terça-feira, 29 de setembro de 2026

Região do Douro. Só tem margem norte???


O bispo de Vila Real lembrou a “difícil situação das pessoas que se dedicam à atividade da vinha e do vinho”, e os migrantes que trabalham nesta região do Douro, na Missa da Festa das Vindimas, na Régua.
“A Festa deste dia não nos pode fazer esquecer a difícil situação das pessoas da região que se dedicam à atividade da vinha e do vinho. De facto, há muitos que se debatem com grandes dificuldades e que cedem ao desânimo. Esta situação que se vem arrastando ao longo dos anos exige que todos os diretamente envolvidos busquem em conjunto os melhores caminhos”, disse D. António Augusto Azevedo, este domingo, dia 27 de setembro, no Museu do Douro, na Régua.
Na Festa das Vindimas 2026, momento solene de ação de graças a Deus no Peso da Régua, o bispo de Vila Real partilhou “gratidão e profunda admiração” por todas as pessoas que, ao longo de uma vida, “sempre se dedicaram ao Douro e à vinha”, o “trabalho é duro mas muito digno”.

A nossa Igreja está verdadeiramente no meio da vida das pessoas ou está cada vez mais fechada sobre si própria?


Há uma Igreja na margem norte do Douro que parece ter olhos para a vida concreta das pessoas.

Na Festa das Vindimas, na Régua, o bispo de Vila Real falou da vinha, do vinho, da dureza do trabalho, das dificuldades de quem vive desta atividade e também dos migrantes que aqui trabalham. Agradeceu, reconheceu, mas também denunciou. Falou de pessoas concretas, de problemas concretos, de uma situação que se arrasta há anos. E pediu que todos os diretamente envolvidos procurem, em conjunto, os melhores caminhos.

É uma Igreja que não se limita a rezar sobre o Douro: olha para o Douro, escuta o Douro e fala do Douro. Uma Igreja que agradece, anuncia, mas também denuncia. Que pede intervenção quando a vida das pessoas assim o exige.

E depois atravessamos o rio.

Na margem sul, às vezes parece que vivemos noutro Douro. Indiferentes ao mundo, continuamos a coçar para dentro: os nossos retiros, as nossas recoleções, as nossas assembleias, os nossos jubileus, as nossas reuniões, as nossas preocupações internas.

Uma Igreja que só coça para dentro acaba por se tornar autófaga. Alimenta-se de si própria, fala consigo própria e corre o risco de deixar de ouvir a vida que acontece à sua volta.

Mas o Douro não acaba na margem norte.

Também deste lado há gente envelhecida, há isolamento, há solidão, há pobreza, há agricultores e trabalhadores com dificuldades, há jovens que partem, há comunidades que definham. Há muita vida calejada. E há pessoas que não têm vez nem voz.

Onde está a Igreja que lhes dá vez? Onde está a Igreja que empresta a sua voz a quem não a consegue fazer ouvir?

Não se trata de comparar dioceses nem de distribuir culpas. Trata-se de fazer uma pergunta simples e incómoda:

A nossa Igreja está verdadeiramente no meio da vida das pessoas ou está cada vez mais fechada sobre si própria?

O Douro tem duas margens.

E uma Igreja que queira ser presença, palavra e profecia não pode escolher apenas uma delas.

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