quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

BATISMO, O MAGNÍFICO TEATRO ONDE A ÁGUA LAVA A COERÊNCIA

 
Dia do Batismo do Senhor, tão diferente do batismo moderno, o magnífico espetáculo de ilusionismo espiritual onde, num passe de mágica e com meia dúzia de gotas de água, transformamos pequenos pagãos em "cristãos de bancada" sem que ninguém tenha de mexer um dedo.

É comovente ver o empenho das famílias. No início da Igreja, o Batismo era o culminar de uma conversão profunda, uma decisão consciente. Que chatice, não é? Hoje, somos muito mais práticos: despachamos o assunto mal a criança solta o primeiro gemido, garantindo que entre no grémio cristão sem o incómodo de ter de saber quem é Jesus Cristo. Afinal, para quê uma "decisão pessoal" quando podemos ter uma festa, matizada por arranjos florais, com catering e fotografias para as redes sociais?
E os protagonistas deste teatro? Os pais, esses baluartes da fé que não põem os pés numa igreja desde o seu próprio batismo (ou talvez desde o casamento, pelo cenário), apresentam-se agora com uma autoridade moral invejável para exigir o sacramento. Ao lado, os padrinhos: esses "fiadores rotos" que, em termos de vida espiritual, estão mais próximos de um manual de instruções de um frigorífico do que do Evangelho. São escolhidos a dedo, não pela idoneidade da fé — que isso dá muito trabalho — mas pelo grau de amizade, pela influência social ou, quem sabe, pela qualidade do presente que vão dar.
Realmente, que ideia mais descabida essa de sugerir que o Batismo deveria ser o início de uma caminhada consciente! Onde é que já se viu exigir "maturidade" ou "ratificação" quando temos algo muito mais sagrado em jogo: o álbum de fotografias e o banquete num quinta com vista para o mar? Para quê esperar pela idade adulta — essa fase incómoda onde as pessoas têm a mania de fazer perguntas e querer compreender o que professam — se podemos resolver o assunto enquanto o "fiel" ainda não tem dentes e a sua única preocupação teológica é a temperatura do leite? É a eficiência máxima da burocracia espiritual: carimbamos a alma da criança, guardamos o certificado na gaveta junto às faturas do condomínio e, pronto, "está despachada".
É, de facto, uma encenação de mestre. O padre, com uma paciência de santo (ou esfregando as mãos pela recompensa generosa) finge que está a recrutar um novo soldado para o exército de Cristo, enquanto os pais tentam desesperadamente que a criança não chore para não estragar o vídeo do TikTok. Os padrinhos, esses pilares da moralidade que não veem o interior de uma igreja desde o seu próprio "carimbo" obrigatório, prometem solenemente guiar o afilhado nos caminhos do Senhor — um caminho que eles próprios não encontrariam nem com o Google Maps.
O melhor de tudo é mesmo o papel do padre minimamente sério... Coitado do pároco que se atreva a sugerir que, talvez, fosse bom haver um pingo de coerência ou uma réstia de vida cristã naquela casa. "Como ousa?", gritam os ofendidos. "A criança não tem culpa!". É o argumento matador, a blindagem perfeita para qualquer hipocrisia. Usa-se a inocência da criança como escudo humano para proteger a vacuidade espiritual dos adultos.
O que importa é que o ritual cumpriu a sua função social. Batizámos o vazio com pompa e circunstância. Celebrámos a entrada triunfal numa instituição cujos dogmas os pais ignoram e cujos valores os padrinhos consideram "passados de moda". Mas não sejamos puristas! A teologia pode ser nula, mas a amêndoa era de qualidade e o fato de renda era uma relíquia. No final do dia, a criança, coitadinha, já tem o passaporte para o céu (ou pelo menos para a aceitação social da família), e nós podemos voltar à nossa vida perfeitamente pagã, descansados por saber que, entre um croquete e um cálice de vinho do Porto, salvámos mais uma alma sem o incómodo de ter de acreditar em nada.
(P. António Magalhães Sousa, Facebook)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

“Entre a Vida e a Espera: A Crise Normalizada da Saúde em Portugal”

 A situação da saúde em Portugal tornou-se um espelho desconfortável das fragilidades estruturais do Estado e da dificuldade em transformar direitos formais em direitos reais. O Serviço Nacional de Saúde (SNS), concebido como um dos pilares da democracia portuguesa, continua a ser amplamente valorizado pela população. No entanto, os episódios que se acumulam — alguns quase inacreditáveis — revelam um sistema sob forte tensão, onde a exceção começa perigosamente a confundir-se com a regra.

Casos de cidadãos convocados para intervenções cirúrgicas depois de já terem falecido não são apenas falhas administrativas isoladas; são sinais de um sistema desarticulado, onde a informação não circula de forma eficaz e onde a gestão parece incapaz de acompanhar a realidade clínica e humana. Estes episódios, além de chocantes, revelam uma desumanização involuntária: o doente transforma-se num número, num processo atrasado numa base de dados que ninguém atualizou a tempo.

Ainda mais inquietante é a normalização de situações que deveriam ser absolutamente excecionais. Estradas transformadas em salas de parto improvisadas e ambulâncias a funcionar como maternidades revelam não apenas falta de recursos, mas falhas graves de planeamento e resposta. O problema não é apenas a inexistência de serviços em determinados territórios, mas a incapacidade de garantir que eles funcionem quando são mais necessários. Quando uma grávida entra em trabalho de parto, o tempo não é negociável — e o Estado deveria saber disso melhor do que ninguém.

A atuação do INEM, frequentemente apontada como salvadora em momentos críticos, também tem sido marcada por atrasos dramáticos. Pessoas que morrem à espera de socorro levantam questões difíceis, mas inevitáveis: faltam meios, faltam profissionais, faltam condições de trabalho — ou falta coordenação eficaz entre todos estes fatores? Qualquer que seja a resposta, o resultado final é o mesmo: vidas perdidas onde deveria ter havido resposta rápida e eficaz.

Nos serviços de urgência, o cenário repete-se com outras formas de sofrimento. Esperas de horas intermináveis, doentes em macas nos corredores, profissionais exaustos e cidadãos que deixam de saber se devem insistir ou desistir. A urgência, em muitos casos, deixou de ser sinónimo de rapidez e passou a ser apenas o último recurso de quem não encontra resposta noutro ponto do sistema.

Paralelamente, cresce o número de pessoas sem médico de família, fragilizando a base do SNS: os cuidados de saúde primários. Sem acompanhamento regular, a prevenção falha, as doenças agravam-se e a pressão sobre os hospitais aumenta. Trata-se de um círculo vicioso que penaliza sobretudo os mais vulneráveis, aqueles que não têm alternativas fora do sistema público.

Neste contexto, a medicina privada surge como uma solução para quem pode pagar, mas também como um sintoma de desigualdade crescente. O acesso à saúde começa a depender cada vez mais da carteira e menos da cidadania. Não se trata de demonizar o setor privado, mas de reconhecer que a sua expansão descontrolada pode transformar um direito universal num privilégio progressivo.

A expansão da medicina privada em Portugal não pode ser analisada apenas como resposta à falência do sistema público. Em muitos casos, ela alimenta-se ativamente dessa falência. O sofrimento, a angústia e o medo tornam-se oportunidades de negócio, exploradas através de preços incomportáveis, seguros cada vez mais seletivos e práticas que transformam a necessidade em urgência paga. Quando alguém recorre ao privado não por escolha, mas por desespero, já não estamos perante mercado livre — estamos perante aproveitamento. Há aqui uma lógica de lucro que prospera sobre a incapacidade do Estado em garantir cuidados atempados, criando uma saúde a duas velocidades onde quem pode paga e quem não pode espera, adoece ou morre. Chamar-lhe apenas “alternativa” é insuficiente; em muitos casos, trata-se de um negócio construído sobre a fragilidade alheia.

Nada disto invalida o esforço diário de milhares de profissionais de saúde que continuam a sustentar o sistema com competência e dedicação. O problema não reside neles, mas nas opções políticas, na gestão de recursos e na falta de uma visão estratégica de longo prazo. A saúde não pode ser tratada como um custo a conter, mas como um investimento essencial numa sociedade justa e funcional.

Em suma, a situação da saúde em Portugal exige mais do que indignação episódica. Exige diagnóstico sério, responsabilidade política e compromisso com soluções estruturais. Porque quando um sistema de saúde falha, não falha apenas um serviço público — falha um contrato social inteiro.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O cumprimento perdido

Antigamente, sair à rua era um desfile de “bons dias”, “boas tardes” e acenos de cabeça. Hoje, muitas vezes, é um desfile de auscultadores. A gente nova passa por nós de olhos colados ao chão, ao telemóvel ou ao amigo do lado, como se o resto do mundo estivesse em modo silencioso. Não saúdam, não respondem, não veem. E não, não é timidez: é falta de educação.
Cumprimentar não custa dinheiro, não gasta bateria e não provoca efeitos secundários. É um gesto simples, quase automático, que reconhece o outro como pessoa. Ignorar quem se conhece não é modernidade, nem pressa, nem “coisa da idade”. É má educação, dita sem rodeios.
E convém lembrar: isto não se aprende na escola. Aprende-se em casa. Aprende-se com os pais, com os avós, com o exemplo diário de quem diz “bom dia” ao vizinho e “obrigado” a quem ajuda. A escola ensina muita coisa importante, mas não pode ensinar tudo — muito menos aquilo que devia vir de berço.
Talvez esteja na hora de tirar um auricular, levantar os olhos e recuperar um velho hábito. Um simples “olá” ainda faz milagres.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Gostamos muito de ti, Daniela!!!

 "Há quem parta, ficando"

A Daniela Félix, a amiga Daniela, partiu para os braços do Pai.
A Capela dos Esporões recebeu, na noite de 23 de dezembro, o velório desta amiga. Na tarde de amanhã, será aí celebrada a Missa de sufrágio.
Confesso que me está a custar imenso. O velório exigiu-me um enorme esforço e, mesmo assim, não consegui, aqui e ali, controlar a emoção. Ser Pároco não nos dispensa de emoções advinda das grandes amizades...
Nesta grande amiga, tocava-me a determinação com que se entrega às causas, a amizade que cultivava com enorme delicadeza, a sua reguilice que me punha sempre bem-disposto, a preocupação com os outros, a maneira fina como ultrapassava situações de ingratidão que a vida sempre semeia, a disponibilidade para ajudar, colaborar, lutar.
Quando lhe pedi algum trabalho ou ela soube que eu podia precisar da sua ajuda, aparecia, empenhava-se, dizia sim. Era observadora e decidida.
Desde sempre me habituei a que a casa de sua sogra fosse a minha Betânia. Felizmente tenho outras. Ela aparecia sempre, colaborando, ouvindo, preocupando-se, alegrando...
A família de Betânia - Lázaro, Maria e Marta - era muito amiga de Jesus. Àquela casa e àquela família ia Jesus para descansar, repousar, dialogar, desabafar, partilhar o pão do corpo e da amizade.
A Daniela gostava de participar, de colaborar, ajudar. Mesmo doente, ainda este ano fez parte do grupo de mordomos da Festa dos Esporões. Então a Santa Helena enchia-lhe a alma e a ação. Trabalhava, cativava, motivava, envolvia-se e envolvia os outros.
Obrigado, amiga! Por tudo e por tanto. Não te esqueceremos. Descansa nos Braços de Deus e coloca no Coração do Pai a tua filha, o teu marido, o teu pai, sogra, irmãos, cunhados, sobrinhos, familiares e amigos, teu Pároco, tua paróquia e toda a gente.
Como Jesus diante do amigo Lázaro morto, também as lágrimas nos caem. Mas as lágrimas da dor não ofuscarão o clarão da Luz do Amor de Deus.
Jesus Cristo vive e tu viverás com Ele e n'Ele!
Senhor, Hoje e sempre a nossa oração pela Daniela e por todos os que partiram para Ti!
Gostamos muito de ti, Daniela!!!

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Há muito tempo que é isto que sinto, penso e desejo...

 
Algumas notas de um Papa atento:

1. Neste sentido, a coordenação entre o Dicastério para os Bispos e a Nunciatura Apostólica, em vista de uma corresponsabilidade comum, deve poder promover uma maior participação das pessoas na consulta para a nomeação de novos Bispos, além da escuta dos Ordinários efetivos nas Igrejas locais e daqueles que estão prestes a concluir o seu serviço.
2. Também sobre este último aspeto, permiti que vos ofereça algumas indicações. Uma Igreja sinodal, que caminha no sulco da história, enfrentando os desafios emergentes da evangelização, deve renovar-se constantemente.
É preciso evitar que, apesar das boas intenções, a inércia atrase as mudanças necessárias.
3. A este propósito, todos nós devemos cultivar a atitude interior que o Papa Francisco definiu como “aprender a despedir-se”, uma atitude preciosa quando nos preparamos para deixar o cargo.
É bom que se respeite a norma dos 75 anos para a conclusão do serviço dos Ordinários nas dioceses e, apenas no caso dos Cardeais, poderá avaliar-se a continuação do ministério, eventualmente por mais dois anos".
Papa Leão XIV
Nota: aplicar aos padres a mesma medida. Sem responsabilidades pastorais, a partir dos 75. Em vez de 75+2, antecipar para os 70.
Amaro Gonçalo Ferreira Lopes, Facebook

(Os sublinhados são da responsabilidade do Asas da Montanha)

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

“Quando Deus Nos Junta Outra Vez”

Houve um tempo — e não foi pouco — em que a vida parecia sempre a abrir portas.
Mondim da Beira, Salzedas… e nós ali, quatro padres ainda a aprender a ser homens feitos,
a rir de coisas sérias e a discutir coisas pequenas,
a partilhar pão, cansaços, sonhos, dúvidas, esperanças.
Ramos, Matias, Guedes…
Como éramos diferentes — e como encaixávamos bem.
Houve dias de festa, daqueles em que Deus parece descer pela serra abaixo
para se sentar connosco à mesa.
Houve também choques, teimosias, divergências —
mas até isso era amizade.
Era vida a sério.
E hoje, quando penso em cada um deles,
não vejo túmulos.
Vejo rostos.
Risos.
Conversas interrompidas.
E a promessa — tão clara como o ar da manhã —
de que a morte não fechou nada: apenas abriu o Céu.
Porque acredito — e não é frase bonita, é certeza funda —
que os três já estão naquela grande festa de Deus,
onde tudo o que vivemos encontra sentido,
onde tudo o que ficou por dizer já está dito,
onde tudo o que não entendemos já está claro como água.
E eu fico aqui, Carlos, com saudade —
mas uma saudade boa, que não paralisa,
que apenas aquece o coração.
Porque sei que voltaremos a rir juntos,
como nos dias em que corríamos de paróquia em paróquia
cheios de pressa e cheios de vida.
A morte deles não me afasta:
puxa-me para diante, para a tal mesa aberta
onde Deus acolhe os que chegam e espera pelos que ainda caminham.
E um dia — não sei quando —
haverá reencontro.
Sem horários, sem pressas, sem despedidas.
Só festa.
Daquela que começa em Deus
e nunca mais acaba.
Carlos Lopes

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Ser padre ainda se recomenda?

É complicado falar dos Seminários, da vocação sacerdotal, nas nossas assembleias dominicais. A maioria são mulheres e, portanto, são, infelizmente, uma espécie de “carta fora do baralho” e as que são “mães” não estão muito interessadas em «alienar» o filho único; as que encontram um rapaz à medida, não o querem perder. A maioria dos fiéis são «idosos» e, portanto, «fora do prazo de validade», a quem se pede pouco mais do que rezar e contribuir com alguma ajuda financeira para os seminários.
As mensagens destes dias são, por regra, dirigidas a crianças, adolescentes e jovens, os quais, mesmo se comprometidos na vida comunitária, em muitos casos, não estão «nem aí». Até valorizam a missão do padre, mas acham que é muito bonita, mas é para os outros!
Eu penso muitas vezes que os potenciais “vocacionados” poderiam estar entre alguns adultos, cuja vida cristã já provada e acrisolada pela dureza da vida, recomendaria uma «chamada» da Igreja, dentro da chamamento batismal, matrimonial e até diaconal. Mas não sei porquê, continuamos a «fazer de conta» que isto de ser «presbítero» (literalmente, «o mais velho») é para os mais novos. E, enquanto não se reforçam os «quadros de pessoal», agrupam-se seminários para ter uma comunidade educativa significativa, multiplicam-se as responsabilidades dos padres em exercício, até à exaustão e à tentação de que, havendo tanto a fazer, se acabar por não fazer nada de jeito. Com a “correria” da vida sacerdotal, até os nossos mais próximos e familiares, que nos acompanham e estimam, acham que isto não é «profissão saudável» (cito!).
Pessoalmente, faço tudo por tudo, faço tudo o que posso, para mostrar a beleza e a felicidade da vida sacerdotal – e faço-o com autenticidade e não por pressão do mercado – mas percebo que, sob várias perspetivas, o meu estilo de vida presbiteral parece, cada vez mais, não apenas socialmente desinteressante, como evangelicamente pouco atraente. Que Deus me perdoe!
Diz-se, por aí e por muitos lados, que esta crise de resposta à vocação sacerdotal é uma crise de fé e de generosidade, crise demográfica e crise de compromisso. Mas se é uma crise de fé: de que fé, da fé de quem? Da fé de alguns cristãos, que vivem um cristianismo mediano ou medíocre, alérgico à radicalidade evangélica e ao compromisso? Talvez, sim. Mas não será também esta resultante de uma crise de fé da própria Igreja, que não consegue ler e ver os sinais, discernir e decidir, abrindo caminhos com futuro, em vez de teimar, por exemplo, associar ao sacerdócio ministerial, o celibato, que afinal é e sempre foi “mais da conveniência do que da essência” do ministério presbiteral?! Estamos ainda prisioneiros de uma visão puritana da sexualidade, que quer preservar e separar o presbítero de uma “impureza” que para outros é virtude? A quem queremos convencer hoje de que o mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas e de dar a Cristo o primeiro lugar, é exclusivo de uma vida consagrada e não é para todos os batizados?
Há tanto para pensarmos juntos, sem ilusões, sem remédios fáceis. Mas andamos a adiar a escolha de outros caminhos, quando os que mantemos parecem conduzir-nos a um beco sem saída.
Sei que me vejo a chegar à casa dos 60 anos (daqui a três meses) e diante de um cenário, em que parece já darmos por perdida a batalha e a certeza de que, pouco a pouco, as comunidades irão ser mais pequenas, mais reduzidas, desacompanhadas, obrigadas a deslocar-se para algum «centro maior». Irá diminuir a frequência dos sacramentos. E, por isso, nada de afligir. Falta discernir se é o Espírito Santo, que quer mesmo menos padres para uma Igreja que seja mais de todos, verdadeiramente «popular», ou se quer outros padres, ou se quer ambas as coisas, ou se quer outra coisa?! Não sei. Na verdade, “ninguém pense ter todas as respostas. Cada um partilhe com abertura o que tem. Todos acolham com fé o que o Senhor inspira” (Leão XIV, Homilia, 1.09.2025).
Disse o nosso Bispo do Porto em Fátima: “Julgo que está na hora de convocar um Sínodo Diocesano como uma dimensão pastoral global, sem desprezar a própria assistência e guia futura das comunidades. Não tenhamos dúvida: dentro de uma década, o clero diocesano baixará imensamente. Como assegurar os sacramentos, a organização das comunidades e a atividade sócio caritativa representada, por exemplo, pelos Centros Sociais Paroquiais? Esta é uma urgência. Não para amanhã; era já para ontem”.
Um sínodo diocesano é muito bem-vindo para agitar consciências, para envolver a todos, para agilizar processos de escuta e de partilha, para despertar outros dinamismos de corresponsabilidade pastoral, para abrir novos caminhos e fronteiras de missão, para procurar respostas à altura do presente e do futuro. Venha ele, mesmo sabendo nós que não terá a força de mudar a disciplina da Igreja universal sobre o perfil e a formação dos presbíteros. Mas pode ser uma voz forte. Que a voz sinodal do Porto se una a todas as outras vozes da Igreja em Portugal e no mundo, até que um coro universal possa fazer-se ouvir e afinar, desde Roma, critérios para uma vida sacerdotal que Deus recomende!
Amaro Gonçalo, Facebook

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

A gratidão é a memória do coração

Nesta Semana dos Seminários, deixo a minha gratidão a todos os sacerdotes que me ajudaram a caminhar humana, cristã e vocacionalmente.
Se com todos aprendi, alguns marcaram-me de forma indelével pela sabedoria, pela bondade, pelo acolhimento, pela forma como souberam estar em períodos mais conturbados.
Monsenhor Carlos Resende. Meu Reitor e professor. Ressoava bondade por todos os poros. A sua pessoa era um belo poema à bondade. Monsenhor certamente sorrirá no Céu ao recordar tantos momentos bonitos que o P.e Armindo e eu vivemos com ele. Qual avozito bondoso para com os netitos reguilas que o admiravam e estimavam profundamente. Obrigado, senhor Reitor.
Monsenhor Simão Botelho. Este portista confessso foi meu vice-reitor e professor. Com ele vivenciei que viver é servir. Num tempo em que a casa estava cheia, o cónego Simão estava de serviço 24 horas por dia para cada seminarista. Foi fundamental na minha caminhada vocacional. Muito obrigado.
P.e João Mendes. Durante mais de 50 anos, pároco da minha terra natal. Foi quem me mandou para o Seminário. A sua casa era a minha casa. Sempre me entusiasmou e confiou em mim. Obrigado, senhor abade.
Monsenhor Arnaldo Cardoso. Meu professor. Foi quem me inculcou um verdadeiro interesse pela Sagrada Escritura. Com ele muitos seminaristas se abriram pastoralmente ao mundo, através dos cursos bíblicos e de iniciativas com jovens. Obrigado.
D. Jacinto Botelho. O Bispo emérito de Lamego foi meu professor, vice-reitor e vigário-geral. Nele vi sempre a pessoa de uma fé profunda e de uma humanidade extrema. Obrigado.
Cónegos Zé Cardoso e Duarte Júnior. Cada um à sua maneira, souberam oferecer-me ajuda oportuna em momentos menos tranquilos da minha caminhada. Obrigado.
D. António Francisco dos Santos, falecido bispo 
 do Porto.  Com ele mantive longas conversas. Era um coração atento, que sabia escutar e perscrutar. Dele recebi sempre uma palavra clara, admoestadora, serena e orientadora. Muito obrigado.
Monsenhor José Guedes, já falecido, e P.e Adriano Monteiro. Personalidades muito diversas que me ensinaram imenso em campos diferentes. Sem o conseguir, tentei que eles fossem uma referência da minha vida sacerdotal. Obrigado.
Drs. Mário e Alfeu. Foram meus professores no Seminário de Resende. Abandonaram o exercício sacerdotal, mas tal não invalida que lhes esteja grato pelo muito que me deram. O Dr. Alfeu, porque era uma pessoa próxima dos miúdos, jogava com eles, falava com eles e sempre me aceitou e respeitou na minha maneira de ser. O Dr. Mário, então vice-reitor, foi quem me meteu na alma a ideia de ser portista, que nunca mais larguei.
Os meus caros amigos, Padres Manuel Ramos e Zé Matias, que o Senhor já chamou a si. Além dos anos em que estudámos juntos no Seminário, fizemos equipa sacerdotal, sediada em Mondim da Beira, durante 13 anos. Obrigado pela amizade, acolhimento, partilha, testemunho. 
Os sacerdotes deste arciprestado de Tarouca/Armamar.  São formidáveis. Obrigado.
Mons. Joaquim Rebelo. Trabalhamos juntos na mesma escola durante alguns anos. Daí nasceu uma boa amizade. Com ele aprendi e por ele e seus bondosos pais sempre me senti bem acolhido em sua casa. Obrigado.
P.e Dr. Borges. Este sacerdote de Vila Real foi meu professor, director espiritual e, mais tarde, colega de escola. Num corpo de gigante uma alma gigantesca. Nele sabedoria e humanidade brilhavam a grande altura. Muito obrigado.
O meu condiscípulo Adriano Alberto. O antigo pároco de Tendais é daquelas pessoas de quem se é “obrigado a gostar”. É um amigo, um colega e um condiscípulo fantástico. Aquele abraço, Adriano!
Cónego Doutor João António Pinheiro. O  Reitor do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios  é um mestre. Na sabedoria, na profundidade, na simplicidade, no acolhimento. Na fé. Obrigado. 
Não posso esquecer o meu antecessor nesta comunidade, P.e Duarte Santos. Por tudo o que fez e ensinou.
Monsenhor Afonso. O velho Reitor de Almacave era um homem à antiga. Frontal, convicto, terra-a-terra, amigo dos colegas, de um profundo amor à Igreja.
Monsenhor Bouça Pires. O amigo que tantas vezes, em seminarista, me recebeu em sua casa; o sacerdote de iniciativa, convicção e entusiasmo. Onde esteve deu sempre o “corpo ao manifesto” e soube movimentar. Obrigado.
Muitos e muitos mais me passam neste momento pelo filme da gratidão que vai rolando na minha alma. Guardo a sua memória e louvo ao Senhor por ter tido a dita de se entrecruzarem com a minha vida.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Obrigado, P.e Zé Matias!

Natural de Lamelas, Castro Daire, nasceu em 26 de março de 1951. Faleceu 30 de outubro de 2025.
Frequentou os Seminários Diocesanos e foi ordenado sacerdote em 8 de janeiro de 1977. Depois do estágio pastoral, realizado com o P.e Bouça Pires nas Paróquias de Fontelo, Aldeias e Parada do Bispo, foi nomeado responsável pelo Secretariado Diocesano da Juventude e, posteriormente, transferido para as Paróquias de Mondim da Beira, Dalvares e São João de Tarouca em outubro de 1978. Ali já era Pároco o saudoso P.e Ramos. Neste mesmo mês, juntou-se aos dois o estagiário Carlos Lopes. Após a ordenação sacerdotal deste último, o senhor Arcebispo, D. António de Castro Xavier Monteiro, mantém a equipa sacerdotal, alargando espaço pastoral com as Paróquias de Vila Chã da Beira, Cimbres e Várzea da Serra. Pouco tempo depois, o espaço pastoral alarga-se às Paróquias de Ucanha e Gouviães.
Em outubro de 1988, em virtude de ter sido confiada à equipa sacerdotal a povoação de Vila Chá do Monte, até então com pároco próprio, o senhor Bispo aceita que a mesma equipa seja libertada das Paróquias de Vila Chã da Beira e de Cimbres.
Em 1991, o P.e Matias fica com Várzea da Serra para onde vai residir e, simultaneamente, responsável pela tipografia diocesana. O P.e Carlos vai para a Paróquia de Tarouca. Desde então e até ao seu falecimento, o P.e Ramos ficou sozinho com a paroquialidade de Mondim da Beira, Dalvares e Ucanha.
O P.e Zé Matias era uma pessoa prática, decidida, determinada. Desde que se convencesse que algo tinha de ser feito, era para fazer e pronto.
Na divisão de trabalhos pelos padres da equipa sacerdotal, a ele cabiam, especialmente, a pastoral jovem e as obras.
No âmbito da ação juvenil, fundou o jornal Sempre Jovem, que dirigiu até que a doença o impediu. Era um mensário, de âmbito concelhio. A historio do concelho das últimas décadas não poderá fazer-se sem as páginas deste jornal. Muitos dos jovens dos diferentes grupos sentiram e viveram a dinâmica comunicativa através e pelo Sempre Jovem.
Em Várzea da Serra, a sua ação foi clara e abrangente, desde a Criação e manutenção do Lar, passando por obras nos templos, continuando com o seu envolvimento na promoção de melhor qualidade de vida da população. Por isso, a Junta de Freguesia lhe entregou a Medalha de Ouro.
Era uma pessoa disponível para quem o procurasse com reta intenção. Conseguia colocar-se na "pele das pessoas" e ajudá-las, disponibilizando-se ele mesmo e aos seus meios para esse efeito.
Não faltava à colaboração estabelecida com os outros colegas. Foi também arcipreste.
Foi professor no Ensino Público onde desempenhou as mais diversas tarefas.
Desde 2019, por motivo de doença, estava afastado do trabalho pastoral.
Dos três "padres capadócios", como dizia o D. Jacinto, que residiram em Mondim, resta apenas o "mais ruim dos três", o autor deste testemunho. Com as maleitas que a idade acarreta, mas ainda em serviço... até que Deus diga...
Tenho a certeza absoluta que o P.e Matias, agora na Mão do Deus, não nos esquece junto do Eterno e a Ele intercederá pelos familiares, pelos paroquianos, pelos amigos , pela Igreja e pelos antigos colegas de equipa.
Que descanses em Deus, amigo!
Aquele abraço em Deus!

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Primeira saudação de D. Pedro Fernandes , novo Bispo de Portalegre e Castelo Branco. Frescura na forma e no conteúdo


Nunca tinha visto um padre que, após a nomeação episcopal, tivesse aparecido a falar às pessoas  sem o famoso cabeção. Os clericalistas e tradicionalistas devem estar a morder os lábios! ... ahahhah. Não há problemas, é por uma boa e sadia causa!
Gostei da mensagem.  Pareceu-me fresca, sentida, alegre, confiante, desafiante. Com cheiro a Evangelho.
Parabéns, D. Pedro!
Parabéns, Diocese de Portalegre e Castelo Branco. Boa caminhada para e com todos, todos, todos!

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Neste novo ano futebolístico, ainda não me pronunciei sobre o "meu" Porto...

Sou portista. Gosto imenso de o ser. Mesmo quando o portismo me deixa muito mal disposto...
Acompanho alguns espaços virtuais onde se fala, se debate e se analisa os jogos do Futebol Clube do Porto. Nem sempre concordo. Algumas intervenções  tiram-me  do sério, pelo sectarismo, pela clubite fundamentalista e pela visão de inimigos em todos os lados. 

Não sou daqueles portistas que vêm nos árbitros a origem das  desgraças do Porto, embora no último jogo me pareça claro um penalti cometido por  António Silva sobre Deniz Gül. Onde esteve o Var?  Sou daqueles portistas que alinham na crítica contundente à comunicação social, mormente a do sul, pela sua parcialidade, ausência de independência e desigualdade no tratamento dos assuntos dos clubes. Basta ver  a antena dada ao Benfica e a dada ao Porto... É gritante a desigualdade. Também acho desprezíveis a insinuação, a suspeita,  verborreia bélica, etc.

As duas últimas épocas futebolísticas do FCP foram horríveis, e a última  de gritar aos céus... 

Pelos projetos apresentados, os reforços adquiridos, a limpeza de balneário efetuada,  a eficácia na saudável construção da realidade económica, pelas orientações apontadas, esperava vivamente uma melhor época.

Não conhecia o treinador quando ele aqui chegou.  Felizmente pôde realizar a pré-época de forma serena, com a maioria dos reforços.  Confesso que me surpreendeu. Desde os amigáveis até aos primeiros jogos a sério, o Porto foi uma agradável surpresa. Equipa unida, determinada, pressão alta, segurança defensiva, vitórias. Estava de volta o bom e velho Porto. O coração escancarava-se à esperança de uma boa época. O título parecia estar mais perto do que suposto. 

Apareceu o Benfica... Para um portista é sempre um jogo em que o empate sabe a derrota. É um jogo especial.

Pela primeira vez, o treinador Francesco Farioli me desiludiu.

A gente está sempre a aprender, até no futebol onde a emoção quer andar à frende da razão. Na hora certa, no momento único para o portismo, o novo técnico demonstrou que ainda não é um grande treinador, é um razoável treinador.  A sua conferência de imprensa no fim do jogo confirma isso mesmo. Vale que ele é um jovem treinador e certamente vai crescer muito. Parecia que ele já interiorizara o "ser porto", mas ontem revelou que não.  Com o Benfica só pode ser: ganhar, ganhar e ganhar. Não soube responder à postura defensiva da equipa de Mourinho, não soube arranjar um plano diferente... Deixou de fora o nosso mais virtuoso atleta - o Mora - que teria que jogar muito mais para tentar abrir aquela defesa compacta encarnada.  E o Porto empatou. Dizem alguns: "ai, tivemos mais oportunidades do que o Benfica!" Pudera, não jogámos em casa? Outros: "Mas em 6 dias fizemos seis jogos!" Verdade. Mas tivemos mais tempo para a pré-epoca do que eles e não fizemos tantos jogos como eles tiveram que fazer. Além disso, não mudámos de treinador. 

O que mais me aborrece no mundo portista são as desculpas. Ele é o árbitro, ele á Federação, ele é a Liga, ele é os clubes da segunda circular, ele é a comunicação. É verdade, há fatores externos adversos. Mas nem por um instante podemos deixar de ser exigentes com a nossa equipa, o nosso treinador, a nossa estrutura. É que só assim progredimos.

Este jogo foi um banho de humildade e de realismo para todos nós, portistas. Não temos tão bom treinador como pensávamos; a nossa equipa não tem a categoria que julgávamos, faltam bons jogadores; as coisas precisam de tempo. Depois das últimas 2 épocas, não se pode ter tudo de um momento para outro...Vamos com calma, chegaremos lá!!!

Mas será bom que Farioli, acima de tudo, aprenda - e muito - com o jogo de ontem!!!

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

"Onde termina o pecado?"

O mundo pune.

A Igreja, às vezes, imita o mundo — com toga de ouro e olhos fechados.

Mas Jesus não veio para punir.
Veio para amar até o fim.
Veio para sentar-se à mesa com pecadores, para abraçar quem já não se aguentava de vergonha.

Há pecados que são crimes, e crimes que destroem vidas.
Mas nenhum pecado é maior que a misericórdia de Deus.
Nenhum.

O que fazer com quem errou feio, sujou o nome de Deus e feriu os pequenos?
Mandar embora, afastar, esquecer?
Ou abrir um caminho estreito, difícil, exigente — mas possível — de arrependimento e renascimento?

Justiça sem misericórdia é vingança.
Misericórdia sem verdade é mentira.
Mas quando as duas se encontram, o Evangelho acontece.

O inferno começa onde termina a possibilidade de recomeço.
E a Igreja, se quiser ser de Cristo, não pode fechar essa porta.

Carlos Lopes

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Entrevista-biografia do Papa Leão, que saiu esta quinta-feira em livro, no Peru

Leia aqui


“A curto prazo” não será de esperar qualquer reforma sobre a doutrina da Igreja a respeito do papel das mulheres na Igreja Católica e ao acolhimento de católicos que se assumem como LBTQI+"
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Quando a entrevistadora o confronta com a possibilidade de ordenação de mulheres diáconos, um tema que foi objeto de debates nas sessões de 2023 e 2024 do recente Sínodo e proposto por diversas igrejas locais, o Papa afirma que “não tem qualquer intenção de mudar o ensinamento da Igreja sobre o assunto” a curto prazo.
Ao mesmo tempo, nesta que é a sua primeira entrevista desde que foi eleito em maio deste ano, Leão diz desejar “continuar no caminho” do Papa Francisco, seu antecessor, “nomeando mulheres para cargos de liderança em diferentes níveis da vida da Igreja
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Sobre eventuais alterações doutrinárias relativamente a questões de género ou de novos modelos de família, como o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo, o Papa Leão reconhece tratar-se de problemas “sensíveis e polarizadores”, cabendo-lhe a ele não “incentivar a polarização dentro da Igreja”.

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Relativamente ao acolhimento das diferentes realidades e das pessoas que as vivem, o novo Papa afirma partilhar do espírito de Francisco, quando, na Jornada Mundial de Juventude, de Lisboa, enfatizou a ideia do acolhimento a “todos, todos, todos”, mas sem que tal implique mudanças na doutrina estabelecida. “Estão todos convidados, mas não convido ninguém pela sua identidade particular”, enfatiza.

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O modelo da família tradicional – “pai, mãe e filhos” – cujo “papel, por vezes, sofreu nas últimas décadas, deve ser reconhecido e fortalecido de novo.”

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A entrevistadora coloca-o perante os problemas dos abusos e violências, nomeadamente sexuais, perpetrados por membros do clero. Nesta frente, Leão XIV considera que a instituição que governa deve continuar a apoiar as vítimas com “genuína e profunda compaixão”, entendendo, contudo, que a questão “não pode tornar-se a prioridade da Igreja”.

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Leão XIV lembra que a crise foi agudizada com a paragem de uma das grandes fontes de financiamento – os museus do Vaticano, devido à pandemia. Porém, acrescenta o bispo de Roma, as viagens e as visitas foram retomadas e a normalidade foi-se instalando. Acresce que, neste ano jubilar, se tem registado um aumento do número de turistas, tudo convergindo para uma melhoria da situação.

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Elevador da glória!


Às vezes, sem querer,
a vida, entre subidas e descidas,
descarrila e pode conhecer a morte.
Hoje o nosso coração sofre com a tragédia
da morte de 15 irmãos e irmãs,
e do sofrimento de tantos,
em consequência do acidente
com o "elevador da glória",
ali no coração alto de Lisboa.
Peço a Deus,
que eleve à sua glória
aqueles que a morte
reconduziu até Ele,
numa viagem desastrada.
Rezo a Deus
pelos que prontamente
acudiram ao lugar,
para salvar vidas
ou se voluntariam nos hospitais
para salvar o maior número possível.
Ámen.
Amaro Gonçalo, Facebook

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Há lugares onde é mais perigoso adoecer

 
As férias decorriam normalmente, Até que, de repente, um familiar meu sentiu dores fortes e persistentes. Dirigiu-se ao Centro de Saúde mais perto. O médico atendeu-o, examinou-o e receitou-lhe um antibiótico e um medicamento para a febre. Regressou a casa, mas as dores persistiam e intensificavam-se. Foi então levado para um Hospital. Por sinal, e ao contrário do esperado, não havia muita gente à espera de ser atendida. Pelo caminho, o doente contactou a Linha de Saúde 24. Um tormento, dado o sofrimento do enfermo! Um questionário interminável e numa linguagem técnica incompreensível para o paciente, o que levava este a referir constantemente: "Não percebi!"

Ao chegar ao Hospital, foi logo atendido. Tempo depois é enviada para casa, apenas com um antibiótico diferente.

O sofrimento acentua-se. Torna-se insuportável. Regressa ao Hospital. Então é descoberto o mal: uma apendicite.  O doente quer regressar à cidade de residência, mas é aconselhado por profissionais de saúde a não o fazer. Seria muito perigoso,  naquele estado...

É operado de urgência. Intervenção prolongada no tempo. E depois oito dias no hospital em recuperação, com os primeiros tempos a serem muito difíceis.  

Felizmente, ao terminar o tempo de férias, ele também teve alta, regressando à residência habitual com os seus, continuando a recuperação satisfatoriamente. 

Aquele hospital tem péssimas recordações também para mim. Há 11 anos, passei ali mais de 10 horas à espera que me tirassem um espinha da garganta.

Num Algarve onde se gastou uma fortuna com um estádio de futebol  sem praticamente utilização pela modalidade, aquele Hospital  deixa muito a desejar a nível de estruturas.  Não me parece, contudo, que tal justifique tudo. Houve erros humanos a mais que poderiam ter sido fatais. 

O meu familiar não se queixou de funcionários e de enfermeiros. Já alguma comunicação médica deveria ter sido mais clara e presente, tanto para o doente como para a família. 

Pelo que me aconteceu a mim há anos, pelo que sofreu o meu familiar no presente e pelo testemunho de pessoas, o Algarve é dos piores lugares  para adoecer. 

Há 11 anos, dizia-me uma enfermeira que no Verão quadruplicava a população no Algarve, mas o pessoal de saúde era o mesmo, pese embora a propaganda política em sentido contrário...

Por sinal, nesta mesma ocasião, outra pessoa da família realizou um intervenção cirúrgica programada noutro Hospital do país. Em si a operação correu bem, mas surgiram problemas, segundo informações, advindos do contexto da anestesiologia,  que preocuparam e que, neste momento, se estão a ultrapassar, felizmente. 

A segunda parte das férias foi assim marcada pela preocupação, como diz o povo, "de coração nas mãos".  Visitas ao hospital, telefonemas, mensagens, contactos...

Que para o ano seja melhor, bem melhor! Deus nos ajude.

Tal como a habitação, a saúde precisa de ser um desígnio nacional, sem dogmatismos e sem fundamentalismos ideológicos. 

Precisamos de melhores estruturas de saúde. Precisamos cuidar, mais e melhor, do tesouro da vida. 

Precisamos de mais médicos. Médicos que juntem competência e humanidade.

"O senhor Doutor, aquela pessoa distante, ser superior, algumas vezes intratável", tem que baixar à terra dos humanos e ser humano com eles. 

O país investe imensos recursos na formação dos seus médicos. É natural que mantenha em relação a eles a exigência de compromisso, humana e cientificamente, irrepreensível. 

Eu sei, todos sabemos, que há clínicos - muitos, muitos - extraordinários. Na dedicação, na competência, na humanidade, no serviço até ao limite. E mesmo estes podem errar, porque não são deuses. 

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Fogo Antigo


Ardem os montes como quem grita
por socorro que não chega.
Nas aldeias, o tempo pára —
perde-se a casa, o gado, a vida.

Promessas? Muitas.
Planos? Alguns.
Ações? Poucas.

Há mãos que acendem por ganância,
e penas que mal pesam o crime.
Políticos falam, voltam costas,
e o verde vira cinza no silêncio.

Fica o medo —
nas rugas da velha que tudo perdeu,
nos olhos do homem que nada pôde fazer.

E os culpados seguem,
sem rosto, sem castigo,
como cinza levada pelo vento.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

15 de agosto - "Padre há 46 anos"

    

Nasci no dia 13,
fui ordenado no dia 15.
Maria, discreta e fiel,
foi presença desde sempre.

Há 46 anos disse “sim” com tudo:
alma limpa, coração ardente,
cheio da alegria da primeira hora.
Cristo era a paixão maior —
e continua a ser.

A vida ensinou muito.
Erros, insucessos, esperas…
mas também bênçãos sem fim.
Foi Deus quem me sustentou,
não os meus méritos —
mas a Sua graça.

Amo o povo que servi.
Não me sinto incompreendido,
sinto-me acolhido.
Mesmo quando nem todos veem
no padre mais do que um “funcionário”,
sei que muitos me quiseram bem.
E eu a eles.

Mas digo com verdade:
a Igreja — estrutura —
tantas vezes não cuida dos seus padres.
Pede muito, escuta pouco.
Fala de serviço,
mas esquece quem serve.

E é preciso saber sair a tempo,
antes que o corpo e o ânimo se arrastem.
Sair com dignidade,
sem que isso pareça desistir.

Sou padre para sempre,
não pelo cargo,
mas por amor a Cristo.
Hoje, como há 46 anos,
é Ele a razão do meu caminho.

A Ele, gratidão.
Ao povo, carinho.
À Igreja, um apelo:
cuidem dos padres.
Somos humanos,
não máquinas de sacramentos.

E que Maria, que me viu nascer e ordenar,
continue a guiar os meus passos —
até ao último dia.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

E continuo. A gostar de viver!


13 de agosto…
E não conto os anos —
conto os milagres.

Conto as manhãs em que, mesmo com dor,
acordei com vontade de amar.
As noites em que rezei em silêncio,
e senti Deus a velar por mim.

Fui moldado pelo sofrimento,
mas não vencido por ele.
As quedas fizeram parte do caminho —
mas foi nelas que a graça me levantou.

A minha vida tem sido dom.
Ofício de amor, de escuta, de cuidado.
Ao altar, ao Evangelho, ao povo de Deus.
E que povo tão bom o que me foi confiado!
Tantos rostos, tantas histórias,
tantas vidas que me ensinaram
que servir é também ser servido pelo amor dos outros.

A família…
ah, a minha família —
sangue, raiz, sustento.
Presença firme, mesmo na ausência.
Teceram em mim a fé, a coragem,
a alegria de ser quem sou.

E os amigos…
esses que preenchem os vazios com um simples existir.
Mesmo que liguem pouco, mesmo que o tempo passe.
Basta saber que estão.
E já não estou só.

E continuo.
A viver. A gostar de viver.
Mesmo com as limitações do corpo,
mesmo com a memória que, às vezes, se engana.

Sim, sou um milagre.
Milagre da intercessão de Maria,
essa Mãe que nunca falha,
a quem me confiei tantas vezes
como filho, como padre, como homem.
Costumo dizer-Lhe:
sou Teu milagre. E sou.

Hoje, não celebro só um número —
celebro a Graça.
Celebro o dom de ser,
de ter amado e sido amado.
Celebro os dias dados e os que ainda virão.
Até quando Deus quiser.

E depois…
peço p’ra cair nos braços d’Ele,
como quem regressa à Casa,
com o coração cheio de nomes,
de gestos, de afetos.
E descobrir, enfim,
que a liberdade maior
é ser eternamente de Deus.

Carlos Lopes