Chegou-me já dias um longuíssimo email. O autor dizia que estava reformado depois de longos anos em que trabalhara sucessivamente numa instituição de solidariedade social, numa Câmara Municipal e numa empresa privada, todas numa das maiores cidades deste país.
Na mensagem que recebi, o autor faz uma análise e uma reflexão sobre o modo como se sentiu tratado pelas três entidades, como pessoa e como trabalhador.
Vou sintetizar.
1. Foi na empresa privada que me senti mais respeitado como pessoa. Ali nunca me apercebi de "gorilas", espiões, "pessoas de mão" do chefe. Era reconhecido o mérito de cada colaborador e havia um clima sadio, sem trincas nem intrigas. A gestão sempre cultivou com sucesso a máxima: "elogios públicos, repreensões privadas".
Estava implantada a cultura do mérito e do respeito pela pessoa do colaborador. Ordenados legais, sempre à horinha. Posso afirmar que os direitos dos trabalhadores eram espeitados e que éramos convidados à participação. O nosso ponto de vista, mesmo quando não aceite, era escutado.
2. Como trabalhador da Câmara, procurei dar o meu melhor, sentindo-me um colaborador em favor do bem comum. Nada tenho que dizer quanto à legalidade. Não apreciei algum clima de intrigas mormente nos momentos eleitorais. Detestei aquele espírito de subserviência ao chefe, fosse qual fosse o chefe, desde que isso servisse de rampa de lançamento para a progressão na carreira ou para a projeção pessoal. E alguns dos meus colegas cultivavam tal espírito até ao ridículo.
3. Numa instituição de solidariedade social, talvez a maior de uma das maiores cidades do país, passei os primeiros anos da minha vida laboral. Se ali aprendi muito, porque estava a começar, também deixei o melhor do meu entusiasmo jovem.
Não guardo as melhores impressões desse tempo. Ali havia o culto do chefe que se julgava o rei e senhor de tudo. Tudo girava à volta dele que punha e dispunha dos colaboradores como jogador das peças de xadrez.
Os ordenados eram baixíssimos e os tempos do trabalhador dependiam dos caprichos do chefe, sempre intempestivo e ameaçador para com quem não se sujeitasse aos seus caprichos. As nossas opiniões não eram tidas nem achadas e existia um certo espírito pidesco, espicaçado e mantido pelo chefe para quem a instituição era ele.
O folclore estava nas veias do chefe. Tudo o que fosse evento social em que ele ressaltasse como o centro e a personagem principal, era realizado, independentemente dos custos e dos sacrifícios pedidos aos colaboradores. Embora fisicamente fosse baixote, tinha um ego de gigante.
O chefe era egocêntrico, mas não era parvo. Por isso, aproveitava as ocasiões públicas para rasgados elogios aos colaboradores, transmitindo assim para fora a ideia de que na instituição os trabalhadores eram muito respeitados e tidos em conta, o que mais nos magoava.
Nesses tempos, muito longe da crise atual, dei muitas vezes a pensar comigo mesmo, pois, dado o clima pidesco, não me atrevia a partilhar com colegas: "Se em vez do despesismo do chefe, sempre em prol do seu exibicionismo pessoal, houvesse mais sobriedade nos gastos, talvez os trabalhadores pudessem ganhar um pouco mais, sentindo respeitados os seus tempos de trabalho, e a solidariedade pudesse ser mais abrangente, desprendida e otimizada."