domingo, 29 de junho de 2014

A família como preocupação sinodal e pontifícia

Em dois momentos bastante próximos, a temática da família vai ser estudada em duas assembleias gerais do Sínodo dos Bispos – uma extraordinária e uma ordinária – o que revela a momentosidade da instituição familiar e o melindre que a sua problemática representa para a Igreja Católica, no quadro dos desafios que o mundo contemporâneo lança àquela instituição que até há relativamente poucas décadas ninguém punha seriamente em questão.

O Papa Francisco, na linha das constantes preocupações dos seus predecessores, convocou em 8 de outubro de 2013 a III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos a decorrer, no Vaticano, entre 5 e 19 de outubro de 2014, que incidirá sobre “os desafios pastorais da família no contexto da evangelização”, tema amplamente discutido na primeira sessão de trabalho do Santo Padre com o Conselho dos oito de cardeais. O diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, o Padre Frederico Lombardi, advertia então que “esta é a maneira pela qual o Papa deseja promover a reflexão e o caminho da comunidade da Igreja, com a participação responsável do episcopado de diferentes partes do mundo.”

A esse respeito a Secretaria Geral do Sínodo deu início à preparação dos trabalhos sinodais mediante o envio do Documento Preparatório, que suscitou uma vasta e diversificada resposta eclesial por parte do povo de Deus, não dada a conhecer por todas as conferências episcopais, diga-se em abono da verdade. O documento, publicado no mês de novembro de 2013, depois de dois capítulos de reflexão prévia sobre “o sínodo: família e evangelização” e “a Igreja e o evangelho sobre a família” (este desdobrado em “o projeto de Deus Criador e Redentor e o ensinamento da Igreja sobre a família”), apresenta um questionário estruturado em oito grupos de perguntas relativas ao matrimónio e à família e mais um epigrafado por “outros desafios e propostas”.

Os oito grupos de questões elencam-se segundo os seguintes subtemas, qual deles o mais candente: a difusão da Sagrada Escritura e do Magistério da Igreja a propósito da família; o matrimónio segundo a lei natural; a pastoral da família no contexto da evangelização; a pastoral para enfrentar algumas situações matrimoniais difíceis; as uniões de pessoas do mesmo sexo; a educação dos filhos no contexto das situações de matrimónios irregulares; a abertura dos esposos à vida; e a relação entre a família e a pessoa.

Este ano, a 24 de junho, o Secretário-Geral do Sínodo dos Bispos apresentou o Instrumentum Laboris, que nasce das respostas ao questionário constante do aludido documento Preparatório.

Aquele Instrumentum, como documento de trabalho-base para a reflexão e chamariz para as intervenções dos padres sinodais, vem estruturado em três partes e retoma, em conformidade com uma ordem funcional à assembleia sinodal, a matéria do referido questionário. A primeira parte glosa a temática do Evangelho da família, entre desígnio de Deus e vocação da pessoa em Cristo, quadro em que se relevam o conhecimento e a receção dos conteúdos bíblicos e dos documentos do Magistério da Igreja, incluindo as várias dificuldades, entre as quais a compreensão da lei natural. A segunda aborda as várias propostas de pastoral familiar, os relativos desafios e as situações mais difíceis. E a terceira parte equaciona a problemática da abertura à vida e da responsabilidade educacional dos pais, que caraterizam o matrimónio entre o homem e a mulher (sem margem para dúvidas), com referência particular às situações pastorais que marcam a atualidade ambivalente, espelhada no mundo. Parece, mesmo por uma leitura apressada, a aprofundar quanto antes, que nenhum problema fica esquecido no documento de trabalho, inclusive os atinentes ao ponto do questionário referenciado como “outros desafios e propostas”, esperando-se que os bispos procedam a uma reflexão acurada sem preconceitos e usufruam da liberdade de intervenção sem inibições.

Na certeza de que as dificuldades não condicionam irreversivelmente a vida familiar e de que as pessoas não se encontram ante problemáticas inéditas, a Igreja constata de bom grado os claros impulsos que parecem induzir uma nova primavera para a família. Não é por acaso que se encontram testemunhos significativos em inúmeros congressos eclesiais, onde se manifesta nitidamente, sobretudo nas novas gerações, um renovado desejo de família e de vida familiar. Perante tal aspiração, a Igreja sente-se solicitada a oferecer “assistência e acompanhamento, a todos os seus níveis, em fidelidade ao mandato do Senhor de anunciar a beleza do amor familiar”. Em seus encontros com as famílias, o Papa encoraja o olhar com esperança sobre o próprio futuro, recomendando os estilos de vida pelos quais se gera, conserva e se faz prosperar o amor em família: pedir licença, agradecer e pedir perdão, não deixando que o sol se ponha sobre desavença ou incompreensão, e tendo a humildade do pedido de desculpa de um cônjuge ao outro. (cf “premissa” do Instrumentum Laboris).

Sendo assim e, de acordo com o texto da apresentação do documento de 24 de junho, “considerando a amplidão e a complexidade do tema, o Santo Padre definiu um itinerário de trabalho em duas etapas distintas no tempo e no escopo, que constitui uma unidade orgânica”: a Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo, em 2014, constará de um trabalho em que os Padres sinodais avaliarão e aprofundarão os dados, os testemunhos e as sugestões das Igrejas particulares, com vista a enfrentar os novos desafios sobre a família (trabalho de avaliação, reflexão e aprofundamento – provavelmente ainda sem decisões resolutivas); e a Assembleia Geral Ordinária do Sínodo, em 2015, mais representativa do episcopado, inserindo-se no precedente trabalho sinodal, meditará ulteriormente sobre as temáticas abordadas para encontrar adequadas linhas de ação pastorais (é o trabalho de conclusões e linhas de rumo).

Muitas expectativas estão criadas em torno dos trabalhos sinodais e do carisma lúcido e voluntarioso do Papa Francisco. São tantas e tamanhas as situações que pedem uma orientação eclesial caldeada pela exigência e pela abertura, que pode desenhar-se um sério risco frustracional (parodiando a nossa Presidenta do Parlamento) face às altas expectativas. Para que o eventual risco fique jugulado ou ao menos minorado, cada um dos peritos – em teologia, antropologia, sociologia, psicologia, gestão de afetos, ciências da saúde, etc. – caraterizados pela suficiente dose de boa vontade deverá oferecer os seus préstimos reflexivos a tempo e fora de tempo e os bispos, mormente os que tiverem assento nas assembleias sinodais agendadas, devem auscultar o genuíno sensus Christi et Ecclesiae, refletir em profundidade e usufruir do direito de intervir sem inibições, de acordo com a consciência do múnus e do sentido de serviço à humanidade.

A lei não tem de ser dura nem deixar de o ser; basta que seja feita para o homem e não vice-versa. E que a lei suprema seja já não a Salus Reipublicae, mas a Salus Animarum, não vertida em código de anátemas, mas em código de inclusão das bem-aventuranças.

A nós, que não temos competências do saber e da intervenção nas pantalhas da ciência e muito menos no areópago sinodal, resta-nos a poderosíssima arma da lex orandi de que é exemplo o final do Instrumentum Laboris:


Oração à Sagrada Família

Jesus, Maria e José,
em vós nós contemplamos
o esplendor do amor verdadeiro,
e dirigimo-nos a vós com confiança.

Sagrada Família de Nazaré,
fazei também das nossas famílias
lugares de comunhão e cenáculos de oração,
autênticas escolas do Evangelho
e pequenas igrejas domésticas.

Sagrada Família de Nazaré,
nunca mais nas famílias se viva a experiência
de violência, fechamento e divisão:
quem quer que tenha sido ferido ou escandalizado
conheça depressa a consolação e a cura.

Sagrada Família de Nazaré,
o próximo Sínodo dos Bispos
possa despertar de novo em todos a consciência
da índole sagrada e inviolável da família,
a sua beleza no desígnio de Deus.

Jesus, Maria e José,
ouvi e atendei a nossa súplica.
Amém.
 
2014.06.27 
Louro de Carvalho 

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