terça-feira, 19 de setembro de 2017

Haverá coração que aguente?


Ainda o D. António dos Santos, mas também cada um dos bispos e padres! Hoje faz uma semana da partida do Bispo do Porto, Sr. D. António. Dizem os mais próximos que o seu coração não aguentou tanta entrega, tanto amor, por grande parte daqueles que o procuravam e buscavam, para que lhes partilhasse da sua luz e alegria, que todos acreditamos vir de Deus.
Será que podemos aprender com a "fragilidade" deste coração que poderá ter sucumbido, não só pelo Amor dado, mas também pelo sofrimento sentido de tantos e tantos fiéis?
A vida de Bispo não é fácil... "aturar padres" é missão complicada, ser padre nos tempos de hoje "não é pera doce" (mas é bom ser padre!), e hoje a Igreja que se reune, nem sempre busca a Jesus com a melhor das motivações, pois em todas as comunidades encontramos "aqueles" que afastam Jesus do centro da Comunidade, colocando-se a eles mesmos, e às suas vontades "pequeninas", no lugar de Jesus!
Haverá coração que aguente?
É essencial que os fiéis (e as comunidades) exijam que os seus pastores sejam perfeitos e "exijam" o melhor de si. Mas é fundamental que estes mesmos fiéis exijam a si mesmos, a perfeição da sua vocação e para o seu caminho também.
Os bispos e os padres não são super homens. Possuem em si o dom do Sacerdócio, que os faz ser em nome de Cristo uma esperança fundamental para a vida de quem crê. E isso é muito belo. Mas todos eles, apesar de possuirem um dom tão grande, são humanos, e por isso podem morrer. Sim, os padres, como vamos comprovando, também morrem, sim, é verdade!
Actualmente, para alguns "não fiéis e fiéis de domingo" o padre "não faz nada", apenas celebra a missa ao Domingo, e o resto da semana, tira férias! É verdade... ainda há por aí muita gente que fica surpreendida quando alguém diz que "não há padres para tantas paróquias" ou que "os padres têm muito trabalho". Sério?!
Actualmente para alguns "fiéis e fiéis de domingo" o padre trabalha muito. E pensam: "o que seria de nós e da nossa fé sem o padre?" Mas exigem que o padre não seja "apenas padre" mas super padre e super herói. Ou seja... o padre porque anuncia a Palavra de Deus não pode ter dúvidas nem fraquezas nas suas convicções... o padre não pode ter falta de confiança... o padre não pode senão sorrir sempre e amar sempre... o padre não pode "sair de si"... o padre não pode andar preocupado, triste ou manifestar fragilidades... o padre não tem medos, não sofre, não se desilude, não se angustia, não tem dor... o padre sabe sempre tudo e tem sempre solução para tudo... o padre tem que estar sempre disponível e presente em todos os lugares... o padre têm que escutar a todos e em todos os momentos... o padre tem que estar sempre em todos os lugares ao mesmo tempo e jamais tem necessidades de estar com a família, com os amigos ou mesmo descansar. Sair uns dias? "... mas o padre onde anda que já está fora hà mais de 3 dias?" Ah...! O padre, para muitos, está mesmo acima da Igreja de Deus. "Respeitar o Papa e o Bispo para quê?" Basta ele assim querer!
"Descansar?! Para quê! És padre?!" Hum... pêra doce, acima escrito, lembram-se? É bom ser padre, mas não é pêra doce, porque os padres, não "sendo homens como os outros homens" têm as mesmas necessidades de muitos dos "outros homens".
É bom que sejamos exigentes com os padres. Sim, sejam! Mas primeiramente temos que ser exigentes connosco mesmos, naquilo que é a fé de cada um, e do compromisso de cada um com a sua vocação baptismal e com a Igreja Diocesana e Universal.
Ao padre deve ser pedido que seja sinal de Deus no mundo. Que seja Evangelho vivo. Que ensine e corrija as comunidades. Sim, corrigir!
(Há vícios "velhos e novos" que têm que ser limados, e impedir o padre de o fazer, é assumir que não se quer crescer na fé e na vida comunitária. A falta de conhecimento do Evangelho; a falta de comunhão com a Igreja; a mistura de preceitos do mundo e da Igreja até se construir o preceito à medida de cada um; o barulho nas igrejas; a forma como não se respeita os irmãos; o modo errado como se recebe a Eucaristia; a não verdade que se coloca nas coisas; as manipulações que se procura fazer nos bispos e nos sacerdotes. O sacerdote proclama, acompanha, guia, anuncia, ensina e corrige. Se não é para... então queremos o padre para quê?)
Ao padre deve ser exigido que reze, que leia, que estude, que projecte, que anime, que ensine, que guie, que sonhe, que possa ensinar com amor e poesia, com razão e com horizonte, com o olhar no céu mas com o sentido no mundo. Ao padre deve ser exigido não "perderem tempo", em obras de igrejas, em animação de espetáculos, em tomar parte de reuniões chatas que em nada têm a ver com Igreja, em jantares e almoços "de" segundas intenções, em serem animadores de terapias de auto-ajuda...!
Actualmente há muitos fiéis em redor dos padres que não precisam de padres, mas de alguém que seja seu funcionário particular e lhes dê algo que o mundo não lhes é capaz de dar... exclusividade!
E a exclusividade pode matar, quando mal "entendida"! Pode haver muitos corações que não consigam aguentar. Seja porque quem busca o coração do Sacerdote o faça com o coração puro e desejo de Deus; seja porque quem busca o coração do sacerdote, o faça por mero desejo que este seja seu escravo e funcionário das suas vontades.
Esgotar o sacerdote, seja por amor ou desamor, pode levar a que o sacerdote caia e não tenha capacidade de se tornar a erguer. O sacerdote, porque à semelhança do Mestre, quer amar sempre.... e não colocará limites no seu amor!
Se o fiel, se a comunidade não exigir ao seu sacerdote que seja apenas sacerdote, e lhe dê tempo para namorar Jesus e a Igreja, descansar e fortalecer o seu Amor... o coração desse sacerdote poderá não aguentar e "rebentar".
Sim, os bispos e os padres também podem morrer...! E em muitos momentos, essa não é a vontade de Deus, mas de todos os que exigem que eles sejam super heróis e não simples e amados sacerdotes, enviados a proclamar e a ensinar a Palavra de Deus!
É bom ser padre, mas não é pêra doce! Se não pedirem aos padres para serem "apenas" padres, o coração deles poderá não aguentar. Depende de Deus... do próprio padre, mas principalmente daquele que exigem tudo dele, menos ser sinal de Deus no Mundo.
Nuno Silva, aqui

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