domingo, 28 de setembro de 2014

Maria fala-nos de um Deus que nunca deixa de ser o que é: misericordioso, sensível ao sofrimento e à injustiça



 
Deus não é um polícia a escrutinar os nossos erros. Deus é o Pai que se alegra com o nosso bem. Deus é mise­ricórdia. A maior festa não é quando se dá o encontro. É quando ocorre o reencontro após o desencontro.

Porque é que, ainda hoje, continua a prevalecer a lin­guagem do castigo sobre a cultura da bondade, da compai­xão e do amor? A misericórdia está no coração de Deus e, por isso, no centro da mensagem de seu Filho Jesus. Per­tencer à Igreja só faz sentido a partir de um deliberado compromisso com a compaixão, o amor e o perdão.

A santidade de Deus não o torna distante. A sua trans­cendência não contende com a sua imanência. Como re­conhecia Xavier Zubiri, Deus não é transcendente ao mundo, é transcendente no mundo. Por isso, Ele não se de­sinteressa da vida do seu povo. Pelo contrário, está no meio dele e oferece-lhe um suplemento de esperança e de ânimo. Crer em Deus santo - nota Alejandro Martínez - significa «crer em Deus transcendente e imanente, longínquo e pró­ximo, que estimula a confiança das pessoas».

A Igreja acolhe, de Maria, a capacidade para perceber que Deus intervém na história para salvar, para libertar. Não estamos, pois, diante de um Deus a-pático, mas de um Deus supremamente sim-pático. É um Deus que sente o sofrimento do povo. É um Deus compassivo e, nessa me­dida, misericordioso. Ou seja - e tal como decorre da eti­mologia -, tem o seu coração voltado para a miséria da humanidade.

É uma misericórdia inexaurível, que se estende de geração em geração (cf. Lc 1,50). De resto, já no Antigo Testamento se sabia que «a graça do Senhor permanece para sempre» (Sl 103,17). A chamada parábola do filho pródigo (cf. Lc 15,11-32) ilustra belamente a natureza di­vina. Deus acolhe não porque nós mereçamos, mas porque é Deus, isto é, bondoso, magnânimo.

A salvação não é reclamação humana. Ela tem origem no coração de Deus. O seu amor jamais se afasta do povo, por muito que este recalcitre e se revolte (cf. Is 54,10). Esta fidelidade ecoa no final do Magnificat: "Acolheu Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia» (Lc 1,54).

Maria fala-nos de um Deus que nunca deixa de ser o que é: misericordioso, sensível ao sofrimento e à injustiça. A Igreja nunca pode transigir neste preceito. Se nela falta a misericórdia, mesmo que resplandeça em tudo o resto, falha no essencial.

Só através da misericórdia, ela será capaz de correspon­der à sua natureza e à sua missão: constituir a transparên­cia de Deus no mundo!
Fonte: "Fazei o que Ele vos disser", de João António Teixeira

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