terça-feira, 1 de julho de 2014

À procura de um político que não prometa milagres

Todos os políticos nos prometem crescimento - crescimento para não haver cortes, crescimento para pagar as dívidas. E se o tempo do crescimento económico sustentado tiver acabado?
Os economistas andam um bocado desorientados. Não falo dos economistas portugueses, mas dos que, à escala global, andam há anos a tentar dar resposta a um novo mistério: porque é que as economias desenvolvidas perderam a capacidade de gerar crescimento?
Pois é. O problema da falta de crescimento não é só de quem nos tem governado. Bem sei que Portugal tem um dos piores registos desde a viragem do século – em toda a Europa desde o ano 2000 só a Itália cresceu menos do que nós –, mas a verdade é que a persistência de ausência de crescimento é um problema de quase todas as economias desenvolvidas. Entre 2000 e 2013 – período que inclui a euforia pré-crise, os anos de recessão e a lenta recuperação que hoje vivemos – o crescimento médio nos países mais ricos foi historicamente baixo. Na Europa Ocidental, entre os países de dimensão razoável, só dois – a Suécia e a Irlanda – cresceram a um ritmo superior a 2% ao ano. O que significa que praticamente nenhum cresceu o suficiente para conseguir continuar a pagar o seu estado social e, ao mesmo tempo, controlar o seu endividamento.
Não se cresce porque a procura é fraca? Porque a desigualdade é demasiado grande? Porque a China se tornou na fábrica do mundo? Porque se está a perder a capacidade inovar tecnologicamente? Porque as nossas infraestruturas estão deterioradas? Tem havido explicações para todos os gostos. Recentemente até se sugeriu, num artigo no New York Times, qua a ausência de crescimento também pode dever-se à ausência de guerras importantes, um argumento perturbador mas bem documentado.
Em Portugal, como é sabido, o debate é um bocado mais pobre e tem por vezes componentes quase mágicas: bastaria mudar os protagonistas políticos e, de repente, a riqueza brotaria do nosso esquálido país. Sabemos que não é assim. Sabemos sobretudo que não será com as políticas que nos levaram a esta longa estagnação – muita obra pública, muita regulamentação, muita protecção das grandes empresas do regime, muitos e muitos impostos – que poderemos ter no futuro aquele mínimo de crescimento que não tivemos no passado recente.
Na verdade um dos problemas desta discussão – da discussão política e também da discussão entre economistas – é que ela não assume uma realidade simples: o mundo mudou e será muito difícil repetir no futuro fórmulas que tiveram sucesso no passado.
Há um ponto em que António Costa tem insistido nos seus discursos que é lamentar o facto de Portugal ter sofrido muito com o processo de globalização, sobretudo por estar preso a uma moeda, o euro, que não lhe permitia adaptar as suas taxas de câmbio. Não deixa de ser verdade, mas como não se propõe nem a saída do euro, nem o encerramento das fronteiras – duas medidas que nos deixariam em muito pior estado –, sugere-se que com muito apoio público e com muita aposta na educação daqui por uma década seremos por fim competitivos. Até lá, acrescenta-se, deixem-nos em paz com as nossas dívidas – melhor, deixem-nos continuar a aumentar o nosso grau de endividamento.
O discurso da actual maioria é diferente mas, de alguma forma, também está preso à mesma lógica que exige doses generosas de crescimento. Para cumprir o Pacto Orçamental, por exemplo, os documentos de estratégia orçamental do governo baseiam-se sempre em projecções de crescimento sustentado que não ocorreram em nenhuma das economias desenvolvidas na última década e meia. Não é não terem ocorrido em Portugal – é não terem ocorrido nas economias que mais parecidas com a nossa.
O discurso e as propostas políticas, tanto à esquerda como à direita, têm por isso de mudar. É necessário assumir que estamos a entrar num tempo novo, de ritmos de crescimento mais baixos, logo de expectativas muito menores. E que estamos num mundo onde o que acontece na nossa economia já não depende apenas de nós e das nossas reformas, pois é um mundo globalizado e muito competitivo.
Dois séculos de crescimento económico sem precedentes, e duas gerações de progresso sem paralelo num tempo com muito menos guerras do que no passado (por volta de 1950, todas as guerras do mundo cobravam em média 20 vidas por cada 100 mil habitantes do planeta, hoje cobram apenas 0,3), criaram sociedades e costumes políticos que têm de ser repensados. Em Portugal, na Europa, nos Estados Unidos.
Os momentos de ruptura, de mudança de ciclo, são sempre muito difíceis. Basta pensarmos no seguinte: há apenas 10 anos Tony Blair apresentava como um sonho a cumprir conseguir que a esmagadora maioria dos jovens ingleses completassem uma formação superior. Um sonho bonito, que todas as almas generosas se apressam a subscrever. Mas hoje olhamos à nossa volta e o que vemos a desenvolver-se são sociedades onde, a par com empregos cada vez mais qualificados e mais exigentes, há também um número cada vez maior de pequenos empregos nos serviços, sem especial qualificação, mas também sem expectativa que um dia venham a desaparecer, eventualmente substituídos por robots. Os rapazinhos das pizzas e as rapariguinhas dos shoppings não vão desaparecer das nossas paisagens urbanas.
Este é apenas um micro-exemplo de uma realidade muito mais complexa. Em todo o mundo ocidental há uma tendência, irreversível, para aumentarem os custos do estado social ao mesmo tempo que diminui o número de contribuintes e já não há crescimento económico para ir tapando o buraco. Ao mesmo tempo, no resto do planeta, legiões de pobres estão a desafiar a velha supremacia do Ocidente, dispostos a esforçarem-se o que um trabalhador europeu hoje já não quer esforçar-se. Não havendo forma de reverter estas tendências, é a política que tem de se adaptar a estes tempos novos.
Nas próximas décadas vamos continuar a aceder a cada vez mais bens de consumo porque a inovação e a tecnologia torná-los-ão cada vez mais acessíveis. Porém, ao mesmo tempo, é bem possível que o número de euros nas nossas folhas de vencimento estagne ou mesmo diminue. É isso a austeridade dos mil anos, como um dia já escrevi? Não sei, pois dependerá muito da forma como encararmos mudanças inevitáveis que aí vêm e a correspondente forte diminuição das expectativas.
Portugal tem obrigação de criar condições para ter o crescimento que não conhece, de forma sustentada, desde a viragem do século. Há imenso para discutir sobre a forma de lá chegar – se com mais Estado, se com menos Estado, se com menos impostos, se com mais consumo público. Mas isso é muito diferente de fazer crer aos eleitores que há por aí uma riqueza escondida que, no limite, evitará todos os cortes e contornará todos os sacrifícios. Esse mundo já não existe e quem explora essa ilusão só torna o nosso futuro ainda mais difícil. Pior: alimenta desilusões futuras e possíveis revoltas, perigosas e imprevisíveis.
José Manuel Fernandes , aqui

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