sábado, 7 de junho de 2014

A propósito do perfil de líder


Já algumas vezes me tentei a refletir sobre o tema referenciado em epígrafe, face à forma como os colégios eleitorais, de grande ou pequena extensão, catapultam para a liderança das organizações algumas figurinhas que nem Deus gostaria de ter no paraíso nem Lúcifer toleraria nas profundezas. 

Porém, sucede o governante-mor, exercendo uma liderança política de forma desviante, nos quer entreter a desferir doestos contra o tribunal constitucional, designadamente a exigir maior escrutínio a um órgão de soberania, pelos vistos não eleito, sobre opções tão importantes como as orçamentais, dizendo mesmo que a sua escolha deveria ser melhorada e exigindo ineditamente uma aclaração (que foi excluída recentemente do código do processo civil) sobre alguns pontos do último acórdão. Pensava que a eleição de 10 dos juízes por maioria de dois terços dos deputados e subsequente cooptação de mais 3 pelos eleitos era democraticamente mais segura que a metodologia de escolha dos membros do governo.

Sem me pronunciar, de momento, sobre a necessidade ou conveniência de uma episódica revisão constitucional, entendo que as metodologias consagradas na lei fundamental não devem ser postas em causa só porque as decisões de um órgão de soberania, sobretudo o que tem a missão de ajuizar da constitucionalidade das leis, não agradam ao governo. Que diria o primeiro-ministro se o cidadão comum ou os académicos, maxime os constitucionalistas se lembrassem de exigir uma diferente metodologia constitucional de composição e nomeação do governo ou de eleição do parlamento, quando nos sentimos excessivamente ludibriados, prejudicados e vilipendiados pela governança? Como reagiria se lhe exigíssemos uma aclaração das medidas decididas e implementadas?

A pari, termos de inferir, pelos factos, que a liderança do Partido Socialista não está a seguir uma rota mais aceitável, embora a contrario. É certo que o PS ganhou claramente, em pouco tempo, duas eleições, autárquicas e europeias. No entanto, as autárquicas não deram uma maioria confortável aos socialistas, apesar do sofrimento provocado pela governança, se tivermos em conta o crescendo do fenómeno dos independentes (genuínos ou resultantes de dissidências) e a feição específica do poder local, bastante centrado no perfil pessoal dos candidatos. Por outro lado, nas eleições europeias, a maioria governamental apanhou a derrota estrondosa, a que se equipara, pouco mais ou menos, uma tímida vitória relativa tangencial do PS. Será meramente conjetural o que se possa dizer sobre e eventual deslocação de votos: abstenção, MPT, CDU, votos nulos e brancos?

Perante o epifenómeno, António Costa desafia a liderança socialista e postula eleições diretas, em que ele se apresentará como candidato, e, consequentemente, congresso extraordinário onde o líder eleito apresentará a sua moção estratégica e a escolha de personalidades para os diversos órgãos estatutários do partido. A isto, António Seguro e o aparelho, na sua insegura liderança, respondem das piores formas: abespinhamento pela “afronta”, depois de o partido ter capitalizado duas vitórias eleitorais sucessivas; resposta negativa aos desafios de Costa; entrincheiramento do “líder” no seu reduto aparelhístico; lançamento, não previsto estatutariamente, de eleições primárias para o cargo de primeiro-ministro (eleições que nem não constam do ordenamento constitucional nem podem confundir-se com as primárias americanas e francesas para presidente, não para primeiro-ministro), quiçá a privilegiar o estatuto dos simpatizantes, sem pôr à disposição do cargo de secretário-geral; declaração de renúncia ao cargo atual, no caso de perda das primárias; e, agora com as declarações de Passos Coelho, solicitação da intervenção de Cavaco Silva, por estar em causa o regular funcionamento das instituições democráticas. Quererá o líder, pressionado pelo desequilíbrio clientelar partidário, que a coligação PSD/CDS ganhe eleições legislativas antecipadas ao seu partido fragilizado por um não descolamento de que o líder e o aparelho são os principais responsáveis, agravado pela teimosia das estruturas em não ler os sinais do susodito epifenómeno? Um político amigo do partido e do povo não deveria aceitar, facilitar e até promover a clarificação no interior do partido, incluindo a liderança? Quererá antes, como Pôncio Pilatos, persistir na atitude de não atar nem desatar, e deixando que a coligação que nos sugou até ao tutano ganhe tempo para, com a invasão propagandística do eleitorado, abocanhar nova legislatura?

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E aqui importa esclarecer o perfil e o papel do líder, não propriamente do líder empresarial ou de uma ONG, mas da ação política, partidária e potencialmente governativa. A empresa tens fins empresariais, nomeadamente o lucro, que desejavelmente deveria circunscrever-se ao domínio do “lucro justo” e não o do lucro desenfreado. A ONG tem habitualmente o contributo da dedicação voluntária e o da afeição solidária, que, ultrapassando as meras relações hierárquicas e/ou laborais, lhe emprestam um capital de humanidade não facilmente inventariável na empresa ou na política.

José Gil, no seu artigo de índole ensaística publicado na revista Visão, desta semana, dissertando sobre “o que é um líder?”, deixa alguns avisos sobre o perfil de Seguro, de quem diz que “é mais um seguidor, boa pessoa, comum, sempre politicamente correto”. E acrescenta que “terá muitas qualidades políticas, mas não as de um líder”. Por mim, entendo que o enunciado deveria ser formulado de outro modo: Seguro poderá ter grande conhecimento de ciência política, sobretudo no aspeto teorético, e até muita capacidade de trabalho político, mas não tem capacidade de liderança, nem mesmo qualidades políticas, pois estas são essencialmente de condução/liderança.

No entanto, o artigo do filósofo reveste-se de pertinência e oportunidade. Sem pôr de parte a parametragem da liderança baseada nos estudos, mormente americanos – de que resultam elencos de características baseadas na personalidade, “com traços essencialmente psicológicos” como extroversão, empatia, firmeza de vontade, além de outros – opina que deve pôr-se o acento naquilo “que faz do líder um dispositivo muito particular de forças”. E justifica a sua asserção ao afirmar que o que torna um indivíduo em líder político “é um certo jogo de forças que se estabelece entre ele e os que o ouvem e seguem na ação”, que passa pelo “poder oratório” e pela “capacidade em atrair”.

Reclama o articulista para a liderança “uma presença intensiva”, entendida como força “tão poderosa e plástica” que funcione como “um foco atrator, transdutor e emissor de energias”, de modo que se forme “um plano único de forças convergentes para um fim”, não pela via da “obediência e submissão”, mas pela via – digamos – da auscultação, avaliação das situações e diálogo com vista à tomada de decisões concertadas e ações consequentes. Assim, na asserção de Gil, o líder “é a voz do povo que com ele se sente identificado”, o que pressupõe “um dom poderoso de comunicação e contágio”, que “provoca adesões cada vez mais alargadas”. Por outro lado, o filósofo alude a outra caraterística, pouco evocada: “o líder é um ser habitado” […] “Desaparece como pessoa para ganhar uma identidade superior que oferece certeza, segurança e confiança. Está sempre acima se si”.

E José Gil não encontra estas qualidades em Seguro; e tem razão. Por melhores que sejam as pessoas, elas têm de ser avaliadas como as árvores – pelos frutos, pelos resultados. E os frutos-resultados não são apetecíveis, convincentes na atual liderança socialista.

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Se é verdade o que foi referido a propósito da liderança do ainda maior partido da oposição, também não temos terreno que leve acreditar na bondade de uma reentrega do poder aos seus atuais detentores do poder executivo. E não é preciso afastarmo-nos das caraterísticas apontadas acima.

Para fazer vingar as sucessivas medidas políticas que induziram o empobrecimento generalizado do país, o conflito intergeracional, o enfraquecimento da classe média, a depauperação da administração pública, o descarte de trabalhadores, etc., os líderes da governação usaram os recursos de persuasão adequados aos fins, mas sem atenção aos meios. Escudando-se no documento de ajustamento negociado com as instâncias internacionais, fizeram, ao arrepio do concertado pré-eleitoralmente, a campanha da inevitabilidade, da honra dos compromissos assumidos (Coitadinhos de nós, devedores, face aos nossos generosos credores!) e responsabilizaram os portugueses pela dívida externa que o desgoverno da República, a delapidação e o descalabro empresarial (leia-se bancário, financeiro…) provocaram. E valeu tudo: cortes cegos, aposentações forçadas, rescisões amigáveis claramente induzidas, impostos brutalmente aumentados, contribuições agravadas, a par de taxas e tarifas incomportáveis – tudo a coberto de uma propalada reforma do Estado, que não se fez.

Estes líderes fizeram-se pessoas bem vulgares, pela promessa do que sabiam não poder cumprir, pela mentira, pela inabilidade de inventar ou reinventar medidas políticas adequadas, pela incapacidade de negociar em nome de Portugal com as instâncias internacionais, acentuando a componente mutualista da dívida soberana, pela inépcia comunicativa, pela mentira, pelo desrespeito aos órgãos de soberania, pela arrogância, pela impunidade da fraude, pelo compadrio sempre negado… Estes líderes não atraíram, a não ser pela força, pela mentira, pela inculcação da divisão, pela invocação do estado de necessidade. Estes líderes foram impiedosamente apupados em público e até acharam graça; não souberam estar “acima de si”; não estiveram “habitados”; nunca deixaram de ser o Pedro, o Paulo o Miguel, a Maria; nunca souberam ser a voz do povo. Nem sei se os quereria para liderarem empresa minha!

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Porque o líder tem de ser: pessoa curiosa, ouvindo pessoas que estejam fora do círculo do “sim, senhor primeiro-ministro”, para não se tornar arrogante ou enrocado no seu castelo de marfim; pessoa criativa, sonhando e fazendo (e levando a fazer) o que ninguém imaginaria, administrando as mudanças que lhe surjam como desafio e aquelas que ele, no seu papel visionário, entender dever provocar; pessoa comunicativa, sabendo expor as suas ideias (inéditas ou concertadas com as dos cooperadores) e atrair os outros, cada vez em maior número e qualidade, para as suas causas; pessoa de caráter, sabendo discernir entre o certo e o errado e tendo a coragem de sempre seguir e fazer o que é certo, sem alguma vez faltar à verdade e sem abusar do poder; pessoa corajosa, assumindo a coragem, e não a presunção, de se sentar à mesa para falar e negociar; pessoa convicta, sentindo a sinceridade e a paixão por aquilo que lhe é dado fazer, levando por diante sem desfalecer as iniciativas que houve por bem tomar; pessoa carismática, sendo inspirador de confiança segura, provocando as pessoas a segui-lo inabalavelmente e fazendo render ao serviço da comunidade os seus talentos; pessoa competente, tendo a noção clara do que está empreendendo, da sua validade e interesse para a comunidade e para os fins para que tende, e cercando-se de colaboradores que saibam sempre o que estão a fazer, que não sejam capazes de o trair ou enganar pela adulação; pessoa de senso comum, longe de qualquer egoísmo ou egocentrismo, mas com atenção à comunidade, universo da sua liderança; e, sobretudo, pessoa que saiba enditar-se com as crises.

É que, segundo Luís Piovenaza, os líderes não nascem líderes, fazem-se: a liderança é lapidada em tempos de crise. Onde estão esses líderes, que, em vez de se deixarem arrastar por ela, saltem por cima da crise!

2014.06.05
Louro de Carvalho 

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