Às vezes, confesso, sinto-me como um conservador de um museu que ninguém visita para ver a arte, mas apenas para usar a casa de banho ou tirar uma “selfie” contra a luz. Ainda vivo na ilusão de que a missão é um diálogo, quando, na verdade, parece mais um solilóquio num teatro vazio, onde as cadeiras estão ocupadas, é certo, mas por manequins de gesso. É um exercício de masoquismo intelectual e espiritual: passar horas a fio a escavar o texto sagrado, a burilar a homilia, a tentar encontrar aquela ponte que ligue a Eternidade ao quotidiano cinzento desta gente, para depois ser confrontado com o vazio. No final da Missa, o “feedback” que recebo é um silêncio ensurdecedor. Ninguém diz "aquela palavra ajudou-me" ou "aquela reflexão fez-me pensar". O silêncio é a norma, como se a Palavra de Deus fosse um som de fundo descartável.
Entrementes, o silêncio só é quebrado para a reclamação. Sim, para isso o povo tem uma eloquência admirável! Se a homilia durou mais cinco minutos do que o esperado, se o coro desafinou, se a igreja estava fria, se chamei a atenção para um telemóvel que insiste em tocar ou se eu ousei recordar um dever cristão que beliscou o ego de alguém, aí o “feedback” chega rápido, voraz e implacável. Somos ignorados no que é essencial e fuzilados no que é acessório.
Olho do ambão e vejo o desfile das ausências: os que estão lá, mas não "estão"; os que conferem o relógio com uma impaciência mal disfarçada, como se a Palavra de Deus fosse um anúncio publicitário que não se pode saltar no YouTube. É o triunfo da "presença por obrigação", onde o corpo ocupa um lugar no banco, mas a mente já está a marinar a carne para o churrasco ou a discutir o penálti da noite anterior. Por vezes, penso mesmo que deveríamos usar a expressão “corpo presente” mais vezes, para além dos funerais.
E o Pão da Vida? Tornou-se o banquete dos indiferentes. É fascinante (e profundamente doloroso) ver a fila da comunhão. Transformou-se num automatismo social, um desfile de moda espiritual onde o conceito de "estado de graça" parece uma peça de museu, algo tão anacrónico como o latim. Comungam por hábito, por pressão de grupo, para serem vistos ou talvez para não parecerem mal perante o vizinho, ignorando alegremente que o pecado não é uma sugestão de comportamento, mas uma rutura real (sacrilégio). Mas quem sou eu para falar em ofensa a Deus? Hoje em dia, Deus foi domesticado; é um "avô porreiro" que, na cabeça desta gente, não se chateia com nada, nem mesmo com o desprezo sistemático por aquilo que Ele próprio instituiu.
O que dizer, então, da gestão dos sacramentos de "ocasião"? Batismos e casamentos tornaram-se eventos de “catering” com uma breve introdução religiosa obrigatória. Quando tento aplicar as orientações da Igreja (aquelas que não inventei, mas que jurei defender) sou tratado como um burocrata ranzinza ou um ditador de paróquia. "Ó senhor padre, não complique, a gente só quer a cerimónia!", dizem os olhos deles. A insistência em práticas pagãs, o folclore vazio e a afronta direta à dignidade do altar são o pão nosso de cada dia. E a audácia é tal que, se o pároco ousa pedir o mínimo de dignidade ou verdade, o infrator veste imediatamente a capa de vítima. O "clero é autoritário", dizem, enquanto pisam séculos de tradição com o salto agulha da vaidade.
Mas o golpe de misericórdia vem da "educação" cristã das novas gerações. É de uma beleza trágica ver pais que se dizem católicos a tornarem-se cúmplices do analfabetismo espiritual dos filhos. A catequese é a primeira coisa a cair quando há um treino de futebol, uma festa de anos ou uma simples ponta de preguiça. E o pior: os pais não só permitem, como justificam. Mentem-me na cara, inventam doenças, viagens e compromissos inadiáveis, ensinando aos filhos a lição mais valiosa de todas: "A Igreja é secundária; o que importa é o teu prazer imediato". Mentir para socorrer as nossas razões é virtude! Defendem os filhos com unhas e dentes contra qualquer exigência de compromisso, criando uma geração de cristãos "flutuantes", que não pertencem a nada, não creem em nada, mas que quererão, daqui a uns anos, um casamento de luxo "com tudo a que têm direito".
Sinceramente, pergunto-me se não estarei a ser o único tonto a levar isto a sério. Então, a pergunta impõe-se, fria e lógica: porquê continuar a dar pérolas a quem prefere a lavagem? Não seria muito mais sensato "profissionalizar" o meu desespero? Tornar-me um mero prestador de serviços rituais. Queres um batismo? Aqui está a fatura, paga o emolumento e eu faço o teatro, sem perguntas, sem catequese, sem alma. Queres casar? Escolhe o pacote A, B ou C, paga a taxa de urgência e não me fales de fé. Eu passaria a ser um funcionário público do sagrado, com horário de expediente rigoroso e o coração devidamente blindado com uma camada espessa de cinismo. Vivia a minha vida, dedicava-me aos meus livros e músicas, às minhas viagens, aos meus silêncios, e tratava esta massa amorfa com o mesmo desprezo refinado com que eles tratam o Evangelho.
Seria, finalmente, um homem "moderno": focado no lucro, na agenda e no bem-estar individual. Deixaria de sofrer pela salvação de quem não se quer salvar. Deixaria de me indignar com a mentira de quem faz da mentira o seu modo de vida. Mas o problema é que, no fundo desta amargura, resta aquela voz incómoda que me sussurra que o Pastor não abandona as ovelhas, mesmo quando elas o tentam morder. É uma condenação, eu sei. A condenação de continuar a amar quem não sabe o que perde, de continuar a preparar a mesa para convidados que nunca vêm, e de, no fim do dia, fechar a porta da igreja com a mesma esperança teimosa e absurda de quem acredita que, amanhã, talvez um único coração se deixe tocar. Mas que a vontade de mandar as chaves para dentro do poço é grande... disso não tenham dúvidas.
(P. António Magalhães Sousa, Sopro e Vida, Facebook)