quarta-feira, 4 de março de 2015

Aquela jovem mãe tem saudades de Deus...

Vinha acompanhada da filha mais nova.
- Senhor padre, tem um bocadinho para me atender?
-  Com certeza. Faça o favor...
- Olhe, não venho tratar de casamentos nem de batizados. Também não preciso de nenhum 'papel' da paróquia. Queria só falar consigo.
- Esteja à-vontade.
- Sabe, eu não sou de cá e vivo aqui há pouco tempo. Ao fim-de-semana, com os meus três filhos e o meu marido, visito a minha família ou a dele.
Fui educada numa família cristã e tenho saudades do tempo em que com meus pais e irmãos íamos sempre à Missa à Sé de Lamego. Garanto-lhe que cresci numa família feliz onde Deus era a peça-chave.
Depois, para continuar os estudos, saí de casa, fui para longe e longe consegui emprego, namorei e casei. Vieram os filhos que são a minha alegria.
Levada pelo ambiente hoje reinante, pelo comodismo e pelos amigos, fui-me afastando de Deus que continuou sempre uma saudade no mais fundo de mim.
Influenciada por uma amiga do meu namorado, ainda fizemos o curso de preparação para o matrimónio. Até gostamos, mas foi sol de pouca dura. Rapidamente voltámos à situação anterior e fomos chutando Deus para canto.
Os filhos cresceram e ambos quisemos que eles tivessem formação cristã para não se sentirem menos do que os outros. Mas aqui surgiram problemas porque nem eu nem o meu parido estávamos minimamente disponíveis para as exigências da catequese: reuniões, conversas com o catequista, acompanhamento da catequese, presença na Eucaristia... Mas com uma no cravo outra na ferradura, os dois mais velhos lá fizeram "as comunhões" e o mais velhinho fez mesmo o Crisma.
Por uma oportunidade feliz e hoje rara, tanto eu como o meu marido conseguimos emprego por estas bandas que são as minhas - ele não é daqui, mas gosta muito desta zona.
Por uma questão económica, acabámos por comprar casa na 'sua' paroquia, emboras os miúdos estudem em Lamego em cujas redondezas temos trabalho. Como já lhe disse, os fins-de-semana são passados fora daqui. A nossa casa não passa de um dormitório.
O meu problema tem a ver com esta minha filha e o rapaz do meio que ainda não fez o Crisma. Esta miúda anda no 2º ano e nunca frequentou a catequese. E isto preocupa-me.
Sabe? Não é só para eles terem as 'comunhões" e o Crisma. Queria que crescessem como cristãos, que se fossem tornando adultos na fé, que se comprometessem com a comunidade. Que hei-de fazer?
Já sei que o exemplo vem da família. E, nessa linha, tenho tido longas conversas com o meu marido. Temos que voltar a colocar Deus no centro das nossas vidas, pois ele também foi educado cristãmente e noto nele igualmente saudades de Deus. Surgiu mesmo um vago compromisso de voltarmos à Igreja. É interessante que até o ambiente de casa, a partir daí, se tornou mais caloroso!
Há tempos, num desses domingos de passeio domingueiro, passámos por uma terra e ouvimos o sino. Disse ao meu marido que talvez fosse a oportunidade de concretizarmos o nosso compromisso. Ele anuiu, embora sem grande convicção. Os filhos, mesmo sem grande entusiasmo, acompanharam-nos. Pior a emenda do que o soneto. O padre estava maldisposto e foi agressivo no sermão. Pelo menos, nós assim o achámos. Pareceu-me que naquele momento desabou tudo e voltávamos à estaca zero.
Só que o problema subsiste. E a minha filha? E o meu filho do meio? E a saudade de Deus?
Já voltei a conversar umas vezes com o meu marido sobre o sucedido naquele domingo de passeio. E temo-nos perguntado: afinal nós procurámos Deus ou o padre? Fomos à Missa por causa de Deus ou do padre? Porventura sabemos as razões que terão levado aquele sacerdote a parecer-nos menos simpático naquele dia? Que comunidade era aquela?
Não, padre, eu aprendi com o meu filho mais velho. Por isso, não quero repetir os mesmos erros. Ele nunca mais voltou à Igreja depois do Crisma. E que autoridade tenho eu ou o meu marido para o alertar? Nenhuma. Se nós não vamos...
Dava-me mais jeito que os meus filhos frequentassem a catequese em Lamego, uma vez que lá estudam e têm os seus amigos. Por outro lado, é para os arredores dessa cidade que nós vamos a maior parte das vezes ao fim-de-semana. Que acha, uma vez que moramos aqui? Se concordar, em Setembro vou matriculá-los em Lamego...
Ah! Está assente entre mim e o meu marido. Se lá houver Missa de crianças, vamos todos; se não houver, iremos igualmente todos a outra que mais nos dê jeito.
- Independentemente do padre que celebre - brinquei.
- Não tenha dúvidas. Vamos por causa d'Aquele Deus de quem temos saudades.

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