Mais um assalto. Com infinda cobertura televisiva. Desta vez o alvo foi uma dependência do BES em Lisboa. Os assaltantes fizeram cinco reféns, libertando três durante a tarde. Por fim, a polícia tomou de assalto as instalações, libertou os dois reféns e prendeu os assaltantes.
Li e ouvi que os dois assaltantes eram brasileiros. No noticiário da noite da SIC, o comentador referia claramente que os assaltos com maior violência realizados neste país nos últimos tempos foram conduzidos por brasileiros, ucranianos e romenos, gente de leste. E quando o jornalista lhe perguntou se isso não seria racismo, respondeu que não, era a verdade.
Claro que já estou a ouvir o Ministro da Administração Interna: "Confio na Polícia!"... "São casos pontuais!"... E di-lo com aquela cara de mau e de importante - só se for para atemorizar os portugueses ou a polícia, porque aos gatunos não consegue, como se tem visto. É a cassete do costume. Não sei se neste caso foi exactamente isto que disse, mas andará por lá perto. Realmente a insegurança aumenta, afecta, destrói. Não adiantam as estatísticas que a seu belo prazer o senhor Ministro apresenta. Vivemos num país inseguro. Isso é trágico. E o que se tem feito para inverter a situação???
Claro que do Primeiro-Ministro, nem palavra, como é costume. Se fosse para apresentar promessas, com toda a pompa e circunstância, ai aí ele aparecia, sem dúvida. Como se trata de problemas reais, fica caladinho. Da oposição, já nem falo, porque pura e simplesmente não existe.
Tenho para mim, como aliás o referi por diversas vezes neste blog, que o Partido Socialista lida mal com a autoridade. Em relação à autoridade familiar, estamos conversados. O importante para esta gente é emperrar, embaraçar, desmoronar o que ainda resta da família tradicional. Em relação à autoridade dos professores, as posições do actual governo são pura e simplesmente lastimáveis. Quanto à autoridade policial, o caso não melhora. Não foi Mário Soares que disse que não gostava de polícias? Não foi o actual Ministro da Justiça que, quando foi Ministro da Administração Interna no anterior governo socialista, soltou a célebre frase: "Esta não é a minha polícia?" Quanto às leis aprovadas - não esquecer que o governo tem uma maioria absoluta no parlamento a apoiá-lo - o sentido é sempre o mesmo: proteger os infractores, desprotegendo as vítimas.
Realmente o PS tem um problema genético no que toca à autoridade. Mete-lhe confusão que a haja! Ah! A não ser na que ele exerce. Aí, aí de quem lhe toque! Relembro só um caso. Pensem no que sucedeu àquele professor colocado na Direcção Regional de Educação do Norte... São bem conhecidos dos portugueses os tiques de autoritarismo do nosso Primeiro...
Se o governo é a calamidade que é, se a oposição não quer existir, então tem razão aquele amigo que há tempos sugeria: " Nas próximas eleições, portugueses todos às urnas. Mas votem todos em branco! Só assim os políticos serão obrigados a entender a linguagem do povo."
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Já viram algum filho de político desempregado?
Ao ler hoje o jornal SOL online, deparei-me com este comentário a uma notícia. A pessoa que comentou coloca devidamente "o dedo na ferida". Com a devida vénia, aqui o partilhamos com os nossos amigos.
"Os maiores inimigos da estabilidade do povo português estão em Belém, em São Bento e na Assembleia da República. Fora os outros que estão em casa a gozar o subsídio de reintegração e a reforma choruda que lhes dá para levarem a vida que quiserem sem preocupações nenhumas. E nós ? Nós temos que fazer das tripas coração todos os dias para irmos conseguindo pagar os empréstimos bancários. Estamos a vida inteira nas mãos dos bancos e quando finalmente conseguirmos pagar tudo...estamos prontos a esticar o pernil. É a sina do tuga.
A melhor profissão em Portugal é ser politico. Já agora, já viram algum filho de politico desempregado ? Conhecem algum licenciado filho de politico que esteja entre os milhares de licenciados desempregados ? Conhecem algum filho de politico inscrito nos centros de desemprego ? A politica em Portugal é a carreira que leva à boa vida. Para quem está lá e para os familiares, amigos, afilhados, etc.
E nós é que os sustentamos e ajudamos a engordar as respectivas contas bancárias..."
http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=104634&tab=community
"Os maiores inimigos da estabilidade do povo português estão em Belém, em São Bento e na Assembleia da República. Fora os outros que estão em casa a gozar o subsídio de reintegração e a reforma choruda que lhes dá para levarem a vida que quiserem sem preocupações nenhumas. E nós ? Nós temos que fazer das tripas coração todos os dias para irmos conseguindo pagar os empréstimos bancários. Estamos a vida inteira nas mãos dos bancos e quando finalmente conseguirmos pagar tudo...estamos prontos a esticar o pernil. É a sina do tuga.
A melhor profissão em Portugal é ser politico. Já agora, já viram algum filho de politico desempregado ? Conhecem algum licenciado filho de politico que esteja entre os milhares de licenciados desempregados ? Conhecem algum filho de politico inscrito nos centros de desemprego ? A politica em Portugal é a carreira que leva à boa vida. Para quem está lá e para os familiares, amigos, afilhados, etc.
E nós é que os sustentamos e ajudamos a engordar as respectivas contas bancárias..."
http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=104634&tab=community
Um homem, um crente e um bispo fantástico!
Foi hoje a sepultar em Aveiro D. Manuel de Almeida Trindade, que fora bispo daquela diocese. Não tive a dita de conhecer pessoalmente o senhor D. Manuel, nem sequer de alguma vez o ter ouvido falar em presença, mas habituei-me a admirar este grande Bispo por tudo o que li e ouvi dele e acerca dele.
A primeira pessoa que me falou do falecido Bispo Emérito de Aveiro foi Mons Reitor Carlos Resende que tinha sido seu colega em Roma, no tempo em que ambos aí frequentaram a Universidade. Mons. Resende falava com muita simpatia e admiração de D. Manuel e contagiou-me.
Recordo-me do tempo em que assumiu a Presidência da Conferência Episcopal Portuguesa e da sua postura durante o PREC, no após-25 de Abril. Sempre lúcido, projectando luz, sabendo bem o que queria, congregando a todos e sempre.
Porque esteve desde a primeira hora nos trabalhos do Concílio Vaticano II, era um admirador da doutrina conciliar e transmitia-a admiravelmente. Como poucos no seu tempo!
D. Manuel passou a emérito aos 70 anos de idade, quando ainda lhe faltavam 5 para a idade canónica do pedido de resignação. Até nisso foi grande! Sabendo-se cansado, pensando que a diocese que amava precisaria de alguém mais fresco para responder aos novos desafios, teve a grandeza humilde de pedir a resignação, demonstrando assim não estar agarrado a lugares, mas disponível para servir de outra maneira.
Após a resignação, escreveu o livro "Memórias de um Bispo", que li e reli com imensa satisfação. Penso que é uma obra indispensável para se conhecer a fundo o cristianismo em Portugal no século XX.
Obrigado, senhor D. Manuel. Agora que está na Igreja da eterna Luz, temos a certeza que será junto do Altíssimo um intercessor pela Igreja peregrina que tanto e tão bem amou.
Nos Braços de Deus o deixamos.
O milagre das mãos vazias
Ouvimos muitas vezes dizer que “ninguém dá o que não tem”. Mas creio que é mais verdadeira a afirmação de Urs von Balthasar quando escreve que “o privilégio do cristão é poder dar mais, infinitamente mais, do que aquilo que possui”. Vou ver se consigo explicar-me. Lembro ainda bem quanto me escandalizou, nos meus anos de estudante de teologia, a conferência de um sacerdote, um apóstolo brilhante e muito conhecido então — que nos dizia que não era preciso sermos santos para sermos eficazes apostolicamente. A ideia pareceu-me então disparatada, e continua a parecê-lo no tom em que aquele conferencista o dizia: como se a inteligência, a técnica oratória, a picardia pudessem substituir a santidade e o amor. Nunca acreditei nem na inteligência nem na técnica referidas ao mundo da graça. São o que a forma é para o pudim: se este for feito com ovos podres, ninguém o conseguirá comer por melhor que a forma seja. Sempre me interessará mais a carga interior daquilo que se diz do que os adjectivos que o ornamentam. Embora pense que uns conteúdos sérios exigem do orador ou do apóstolo que tome muito a sério os métodos de transmissão. Sabendo, porém, que são apenas isso: simples métodos.
Há na ideia, no entanto, uma parcela de verdade, e muito mais ainda na fórmula de Balthasar. Trinta anos de ministério ensinaram-me que cada um pode dar muito mais do que pessoalmente possui. E isto por uma razão elementar: a rigor, no mundo da graça nenhum homem dá nada. Deus é o único que pode dar, só ele. A experiência de qualquer sacerdote ou de qualquer cristão é que, se ele não puser demasiados obstáculos, Deus dá através de nós coisas que nós nem conseguimos sonhar. E o que Bernanos chamava “o doce milagre das mãos vazias”, através das quais pode passar a torrente de Deus.
No terreno sacramental isto é por demais evidente: que são as minhas mãos para absolver, a minha palavra para consagrar? Alguém “funciona” dentro de mim para que isso “saia”, como o vinho da garrafa sem ela o ter gerado ou fabricado.
Mas também se dá o mesmo noutros terrenos mais misteriosos: que cristão não semeou esperança nos dias em que a julgava perdida? Quantas vezes demos alegria a alguém e nos afastámos depois de pensar que éramos nós quem mais precisava dela?
Acontecem por vezes coisas misteriosas. Um dia aproxima-se alguém de ti, e declara-te que há vinte anos se alimenta de uma frase que tu disseste. Perguntas de que frase se trata, e quando a escutas ias jurar que nunca te passou pela cabeça, que a disseste casualmente. Repara como a flecha foi directa ao alvo que dela precisava.
Qualquer sacerdote sabe que algumas vezes preparou uma conferência ou uma homilia com todo o cuidado, e depois, ao falar, sobe-lhe aos lábios uma frase na qual nem sequer pensara. E logo se verifica que era dessa que algum ouvinte estava a precisar.
Veio uma vez um desconhecido agradecer-me um artigo que o ajudou a resolver em casa uma crise muito séria. E eu nem me lembrava de ter escrito artigo algum sobre esse tema. Terei eu um anjo da guarda que escreve e assina artigos que eu não elaborei? Ou escrevia eu doutra coisa, e aquela família — que precisava de uma resposta — encontrou-a onde o autor nem pensara? Vamos lá sabê-lo?!
Não sei se tudo isto será heresia. A mim, pelo menos, ajuda-me. Se tivesse de esperar por ser santo para começar a falar de Deus às pessoas, ainda agora estava calado. Se só pudesse escrever sobre a alegria, quando tudo corre bem, passaria a maior parte da vida em jejum de escrita. Compreendo que tenho obrigação de ter as mãos cheias, porque Deus o merece, mas não desanimo quando as vejo vazias. Encanta-me a ideia de ser uma trombeta através da qual alguém, mais poderoso do que eu, está a soprar. E de tantas graças passarem pelas minhas mãos... alguma ficará comigo.
O nosso problema está então em sermos bons transmissores, tornar-nos transparentes, para que possa ver-se através de nós o Deus escondido que levamos dentro. E depois partilhar sem mesquinharias o pouquinho que temos — essa migalha de fé, essa gota de esperança, esses gramas de alegria sabendo que não faltará quem venha multiplicá-la como o pão do milagre. Seguros de que a pequena chama de um fósforo pode atear uma grande fogueira. Não porque o fósforo seja importante, mas porque a chama é infinita.
In Razões para o amor
Há na ideia, no entanto, uma parcela de verdade, e muito mais ainda na fórmula de Balthasar. Trinta anos de ministério ensinaram-me que cada um pode dar muito mais do que pessoalmente possui. E isto por uma razão elementar: a rigor, no mundo da graça nenhum homem dá nada. Deus é o único que pode dar, só ele. A experiência de qualquer sacerdote ou de qualquer cristão é que, se ele não puser demasiados obstáculos, Deus dá através de nós coisas que nós nem conseguimos sonhar. E o que Bernanos chamava “o doce milagre das mãos vazias”, através das quais pode passar a torrente de Deus.
No terreno sacramental isto é por demais evidente: que são as minhas mãos para absolver, a minha palavra para consagrar? Alguém “funciona” dentro de mim para que isso “saia”, como o vinho da garrafa sem ela o ter gerado ou fabricado.
Mas também se dá o mesmo noutros terrenos mais misteriosos: que cristão não semeou esperança nos dias em que a julgava perdida? Quantas vezes demos alegria a alguém e nos afastámos depois de pensar que éramos nós quem mais precisava dela?
Acontecem por vezes coisas misteriosas. Um dia aproxima-se alguém de ti, e declara-te que há vinte anos se alimenta de uma frase que tu disseste. Perguntas de que frase se trata, e quando a escutas ias jurar que nunca te passou pela cabeça, que a disseste casualmente. Repara como a flecha foi directa ao alvo que dela precisava.
Qualquer sacerdote sabe que algumas vezes preparou uma conferência ou uma homilia com todo o cuidado, e depois, ao falar, sobe-lhe aos lábios uma frase na qual nem sequer pensara. E logo se verifica que era dessa que algum ouvinte estava a precisar.
Veio uma vez um desconhecido agradecer-me um artigo que o ajudou a resolver em casa uma crise muito séria. E eu nem me lembrava de ter escrito artigo algum sobre esse tema. Terei eu um anjo da guarda que escreve e assina artigos que eu não elaborei? Ou escrevia eu doutra coisa, e aquela família — que precisava de uma resposta — encontrou-a onde o autor nem pensara? Vamos lá sabê-lo?!
Não sei se tudo isto será heresia. A mim, pelo menos, ajuda-me. Se tivesse de esperar por ser santo para começar a falar de Deus às pessoas, ainda agora estava calado. Se só pudesse escrever sobre a alegria, quando tudo corre bem, passaria a maior parte da vida em jejum de escrita. Compreendo que tenho obrigação de ter as mãos cheias, porque Deus o merece, mas não desanimo quando as vejo vazias. Encanta-me a ideia de ser uma trombeta através da qual alguém, mais poderoso do que eu, está a soprar. E de tantas graças passarem pelas minhas mãos... alguma ficará comigo.
O nosso problema está então em sermos bons transmissores, tornar-nos transparentes, para que possa ver-se através de nós o Deus escondido que levamos dentro. E depois partilhar sem mesquinharias o pouquinho que temos — essa migalha de fé, essa gota de esperança, esses gramas de alegria sabendo que não faltará quem venha multiplicá-la como o pão do milagre. Seguros de que a pequena chama de um fósforo pode atear uma grande fogueira. Não porque o fósforo seja importante, mas porque a chama é infinita.
In Razões para o amor
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Às quartas-feiras, milagre
Naquela tarde, o amigo Jacinto perguntou a Gabriela um dos pequenos personagens dum romance de Gerard Bessiere:
— Que fizeste hoje na escola?
— Fiz um milagre — respondeu a menina.
— Um milagre, como?
— Foi na Catequese.
— E como fizeste o milagre?
— A nossa professora é uma jovem que está muito doente. Não pode fazer nada sozinha: só falar e rir.
— E que aconteceu?
— A Catequista falava dos milagres de Jesus. E os meninos disseram: não é verdade que haja milagres, porque, se os houvesse, Deus já te teria curado a ti.
— E ela que disse?
— Disse: sim, Deus também faz milagres para mim. E os meninos disseram: que milagres faz?
— E depois?
— Depois, ela disse: o meu milagre sois vós. Porquê? perguntámos-lhe. E ela disse: porque às quartas-feiras me levais a passear, empurrando o meu carrinho de rodas. Vês? Fazemos milagres todas as quartas-feiras à tarde. Ela disse também que haveria muitos mais milagres, se a gente quisesse fazê-los.
— Tu gostas de fazer milagres?
— Sim. Tenho vontade de fazer muitos. Primeiro, pequenos. Quando for maior, vou fazer milagres grandes.
— Todas as quartas-feiras?
— Quero fazê-los todos os dias, toda a vida.
— Não te parece que a vida é também um milagre?
— Não — disse Gabriela —. A vida é para fazer milagres.
Gabriela tem razão, a vida é para fazer milagres, quartas, quintas e domingos. A vida não é para nos sentarmos à espera de que Deus faça milagres espectaculares; não é para nos limitarmos a confiar que Ele resolva os nossos problemas; mas, sim, para começarmos a fazer esse milagre pequenino que Ele pôs já nas nossas mãos — o milagre de nos querermos bem e de nos ajudarmos uns aos outros. Que será mais milagroso; restituir a vista a um cego, ou a felicidade a um amargurado? Mais prodigioso multiplicar os pães, ou reparti-los bem? Mais assombroso transformar a água em vinho, ou o egoísmo em fraternidade? Se os homens se dedicassem a construir milagres pequeninos metade do tempo que gastam a sonhar com os espectaculares, certamente o mundo caminharia já muito melhor.
E o milagre de amar, todos o podem fazer, pequenos e grandes, pobres e ricos, sãos e doentes. Fixai bem isto: podem privar um homem de tudo, menos da sua capacidade de amar. Um homem pode sofrer um acidente e nunca mais poder andar. Mas não há nenhum acidente que nos impeça de amar. Um doente mantém íntegra a sua capacidade de amar: pode amar o paralítico, o moribundo, o condenado à morte. Amar é uma capacidade inseparável da alma humana, que mesmo o mais miserável dos homens conservará.
Só no inferno não se poderá amar. Porque o inferno é isso mesmo: não amar, não ter nada a partilhar, não ter a possibilidade de se sentar junto de alguém para lhe dizer: ânimo!
Mas enquanto vivemos não há cadeia que maniete o coração, salvo, claro está, a do próprio egoísmo, que é como uma antecipação do inferno. “Os verdadeiros criminosos — dizia Follereau — são os que passam a vida a dizer eu e sempre eu”.
Ao contrário, onde se ama, já se começou a construir o céu a golpes de milagres. Em definitivo, os milagres, para Jesus, eram antes de tudo “os sinais do reino”. E que melhor sinal de um reino de amor que começar a querer-nos bem aqui, com amores pequeninos como o da Gabriela e suas companheiras de escola?!
In Razões para o amor
— Que fizeste hoje na escola?
— Fiz um milagre — respondeu a menina.
— Um milagre, como?
— Foi na Catequese.
— E como fizeste o milagre?
— A nossa professora é uma jovem que está muito doente. Não pode fazer nada sozinha: só falar e rir.
— E que aconteceu?
— A Catequista falava dos milagres de Jesus. E os meninos disseram: não é verdade que haja milagres, porque, se os houvesse, Deus já te teria curado a ti.
— E ela que disse?
— Disse: sim, Deus também faz milagres para mim. E os meninos disseram: que milagres faz?
— E depois?
— Depois, ela disse: o meu milagre sois vós. Porquê? perguntámos-lhe. E ela disse: porque às quartas-feiras me levais a passear, empurrando o meu carrinho de rodas. Vês? Fazemos milagres todas as quartas-feiras à tarde. Ela disse também que haveria muitos mais milagres, se a gente quisesse fazê-los.
— Tu gostas de fazer milagres?
— Sim. Tenho vontade de fazer muitos. Primeiro, pequenos. Quando for maior, vou fazer milagres grandes.
— Todas as quartas-feiras?
— Quero fazê-los todos os dias, toda a vida.
— Não te parece que a vida é também um milagre?
— Não — disse Gabriela —. A vida é para fazer milagres.
Gabriela tem razão, a vida é para fazer milagres, quartas, quintas e domingos. A vida não é para nos sentarmos à espera de que Deus faça milagres espectaculares; não é para nos limitarmos a confiar que Ele resolva os nossos problemas; mas, sim, para começarmos a fazer esse milagre pequenino que Ele pôs já nas nossas mãos — o milagre de nos querermos bem e de nos ajudarmos uns aos outros. Que será mais milagroso; restituir a vista a um cego, ou a felicidade a um amargurado? Mais prodigioso multiplicar os pães, ou reparti-los bem? Mais assombroso transformar a água em vinho, ou o egoísmo em fraternidade? Se os homens se dedicassem a construir milagres pequeninos metade do tempo que gastam a sonhar com os espectaculares, certamente o mundo caminharia já muito melhor.
E o milagre de amar, todos o podem fazer, pequenos e grandes, pobres e ricos, sãos e doentes. Fixai bem isto: podem privar um homem de tudo, menos da sua capacidade de amar. Um homem pode sofrer um acidente e nunca mais poder andar. Mas não há nenhum acidente que nos impeça de amar. Um doente mantém íntegra a sua capacidade de amar: pode amar o paralítico, o moribundo, o condenado à morte. Amar é uma capacidade inseparável da alma humana, que mesmo o mais miserável dos homens conservará.
Só no inferno não se poderá amar. Porque o inferno é isso mesmo: não amar, não ter nada a partilhar, não ter a possibilidade de se sentar junto de alguém para lhe dizer: ânimo!
Mas enquanto vivemos não há cadeia que maniete o coração, salvo, claro está, a do próprio egoísmo, que é como uma antecipação do inferno. “Os verdadeiros criminosos — dizia Follereau — são os que passam a vida a dizer eu e sempre eu”.
Ao contrário, onde se ama, já se começou a construir o céu a golpes de milagres. Em definitivo, os milagres, para Jesus, eram antes de tudo “os sinais do reino”. E que melhor sinal de um reino de amor que começar a querer-nos bem aqui, com amores pequeninos como o da Gabriela e suas companheiras de escola?!
In Razões para o amor
Ano Paulino: importante entrevista
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Desde os dez euros até ao vaso rachado
O rapazinho de 8 anos
Um rapazinho de 8 anos queria ganhar 100 euros e rezou durante duas semanas a Deus.Como nada acontecia, ele resolveu mandar uma carta para o Todo-Poderoso com seu pedido.
Os CTT receberam uma carta endereçada a 'Deus-Portugal' e resolveram entregá-la ao Primeiro Ministro.
O Ministro José Socrates ficou muito comovido com o pedido e resolveu mandar uma nota de 10 euros para o garotinho, pois achou que 100 euros era muito dinheiro para uma criança tão pequena. O rapazinho recebeu os 10 euros e imediatamente sentou-se para escrever uma carta de agradecimento:
-'Querido Deus: Muito obrigado por me mandar o dinheiro que eu pedi. Contudo, notei que por alguma razão, o Senhor mandou-o através do 1º Ministro José Socrates e, como sempre, aquele malandro ficou com 90% do que era meu!'
Vaso Chinês
Uma velha senhora chinesa possuía dois grandes vasos, cada um suspensona extremidade de uma vara que ela carregava nas costas. Um dos vasos era rachado e o outro era perfeito. Este último estava sempre cheio de água ao fim da longa caminhada do rio até casa, enquanto o rachado chegava meio vazio.Durante muito tempo a coisa foi andando assim, com a senhora chegando a casa somente com um vaso e meio de água. Naturalmente o vaso perfeito era muito orgulhoso do próprio resultado e o pobre vaso rachado tinha vergonha do seu defeito, de conseguir fazer só a metade daquilo que deveria fazer. Depois de dois anos, reflectindo sobre a própria amarga derrota de ser 'rachado', o vaso falou com a senhora durante o caminho:
'Tenhovergonha de mim mesmo, porque esta rachadura que eu tenho faz-me perder metade da água durante o caminho até a sua casa...'
A velhinha sorriu:
"Reparaste que lindas flores há somente do teu lado do caminho? Eu sempre soube do teu defeito e portanto plantei sementes de flores na beira da estrada do teu lado. E todos os dias, enquanto a gente voltava, tu regava-las. Durante dois anos pude recolher aquelas belíssimas flores para enfeitar a mesa. Se tu não fosses como és, eu não teria tido aquelas maravilhas na minha casa."
Cada um de nós tem o seu próprio defeito. Mas é o defeito que cada um de nós tem, que faz com que nossa convivência seja interessante e gratificante. É preciso aceitar cada um pelo que é... E descobrir o que há de bom nele.
(enviado por email)
Em que lotaria jogamos?
Todos sabem que os portugueses são apaixonados pelo jogo: euromilhões, totoloto, totobola, lotaria, o bingo, a roleta … tudo isso está a levar boa parte dos sonhos e do dinheiro dos portugueses. As coisas andam mal, e uns mais e outros menos, todos acreditamos na mágica solução da “sorte grande” para sair de apuros.Eu acho a lotaria estupenda, entendida como jogo. Quem não sonhou, na segunda quinzena de Dezembro, com todas as coisas bonitas que iria fazer com a sorte grande? Quem não sonhou já com as coisas maravilhosas que faria caso saísse o euromilhões?
O preocupante é o sonho convertido em febre, ou confundir a esperança com a sorte. Ou, o que é pior, mergulhar nas lotarias do dinheiro, e esquecer todas as demais lotarias com prémios muito mais suculentos e seguros.
A lotaria de viver, por exemplo. Saiu-nos a todos desde o dia em que a bola da existência caiu sobre nós. Viver bem é estupendo; mas eu acho ainda mais estupendo o simples facto de viver. No dia do nosso nascimento saiu-nos a “sorte grande”, saímos da pobreza absoluta do nada, entrámos na maravilha do tempo e do sangue. Absurdo é haver gente que gira pelo mundo sem se ter dado ao trabalho de consultar a lista dessa lotaria de viver, para verificar que está lá o seu nome.
A lotaria de amar é ainda mais fecunda, e tem prémio duplo: a possibilidade de amar e a de ser amado. Quem saberia dizer qual dos dois é o maior? Nesta lotaria nem é preciso comprar bilhete: basta ter coração, e não o deixar endurecer demasiado pelo egoísmo. É um sorteio com muitas pequenas alegrias que, além disso, saem em todos os números.
A lotaria da esperança é um pouco mais ladeira acima. Para jogar nela temos de ter os olhos limpos e alguns quilos de coragem perante a adversidade. Mas está também ao alcance de todos. Em geral esta lotaria não distribui prémios grandes; tem de ganhar-se cada dia, com pequenas aproximações que dão para continuar a comprar esperanças para o dia seguinte.
Vem depois a lotaria do acreditar. Acreditar, se for possível, em alguém. Ou, pelo menos, em algo que, se for límpido, leva a acreditar nesse Alguém, que eu escrevo com maiúscula. Esta lotaria não se compra.É um dom. Mas um dom oferecido a todo aquele que o busca com boa vontade. Essa é que é uma boa “sorte grande”. Não resolve os problemas. Mas dá força para os resolver.
Todas estas lotarias estão aí à disposição de toda a gente. E saem a todos os que jogam. Oferecem-se a ricos e pobres, mais aos pobres do que aos que se rebolam em riqueza.
O que espanta é que não haja filas nas agências de recolha.
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
UMA FÁBULA MODERNA
Uma galinha achou alguns grãos de trigo e disse aos vizinhos: “Se plantarmos este trigo, teremos pão para comer. Alguém me quer ajudar a plantá-lo?”“Eu não, estás parva !” - disse a vaca.
“Nem eu, tenho mais que fazer !” - emendou o pato.
“Eu também não” - retorquiu o porco.
“Eu muito menos” - completou o bode.
“Então, eu mesma planto”, disse a galinha. E assim o fez. O trigo cresceu alto e amadureceu, com grãos dourados.
“Quem me vai ajudar a colher o trigo?” - quis saber a galinha.
“Eu não, já tenho o rendimento mínimo garantido” - disse o pato.
“Não faz parte das minhas funções. Só se pagares algum sem recibo” - disse o porco.
“Não, depois de tantos anos de serviço”, - exclamou a vaca.
“Eu arriscava-me a perder o fundo de desemprego” - disse o bode.
“Então, eu mesma colho” - disse a galinha, e colheu o trigo, ela própria.
“Eu não, já tenho o rendimento mínimo garantido” - disse o pato.
“Não faz parte das minhas funções. Só se pagares algum sem recibo” - disse o porco.
“Não, depois de tantos anos de serviço”, - exclamou a vaca.
“Eu arriscava-me a perder o fundo de desemprego” - disse o bode.
“Então, eu mesma colho” - disse a galinha, e colheu o trigo, ela própria.
Finalmente, chegara a hora de amassar o pão.
“Quem me vai ajudar a cozer o pão?” - indagou a galinha.
“Eu fugi da escola e não aprendi essas merdas ! Ganho bem com a passa !” - disse o porco.
“Eu não posso pôr em risco o meu subsídio de doença” - continuou o pato.
“Caso seja sozinho a ajudar, é discriminação” - resmungou o bode.
“Só se me pagarem horas extra” - exclamou a vaca.
“Então, eu mesma faço” - exclamou a pequena galinha.
Cozeu cinco pães e pô-los a todos numa cesta para que os vizinhos pudessem ver. De repente, toda a gente passou a querer pão, e pediu um bocado. A galinha disse simplesmente:
“Não! Vou comer os cinco pães sozinha”.
“Lucros excessivos, sua agiota!” - gritou a vaca.
“Sanguessuga capitalista!” - exclamou o pato.
“Eu exijo direitos iguais!” - bradou o bode.
O porco grunhiu: - A Paz, o Pão, Educação, são para todos! Direitos do Povo!
“Não! Vou comer os cinco pães sozinha”.
“Lucros excessivos, sua agiota!” - gritou a vaca.
“Sanguessuga capitalista!” - exclamou o pato.
“Eu exijo direitos iguais!” - bradou o bode.
O porco grunhiu: - A Paz, o Pão, Educação, são para todos! Direitos do Povo!
Pintaram faixas e cartazes dizendo “Injustiça” e marcharam em protesto contra a galinha, gritando obscenidades, como as claques dos clubes de futebol.
QUERO OS MEUS DIREITOS!
INJUSTIÇA!
A ROUBAR O PÂO AO POVO
FASCISTA .
QUERO OS MEUS DIREITOS!
INJUSTIÇA!
A ROUBAR O PÂO AO POVO
FASCISTA .
(enviado por email)
A vergonha de ser cristão
Conta-me um companheiro que, quando no mês passado visitava o Egipto, com a sua equipa, para fazer diversas filmagens, foram recebidos no Cairo pelo director geral da Televisão Egípcia. Depois de lhes conceder todas as facilidades, aquele director geral despediu-se dando a cada um um exemplar do Alcorão, não sem antes ter beijado respeitosamente a portada do livro. “Que Alá vos proteja no vosso trabalho”, acrescentou. E fez tudo aquilo - continua o meu companheiro - com um respeito, uma naturalidade, que o grupo de ocidentais, na maioria não crentes, sentiu-se sinceramente emocionado. Digam-me agora se são capazes de imaginar qualquer dos Directores da nossa televisão a fazer um gesto semelhante. Ou digam-me se lhes cabe na cabeça que o Director comercial de qualquer das grandes firmas ofereça uma Bíblia aos visitantes estrangeiros. Digam-me ainda mais isto: fá-lo-ia com essa espontânea sinceridade um dos nossos bispos a uns desconhecidos? Receio que todos encontremos milhentas razões para nos justificar: “Que vão eles pensar de nós?” “Quando muito vão-se rir do presente! “.A verdade é que o que mais surpreende numa viagem ao Oriente é a absoluta naturalidade com que o religioso se insere na vida dos crentes. A minha primeira lembrança dos países árabes é a de um muçulmano prostrado no aeroporto do Cairo, fazendo as suas orações no cimento da pista, insensível ao rugir dos aviões. Vi amigos judeus profundamente crentes que, também com plena naturalidade e sem escrúpulos, cumpriam em público algumas prescrições da sua religião, que para um não judeu resultavam profundamente ridículas, mas que feitas com aquela naturalidade se tornavam até comovedoras.
Nas ruas da India podem encontrar-se dúzias de gurís a exibir a sua nudez ou a encerrar-se na contemplação, sem a curiosidade dos turistas e dos fotógrafos lhes provocar o menor embaraço. Entre nós é muito diferente: oscilamos entre o orgulho agressivo de ser católico e a vergonha de o mostrar em público. Contava-me um amigo meu há poucos dias que, numa dessas longas esperas do aeroporto, decidiu rezar o terço. Mas a mulher dizia-lhe: “Passa as contas dentro do bolso, para não se rirem de nós”. E o meu amigo respondeu: “Se aquele parzinho não tem vergonha de beijar-se em público, porque me hei-de eu envergonhar de rezar o terço?”
Houve tempos no ocidente em que o exibicionismo contava mais do que a própria fé. Não faltava quem convertesse a crença numa certa agressividade. Devemos reconhecer que alguma descrença de hoje pode ter origem nos excessos do passado. Pessoas que se viram obrigadas a ir à missa diariamente nos colégios, ou a rezar o terço “à força”, respondem hoje que fizeram na juventude actos religiosos que chegam para toda a vida.
Agora, porém, emigrámos para o hemisfério da “vergonha”. Há jornais que ignoram as notícias religiosas, ou só as dão quando são estrambóticas, porque pensam que tudo isso é coisa de padres. Há donos de salas de cinema que ficam aterrados com a ideia de exibir um filme religioso — que além do mais já só quase existem nas filmotecas — com medo de ganharem fama de beatos. Há universitários que morreriam de vergonha, se tivessem de confessar que vão à Missa aos domingos. Padres, até, que procuram falar daquilo “de que a gente fala”, porque falar num café de assuntos religiosos é coisa que não dá. Suponho que isto é, em parte, a velha lei do pêndulo, e que esta “moda da vergonha” passará quando nos dermos conta de como é ridícula. De qualquer modo, é um sinal bem triste da nossa covardia colectiva.
Observe-se, porém, que não estou a pedir que voltemos ao “orgulho exterior” de ser católicos, mas simplesmente que o sejamos com espontaneidade e o expressemos naturalmente. Não se trata de converter os cristãos em “doentes” de futebol, que só sabem falar do seu clube, mas em pessoas de quem a fé saia pelas obras como a respiração sai dos pulmões.
E claro que temos de começar por ter o coração muito em Deus para falar bem dele. O cristão é apóstolo, não um charlatão de feira. Tem de começar por cumprir o conselho de Von Hugel: — “Quando o cristianismo é odiado pelo mundo, a tarefa própria do cristão não é mostrar eloquência de palavra mas grandeza de alma. Por isso não fales muito das coisas grandes: deixa-as crescer em ti”.
Quando tiverem crescido suficientemente, a fé sairá pelas nossas palavras como as rosas brotam das roseiras.
In Razões para o amor
In Razões para o amor
domingo, 3 de agosto de 2008
Parábolas refrescantes para esta quente semana de Agosto
E o profeta continuava a gritar...
Certo dia chegou um profeta a uma cidade, e começou a gritar, em plena praça, que era preciso inverter a marcha do país. O profeta gritava, gritava, e uma considerável multidão acudiu a escutá-lo, mais por curiosidade do que por interesse. O profeta punha toda a sua alma nas palavras, exigindo a mudança dos costumes. Mas os dias passavam, e eram cada vez menos os curiosos que rodeavam o profeta. Nem uma só pessoa parecia disposta a mudar de vida. O profeta, porém, não desanimava, e continuava a clamar. Até que um dia já ninguém ficou na praça a escutá-lo. Passavam os dias. O profeta continuava a gritar. Ninguém o escutava. Por fim, alguém se aproximou e lhe perguntou:
- Porque é que continua a gritar? Não vê que ninguém está disposto a mudar?
“Continuo a gritar — respondeu o profeta — porque, se eu me calasse, eles me teriam mudado a mim”.
A moral desta parábola parece-me bastante simples e muito oportuna: não devemos trabalhar porque esperamos que vamos conseguir um fruto, mas porque é o nosso dever, porque acreditamos no que estamos a dizer. Como é evidente, todo aquele que proclama uma ideia o faz para que ela penetre nos seus ouvintes: mas aquele que desanima porque os seus pensamentos não são ouvidos ou seguidos, é porque não tem fé suficiente no que pensa e no que faz. A utilidade, o puro fruto, não pode ser o único critério das nossas acções. E sobretudo se esses frutos se esperam no imediato, já estamos a preparar o desalento. Mudar o mundo é, além disso, muito difícil. Quase impossível. E por isso, o semeador não costuma chegar a ver o fruto da sementeira, porque no mundo as mudanças de tudo o que é acidental são rápidas ao passo que os corações mudam com travão e por vezes com marcha-atrás. Isto o pode entender todo aquele que contemple de olhos abertos quão lentamente muda o seu coração, quanto nos custa a todos evoluir, e quão devagar cresce em nós a maturidade e a paz da alma. Mas nada disto detém o verdadeiro profeta ou o autêntico trabalhador. Não se é autêntico nem verdadeiro, se não se é obstinado e paciente.
O velho Bayacid
O velho sufi Bayacid, diz-se — contava aos seus discípulos: “Quando eu era jovem, era revolucionário, e a minha oração consistia em dizer a Deus: “Dai-me força para mudar o mundo”. Mais tarde, à medida que fui ficando adulto, dei-me conta de que não tinha mudado uma só alma. Então a minha oração começou a ser: “Senhor, dai-me a graça de transformar os que estão em contacto comigo, ainda que seja só a minha família”. E agora, que sou velho, começo a entender como fui estúpido. E a minha única oração é esta: “Senhor, dai-me a graça de me mudar a mim mesmo”. Penso que se tivesse rezado assim desde o princípio não teria malbaratado a minha vida”.
Esta segunda parábola nem precisa de comentário. Talvez, de reafirmação. É que este mundo está cheio de reformadores que nem sequer começaram por reformar-se a si mesmos. Como ser pacifista, se não se respira paz? Como falar de liberdade, se não se é espiritualmente livre? Como pregar o amor, se não se ama? Que sentido tem exigir justiça com palavras agressivas e injustas? Como esperar respeito dos filhos, se não os respeitamos? Como exigir dos pais, quando não somos exigentes connosco mesmos? Receio que muitas das nossas petições de mudança do mundo não passem de um alibi para disfarçar o nosso fracasso na hora de nos mudarmos a nós mesmos, e que uma alta percentagem das acusações de desonestidade que fazemos aos outros não passe de um auto-engano para não nos olharmos no espelho da nossa própria desonestidade. Além disso a única maneira de mudarmos os que nos rodeiam é conseguir que a nossa mudança irradie. Um homem em paz consigo mesmo não precisa de falar de alegria, porque a revelará em todas as suas palavras. Um ser humano com verdadeira fé nas suas ideias pregá-las-á sem abrir os lábios, simplesmente vivendo.É claro que é óptimo que nos preocupemos com a transformação do mundo. Contanto que não seja uma desculpa para nos dispensarmos de cultivar o nosso próprio jardim. Porque no dia em que o nosso jardim melhorar, já o mundo terá começado a ser melhor.
In Razões para o amor
Certo dia chegou um profeta a uma cidade, e começou a gritar, em plena praça, que era preciso inverter a marcha do país. O profeta gritava, gritava, e uma considerável multidão acudiu a escutá-lo, mais por curiosidade do que por interesse. O profeta punha toda a sua alma nas palavras, exigindo a mudança dos costumes. Mas os dias passavam, e eram cada vez menos os curiosos que rodeavam o profeta. Nem uma só pessoa parecia disposta a mudar de vida. O profeta, porém, não desanimava, e continuava a clamar. Até que um dia já ninguém ficou na praça a escutá-lo. Passavam os dias. O profeta continuava a gritar. Ninguém o escutava. Por fim, alguém se aproximou e lhe perguntou:
- Porque é que continua a gritar? Não vê que ninguém está disposto a mudar?
“Continuo a gritar — respondeu o profeta — porque, se eu me calasse, eles me teriam mudado a mim”.
A moral desta parábola parece-me bastante simples e muito oportuna: não devemos trabalhar porque esperamos que vamos conseguir um fruto, mas porque é o nosso dever, porque acreditamos no que estamos a dizer. Como é evidente, todo aquele que proclama uma ideia o faz para que ela penetre nos seus ouvintes: mas aquele que desanima porque os seus pensamentos não são ouvidos ou seguidos, é porque não tem fé suficiente no que pensa e no que faz. A utilidade, o puro fruto, não pode ser o único critério das nossas acções. E sobretudo se esses frutos se esperam no imediato, já estamos a preparar o desalento. Mudar o mundo é, além disso, muito difícil. Quase impossível. E por isso, o semeador não costuma chegar a ver o fruto da sementeira, porque no mundo as mudanças de tudo o que é acidental são rápidas ao passo que os corações mudam com travão e por vezes com marcha-atrás. Isto o pode entender todo aquele que contemple de olhos abertos quão lentamente muda o seu coração, quanto nos custa a todos evoluir, e quão devagar cresce em nós a maturidade e a paz da alma. Mas nada disto detém o verdadeiro profeta ou o autêntico trabalhador. Não se é autêntico nem verdadeiro, se não se é obstinado e paciente.
O velho Bayacid
O velho sufi Bayacid, diz-se — contava aos seus discípulos: “Quando eu era jovem, era revolucionário, e a minha oração consistia em dizer a Deus: “Dai-me força para mudar o mundo”. Mais tarde, à medida que fui ficando adulto, dei-me conta de que não tinha mudado uma só alma. Então a minha oração começou a ser: “Senhor, dai-me a graça de transformar os que estão em contacto comigo, ainda que seja só a minha família”. E agora, que sou velho, começo a entender como fui estúpido. E a minha única oração é esta: “Senhor, dai-me a graça de me mudar a mim mesmo”. Penso que se tivesse rezado assim desde o princípio não teria malbaratado a minha vida”.
Esta segunda parábola nem precisa de comentário. Talvez, de reafirmação. É que este mundo está cheio de reformadores que nem sequer começaram por reformar-se a si mesmos. Como ser pacifista, se não se respira paz? Como falar de liberdade, se não se é espiritualmente livre? Como pregar o amor, se não se ama? Que sentido tem exigir justiça com palavras agressivas e injustas? Como esperar respeito dos filhos, se não os respeitamos? Como exigir dos pais, quando não somos exigentes connosco mesmos? Receio que muitas das nossas petições de mudança do mundo não passem de um alibi para disfarçar o nosso fracasso na hora de nos mudarmos a nós mesmos, e que uma alta percentagem das acusações de desonestidade que fazemos aos outros não passe de um auto-engano para não nos olharmos no espelho da nossa própria desonestidade. Além disso a única maneira de mudarmos os que nos rodeiam é conseguir que a nossa mudança irradie. Um homem em paz consigo mesmo não precisa de falar de alegria, porque a revelará em todas as suas palavras. Um ser humano com verdadeira fé nas suas ideias pregá-las-á sem abrir os lábios, simplesmente vivendo.É claro que é óptimo que nos preocupemos com a transformação do mundo. Contanto que não seja uma desculpa para nos dispensarmos de cultivar o nosso próprio jardim. Porque no dia em que o nosso jardim melhorar, já o mundo terá começado a ser melhor.
In Razões para o amor
sábado, 2 de agosto de 2008
Só se vê e ouve bem com o coração!
Não faltam Bispos na Igreja, faltam sacerdotes e vocações sacerdotais. E falta-nos a todos tomarmos a sério um problema que não é principalmente nosso. Este combate não é teu mas meu, diz o Senhor. Por isso, temos de pedir ao Senhor da messe… Falta colocar as comunidades em estado de alerta para a missão e os missionários, consagrados ou leigos, no Japão ou no Bairro da Sé. Falta ajoelhar aos pés do sacrário em “Laus perene” permanente…
Diz Bento XVI: Rogai ao Senhor da messe! A messe existe…Deus necessita de homens, de pessoas que digam: Sim, eu estou disposto a ser trabalhador na messe. Não podemos simplesmente produzir vocações, elas devem vir de Deus. Nós devemos sacudir o coração de Deus para que Ele lance no coração que pede a faísca da alegria em Deus, da alegria pelo evangelho…
Temos a promessa: Dar-vos-ei pastores! E deu… e continua a dar. Mas parece que estão muitos olhos fechados à luz e muitos ouvidos surdos à voz de Deus. Só se vê e ouve bem com o coração!
Não faltam Leigos na Igreja, falta dar lugar aos leigos de modo suficiente, a tal ponto que sintam a responsabilidade não só de despertar todas as vocações mas também de se sentirem pastores da criação de Deus, como Adão e Eva no Paraíso, e membros vivos do Corpo de Cristo, a partir do baptismo.
A messe é grande! É o tempo da 5.ª evangelização da Europa. Diz o Cardeal argentino, Bergoglio:
"Os padres clericalizam os leigos e os leigos pedem-nos para serem clericalizados... É realmente uma cumplicidade pecadora! E pensarmos nós que o baptismo, apenas, poderia ser suficiente… Penso naquelas comunidades cristãs do Japão que ficaram sem sacerdotes por mais de duzentos anos. Quando os missionários voltaram, encontraram todos baptizados, todos validamente casados para a Igreja e todos os seus falecidos tinham tido um enterro católico. A fé permaneceu intacta…Não devemos ter medo de depender apenas da ternura de Deus!" (30 Dias, n.º 11, 2007, pág.17).
D. João Miranda, na celebração festiva que assinalou as Bodas de Prata da sua ordenação episcopal
Diz Bento XVI: Rogai ao Senhor da messe! A messe existe…Deus necessita de homens, de pessoas que digam: Sim, eu estou disposto a ser trabalhador na messe. Não podemos simplesmente produzir vocações, elas devem vir de Deus. Nós devemos sacudir o coração de Deus para que Ele lance no coração que pede a faísca da alegria em Deus, da alegria pelo evangelho…
Temos a promessa: Dar-vos-ei pastores! E deu… e continua a dar. Mas parece que estão muitos olhos fechados à luz e muitos ouvidos surdos à voz de Deus. Só se vê e ouve bem com o coração!
Não faltam Leigos na Igreja, falta dar lugar aos leigos de modo suficiente, a tal ponto que sintam a responsabilidade não só de despertar todas as vocações mas também de se sentirem pastores da criação de Deus, como Adão e Eva no Paraíso, e membros vivos do Corpo de Cristo, a partir do baptismo.
A messe é grande! É o tempo da 5.ª evangelização da Europa. Diz o Cardeal argentino, Bergoglio:
"Os padres clericalizam os leigos e os leigos pedem-nos para serem clericalizados... É realmente uma cumplicidade pecadora! E pensarmos nós que o baptismo, apenas, poderia ser suficiente… Penso naquelas comunidades cristãs do Japão que ficaram sem sacerdotes por mais de duzentos anos. Quando os missionários voltaram, encontraram todos baptizados, todos validamente casados para a Igreja e todos os seus falecidos tinham tido um enterro católico. A fé permaneceu intacta…Não devemos ter medo de depender apenas da ternura de Deus!" (30 Dias, n.º 11, 2007, pág.17).
D. João Miranda, na celebração festiva que assinalou as Bodas de Prata da sua ordenação episcopal
A importância do cafezinho
Dois leões fugiram do Jardim Zoológico.Na fuga, cada um tomou um rumo diferente. Um dos leões foi para as matas e o outro foi para o centro da cidade. Procuraram os leões por todo o lado, mas ninguém os encontrou.
Depois de um mês, para surpresa geral, o leão que voltou foi justamente o
que fugira para as matas. Voltou magro, faminto, alquebrado. Assim, o leão foi reconduzido a sua jaula.
Passaram-se oito meses e ninguém mais se lembrou do leão que fugira para o centro da cidade, quando um dia, o bicho foi recapturado. E voltou ao Jardim Zoológico gordo, sadio, vendendo saúde.
Mal ficaram juntos de novo, o leão que fugira para a floresta perguntou ao colega:
- Como é que conseguiste ficar na cidade esse tempo todo e ainda voltar com saúde? Eu, que fugi para para a mata, tive que voltar, porque quase não encontrava o que comer ... !!!
O outro leão então explicou:
- Enchi-me de coragem e fui esconder-me numa repartição pública. Cada dia comia um funcionário e ninguém dava por falta dele.
- E por que voltaste então para cá? Tinham acabado os funcionários?
- Nada disso. Funcionário público é coisa que nunca se acaba. É que eu cometi um erro gravíssimo. Tinha comido o director geral, dois superintendentes, cinco adjuntos, três coordenadores, dez assessores, doze chefes de secção, quinze chefes de divisão, várias secretárias, dezenas de funcionários e ninguém deu por falta deles! Mas, no dia em que eu comi o que servia o cafezinho...
Estraguei tudo!!!
(enviado por email)
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Só mesmo o Grande Papa João!
De pouco serviu que João XXIII estigmatizasse os profetas da desgraça. Desde então, têm-se multiplicado. No entanto as palavras do papa Roncaili aí estão, actuais e lucidíssimas:“Chegam-nos de quando em quando, no exercício quotidiano do nosso ministério, vozes que ofendem os nossos ouvidos, quando algumas pessoas, inflamadas, é certo, de zelo religioso, carecem de precisão no seu julgamento e na sua maneira de ver as coisas. Na situação actual da sociedade só vêem ruínas e calamidades. Têm o costume de dizer que a nossa época piorou profundamente em relação aos séculos passados, e conduzem-se como se a história, que é mestra da vida, nada nos tivesse ensinado... Parece-nos necessário expressar o nosso completo desacordo com tais profetas de desgraças que anunciam continuamente catástrofes, como se o fim do mundo estivesse ali ao virar da esquina”.
Para saber que no mundo há muitas coisas que não vão bem, não se precisam profetas: basta ter olhos. Para aceitar que um dia este mundo acabará e voltará o Senhor, não é preciso ser visionário; basta ter fé. Temos, porém, de falsificar muito o Evangelho para confundir o Senhor que vem, com o terror e o medo. É que Jesus não disse: “Tremei, que eu estou a chegar”, mas sim: “trabalhai enquanto eu não volto”. Por isso é que eu não tenho a mínima curiosidade de saber quando é que o mundo vai acabar. De momento, eu sei que o dia de hoje acabará dentro de algumas horas; que este ano encerrará a 31 de Dezembro; e que eu tenho obrigação de encher de amor essas poucas horas e esses poucos dias. Amanhã retomarei a tarefa de preencher as horas de amanhã, em 2009 — se esse ano vier e eu existir nele — procurarei fazer o meu melhor. Pouco me importa que só haja mais dois Papas, como diz o senhor Fontbrune do suposto São Malaquias. De momento, gosto do Papa que temos, e estou certo de que gostarei — se chegar a vê-lo — dos seus sucessores. Não me preocupam os profetas que anunciam a queda do sol. Por hoje tenho razões suficientes para dar graças a Deus por este sol tão bonito que hoje nos alumia.
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