As estatísticas frias dizem-nos que cerca de 250 clérigos se reuniram em Fátima. A matemática, implacável, acrescenta o reverso da medalha: mais de 90% do clero português esteve ausente. Perante este cenário, a narrativa oficial apressa-se a estender o manto das desculpas habituais — a falta de tempo, a agonia das agendas, o peso burocrático de quem multiplica os seus dias por cinco, dez ou mais paróquias. Mas quem conhece o pulsar real das bases sabe que a ausência não foi uma distração coletiva. Foi um voto explícito de silêncio; um sinal profundo de desconexão.
sábado, 12 de setembro de 2026
Quando mais de 90% do clero português não esteve no Simpósio do Clero em Fátima...
sábado, 5 de setembro de 2026
Uma folha passou de mão em mão. E a oração multiplicou-se.
Quando a criatividade pastoral dá fruto
Em cada primeira sexta-feira, na Igreja Paroquial, celebramos a Eucaristia, seguida de um tempo de exposição e adoração do Santíssimo Sacramento. Há um tempo de intimidade pessoal com o Senhor e um tempo de oração comunitária, que vai alternando entre o terço, o Terço da Divina Misericórdia e a Oração de Vésperas.
Habitualmente, com a ajuda do projector, são apresentados os textos que acompanham estes momentos de oração, bem como a intenção de oração do Papa para cada mês e as Vésperas. Nesta primeira sexta-feira, porém, optou-se por preparar fotocópias das Vésperas. Depois de utilizadas na nossa celebração, essas folhas foram levadas para outros momentos de oração na paróquia.
E o resultado foi admirável: vários grupos rezaram as Vésperas nesse mesmo dia!
Foi uma experiência fantástica! Admirável foi a adesão das pessoas, a forma como compreenderam o modus orandi, a maneira como participaram e, sobretudo, como rezaram. Percebeu-se que, quando lhes proporcionamos caminhos novos e lhes damos instrumentos simples para rezar, as pessoas acolhem, participam e envolvem-se.
Esta experiência deixa-nos uma certeza: quando investimos pastoralmente, quando saímos do “ram-ram” de sempre e ousamos ir mais longe, a resposta das pessoas pode surpreender-nos. E há uma recompensa que não se mede em números: vê-se no interesse, na participação, na alegria e, sobretudo, na oração que se multiplica.
Precisamos, por isso, de imaginação pastoral. Precisamos de criatividade, de coragem para experimentar, de atenção aos sinais e de vontade de procurar novos caminhos para ajudar as pessoas a encontrar-se com Deus.
Às vezes, basta uma simples folha de papel para que a oração chegue mais longe.
Uma folha passou de mão em mão. E a oração multiplicou-se.
sexta-feira, 31 de julho de 2026
A benfiquização da comunicação social: um problema que já ninguém consegue esconder
Tempo de antena (representação satírica)
🦅 Benfica ⬤⬤⬤⬤⬤⬤⬤⬤⬤⬤⬤⬤⬤⬤⬤⬤
🦁 Sporting ⬤⬤⬤⬤
🐉 FC Porto ⬤
Há realidades que, de tão repetidas, acabam por ser tratadas como se fossem normais. Uma delas é a crescente benfiquização da comunicação social desportiva portuguesa, sobretudo nas televisões.
Não, não está em causa o Benfica enquanto clube. Está em causa a forma como uma parte significativa da comunicação social parece ter perdido qualquer sentido de proporcionalidade quando noticia tudo o que lhe diz respeito.
Basta acompanhar os noticiários desportivos durante alguns dias. Uma vitória do Benfica, por mais rotineira que seja, transforma-se num acontecimento nacional. Horas de emissão, diretos, debates, entrevistas, comentários, análises e repetições incessantes das mesmas imagens. A narrativa é construída como se cada jogo representasse um capítulo decisivo da história do futebol europeu.
Entretanto, quando outros clubes conseguem resultados igualmente relevantes — ou até mais importantes —, o tratamento muda radicalmente. A informação surge de forma breve, quase protocolar, para rapidamente desaparecer da agenda. A diferença de critérios é demasiado evidente para ser ignorada.
O exemplo mais recente voltou a demonstrá-lo. A goleada do Benfica por 5-0 sobre um adversário suíço gerou um entusiasmo televisivo que faria pensar que tinha sido conquistada a Liga dos Campeões diante do Real Madrid. No mesmo período, o SC Braga também goleou nas competições europeias, mas quase passou despercebido. É legítimo perguntar: porquê?
E quanto ao FC Porto, atual campeão nacional, o contraste é ainda mais evidente. Um clube com dezenas de títulos, enorme prestígio internacional e um papel determinante na afirmação do futebol português parece, demasiadas vezes, remetido para segundo plano. Os seus sucessos duram um dia; qualquer episódio relacionado com o Benfica pode alimentar vários.
Não se trata de exigir que se fale menos do Benfica. Trata-se de exigir que se fale mais dos outros quando os factos o justificam. O jornalismo sério mede a importância das notícias pelos acontecimentos, não pela dimensão da massa adepta de um clube.
As televisões parecem ter descoberto uma fórmula cómoda: Benfica, Benfica e mais Benfica. Se faltarem novidades, reciclam-se as antigas. Se não houver notícias, inventam-se debates. Se não houver jogos, discutem-se hipóteses, rumores ou conferências de imprensa. O importante é manter sempre o mesmo protagonista no centro da emissão.
Esta opção editorial empobrece o jornalismo desportivo. Pior: empobrece o próprio futebol português. Os adeptos têm direito a uma informação plural, equilibrada e proporcional. Não pagam serviços de informação para assistirem, diariamente, a uma programação quase monotemática.
É evidente que cada órgão de comunicação social é livre de definir a sua linha editorial. Mas a liberdade editorial não elimina a responsabilidade perante o público. Quando a desproporção se torna sistemática, deixa de ser apenas uma opção e passa a suscitar dúvidas legítimas sobre o pluralismo da informação.
A democracia vive da diversidade de opiniões. O jornalismo vive da credibilidade. E a credibilidade constrói-se tratando situações semelhantes de forma semelhante.
Enquanto isso não acontecer, muitos portugueses continuarão a olhar para a informação desportiva televisiva com crescente desconfiança. Não porque um clube vença. Mas porque parece que, para uma parte da comunicação social, só as vitórias de um clube merecem verdadeiramente ser celebradas.
E essa é uma derrota para o jornalismo.
domingo, 26 de julho de 2026
Dia dos Avós: entre o colo e a bengala
No Dia dos Avós, apetece-me recordar uma cena que testemunhei, há alguns anos, numa praia portuguesa.
Debaixo de um chapéu de sol estava o que parecia ser uma família: um casal, uma senhora já muito idosa, uma criança pequena e um cão irrequieto, que não parava de saltitar.
A dada altura, o senhor pegou em algumas coisas e saiu da praia. Já passava do meio-dia quando os restantes se prepararam para ir embora.
À frente seguia a mãe, com o cão ao colo. Logo atrás vinha a criança, choramingando, certamente porque a areia escaldante lhe queimava os pezinhos.
Mais atrás caminhava a senhora idosa, apoiada numa bengala, arrastando lentamente os pés pela areia. Cada passo revelava o enorme esforço que fazia para avançar. A distância entre ela e os restantes aumentava a cada instante, como se o tempo e a fragilidade lhe impusessem um ritmo que ninguém parecia disposto a acompanhar.
Aquela imagem chocou-me. E continua a acompanhar-me.
Nada tenho contra os animais. Pelo contrário: sou totalmente contra qualquer forma de maus-tratos e acredito que devem ser tratados com respeito, cuidado e dignidade.
Mas também não consigo ignorar um fenómeno que me inquieta. Em certos casos, parece que alguns animais passaram a ocupar um lugar quase intocável, recebendo toda a atenção, todos os cuidados e todos os sacrifícios, enquanto tantos seres humanos — sobretudo idosos, mas também crianças, doentes e pessoas frágeis — vivem o abandono, o desprezo, a solidão e, por vezes, a mais profunda desumanização.
O que me revoltou naquela praia não foi ver um cão tratado com carinho. Foi ver uma senhora idosa, com evidentes dificuldades de locomoção, entregue apenas à sua bengala e ao peso dos anos, enquanto o único colo disponível era para um animal perfeitamente saudável. Foi ver uma criança a chorar porque a areia lhe queimava os pezinhos, sem que isso parecesse merecer a mesma preocupação.
Uma sociedade verdadeiramente humana não tem de escolher entre amar os animais ou cuidar das pessoas. Deve fazer as duas coisas. Mas quando o cuidado pelos animais se torna, em alguns casos, mais visível do que a compaixão pelos mais vulneráveis entre nós, há motivo para refletir.
Neste Dia dos Avós, desejo que nunca nos falte a gratidão por aqueles que caminharam antes de nós. Que nunca lhes neguemos um braço quando já lhes faltam as forças, uma palavra quando lhes pesa o silêncio, ou a presença quando mais precisam de companhia. Porque a grandeza de uma sociedade mede-se, acima de tudo, pela forma como trata os seus membros mais frágeis.
terça-feira, 7 de julho de 2026
OS QUE PARTEM, OS QUE FICAM!
terça-feira, 30 de junho de 2026
O Estado não pode desperdiçar o tempo dos cidadãos
Na semana passada dirigi-me à Loja do Cidadão para alterar a morada do meu Cartão de Cidadão. Levei o cartão e fui atendido com toda a simpatia e profissionalismo. Informaram-me de que seria enviado um código para o meu telemóvel. Como não costumo andar com o telemóvel – utilizo-o apenas quando preciso – tive de regressar a casa para o ir buscar. Felizmente, moro muito perto.
Recebi depois uma carta com códigos e voltei à Loja do Cidadão. Levei o Cartão de Cidadão e o documento que me tinham entregue na primeira visita. Nunca me passou pela cabeça que voltaria a ser necessário levar o telemóvel. Afinal, era. Resultado: mais uma viagem a casa e novo regresso à Loja do Cidadão.
No meu caso, tratou-se apenas de um incómodo. Mas imagine-se um cidadão que viva a dez ou quinze quilómetros da Loja do Cidadão, sem automóvel e com escassos transportes públicos. Ou um idoso que não utiliza telemóvel, ou que o usa apenas para fazer e receber chamadas. Ou alguém que não domina as ferramentas digitais. Quantas deslocações? Quanto tempo perdido? Quanta frustração?
É verdade que muitos destes procedimentos já podem ser feitos pela Internet. Mas essa solução não serve todos os cidadãos. Um Estado moderno deve apostar na digitalização sem esquecer aqueles que não têm competências digitais ou que, por opção, não vivem permanentemente dependentes de um telemóvel.
Importa deixar um ponto muito claro: os funcionários da Loja do Cidadão não têm qualquer responsabilidade por esta situação. Pelo contrário, fui tratado com competência, educação, disponibilidade e grande profissionalismo. Eles limitam-se a cumprir procedimentos que lhes são impostos.
O verdadeiro problema está na forma como o Estado continua a organizar demasiados dos seus serviços. Cada exigência pode parecer insignificante quando analisada isoladamente. Mas, somadas, representam milhões de horas desperdiçadas todos os anos por cidadãos e empresas. Horas que deixam de ser dedicadas ao trabalho, à família, ao descanso, ao estudo ou à criação de riqueza.
Depois admiram-se de que Portugal tenha dificuldades em aumentar a produtividade. Como poderá um país ser produtivo quando obriga diariamente os seus cidadãos a perder tempo em procedimentos que poderiam ser muito mais simples? A burocracia tem um enorme custo económico, mas tem também um custo humano e psicológico, invisível nas estatísticas.
É difícil não sentir que existe um enorme desfasamento entre as preocupações dos cidadãos e as prioridades da classe política. Enquanto milhares de portugueses perdem horas em burocracias evitáveis, grande parte do debate político parece consumir-se em polémicas, confrontos partidários e assuntos que pouco alteram a vida quotidiana das pessoas.
Os cidadãos esperam dos seus representantes algo mais do que discursos e disputas. Esperam que utilizem o poder que lhes foi confiado para remover obstáculos, simplificar procedimentos e tornar o Estado mais eficiente. Se a burocracia continua a consumir tempo, recursos e energia, é legítimo perguntar: quem assume a responsabilidade por essa realidade?
A função de um Parlamento não é apenas legislar. É também identificar os problemas concretos do país e resolvê-los. Enquanto a simplificação da vida dos cidadãos não ocupar um lugar central na agenda política, continuará a existir uma distância preocupante entre quem governa e quem é governado.
Não precisamos de um Estado mais complicado. Precisamos de um Estado mais inteligente. Um Estado que respeite o tempo dos cidadãos, porque o tempo é um dos bens mais preciosos que possuímos e nunca pode ser devolvido.
Portugal tem excelentes profissionais na Administração Pública. O que muitas vezes lhes falta não é competência, mas procedimentos mais simples, mais claros e mais humanos. Desburocratizar não significa diminuir a segurança nem facilitar a fraude. Significa eliminar etapas inúteis, evitar deslocações desnecessárias, confiar mais na tecnologia quando ela ajuda e oferecer alternativas quando ela não serve todos.
A grande questão é esta: haverá vontade política para enfrentar seriamente este problema? Porque a burocracia não é uma fatalidade. É uma opção de organização. E aquilo que foi criado por decisões políticas pode ser mudado por decisões políticas.
Talvez tenha chegado o momento de exigir menos discursos e mais resultados. Menos conflitos estéreis e mais reformas concretas. Menos tempo perdido em discussões que amanhã ninguém recordará e mais tempo dedicado a resolver os problemas reais das pessoas.
Os portugueses não pedem privilégios. Pedem apenas que o Estado respeite o seu tempo, a sua inteligência e a sua dignidade. E esse é, afinal, um dos primeiros deveres de qualquer democracia que queira merecer esse nome.
domingo, 28 de junho de 2026
Participei na celebração das Bodas de Ouro Sacerdotais do Pároco da minha Paróquia natal
Na minha Paróquia natal celebrou-se o jubileu dos cinquenta anos de sacerdócio do P.e Cón. Joaquim de Assunção, dos quais vinte e seis vividos ao serviço daquela comunidade paroquial. Foi uma tarde em que a gratidão encontrou voz e em que a fé se fez festa.
A paróquia, dispersa por vários povos, alguns separados por quilómetros e caminhos, revelou aquilo que verdadeiramente a une. As distâncias não venceram a comunhão. Pelo contrário, todos convergiram para o mesmo altar, como ramos de uma mesma árvore que encontram na raiz a sua força.
Tudo respirava harmonia. O acolhimento discreto e fraterno, a organização sem sobressaltos, o coral que elevava a oração, as leituras proclamadas com dignidade, o ofertório vivido com solenidade. Nada procurava protagonismo; tudo apontava para o essencial. Quando cada um serve com humildade o lugar que lhe pertence, a beleza acontece naturalmente.
Também o Senhor Bispo, que presidiu à Eucaristia, soube conduzir a celebração com serenidade e elevação, ajudando a assembleia a viver aquele momento com profundidade.
No final, um simples conjunto de imagens tornou-se muito mais do que uma apresentação. Foi uma peregrinação pela vida do Cón. Joaquim: as marcas da sua história humana, a resposta ao chamamento de Deus, os anos de estudo, o ministério sacerdotal e o serviço pastoral. As imagens iam passando, mas eram cinquenta anos de entrega que desfilavam diante dos nossos olhos, vinte e seis deles profundamente entrelaçados com a história daquela paróquia.
Seguiu-se a homenagem das instituições que caminham lado a lado com esta comunidade — a Autarquia, a Junta de Freguesia, a Paróquia e a Santa Casa da Misericórdia. Cada uma fez chegar ao jubilado palavras de apreço, reconhecimento e gratidão, acompanhadas de ofertas que quiseram ser mais do que simples lembranças: expressão visível da estima de um povo por quem o serviu com fidelidade, dedicação e generosidade.
Por fim, falou o aniversariante. E fê-lo como vivem os homens de Deus: sem grandiloquência, com a serenidade de quem sabe que tudo é graça. As suas palavras tiveram a beleza dos testemunhos que não precisam de adornos, porque nascem de uma fé amadurecida no tempo e confirmada pela vida.
Regresso desta celebração com a alegria de ver a minha terra natal unida em torno de um sacerdote que, durante vinte e seis anos, caminhou com este povo, partilhando as suas alegrias e dores, anunciando o Evangelho e edificando a comunidade. Hoje, a homenagem foi ao Cón. Joaquim; mas foi também uma bela homenagem à própria paróquia, que soube agradecer com elegância, dignidade e coração.
Parabéns aos meus conterrâneos. Estiveram verdadeiramente à altura da ocasião.
E parabéns, meu caro Abade! Que Deus continue a recompensar a fidelidade de quem, há cinquenta anos, respondeu "sim" ao seu chamamento e continua a fazer desse "sim" um dom quotidiano para a Igreja e para o povo que lhe foi confiado.
sábado, 13 de junho de 2026
Seguradoras: Clientes Durante Décadas, Descartáveis na Velhice
Ao longo de décadas, as seguradoras gostam de falar de confiança, proximidade e proteção. Fazem campanhas emotivas, apresentam-se como parceiras para toda a vida e prometem estar presentes nos momentos mais difíceis. Mas a realidade de muitos clientes, sobretudo dos mais idosos, é bem diferente.
Durante décadas, um cliente paga os seus prémios, raramente dá despesa e contribui para os resultados da empresa. Porém, quando a idade avança e a necessidade de cuidados de saúde aumenta, o prémio sobe sucessivamente até atingir valores incomportáveis. O que era apresentado como uma rede de proteção transforma-se, na prática, num mecanismo de exclusão económica. Não é a seguradora que rescinde o contrato; limita-se a aumentar o preço até o cliente ser empurrado para fora do sistema.
A crueldade desta lógica está precisamente no momento em que ela se manifesta. Quando a pessoa é mais jovem e saudável, é um cliente desejado. Quando envelhece e mais precisa da cobertura pela qual pagou durante anos, passa a ser um custo a reduzir. O mercado chama-lhe gestão de risco. Muitos cidadãos chamam-lhe abandono.
Mais chocante ainda é a desatenção humana que frequentemente acompanha estas situações. Décadas de fidelidade podem terminar sem um telefonema, sem uma proposta alternativa, sem uma tentativa séria de encontrar uma solução. O cliente deixa de ser uma pessoa com uma história; passa a ser apenas um número numa folha de cálculo. A relação construída ao longo de décadas evapora-se no instante em que deixa de ser suficientemente rentável.
E o silêncio de muitos intermediários e responsáveis que, perante estas situações, se limitam a encolher os ombros e a dizer que “nada podem fazer”??? Curiosamente, são muitas vezes as mesmas vozes que, quando ocupam espaços de intervenção social, exigem respostas imediatas para os problemas da saúde, do envelhecimento e da solidão dos idosos. Nesses momentos, multiplicam-se as propostas, os discursos e as exigências. Mas quando vestem o fato empresarial, a indignação desaparece, substituída pela resignação perante as regras do mercado.
Esta dualidade é difícil de aceitar. Não se pode exigir responsabilidade social num contexto e invocar impotência noutro. Não se pode defender os idosos nos discursos e ignorá-los nas decisões que afetam diretamente a sua vida. A coerência mede-se precisamente quando os interesses económicos entram em conflito com os princípios proclamados.
O caso dos seguros de saúde para os mais velhos revela uma contradição profunda da nossa sociedade: fala-se muito de envelhecimento digno, mas aceita-se com demasiada facilidade que aqueles que contribuíram durante décadas sejam afastados dos sistemas de proteção exatamente quando deles mais necessitam. E o mais inquietante não é apenas a política das seguradoras. É o silêncio conformado de quem, noutras circunstâncias, faz da exigência e da denúncia uma bandeira permanente.
Porque há silêncios que dizem tanto quanto os discursos. E há omissões que revelam mais sobre os valores de uma pessoa ou de uma instituição do que todas as declarações de boas intenções.
domingo, 7 de junho de 2026
Subida à serra pela Daniela
quinta-feira, 21 de maio de 2026
Petizes, abandonados na estrada, encontraram humanidade no coração de um desconhecido
Há notícias que passam pelos olhos.
E há outras que ficam alojadas no peito.
A história daquelas duas crianças francesas encontradas sozinhas numa estrada do Alentejo pertence à segunda categoria. Não apenas pelo abandono em si, mas pelo silêncio que ele carrega. Porque nenhuma criança devia conhecer o medo da solidão antes de aprender plenamente o significado da palavra “proteção”.
É impossível não pensar no que lhes terá passado pela cabeça naquele momento. A espera. A fome. O frio. O calor. A ausência de respostas. Crianças não compreendem estratégias de adultos, conflitos emocionais ou desorientações da vida. Compreendem apenas gestos. E quando um adulto desaparece, o mundo inteiro parece desaparecer com ele.
Sem julgamentos precipitados, porque a verdade completa raramente cabe nas manchetes, permanece inevitável a inquietação perante o papel da mãe e do padrasto. O que leva dois adultos a permitirem que duas crianças cheguem a um cenário destes? Que fragilidade, egoísmo, desespero ou ausência de consciência pode sobrepor-se ao dever primordial de proteger? Há perguntas que não precisam de tribunal para doerem.
Mas no meio da escuridão desta história houve uma luz profundamente portuguesa. Um cidadão anónimo que não virou a cara. Que viu duas crianças antes de ver um problema. Que escolheu acolher em vez de ignorar. Dar água. Dar comida. Dar colo emocional quando o mundo lhes tinha acabado de falhar.
É nesses gestos discretos que ainda se salva a esperança humana.
Num tempo em que tantas vezes se fala de indiferença, houve alguém que parou. E às vezes salvar um pedaço da humanidade é exatamente isso: parar. Escutar. Aproximar-se. Cuidar.
As crianças talvez nunca compreendam totalmente a dimensão daquele encontro no Alentejo. Mas um dia perceberão que, no momento em que mais precisaram, apareceu alguém que lhes devolveu aquilo que nunca devia faltar a uma criança: segurança, dignidade e humanidade.
E talvez seja essa a parte mais importante desta história.
quinta-feira, 7 de maio de 2026
Santuários cheios… mas que fica no coração das pessoas?
quarta-feira, 6 de maio de 2026
Quando deixaremos de ser cristãos de velinhas para sermos cristãos de Cristo?
Eu dei duas voltas de joelhos à Capelinha das Aparições e o meu marido foi acender duas velinhas.”
(Visto no Facebook)
Meu Deus! É isto que se leva de Fátima? Velinhas e voltas de joelhos?
E a oração? E o encontro com Deus? Pararam sequer diante da Mãe para Lhe falar da pessoa doente — ou limitaram-se a cumprir um ritual, como se estivessem a pagar uma promessa?
Onde ficou o silêncio que permite escutar? Onde ficou o exame de consciência? Onde ficou o pedido sério de conversão — a única coisa que realmente muda a vida?
Desde quando é que Nossa Senhora pediu velas? Desde quando pediu joelhos em sangue ou sacrifícios que ferem o corpo mas deixam o coração intacto? Quando foi que ensinou uma fé de gestos vazios?
Em Fátima, a Mãe não pediu teatro religioso: pediu conversão. Pediu penitência verdadeira. Pediu vida mudada. Pediu que se faça tudo o que o seu Filho manda.
Quando deixaremos de ser cristãos de velinhas para sermos cristãos de Cristo?
Maria não é destino — é sinaleira. E o caminho é Cristo.
Por isso, de que servem as velas acesas e os quilómetros percorridos, se depois Cristo é ignorado? De que servem os joelhos no chão, se a vida continua de pé contra o Evangelho? De que servem promessas, se a Missa dominical é descartada, a comunidade esquecida, os irmãos ignorados e o testemunho cristão trocado por uma vida igual à de quem não crê?
Isto não é devoção. É ilusão religiosa.
terça-feira, 21 de abril de 2026
Há um ano, Fancisco partiu para os Braços do Pai. Passou entre nós como passam os ventos necessários: não ficam presos nas mãos, mas deixam o ar mais limpo.
O seu legado não cabe apenas em decisões, documentos ou frases que ficaram. Cabe, antes de tudo, numa deslocação de centro: com Francisco, a Igreja parecia voltar a respirar mais perto do Evangelho do que do protocolo, mais perto das pessoas do que da encenação, mais perto da carne ferida do mundo do que das suas próprias solenidades. Não aboliu a tradição, mas recordou que ela só tem sentido se conduzir à fonte. E a fonte nunca foi a pompa; foi sempre o rosto vivo de Cristo, encontrado nos pobres, nos esquecidos, nos frágeis, nos que ficam à porta enquanto os perfeitos discutem as dobragens da toalha do altar.
Isso incomodou muita gente. A simplicidade incomoda sempre os que se habituaram a confundir grandeza com ornamento. A franqueza perturba os que preferem a segurança de discursos impecáveis e inofensivos. Francisco não pertenceu à categoria dos que adormecem o mundo com palavras polidas e sorrisos diplomáticos. Tinha arestas, impulsos, até contradições. Por vezes, sentia-se nele a dificuldade de segurar ao mesmo tempo a misericórdia e a justiça, como quem sabe que ambas são necessárias, mas nem sempre encontra o gesto exato para as reconciliar. Houve momentos em que pareceu ceder a um certo justicialismo demasiado humano, demasiado terreno. E talvez tenha sido precisamente isso que o tornou mais próximo: não uma estátua sem falha, mas um homem real, com a luz e a sombra de quem tenta servir algo maior do que si mesmo.
Francisco foi humano, ponto. E falhou, como falham todos os que vivem verdadeiramente expostos ao peso das escolhas. Mas há falhas que diminuem e falhas que revelam. As dele, no conjunto, nunca apagaram o essencial: foi uma lufada de ar fresco numa Igreja que, tantas vezes, corre o risco de fechar as janelas e confundir fidelidade com medo. Trouxe consigo o desconforto bom do Evangelho, esse que desinstala, que desalinha as vaidades, que recorda que a fé não é um museu de certezas frias, mas um caminho de encontro, conversão e serviço.
Talvez o mais importante tenha sido isso: Francisco devolveu à palavra cristã alguma da sua temperatura humana. Fez lembrar que a verdade, quando não vem acompanhada de compaixão, endurece; e que a doutrina, quando se basta a si própria, corre o risco de perder de vista Aquele que lhe dá sentido. Não para negar a importância da tradição, dos dogmas ou da inteligência da fé, mas para os recolocar no seu lugar justo: não como fim, mas como caminho; não como troféu, mas como serviço; não como arma de distinção, mas como humilde auxílio para seguir Cristo.
Porque esse é, afinal, o perigo de todas as épocas religiosas: começar por adorar Deus e acabar a defender-se a si mesmas. Quando isso acontece, os olhos viram-se para dentro, quase para a nuca, e a alma distrai-se com as vestes, os títulos, os ritos, os lugares, as hierarquias do prestígio. E Cristo, sem ser negado, vai sendo empurrado para a margem, ou então convocado apenas para legitimar preferências, endurecimentos e pequenas soberbas travestidas de zelo. Francisco, com todas as suas limitações, veio lembrar que o centro não está aí. O centro continua a ser o Nazareno sem aparato, o que lavou pés, tocou feridas e preferiu a mesa imperfeita dos pecadores à impecabilidade satisfeita dos justos.
Por isso, um ano depois, o que nele permanece não é apenas a lembrança de um pontificado, mas a saudade de uma voz. Uma voz sem luxo, sem teatro, sem excesso de cálculo. Uma voz que, mesmo quando errava, parecia nascer de um lugar sincero. E talvez seja isso que mais falta faz: não a nostalgia de um estilo, mas a memória de uma autenticidade. Francisco recordou à Igreja que a sua autoridade não cresce com a distância, mas com a proximidade; não com o esplendor que impõe, mas com a verdade que serve; não com a rigidez que intimida, mas com a esperança que abre espaço.
Ficou-nos, por isso, mais do que uma figura: ficou-nos uma interpelação. A de escolher entre uma fé que respira e uma fé que sufoca. Entre uma Igreja preocupada em parecer irrepreensível e uma Igreja disposta a ajoelhar-se diante das feridas do mundo. Entre o brilho das superfícies e a humilde radicalidade do Evangelho. Francisco não resolveu tudo, não purificou tudo, não acertou sempre. Mas passou entre nós como passam os ventos necessários: não ficam presos nas mãos, mas deixam o ar mais limpo.
sexta-feira, 17 de abril de 2026
Estamos disponíveis para sair do “sempre foi assim”? Estamos verdadeiramente comprometidos com a missão… ou apenas com hábitos?
Alguns dados:
menos 46% de participação na Missa em 20 anos
menos de metade dos casamentos católicos
menos batismos
apenas 85 sacerdotes para cerca de 182 mil fiéisResultado? Reorganização profunda: mais de 80 paróquias deixarão de ter Missa ao fim de semana, passando a integrar 24 novas unidades pastorais.
A questão não é apenas estrutural. É espiritual e pastoral.
Quando há um sacerdote para várias paróquias, o risco é evidente:
– desgaste físico e emocional
– perda de qualidade no acompanhamento
– um ministério vivido no limite
E isso não é sustentável.
Estas decisões, por duras que sejam, procuram evitar precisamente isso: o esgotamento, o colapso silencioso, a solidão de quem serve.
Algumas perguntas incómodas, mas necessárias:
– Queremos manter estruturas… ou cuidar das pessoas?
– Estamos disponíveis para sair do “sempre foi assim”?
– Estamos verdadeiramente comprometidos com a missão… ou apenas com hábitos?
terça-feira, 7 de abril de 2026
A Ressurreição de Jesus não é a mesma coisa que a ressurreição de Lázaro
Antes de mais, é essencial distinguir: a Ressurreição de Jesus não é a mesma coisa que a ressurreição de Lázaro. Lázaro voltou à vida terrena, à mesma condição de antes, e um dia voltou a morrer. Já Jesus não regressa à vida mortal: Ele ressuscita para uma vida nova, definitiva, onde a morte já não tem qualquer poder. A sua Ressurreição é passagem para a vida gloriosa.
O corpo ressuscitado de Jesus é real — não é uma ideia nem um espírito —, mas está transformado. É o mesmo corpo que sofreu na cruz, mas agora plenamente glorificado. Por isso, os Evangelhos mostram que Ele pode ser tocado e come com os discípulos, mas também aparece de modo inesperado e não está sujeito às limitações habituais do espaço.
Este é o chamado corpo glorioso. A tradição da Igreja ensina que ele possui características próprias: é incorruptível (já não sofre nem morre), é luminoso (participa da glória de Deus), é ágil (não está sujeito às limitações físicas como antes) e é plenamente espiritualizado (totalmente unido a Deus). É a realização plena daquilo que o ser humano é chamado a ser.
E aqui está o coração da nossa esperança: graças à Ressurreição de Cristo, também nós somos chamados à ressurreição para a vida gloriosa. A morte não é o fim, mas uma passagem. Aqueles que vivem em Cristo participarão da sua vitória, ressuscitando com um corpo transformado, semelhante ao d’Ele. A sua Ressurreição é a garantia da nossa.
Quanto a Maria, basta recordá-la como a Senhora da Alegria: aquela que, unida de modo único ao seu Filho, acolhe plenamente a vitória da Ressurreição e aponta para a esperança que nos está prometida.
Assim, tudo está profundamente ligado: Cristo ressuscita e inaugura a vida gloriosa; nós somos chamados a participar dessa mesma vida; e a fé na Ressurreição sustenta o nosso caminho. Não é apenas uma verdade para acreditar, mas uma vida nova que começa já agora e se cumprirá plenamente na eternidade.
segunda-feira, 23 de março de 2026
quinta-feira, 19 de março de 2026
Meu pai - "há quem parta, ficando; há quem fique partindo..."
Meu pai partiu, aos 95 anos, para a Casa do Pai. No domingo, dia 15 de março, parecia muito bem. Na quarta-feira de manhã, partiu. É a vida, que traz sempre consigo a fragilidade.
Partiu no pleno uso das suas capacidades. Aos médicos, no hospital, contou várias vezes, com pormenor, todos os sintomas que tinha experimentado nas últimas 24 horas.
Sabia de cor e salteado os dias em que os seis filhos, genros e noras, e os nove netos faziam anos. Sem computador, sem agenda. De memória.
Não tinha vícios. Não bebia — infelizmente para ele, nem água. Não fumava, não tinha desmandos morais. Vivia para a família.
Em família, enquanto os filhos eram novos, e conforme as circunstâncias daquele tempo, era algo rigoroso — o que não significa violência, nada disso. Com os netos, foi sempre um “avô babado”, louco por eles, preocupado, um bom conselheiro. Claro que todos os netos gostavam muito dele. Um deles, em trabalho na Suíça, fez tudo para chegar junto dos restos mortais do avô antes da Missa de Corpo Presente.
Nunca foi egocêntrico, mas “filhocêntrico”. Pensava nos filhos. Quando estes khe queriam fazer uma festinha de anos, por exemplo, encontrava sempre motivos para a evitar.
Sinal curioso: este ano aceitou comemorar os seus 95 anos, e com alegria. No dia 3 de janeiro, véspera do seu aniversário, alguns netos fizeram-lhe uma surpresa: levaram-no ao Santuário de Nossa Senhora da Lapa, sem que ele minimamente contasse. Exultou com a experiência. Nos dias seguintes, os familiares que puderam almoçaram com ele.
No sábado de Carnaval, já com quase toda a família, fizemos a celebração aniversária completa: Missa de Ação de Graças na igreja onde fez todo o seu percurso cristão e almoço a seu gosto.
Era um homem profundamente crente. Uma fé simples, profunda, comprometida com a vida. Deus era tudo para ele. Nos últimos anos, em que já lhe custava imenso andar, sempre que o visitava à tarde, encontrava-o sentado a rezar o seu terço. Nesses encontros, gostava de fazer análises críticas às leituras que fazia.
Quando o visitava, normalmente jantava com ele e com a família do meu irmão, que vivia perto dele. No fim, em família, rezávamos sempre o terço e partilhávamos as intenções de oração. Encantava-me a sua abertura e a forma como confiava a Deus os problemas reais deste tempo. Não havia ali nada de “beatice a cheirar a mofo”.
Obrigado, Deus, pelo meu pai!
Obrigado, pai, por tudo e por tanto!
Tínhamos, junto do Coração de Deus, a interceder por nós e pelo mundo, a mãe. A partir de 18 de março, temos pai e mãe!
Obrigado, meus amores! Vós partistes, mas ficastes gravados, a letras de ouro, no coração de filhos e netos.
Colocai-nos bem pertinho do Coração de Deus!
Descansai os dois em paz, meus heróis, nos braços de Deus!
quinta-feira, 12 de março de 2026
Quando o silêncio de um padre se torna demasiado pesado
Este ano já tive notícia de cinco.
Cinco sacerdotes que morreram por suicídio.

