a iniciativas, eventos e ações que favorecessem o bem e a imagem da Igreja e dos territórios onde desempenhava funções jurisdicionais. Sabia sobrepor o interesse comunitário às parcelares perspetivas pessoais.


Nem sempre foi compreendido e acompanhado, mas é justo e grato destacar a sua qualidade de amigo de seus amigos, nomeadamente dos sacerdotes, de zeloso no cumprimento dos seus deveres pessoais e comunitários, de obreiro de inúmeras ações empreendimentos. 


Quer-me parecer que, apesar de os colegas o admirarem e ele estar sempre disponível e prestável, nem sempre a Igreja, que ele serviu abnegadamente, lhe reconheceu publicamente as reais qualidades (mesmo o monsenhorato terá pecado por tardio).


Também o concelho de Sernancelhe, pelo qual transpôs muitas vezes a soleira íngreme da dedicação, lhe retribuiu tardiamente alguma simpatia pela perspetiva de vida e ação. Mas acabou por o fazer, sendo de destacar a publicação que a Câmara Municipal fez do seu livro Igreja Românica de Sernancelhe, lançado no dia do município, em 2012.


Igreja e livro figuram no facebook. A tal respeito, escrevi, em tempo, algo que me apraz reiterar:


Soube há muito pouco tempo da existência deste instrumento de “consagração” comunicacional da Veneranda Igreja Românica de Sernancelhe. O templo é aquele monumento que os olhos não se cansam de observar, de cuja explicação os ouvidos sempre gostaram de escutar e que os cristãos fervorosos sentem o prazer de frequentar para incremento da espiritualidade e da celebração eclesial. O monumento arquitetónico (com suas peças escultóricas, pictóricas, mobiliárias e de pequenos objetos artísticos) foi confiado ao papel em que ficou como outro monumento pela pena de Monsenhor Cândido de Azevedo, com a mestria do conhecimento holístico e de cada pormenor por mais minúsculo que se julgasse. Agora, o monumento escrito parece galgar as vias da autoestrada da informação. Pelo que para já, os meus parabéns pela obra e as mais profundas saudações ao autor do livro e aos construtores do novo “monumento” no dinamismo do comunicacional on line. E o meu desejo é que sirva de proveito espiritual e cultural a todos os amantes da arte, da cultura e do cristianismo vivo. Prosit!


E, já em anos anteriores, em justo reconhecimento do seu papel na divulgação do mérito histórico e linguístico do Padre João Rodrigues, missionário jesuíta sernancelhense (2.ª metade do século XVI e 1.ª do século XX), a Escola EB 2/3 de Sernancelhe adotou como patrono o Padre João Rodrigues e, em 22 de dezembro de 1996, Dom Américo do Couto Oliveira, ao tempo bispo diocesano, inaugurou, a convite da Câmara Municipal (cativada pela figura do missionário sernancelhense em terras de Japão, China e Índia), o Pavilhão Desportivo Padre João Rodrigues, a praça Padre João Rodrigues e um monumento escultórico evocativo da chegada dos portugueses ao Oriente.


O homem, que ao contrário do habitual, parecia ser a medida do tempo que passava, ao passo que ele permanecia acabou por nos abrir mais o caminho para o Além.


Encontrei-o, pela última vez, num episódio em que, sem eu o pensar, éramos quase “adversários”. Perguntei-lhe pela saúde. Respondeu-me claramente: “Mal”. E, passados uns segundos, acrescentou com dificuldade: “Por dias”.


Enquanto rogo para ele a recompensa eterna, espero que o eco da sua voz perdure na memória dos amigos e das comunidades eclesial e civil para bem da cultura e da Igreja.


2015.12.14 – Louro de Carvalho



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