Ao longo de décadas, as seguradoras gostam de falar de confiança, proximidade e proteção. Fazem campanhas emotivas, apresentam-se como parceiras para toda a vida e prometem estar presentes nos momentos mais difíceis. Mas a realidade de muitos clientes, sobretudo dos mais idosos, é bem diferente.
Durante décadas, um cliente paga os seus prémios, raramente dá despesa e contribui para os resultados da empresa. Porém, quando a idade avança e a necessidade de cuidados de saúde aumenta, o prémio sobe sucessivamente até atingir valores incomportáveis. O que era apresentado como uma rede de proteção transforma-se, na prática, num mecanismo de exclusão económica. Não é a seguradora que rescinde o contrato; limita-se a aumentar o preço até o cliente ser empurrado para fora do sistema.
A crueldade desta lógica está precisamente no momento em que ela se manifesta. Quando a pessoa é mais jovem e saudável, é um cliente desejado. Quando envelhece e mais precisa da cobertura pela qual pagou durante anos, passa a ser um custo a reduzir. O mercado chama-lhe gestão de risco. Muitos cidadãos chamam-lhe abandono.
Mais chocante ainda é a desatenção humana que frequentemente acompanha estas situações. Décadas de fidelidade podem terminar sem um telefonema, sem uma proposta alternativa, sem uma tentativa séria de encontrar uma solução. O cliente deixa de ser uma pessoa com uma história; passa a ser apenas um número numa folha de cálculo. A relação construída ao longo de décadas evapora-se no instante em que deixa de ser suficientemente rentável.
E o silêncio de muitos intermediários e responsáveis que, perante estas situações, se limitam a encolher os ombros e a dizer que “nada podem fazer”??? Curiosamente, são muitas vezes as mesmas vozes que, quando ocupam espaços de intervenção social, exigem respostas imediatas para os problemas da saúde, do envelhecimento e da solidão dos idosos. Nesses momentos, multiplicam-se as propostas, os discursos e as exigências. Mas quando vestem o fato empresarial, a indignação desaparece, substituída pela resignação perante as regras do mercado.
Esta dualidade é difícil de aceitar. Não se pode exigir responsabilidade social num contexto e invocar impotência noutro. Não se pode defender os idosos nos discursos e ignorá-los nas decisões que afetam diretamente a sua vida. A coerência mede-se precisamente quando os interesses económicos entram em conflito com os princípios proclamados.
O caso dos seguros de saúde para os mais velhos revela uma contradição profunda da nossa sociedade: fala-se muito de envelhecimento digno, mas aceita-se com demasiada facilidade que aqueles que contribuíram durante décadas sejam afastados dos sistemas de proteção exatamente quando deles mais necessitam. E o mais inquietante não é apenas a política das seguradoras. É o silêncio conformado de quem, noutras circunstâncias, faz da exigência e da denúncia uma bandeira permanente.
Porque há silêncios que dizem tanto quanto os discursos. E há omissões que revelam mais sobre os valores de uma pessoa ou de uma instituição do que todas as declarações de boas intenções.
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