quarta-feira, 7 de outubro de 2020

IGREJA = LOJA DE CONVENIÊNCIAS

 Por este andar, a Igreja – una, santa, católica e apostólica - tem os dias contados. Os seus líderes (sobretudo padres e bispos), na ânsia de não perder protagonismo e privilégios, receitas, “peso social” (e conservar os ofícios) acabam por a reduzir a uma agência de serviços. Muitas delas não passam de espaços usados para eventos sociais: batizados, casamentos, funerais, primeiras comunhões, “comunhões solenes”, crismas ou festas familiares. Para a maioria dos comensais, onde está a fé? Que lugar ocupa Deus? Uso, à laia de exemplo, os batismos…
A administração do Batismo pressupõe a fé do candidato (se batizado em idade adulta) ou dos pais e padrinhos (se batizado ainda em criança) e a comunhão com a Igreja: «Para que a criança seja licitamente batizada, requer-se que haja esperança fundada de que ela irá ser educada na religião católica; se tal esperança faltar totalmente, difira-se o batismo, segundo as prescrições do direito particular, avisando-se os pais do motivo» (CDC 868).
Que esperança haverá de ser “educada na religião católica” uma criança cujos pais não põem os pés na igreja, não veem importância em “casar pela igreja” (“o amor basta”!), não acham piada à Missa ou defendem/seguem práticas e propostas ofensivas da fé católica (reencarnação, astrologia, cartomancia, bruxaria, reiki e outras filosofias orientais)?
É doloroso (intragável, doentio) assistir à desfaçatez com que muitos pais e padrinhos brincam com as “coisas de Deus” e enganam atrevidamente, logo nos procedimentos prévios, ao apresentar desculpas para tudo: “não temos tempo” (para Deus… porque têm tempo para desporto, caminhadas e passeios, jantares e fins de semana, viagens e festas à brava); “gostamos mais de rezar sozinhos, quando nos apetece” (se a fé se faz de apetites e gostos pessoais, porque precisam da igreja?); “temos de batizar não vá acontecer alguma coisa”… Santa ignorância! O Papa Bento XVI teve o cuidado de escrever sobre o assunto (inexistência do “Limbo”), mas desconhecem ou não aceitam a sua doutrina (tão evoluídos?): “A esperança de salvação para as crianças que morrem sem batizar.” (19 de Janeiro de 2007)
A própria celebração não será um embuste? Atendam ao diálogo entre o celebrante (em nome da igreja) e os pais: «Caríssimos pais: Pedistes o Batismo para o vosso filho (a vossa filha). Deveis educá-lo (educá-la) na fé, para que, observando os mandamentos, ame a Deus e ao próximo, como Cristo nos ensinou. Estais conscientes do compromisso que assumis?»
Os pais respondem: “Sim estamos”. Ou seja, “somos católicos não praticantes, não concordamos com quase tudo na Igreja, não valorizamos os sacramentos da Eucaristia e/ou do Matrimónio, confessamo-nos diretamente a Deus, etc., mas queremos educar catolicamente na fé da Igreja! Uau! Parabéns! Magnífica coerência e honestidade!
Logo adiante, na renúncia ao pecado e na profissão da fé, é-lhes lembrado e perguntado:
«Caríssimos pais e padrinhos: No sacramento do Batismo, a criança por vós apresentada vai receber do amor de Deus uma vida nova, pela água e pelo Espírito Santo. Procurai educá-la de tal modo na fé, que essa vida divina seja defendida do pecado que nos cerca e nela cresça de dia para dia. Se, guiados pela fé, estais preparados para assumir esta missão, recordai o vosso Batismo, renunciai agora, de novo, ao pecado e professai a vossa fé em Jesus Cristo, que é a fé da Igreja, na qual as crianças são batizadas.»
“Se, guiados pela fé, estais reparados”? Claro! Preparadíssimos. Aliás, até se dispõem a renunciar ao pecado, a Satanás, às suas obras e seduções… E embalados (entusiasmados) nesta renúncia até acabam por renunciar também às perguntas sobre a fé em Deus: “Credes em Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra?” “Sim, renuncio”, a talho de foice…
Também pouco importa que a oração conclusiva lhes fale da fé no plural: “Esta é a nossa fé. Esta é a fé da Igreja, que nos gloriamos de professar, em Jesus Cristo, Nosso Senhor”. Entrou a cem, saiu a duzentos: “eu cá tenho a minha fé”, retrucam interiormente.
E a veste branca? “Sr. Padre, não pode ser um fatinho “à marinheiro” ou um vestidinho mais colorido? Ficava bem mais engraçado…” Pois… Ponha lá o que quiser… afinal já há muito que a sua palavra e as palavras de Deus não têm conteúdo, são palavras mortas a enfeitar tão-só uma encenação social. Mesmo assim, não deixe de pensar no que diz a oração sobre a veste branca, a palavra, o exemplo: «Filhinho, Agora és nova criatura e estás revestido de Cristo. Esta veste branca seja para ti símbolo da dignidade cristã. Ajudado pela palavra e pelo exemplo da tua família, conserva-a imaculada até à vida eterna.»
Em muitos batismos, como em outras celebrações, lembro-me muitas vezes das palavras de Jesus: «Não deis o que é santo aos cães, nem lanceis as vossas pérolas aos porcos, não aconteça que eles as espezinhem com as suas patas e, voltando-se, vos destrocem» (Mt 7, 6). Não andaremos a brincar, (gozar, abusar) com/de Deus?
É engraçado assistir à antipatia/simpatia (até revanchismo, anticlericalismo) à volta de padres e bispos em virtude de serem melhores ou piores facilitadores de serviços, satisfazerem ou não os mais (a)variados gostos, caprichos, interesses dos clientes do sagrado. A Igreja está a tornar-se numa loja de conveniências, Jesus (o Evangelho, os valores, a Fé enquanto relação/encontro de amor plural) um produto caído em desuso e os padres os novos merceeiros. Quanto mais solícitos, melhores.
(P. António Magalhães Sousa, in Sopro e vida)

domingo, 4 de outubro de 2020

«Fratelli Tutti»? A «Arca da Fraternidade» perante o dilúvio da pandemia

De Lampedusa a Assis, passando por Paris e Abu Dhabi. ‘Fratelli Tutti’ deve ser a encíclica menos romana de que tenho memória, em quase 20 anos de profissão e outros mais de estudo, nesta área.

De facto, espero que o novo documento do Papa Francisco seja uma síntese do seu pontificado virado para o mundo. Tal como a Laudato Si’, em 2015, procurou responder com o conceito de ecologia integral aos desafios das alterações climáticas, em pleno debate que levaria ao Acordo de Paris, a encíclica sobre a fraternidade e a amizade social que (foi) assinada este sábado, junto ao túmulo de São Francisco de Assis quer propor valores fundamentais um mundo marcado pela pandemia. E oferecer uma resposta à questão inicial de todo o edifício ético ocidental, vinda do próprio Deus: Onde está o teu irmão?

Como vimos com a trágica crise dos últimos anos, acima da dignidade humana têm estado valores económicos, jogos políticos e interesses partidários. Mas a vida nunca é relativa.

A este respeito, recordo as perguntas que surgem no primeiro livro da Bíblia, o Génesis, que me parecem fundadoras da ética ocidental: “Onde está o teu irmão?” e “Que [lhe] fizeste?”.

O “interrogatório” de Deus a Caim, após a morte do seu irmão Abel, condensa o apelo fundamental que viria a ser sintetizado no ensinamento de Jesus Cristo: amar o próximo como a si mesmo. “Não sei” ou “nada” não são respostas aceitáveis e enquadram-se na “globalização da indiferença” que o Papa Francisco tem denunciado tantas vezes.

Outro momento central do pontificado parece evidente na escolha do tema: a fraternidade humana. Na histórica viagem a Abu Dhabi, a 4 de fevereiro de 2019, onde assinou com o imã de Al-Azhar uma declaração que condena a violência em nome da religião, o Papa deixou uma frase que define a sua visão do diálogo entre religiões e destas com a sociedade: “Hoje também nós, em nome de Deus, para salvaguardar a paz, precisamos de entrar juntos, como uma única família, numa arca que possa sulcar os mares tempestuosos do mundo: a Arca de Fraternidade”.

A pandemia devolveu-nos a perceção de limite. Não estávamos prontos para isso, no frenesim de 2020. Temos diante de nós o desafio de retirar consequências éticas e antropológicas da passagem por esta situação de vulnerabilidade: o que somos, quando chega o fim?

A transformação dos mais vulneráveis em sujeitos dispensáveis é uma das marcas mais negativas (e temo que seja permanente) deste tempo. Caímos na globalização da indiferença, que o Papa denunciava na sua primeira viagem, carregada de simbolismo, em 2013, à ilha de Lampedusa.

Habituamo-nos ao sofrimento do outro. Uma crítica terrível, de Francisco, que nos convida agora a redescobrir a amizade social, um conceito que une sujeitos e instituições na construção de uma nova sociedade, marcada pela fraternidade. Fratelli Tutti, como pedia São Francisco de Assis, irmão de todos.

Octávio Carmo, in Ecclesia

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

2 de Outubro, a Igreja celebra a Memória dos Santos Anjos da Guarda



Neste dia 02 de Outubro, a Igreja celebra a Memória dos Santos Anjos da Guarda! Todos temos um Anjo da Guarda, sempre pronto para nos levantar o ânimo e ajudar na nossa, por vezes, dura caminhada como peregrinos nesta Terra... É muito expressivo, significativo e aliciante, o hino de Laudes da Liturgia de hoje. Vejamos: “Solícitos e puros, / Os Anjos são fiéis Mensageiros de Deus e da sua Palavra”. A palavra Anjo deriva do Latim e significa Mensageiro... Eles são mensageiros de Deus e da sua Palavra. Temos de estar atentos para sentir a sua presença na nossa vida... Mas continuemos a recordar o hino de Laudes: eles são “Força de Deus, Remédio Nas fraquezas da vida, Guias e companheiros Desta humana jornada.” Que extraordinária missão a dos anjos... Repitamos o hino, pois a sua missão é-nos é tão benéfica: “são força de Deus, remédio mas fraquezas da vida, guias e companheiros deste humana jornada”... 
Sintamos esta realidade na nossa vida! Mais ainda: “Guardam os nossos passos, E triunfam do mal, Levando as orações À divina presença.” São eles que levam as nossas pobres orações à divina presença; são eles que guardam os nossos passos; com eles triunfamos do mal”... Por tudo isto, suplicamos aos Anjos da Guarda que “No combate do mundo, nos guardem hoje e sempre, invisíveis e fortes”...
De pequeninos e deitados na cama, a minha ‘santa’ mãe, ajoelhada junto de nós, ensinavamos a rezar o que todos sabem mas talvez não pratiquem: “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, hoje e sempre me rege, guarda, governa e ilumina. Amén”. 
Felizmente, ainda existe alguém, que tem fé e continua a rezar isto mesmo... Mas, infelizmente, uma grande maioria já coloca Deus de lado... As consequências estão à vista!... Pobres crianças, que futuro lhes espera...
Não duvidemos: nesta sociedade laica e agnóstica em que vivemos, em que desaparecem os valores essenciais da vida, e aumenta a libertinagem com tudo o que de negativo esta acarreta..., cresce o vazio e a erva daninha que atrofia e mata... Há ideologias maléficas para toda a gente! Continuemos a rezar aos Anjos do Senhor. E aos Arcanjos S. Miguel, S. Gabriel e São Rafael, peçamos também a sua preciosa intercessão diante do Criador do Universo... E voltemos ao passado, recordando e recuperando esta encantadora oração a S. Miguel, cuja festa se celebrou no dia 29 de Setembro: “São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate. Sede o nosso refúgio contra as maldades e ciladas do demónio. Que Deus manifeste o Seu poder sobre ele. Eis a nossa humilde súplica. E vós, Príncipe da Milícia Celeste, com o poder que Deus vos conferiu, precipitai no inferno satanás e os outros espíritos malignos que andam pelo mundo procurando perder as almas. Amén.” Quando a Paulo VI lhe perguntaram se existia o diabo ele limitou-se dizer: “abram os olhos e e olhem à vossa volta e o que vos rodeia no mundo... Ele anda aí!...” E está tudo dito: o que mais encontramos são diabos que apenas divulgam o mal pelos mais diversos meios a seu dispor... Deus nos livre dessa ‘cambada’... E VIVAMOS EM PAZ, COM A PROTECÇÃO DOS SANTOS ANJOS!...
João A Bezerra, Facebook

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

4 Outubro 2020 - 27º Domingo do Tempo Comum - Ano A

 

Leituras: https://www.dehonianos.org/portal/liturgia/?mc_id=2978
OUTUBRO = MÊS MISSIONÁRIO
«Eis-me aqui, envia-me» (Is 6, 8)

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Fazer da Bíblia alimento diário do diálogo com o Senhor

Para assinalar o 16.º centenário da morte de São Jerónimo de Estridão (nome completo em latim: Eusebius Sophronius Hieronymus), Francisco assinou, neste dia 30 de setembro, a Carta Apostólica “Sacrae Scripturae affectus”. E, na Audiência Geral, apontou o exemplo do Padroeiro dos Biblistas, em diferentes momentos, um dos quais foi a saudação aos peregrinos de língua portuguesa, em que pediu que, “de bom grado”, façamos da Bíblia o alimento diário do diálogo pessoal com o Senhor, para nos tornarmos “colaboradores cada vez mais disponíveis para trabalhar pelo Reino que Jesus inaugurou neste mundo”.
Já aos fiéis de língua espanhola, o Papa saudando, de modo especial, um grupo de sacerdotes do Pontifício Colégio Mexicano que estava no Pátio São Dâmaso, no Vaticano, e que, segundo o Pontífice, seguem o caminho de São Jerónimo ao buscarem a formação integral permanente em Roma “para se conciliar cada dia mais a Cristo, Bom Pastor”, disse:
“Hoje lembramo-nos de São Jerónimo, um apaixonado estudioso da Sagrada Escritura, que fez dela o motor e o alimento da sua vida. Que o seu exemplo também nos ajude a ler e a conhecer a Palavra de Deus, ‘porque ignorar as Escrituras é ignorar Cristo’ (São Jerónimo).”.
Na verdade, neste dia em que morreu o Santo no ano 420, praticamente, com 80 anos de idade, celebra-se a sua memória litúrgica e o seu legado do estudo bíblico e do amor à Palavra de Deus. Com efeito, estudou latim, grego e hebraico para melhor compreender as Escrituras e fazer traduções de muitos textos bíblicos, como a “Vulgata”, a primeira tradução da Bíblia para o latim, obra de um homem com um saber enciclopedêutico (filosófico, teológico, retórico, dialético...).
E o Papa formulou este voto:
“Que o exemplo deste grande doutor e pai da Igreja, que colocou a Bíblia no centro da sua vida, desperte em todos um amor renovado pela Sagrada Escritura e o desejo de viver em diálogo pessoal com a Palavra de Deus”.
A Carta Apostólica começa com a portada a sublinhar que a herança de Jerónimo – sintetizada nas expressões: “o afeto à Sagrada Escritura, um terno e vivo amor à Palavra de Deus escrita” – nos dá uma chave de leitura indispensável para conhecermos hoje esta figura saliente na história da Igreja e o seu grande amor a Cristo, amor que ramifica “na sua obra de incansável estudioso, tradutor, exegeta, profundo conhecedor e apaixonado divulgador da Sagrada Escritura”, de “intérprete primoroso dos textos bíblicos”, de “defensor ardente e impetuoso da verdade cristã”, de “eremita asceta e intransigente”, bem como de “sábio guia espiritual”.
Na Introdução, em que se regista a visão do divino Juiz que o acusa de ciceroniano e não cristão e lhe provoca a viragem dos estudos clássicos para os estudos bíblicos (que Jerónimo considerava rudes e sem sintaxe), em parte mercê dos contactos com outros Padres da Igreja, o Papa situa-se na linha dos seus predecessores na atenção à Sagrada Escritura, mencionando Bento XV, que lhe dedicou a carta encíclica “Spiritus Paraclitus” (15 de setembro de 1920), apresentando-o ao mundo como “doctor maximus explanandis Scripturis” (doutor eminente na interpretação das Escrituras), e Bento XVI, que apresentou a personalidade e obras dele em duas catequeses sucessivas. Assim,
Francisco aponta o Santo “como guia seguro e testemunha privilegiada”, com a XII Assembleia do Sínodo dos Bispos, dedicada à Palavra de Deus, e com a exortação apostólica “Verbum Domini”, de Bento XVI, publicada na memória litúrgica, em 30 de setembro de 2010.
Depois, desenvolve os seguintes tópicos: De Roma a Belém; A chave sapiencial do seu retrato; Amor à Sagrada Escritura; O estudo da Sagrada Escritura; A Vulgata; A tradução como inculturação; Jerónimo e a Cátedra de Pedro; e Amar o que Jerónimo amou.
No primeiro tópico, De Roma a Belém, o Pontífice traça o percurso biográfico do escriturista desde o nascimento, estudos e batismo em idade adulta, passando pelo encargo da tradução da Bíblia (da Bíblia Hebraica e dos livros escritos somente em grego) para latim – obra necessária para o Ocidente ao tempo, o que lhe confere o múnus de ponte entre as duas faces geográficas da Igreja Católica – até à vida cenobítica, o contacto com os Lugares Santos e a conclusão da sua tarefa em união com O Senhor, que dele queria tudo, até os pecados para lhos perdoar, na disponibilidade de pôr ao serviço dos outros o saber que foi construindo em comunidade.
Quanto à chave sapiencial do seu retrato, Francisco atém-se à combinação de duas dimensões caraterísticas: a consagração absoluta e rigorosa a Deus, renunciando a qualquer satisfação humana, por amor de Cristo crucificado; e o empenho assíduo no estudo, visando apenas uma compreensão cada vez maior do mistério do Senhor. É nisto que Jerónimo é modelo. E isto passou para o campo da história da arte, como o Papa ilustra com notável suficiência.
O Amor apaixonado à Palavra de Deus, transmitida à Igreja na Sagrada Escritura, é o traço peculiar da figura espiritual de Jerónimo. Com efeito, se todos os Doutores da Igreja “extraíram explicitamente da Bíblia os conteúdos do seu ensinamento, Jerónimo fê-lo de maneira mais sistemática e, de certa forma, única”. E a sua dedicação total à Escritura manifesta-se numa forma de expressão apaixonada, semelhante à dos antigos profetas, sendo deles que este Doutor “extrai o fogo interior, que se torna palavra impetuosa e explosiva necessária para expressar o zelo ardente do servidor pela causa de Deus”.
O estudo da Sagrada Escritura, fruto do seu amor apaixonado às divinas Escrituras está imbuído de obediência: a Deus, que Se comunicou em palavras que exigem escuta reverente; e, obediência a quantos na Igreja representam a tradição interpretativa viva da mensagem revelada. Porém, não se trata de mera receção passiva do que é conhecido, mas da postura que exige “o empenho ativo da investigação pessoal”. E, nisto, Jerónimo é um intérprete e “um ‘servidor’ da Palavra, fiel e diligente, inteiramente consagrado a favorecer nos seus irmãos de fé uma compreensão mais adequada do ‘depósito’ sagrado que lhes foi confiado”, constituindo-se em guia poderoso ao longo dos tempos e também hoje.
Sobre a Vulgata, diz o Santo Padre que o “fruto mais doce da árdua sementeira” que foi o estudo do grego e do hebraico, feito por Jerónimo, é a tradução do Antigo Testamento em latim a partir do original hebraico. Com efeito, até então, os cristãos do Império Romano podiam ler integralmente a Bíblia apenas em grego, sendo que os livros do Novo Testamento foram escritos em grego. Para os do Antigo, havia uma versão completa, a Septuaginta, mas, para os leitores de língua latina, não havia uma versão completa da Bíblia na sua língua. Coube, pois, a Jerónimo – e, depois dele, aos seus continuadores – o mérito de ter empreendido uma revisão e uma nova tradução de toda a Escritura. O texto final combinava a continuidade nas fórmulas já de uso comum com uma maior aderência ao ditame hebraico, sem sacrificar a elegância da língua latina. E, superada alguma repulsa inicial, “a tradução de Jerónimo tornou-se património comum tanto dos eruditos como do povo cristão: daí o nome de Vulgata”.
No atinente à tradução como inculturação, é referido que Jerónimo, com a sua tradução, inculturou a Bíblia na língua e cultura latinas, tornando-se um paradigma permanente para a ação missionária da Igreja, pois, diz o Pontífice, “quando uma comunidade acolhe o anúncio da salvação, o Espírito Santo fecunda a sua cultura com a força transformadora do Evangelho”.
Sendo possível estabelecer uma analogia entre a tradução, enquanto ato de hospitalidade linguística, e outras formas de acolhimento, “a tradução não é um trabalho que tem a ver unicamente com a linguagem, mas corresponde verdadeiramente a uma decisão ética mais ampla, que está ligada com a visão inteira da vida”. E Jerónimo teve de se opor ao pensamento dominante do seu tempo. Se, nos alvores do Império Romano, era comum saber grego, no tempo dele isso era uma raridade. Não obstante, “tornou-se um dos melhores conhecedores da língua e literatura greco-cristãs e empreendeu viagem mais árdua quando, sozinho, se dedicou ao estudo do hebraico”, pelo que devemos ao seu poliglotismo “uma compreensão do cristianismo mais universal e, simultaneamente, mais coerente com as suas fontes”.
No quadro da relação entre Jerónimo e a Cátedra de Pedro, Francisco observa que, no contexto dos diversos ambientes por que deambulou o Santo, “Roma é o porto espiritual aonde volta continuamente”, mantendo uma ligação forte com a cidade e a língua, mas, de forma muito peculiar, com a Igreja de Roma. E é de ler este apontamento do Papa:
“Num período turbulento, em que a túnica inconsútil da Igreja muitas vezes acaba dilacerada pelas divisões entre os cristãos, Jerónimo olha para a Cátedra de Pedro como ponto de referência seguro: ‘Eu, que não sigo mais ninguém senão Cristo, uno-me em comunhão com a Cátedra de Pedro’. ‘Eu sei que sobre esta pedra está edificada a Igreja’.”.
E, considerando que “o nosso mundo precisa, mais do que nunca, do remédio da misericórdia e da comunhão”, Francisco apela à oferta de “um testemunho de comunhão fraterna, que se torne fascinante e luminoso”, já que, por isto, conhecerão todos que somos discípulos do Senhor.
Em relação ao tópico Amar o que Jerónimo amou, considera Bergoglio que não é tido como apenas um dos maiores cultores da ‘biblioteca’ de que se nutre o cristianismo, mas que se lhe aplica o que ele mesmo escreveu sobre Nepociano: “Com a leitura assídua e a meditação constante, fizera do seu coração uma biblioteca de Cristo”. E podemos dizer que “assimilou uma biblioteca inteira” e se tornou “dispensador de ciência para muitos outros”.
E, na verificação de que um dos problemas atuais (e não só da religião) é o analfabetismo, faltando as habilitações hermenêuticas que nos tornem intérpretes e tradutores credíveis da nossa própria tradição cultural, surge a exortação pontifical sobretudo aos jovens:
“Parti à procura da vossa herança. O cristianismo torna-vos herdeiros dum património cultural insuperável, do qual deveis tomar posse. Apaixonai-vos por esta história, que é vossa. Tende a ousadia de fixar o olhar naquele jovem inquieto que foi Jerónimo; ele, como a personagem da parábola de Jesus, vendeu tudo quanto possuía para comprar a ‘pérola de grande valor’.” (Mt 13,46).
Tendo em conta que “verdadeiramente Jerónimo é a ‘Biblioteca de Cristo’, uma biblioteca perene que, passados 16 séculos, continua a ensinar-nos o que significa o amor de Cristo, um amor inseparável do encontro com a sua Palavra”, o Papa assegura:
“O centenário atual constitui um apelo a amar o que Jerónimo amou, redescobrindo os seus escritos e deixando-se tocar pelo impacto duma espiritualidade que se pode descrever, no seu núcleo mais vital, como o desejo inquieto e apaixonado dum conhecimento maior do Deus da Revelação”.
Por fim, evoca o “exemplo luminoso” que é a Virgem Maria, evocada por Jerónimo na sua maternidade virginal e na sua atitude de leitora orante da Escritura. De facto, Ela meditava no seu coração (cf Lc 2,19.51) “porque era santa e lera a Sagrada Escritura, conhecia os profetas e lembrava-se do que o anjo Gabriel Lhe anunciara e fora vaticinado pelos profetas (...), via o recém-nascido que era seu filho, o seu único filho que jazia e chorava naquele presépio, mas verdadeiramente a quem Ela via ali deitado era o Filho de Deus”. Por isso, Ela pode ensinar-nos a ler, meditar, rezar e contemplar Deus que Se faz presente na nossa vida sem nunca Se cansar.
2020.09.30 – Louro de Carvalho, Facebook

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Alguns serviços públicos e Centros de Saúde com atendimento presencial super-controlado...

Longe de mim pôr em causa a dignidade e o profissionalismo das pessoas. Não é pessoas que pretendo atingir. De modo algum. Quem sou eu para julgar?
É a organização dos serviços e a coerência de quem decide.
Vejamos:
- Os alunos vão regressar às aulas presenciais dentro de um quadro epidémico que exige a observância de normas de saúde. Apoio, pois ensino presencial é condição fundamental para combater as desigualdades.
- No Verão, multidões nas praias, observando - pelo menos em teoria - regras de saúde pública.
- Touradas e espectáculos em recinto fechado com com muita gente .
- Cafés, bares e esplanadas, restaurantes com bastante gente.
- Empresas em laboração com muitos trabalhadores.
Etc, etc, etc
  
MAS:
- Alguns serviços públicos com atendimento presencial super-controlado. Marcações pelo telefone, atendimento pessoa a pessoa, longas filas em espera... E quando as pessoas desesperam porque ninguém atende o telefone? No Inverno como vai ser?
- Centros de Saúde com (des)atendimento super-preocupante. O telefone não resolve o fundamental e muitas vezes as pessoas nem por este meio são atendidas. Toca, toca, toca e... nada! O doente e a sua saúde requerem a consulta presencial.
Se há um espaço onde as normas podem ser cumpridas é no Centro de Saúde. Lá estão os profissionais que sabem como ninguém lidar com a epidemia e têm autoridade para fazer cumprir as referidas normas.
- Infelizmente já faleceram no país e no mundo muitas pessoas por causa da COVID-19. E quantas e quantas não faleceram por outras doenças nesta mesma altura? E muitos partiram porque não tiveram consulta, porque o exame médico, os testes auxiliares de diagnóstico e as intervenções cirúrgicas foram sendo adiados?
Onde está o serviço Nacional de Saúde com que tantos enchem a boca nestas ocasiões?

Muitas vezes as pessoas queixam e protestam, porventura sem que a razão lhes assista.  Nestas situações as queixas intensas e extensas têm mais do que fundamento. Penso assim.
E ninguém faz nada? A comunicação social mostra-se incapaz de dar voz e vez aos que não têm voz e vez?
Onde param os fazedores de opinião, os comentadores, as autoridades eclesiásticas, os partidos políticos?

domingo, 13 de setembro de 2020

Há quem apareça para partilhar e colaborar, sentindo-se Igreja e sentindo a Igreja

A crise económica que a pandemia desencadeou atinge todos, pessoas e instituições.
Também as paróquias estão a ser fortemente atingidas. Primeiro foi a ausência das pessoas nas celebrações durante março, abril e maio. A partir daí, por causa das orientações profiláticas, é reduzido o número de pessoas nas celebrações.
Mas as despesas mantêm-se. Água, luz, limpezas, outros serviços essenciais, seguros, obras, etc, etc. Há muitos comunidades paroquiais com fortes dificuldades para manter os serviços básicos.
A partilha de bens (não me parece apropriado o termo 'esmola') vem desde a origem da Igreja - leia-se o Livro dos Actos dos Apóstolos.  Desde o início os cristãos sentiram a necessidade de partilhar bens e serviços nas suas celebrações. Faziam natural e generosamente. Tinham em conta o bem comum da comunidade e o serviço aos mais necessitados. Era viva a consciência de que "uma fé que não mexe no bolso" não é autêntica, pois a fé é inseparável da caridade.
Ao longo da História, a organização dessa partilha foi variando na forma, mas a partilha sempre se manteve. Actualmente existem modos diferentes, desde a entrega de bens (muito comum nas celebrações africanas) até ao chamado "peditório do Ofertório" mais comum entre nós. Actualmente, por causa da COVID-19, existe um cestinho para receber as ofertas à saída da Eucaristia.

Há dias uma pessoa desta Paróquia perguntou quanto custava determinado serviço  à comunidade, pois queria ajudar e gostava de o fazer colaborando no pagamento do referido serviço. A pessoa foi encaminhada para o respectiva entidade paroquial que gere tal assunto. Embora ainda não tivesse obtido resposta, apareceu com a sua oferta. Fê-lo de forma discreta e elegante. 
Há quem só apareça para protestar, dar sugestões para os outros fazerem, exigir tudo. Há quem apareça para partilhar e colaborar, sentindo-se Igreja e sentindo a Igreja. 
A comunidade paroquial somos todos e cada um de nós. Logo a Paróquia será o que cada um quiser que ela seja...
A IGREJA SOMOS TODOS NÓS!!!

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

À Igreja não basta que dê o pão. Da Igreja espera-se que (também) erga a voz

 Missão dos Profetas - Mundo Maior Editora

1. Esta é uma altura em que muito se fala do Estado Social e em que quase nada se diz sobre a Doutrina Social.
É normal que se fale do Estado Social, apesar do pouco que este já terá para oferecer. Mas é muito estranho que quase nada se diga acerca da Doutrina Social, não obstante o muito que ela ainda tem para dar.
2. O Estado Social parece estar em risco, por exaustão. A Doutrina Social dá sinais de estar ausente. Por demissão?
À Igreja não basta que dê o pão. Da Igreja espera-se que (também) erga a voz.
Nuno Teotónio Pereira assinala que «a Igreja faz muitas coisas para proteger os pobres. Mas devia ser mais firme na defesa de certos valores, sobretudo no campo social»!
3. Na sua missão, ela tem dois instrumentos essenciais: a acção e a palavra. Não deve renunciar a nenhum deles por muito que aposte no outro.
A situação de emergência social, que atravessamos, convoca, uma vez mais, a participação das comunidades cristãs. E, sobretudo através da generosidade de muitos leigos, tal participação tem sido assegurada.
4. Só que a Igreja de Jesus não pode limitar-se à acção junto das vítimas de um sistema desumano. Ela tem de questionar, em nome de Jesus, esse mesmo sistema.
Tem de usar, portanto, a palavra para que o poder seja inquietado e, se possível, transformado.
5. Até Bento XVI, logo na primeira encíclica, deixou bem claro que a insistência na caridade não impede que se lute pela justiça.
É preciso dar o pão e é urgente perguntar por que razão continua a faltar o pão na casa de muita gente.
6. Os membros da Igreja não hão-de esquecer que são representantes de alguém que, além de mestre, era um profeta.
E um profeta existe não para explicar os acontecimentos, mas para ajudar a transformar a realidade.
7. Dói um pouco, confesso, ver este entusiasmo todo com as romarias e, ao mesmo tempo, um conformismo tão grande com a persistente fome de tanta gente.
O mais que fazemos é dar do que nos sobeja. Já não é pouco. Mas é preciso (muito) mais. Só que perguntar por que as coisas estão assim parece não ser connosco. Incomodar o poder é, de facto, muito incómodo.
8. Este é um tempo favorável para ser o eco do clamor dos mais desfavorecidos.
O cardeal Carlo Maria Martini reconhecia, pouco antes de morrer, que «a Igreja está cansada. As nossas igrejas são grandes e estão vazias e o aparelho burocrático alarga-se».
A Igreja tem de ser o eco de Jesus, que, sendo para todos, escolheu sempre estar ao lado dos mais pequenos e oprimidos!
9. Em síntese, muito ganhará a Igreja se optar pela pobreza, pela simplicidade, pela humildade e pela opção pelos pobres.
Seguindo o paradoxo jesuânico, a Igreja ganha quando perde, eleva-se quando desce.
Há um longo caminho a percorrer. Que o caminho tenha muitos «viandantes»!
10. O grande teólogo Dietrich Bonhoeffer defendeu que «a Igreja só é Igreja quando existe para os outros». Para isso, «deve colaborar nas tarefas da vida humana, não dominando, mas ajudando e servindo».
Bonhoeffer morreu com este sonho. Tenho a certeza de que este sonho não morreu com ele. Continua à nossa frente. À espera de ser realizado!

João António Teixeira, Facebook

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Na crise económico-social em que já entrámos, mas que se vai agravar, convém estar atento ao destino das ofertas que nos são pedidas

 Com a devida vénia, transcrevo este post do blog "Confessionário dum Padre". http://eupadre.blogspot.com/2020/09/os-abusos-da-caridade.html

"Os abusos da caridade

Ligavam e pediam. E a Manuela, minha paroquiana, dava. Ligavam e pediam. E a Manuela dava. Continuavam a ligar e a pedir, e a Manuela dava, mesmo sem o marido saber. Mesmo sem conhecer muito bem a instituição do outro lado da linha do telefone. Mas podia dar. E dava. Aprendera que a caridade é dar sem saber a quem. Mas, como nem tudo parece o que é, ou é o que parece, no último ano, tornaram a ligar, e a Manuela, porque o seu marido acabara de falecer, porque achava que não era oportuno, porque estava sem vontade anímica para nada, explicou humildemente que o momento não era muito bom, que compreendesse, pois o marido falecera há pouco, que talvez noutra ocasião. E então ouviu do outro lado da linha algo que lhe perfurou o coração através dos ouvidos. Porque é que me está a mentir? A senhora está a mentir, só para não dar. Padre, foi como se tivesse bebido água ardente a pensar que era água natural. Nem consegui desligar o telefone. Foi a menina do outro lado que o desligou. A menina também não precisava dizer mais nada. Agora a Manuela percebera tudo. Finalmente. Há pedidos de caridade estranhos. Esquisitos. Ou melhor, fora da caridade. Verdadeiros abusos para quem vive a caridade e da verdadeira caridade."

1. "Faz o bem sem olhar a quem", diz o povo que também acrescenta: "Gato escaldado de água fria tem medo".
2. Neste aspecto como noutros, é bom o conselho de Jesus Cristo: "Sede, pois, prudentes como as serpentes e simples como as pombas." - Mt 10,16
3. Ainda mais em período de crise, aumenta o número de oportunistas que tentam por diversos e sofisticados meios apropriar-se do que é dos outros. Tentam falar  ao coração  de quem pedem, apresentam a sua situação como dramática, chantageiam, ameaçam, fazem-se passar por grandes necessitados, mostram documentos falsos para atingir os seus objectivos, apresentam-se como profissionais disto e daquilo, recorrem ao telemóvel, ao email, ao facebook e outras tecnologias tentando "dourar a pílula" para extorquir dinheiro, etc, etc.
Todo o cuidado é e será pouco! Nem tudo o que luz é ouro, nem tudo o que parece é.
4. Ser solidário, ajudar, partilhar é um dever cívico e uma forma  nobre de caridade cristã. Mas há formas seguras de o fazer, sem cair na ratoeira do engano. 
Muita gente  ajuda, colabora, mas seguindo estes dois caminhos: nunca alardeia o que dá e dá através de canais seguros.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

“Jardineiros no jardim de Deus”

IMAGENS BÍBLICAS: JARDIM DO ÉDEN

De 1 de setembro a 4 de outubro, memória litúrgica de São Francisco de Assis, Patrono da Ecologia, a Igreja coloca como sua referência especial a ligação à “Casa comum”, ou seja, à natureza, sem a qual pessoas, animais, plantas e outros seres não poderíamos sobreviver. Numa dupla perspetiva: como dimensão ética que nos obriga a específicos comportamentos respeitosos para com esta grande e bela obra de um Deus que nos oferece semelhante dádiva; e como fonte de espiritualidade, pois a contemplação da beleza da criatura ajuda-nos a admirar e amar mais o seu Criador.

Desde que o Papa Francisco nos alertou para a urgência de novas atitudes para com a natureza, com a publicação da encíclica Laudato si, esta celebração universalizou-se e passou a entrar, mais autenticamente, no rol das nossas preocupações e vivências eclesiais. Como é sabido, para assinalar o quinto aniversário desta encíclica dedicada a uma temática absolutamente nova, o Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, da Santa Sé, anunciou um ano celebrativo especial, de 24 de maio de 2020 a 24 de maio de 2021. Está a decorrer, embora o contexto de pandemia acabasse por ofuscar muitas ações que poderiam constituir grandes e motivadoras notícias.

Que celebremos este tempo da Criação com ações de sensibilização ambiental, reflexão sobre a interligação da pessoa com a natureza e, se possível, com a oração de louvor pela magnífica oferta que o Criador nos concedeu.

Crescer na Consciência do Cuidado da Casa Comum”. Este desiderato deveria constituir uma preocupação de toda a Igreja.

E rezemos:
“Senhor da Vida, durante este Tempo da Criação pedimos que nos deis coragem para guardar o shabat do nosso planeta. Fortalecei-nos com a fé para acreditarmos na Vossa providência. Inspirai-nos com a criatividade para compartilharmos aquilo que recebemos. Ensinai-nos a satisfazer-nos com aquilo que é suficiente. E enquanto proclamamos um Jubileu pela terra, enviai o Vosso Espírito a renovar a face da criação. Nós Vo-lo pedimos em nome de Jesus Cristo que veio proclamar a boa-nova para toda a criação”.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

SEXO DOS ANJOS

Conta-se que, enquanto os turcos otomanos estavam às portas de Constantinopla, precedendo a sua queda, os desta cidade discutiam a cor dos olhos de Nossa Senhora, o sexo dos anjos, e se uma mosca caísse numa pia de água benta, se seria a mosca a ficar benzida ou a água contaminada...Desde então a expressão discutir o sexo dos anjos ganhou o significado de perder tempo discutindo um assunto absolutamente inútil e impossível de ser determinado, quando existem problemas mais importantes.Diante de problemas de importância transcendente que o mundo hoje enfrenta, há alguns cristãos a discutir se a comunhão é na boca ou na mão.

1. Há uma clara e explícita indicação dos nossos Bispos no sentido de se comungar na mão durante a vigência da pandemia que nos atinge. Quando as decisões do episcopado agradam a certas pessoas, estas aplaudem intensamente; quando as decisões episcopais as contrariam, criticam, não cumprem, fogem...E o Mestre continua a dizer: "Quem vos ouve, a Mim ouve..."

2. Sem nos focarmos no concreto, podemos perguntar-nos: Quantas vezes as mãos são menos pecadoras do que a língua? Além disso, quem criou a língua não criou as mãos? E mais: na Última Ceia, Jesus deu a Comunhão à boca aos seus apóstolos?

3. Uma pessoa tem fome. Nega-se a comer porque a comida é servida em porcelana em vez de prata?

4. Quando seremos cristãos do importante, do essencial? Quando os problemas e desafios são mais do que muitos, alguns ficam presos à discussão sobre o "sexo dos anjos"?

5. Os olhos estão na testa para olharmos em frente e não na nuca para olharmos para trás. O esvaziar das igrejas, o indiferentismo religioso, a ausência dos valores cristãos na vida social e pessoal, o desemprego e a fome, a violência doméstica, o tráfego de pessoas, a desestruturação da família, a educação da juventude, a ausência de verdadeira consciência laical, a falta de sentido eclesial e sua pertença... Isto sim são desafios que deviam encharcar a atitude e envolvência dos crentes.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

23 Agosto 2020 - 21º Domingo do Tempo Comum - Ano A

Leituras: aqui

Só o doentio e o macabro parecem merecer a atenção dos consumidores de informação

Temos direito à informação toda!
Mas alguns órgãos de informação parecem apostados em mostrar apenas o doentio, o macabro, o horrendo.
Um amigo meu dizia hoje com a piada que lhe é reconhecida: "Está cheio de passar despercebido? Quer aparecer horas e horas nalguns programas de TV? Acha que a sua terra nunca tem voz nem vez na comunicação social? Então "mate" uma pessoa e vai ver... Tem estatuto de estrela nalgumas televisões!"
Há uma sadia festa na aldeia? Existe um melhoramento social de impacto? Tem lugar uma homenagem a quem fez alguma coisa pelos outros? As pessoas sofrem com a interioridade e o abandono? Uma povoação é feliz, pacífica, solidária e amante do progresso? Isso não conta para certos órgãos de comunicação social... Não aprecem nem querem saber.
Mas se há um escândalo, um crime, um atentado à vida, ui! Certas Tvs não saem da porta, horas e horas, uma verdadeira telenovela de mau gosto.
E sabe de quem é a verdadeira culpa? Dos telespectadores. Isso mesmo. Se as pessoas mudassem de canal e não se deixassem levar pelo mórbido, esses canais televisivos, ao ver que não tinham audiências, mudavam de agulha. Felizmente há muitos canais por onde escolher.
Então, bons amigos, comecemos todos por criticar os nossos maus hábitos de consumidores de comunicação.
Também nós, sentados no sofá da nossa sala, podemos ajudar a construir um mundo melhor...

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

41 anos de sacerdócio

15 de agosto de 1979. Catedral de Lamego, 11 horas. Ordenação sacerdotal de 3 jovens, o José Melo, o Avelino e eu. 
Destes 41 anos de sacerdócio, os últimos perto de 30 ao serviço da Paróquia de São Pedro de Tarouca.
  
Por intercessão de Maria Santíssima a quem sempre me consagro, concede-me, Senhor:
- a humildade confiante para estar diante de Ti, louvando, glorificando, agradecendo;
- o perdão para os meus pecados, lacunas e limitações;
- o entusiasmo apostólico da primeira hora;
- a graça de viver a alegria sacerdotal junto dos meus irmãos;
- a sabedoria de coração para ensinar e aprender, unir respeitando a diferença, compreender na verdade e na caridade;
- o dom da fidelidade até ao fim;
- aquilo que de bom e de belo deseja o meu coração.
Maria Santíssima, Estrela da manhã, modelo da Igreja que somos, Mãe da Igreja e dos sacerdotes,
Rogai por nós, rogai por mim!

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

 Mensagens de Agradecimento a Deus - Mundo das Mensagens

domingo, 9 de agosto de 2020

Emigrantes, Imigrantes, Migrações Internas

Os que saem de Portugal para trabalhar e viver noutro país = Emigrantes
Os que vêm de outro país para trabalhar e viver em Portugal = Imigrantes
Os que se deslocam dentro do mesmo país de uma região para outra = Migração internas. Por exemplo, há uma forte corrente migratória do interior para o litoral, mormente para Lisboa...

[240520092050.jpg]
Mãos que não dais, o que é que esperais?!
Se todos queremos que os nossos, quando vão para o estrangeiro, aí sejam bem tratados, dignificados e integrados, exactamente o mesmo devemos fazer aos estrangeiros que aqui chegam para viver e trabalhar.

O direito à indignação
Quando a comunicação social noticia que em tal lado, os imigrantes vivem em condições miseráveis, são forçados a trabalhar mais do que o legalmente consagrado, são mantidos ilegais, não recebem ordenado legal, são espoliados dos seus direitos, só temos, como cidadãos responsáveis, de exercer o nosso direito à indignação e ao protesto.
Maldito homem que escraviza outro homem!

Portugal precisa dos imigrantes
Nos campos do Alentejo, nos vinhedos do Alto Douro, na apanha da fruta, na construção civil, nalgumas fábricas, em serviços... Trabalhos que os portugueses não querem fazer, então Portugal precisa de importar mão-de-obra.
Sendo Portugal um dos países europeus com uma das taxas mais baixas de natalidade, com consequências tremendas para o nosso futuro colectivo, a vinda dos imigrantes tem contribuído para que a referida taxa de natalidade não seja ainda mais trágica...
Sem gente nova, como poderão ser amanhã asseguradas as pensões? Quem tratará amanhã dos velhos?

Menos investimento dos emigrantes nas suas terras de origem?
Como sabemos, os tempos são outros, o modo de vida é diferente. Há tempos, um emigrante português na Holanda dizia: " Para que hei-de estar a poupar? Vou vivendo a vida o melhor que posso... Depois, quando me reformar mais a minha mulher, regressamos e com a reforma de lá, vivemos aqui às mil maravilhas..."
Noutros tempos, o investimento dos portugueses emigrados na sua terra de origem foi fantástico: construção e compra de casas, negócios, outros e variados investimentos. Sem contar o muito que, especialmente em algumas terras, foi feito em prol do bem comum: apoio ao movimento associativo - desporto, cultura, divertimento -,  melhoramentos, construção e reparação de imóveis civis e religiosos.
Que desculpem os emigrantes, mas muitas vezes parece que, quando por cá passam, é só para exigir tudo mais alguma coisa, segundo os seus interesses e conveniências. Mas falta solidariedade, partilha, ajuda.
Todos? Claro que não, felizmente. Mas há muitos, demais...

quarta-feira, 5 de agosto de 2020


segunda-feira, 3 de agosto de 2020

FC Porto conquista "dobradinha"

FC Porto vence Benfica com bis de Mbemba e conquista 17.ª Taça de Portugal  (e oitava dobradinha da história) – Observador
Dragões juntam a Taça ao campeonato, feito que não conseguiam desde 2010/2011. Autor dos dois golos do campeão nacional, defesa-central congolês Mbemba foi o "herói improvável".
 
Notas pessoais:
1. À partida para a temporada que agora acaba, o FC Porto não era apontado como o principal candidato. Na época passada perdera o campeonato após ter 7 pontos de avanço para o seu rival directo e igualmente perdera a final da Taça para o Sporting. No final da temporada, viu partir uma série de atletas influentes como Filipe, Militão, Brahimi e Herrera, os dois últimos a custo zero. Os reforços chegaram muito tarde, em cima do início das competições, por isso sem o necessário tempo de entrosamento.  Talvez isso ajude a explicar a eliminação na 3ª pré-eliminatória da Champions, tal como a derrota no 1º jogo do campeonato. Tudo claramente relacionado com a crise económica que o Clube tem atravessado...
2. Na opinião geral, o Porto foi um justo vencedor. Não há campeão sem mérito. Mas o Benfica fez uma má 2ª volta, dirão alguns. Olha, exactamente o que aconteceu ao Porto na época passada... O campeão praticou sempre bom futebol? Não, longe disso. Mas foi mais eficaz do que os outros concorrentes.
3. Quando foi contratado, manifestei o meu apoio a Sérgio Conceição. Durante a sua liderança, nestes 3 anos, igualmente manifestei a minha discordância em relação a vários aspectos e situações. No final, os factos são factos e só me resta reconhecer o seu papel fundamental para o êxito do meu Clube. Parabéns, Mister!
4. Sérgio Conceição é um líder nato. Foram vários os problemas com que teve que lidar nos planos interno e externo. Desde o "caso Danilo" no estágio, aos problemas com Nakajima, à estrurura e até pontualmente com os adeptos. Sem contar com uma comunicação social que, maioritariamente, é favorável ao Benfica. Soube ultrapassá-los. Por isso ganhou.
5. Os atletas souberam responder ao desafio. Unidos, imbuídos da mística portista, trabalhadores, com espírito de equipa, transcenderam-se em muitas situações. Têm agora o prémio. Parabéns!
6. Mantenho o que sempre disse. Não é o facto de se ter ganho que me desvia da profunda convicção. A estrutura está ultrapassada e precisa de sangue novo. Pode chegar o tempo em que nem um super-Sérgio chegue para ultrapassar a incapacidade estrutural...