quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O DIA EM QUE O MUNDO ACORDOU

1. Não foi a 11 de Setembro que o mundo mudou. Mas foi a 11 de Setembro que o mundo acordou para a mudança. Aqueles trágicos estrondos funcionaram como detonadores da presença de uma nova realidade.
E foi assim que tomámos consciência de que entrámos não apenas num outro tempo, mas também num outro mundo.

2. A despesa da guerra contra o terrorismo arruinou os Estados Unidos. E a vontade de justiça depressa degenerou em sede de vingança. Os ofendidos acabaram por reproduzir o comportamento dos ofensores.
À falência económica somou-se, pois, a decadência moral. Resultado: a resposta à violência consistiu num acréscimo de violência e num decréscimo da segurança. Não estávamos seguros em 2001. Estaremos mais seguros hoje?

3. A mudança para a qual o mundo acordou pode ser sinalizada na queda do Muro de Berlim e naquilo que ela significou. O adversário deixou de ser visível e localizado. Passou a ser ignoto e a estar em parte incerta, ou seja, em toda a parte.
Esta situação é mais perigosa. O risco já não vem de um estado, nem de um exército. Em último caso, vem do coração humano.
Uma única pessoa pode destruir a humanidade.

4. Uma das (muitas) coisas que o 11 de Setembro inaugurou foi uma percepção terrível. O terrorismo é como a morte: acaba sempre por acontecer. Só não sabemos quando.
Daí que o pessimismo aparente ser mais inteligente que o optimismo. Leva-nos a contar com o pior e a tentar retardar os factos. Mas estes, de uma forma ou de outra, acabarão por sobrevir.

5. Neste momento, mesmo quando não há combates, o mundo sente-se em guerra. Mesmo quando não existem ataques, a humanidade sente-se na necessidade de se defender.
Até 2001, sabia-se onde morava o inimigo. Agora, não sabemos onde ele se encontra. Nem o lugar do próximo atentado. Nem qual é o seu alvo. Que, aliás, pode ser qualquer um de nós.

6. O terrorismo global inaugurou uma era paradoxal. Qualquer atentado pode ser visto em directo.
Os seus autores é que permanecem invisíveis. Outrora, anunciava-se o início dos combates. Hoje, os atentados só são conhecidos depois de ocorrerem e de terem contabilizado muitas vítimas.

7. Ninguém diga, por isso, que estava preparado ou que tinha soluções para estes problemas. O que veio depois do 11 de Setembro atesta que, por vezes, as soluções agravam os próprios problemas.
Quando se fala da necessidade de fazer justiça, na prática o que se pretende é imitar quem comete a injustiça. Acha-se que, respondendo ao mal com o mal, a justiça fica reposta. Mas, na verdade, é somente a violência que cresce.

8. A violência só desaparecerá com a introdução de uma cultura da não-violência.
Jesus foi, por vezes, mal recebido em certas terras. Nessa altura, não litigava. Ia para outro lugar. Gandhi, que muito admirava Jesus, recomenda o mesmo: seguir em frente.

9. Os séculos, aprendemos com Eric Hobsbawn, não se contam apenas por datas. Contam-se sobretudo pelos acontecimentos que os balizam. O século XX terminou, em 1989, com o desmoronamento daquilo que o tinha iniciado em 1917: a Revolução Russa.

10. O século XXI terá começado em 2001. Nele, as guerras já não opõem apenas povos. As guerras podem ser de uma pessoa ou de um grupo contra a humanidade inteira.
Entraremos no século XXII quando a civilização vencer a barbárie. Bastarão cem anos para lá chegarmos?
In http://theosfera.blogs.sapo.pt
/

Sem comentários: