quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Tem 75 anos e anda na apanha da maçã


Anda na apanha da maçã. Tem 75 anos. A sua reforma é "pequenina" como costuma dizer. Mas haverá neste país reformas dignas para quem trabalhou mesmo a sério em prol da sustentação de Portugal?  As grandes reformas caem nas mãos de quem sabemos...
Levanta-se às 5 horas. Prepara o seu lanche e aguarda a chegada da carrinha.
No trabalho não fica atrás de ninguém. Como formiga, sempre a dar-lhe. Com ela não há casos, nem intrigas, nem abalroamento de ninguém. Só podem contar com ela para uma risada, um brincadeira inofensiva, para ajudar outros.
Ao regressar a casa, ainda vai cuidar da sua vida. Trabalho caseiro, alimentação dos animais, algum amanho agrícola... À noite, como faz parte de vários grupos, não falha às reuniões marcadas.
"O patrão está sempre a dizer-nos que, se conhecermos alguém que queira ganhar o seu na apanha das maçãs, o convidemos. Mas qual quê? Não aparece ninguém. Uns porque já não podem; outros porque não querem. É melhor viver de ordenados mínimos do que vergar a mola..."
Anda há várias semanas na apanha e ainda tem  muitas pela frente.
"Já me sinto cansada e começo a ver maças por todo o lado. Nos próximos tempos não as quero ver perto de mim. Enjoei. Mas quero ver se levo a 'carta a Garcia'. Não gosto de deixar a caminhada a meio. Tenho depois o Inverno para descansar."
Sobre os motivos que a levaram à apanha das maçãs, é clara e precisa.
"Se a gente fica muito parada, um dia destes fica trôpega."
"Gosto de conviver com as pessoas, faz-me bem porque não penso tanto na minha vida."
"Se cada um de nós der o que pode, o país vai para a frente."
"A minha reforma dá para eu comer, vestir, remédios e para as despesas da casa. Também não sou uma pessoa despesista!"
"Para ajudar os netos, dar as minhas esmolas, visitar os meus filhos que estão longe, comprar um ou outro utensílio novo, a minha reforma já não estica. Então o dinheirinho que me vem da apanha faz-me muito jeito."
É desta têmpera esta senhora. Como tantos outros.
Admirável liberdade interior, sentido de independência solidária, gosto de dar o seu melhor em favor de todos, alegria de viver e conviver.
Que belo desafio para tantos que nada querem fazer ou que vivem à custa dos impostos de todos!

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